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Contos para Dormir
Ilustração do conto Tito e Capi: a Briga com a Bia

Tito e Capi: a Briga com a Bia

Tito brigou com a irmã por causa de um desenho rasgado e foi dormir bravo. Mas a Capi sabe que raiva não cabe direito no travesseiro.

Daniel Otto ·

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Teve briga hoje. E a raiva do Tito não quer ir dormir

Tito estava deitado com os braços cruzados e a cara virada para a parede.

Bravo. Muito bravo.

No começo da tarde, ele tinha feito o desenho mais bonito da vida dele: um foguete laranja, com fogo saindo atrás e três estrelas em volta. E aí a Bia, a irmã de oito anos, passou correndo pela mesa, esbarrou no copo de suco, e o suco caiu bem em cima do foguete. Quando ela foi pegar o papel, ele rasgou no meio.

Tito tinha gritado. A Bia tinha gritado de volta. A mãe tinha mandado os dois para o quarto.

E agora ele não conseguia dormir, porque a raiva ainda estava ali, quente, do tamanho de um elefante.

— Nossa — disse uma voz grossa e devagarinha do lado do travesseiro. — Que bico enorme.

A Capi estava sentada, com as patas cruzadas igualzinho às dele.

— Não estou com bico — disse Tito, com bico.

— Ah, desculpa — disse a Capi. — Deve ser outro menino.

Tito quase riu, mas segurou.

Tito deitado de braços cruzados e cara emburrada, virado para a parede, enquanto a capivara de pelúcia imita a pose dele ao lado do travesseiro

— A Bia estragou meu desenho — disse ele. — De propósito.

— Hum — fez a Capi. — Foi de propósito mesmo?

Tito pensou. Lembrou da Bia correndo para pegar o telefone que tocava. Lembrou da cara dela quando o suco caiu.

— Acho que... não — admitiu. — Ela esbarrou.

— E depois?

— Depois ela tentou salvar e rasgou.

— Então ela tentou salvar — disse a Capi. — Isso é diferente de estragar.

Tito ficou quieto. A raiva diminuiu um pouquinho, do tamanho de um cavalo.

— Mas eu ainda estou bravo.

— Pode estar — disse a Capi. — Raiva não vai embora só porque a gente manda. Ela vai embora devagar, igual água escorrendo da pia. Sem pressa.

— E o que eu faço com ela até lá?

— Primeiro, dá um nome para ela — disse a Capi. — Fala bem alto, aqui só para mim: "Eu fiquei bravo porque gostava muito do meu desenho".

Tito falou baixinho:

— Eu fiquei bravo porque gostava muito do meu desenho.

— Viu? Agora ela já tem nome. Raiva com nome fica menor.

Era verdade. A raiva já estava do tamanho de um cachorro. Um cachorro meio cansado.

— Capi, será que a Bia também está brava?

— Escuta — disse a Capi.

Do outro lado da parede, Tito ouviu um barulhinho. Fungado. Alguém tinha chorado no quarto ao lado.

— Ela está triste — sussurrou Tito. — Igual a mim. Só que do outro lado da parede.

— Às vezes quem estraga uma coisa sem querer fica mais triste que o dono da coisa — disse a Capi.

Tito ficou olhando para o teto. Depois pegou a lanterna da mesinha, um lápis e um papel, e desenhou, bem rápido, um foguete pequeno. Embaixo escreveu, do jeito que sabia: "BIA".

Saiu da cama na ponta dos pés, passou o papel por baixo da porta do quarto da irmã e voltou correndo.

Do outro lado, a fungação parou. E, um tempinho depois, três batidinhas na parede.

Toc. Toc. Toc.

— Isso quer dizer o quê? — perguntou a Capi.

— Quer dizer "boa noite" — disse Tito, sorrindo. — A gente inventou quando eu era pequeno.

Tito deitado de olhos fechados, sorrindo, abraçado à capivara de pelúcia, com a mão encostada na parede do quarto ao lado

Ele bateu três vezes de volta. Toc. Toc. Toc.

A raiva agora era do tamanho de uma formiga. Uma formiga dormindo, bem encolhidinha, que nem lembrava mais por que tinha ficado brava.

— Agora — disse a Capi, se aninhando do lado dele —, as três respiradas de capivara.

Tito puxou o ar pelo nariz, como quem sente cheiro de bolo. Soltou pela boca, devagarinho, como quem esfria uma sopa.

— Um.

Puxou de novo. Soltou mais devagar.

— Dois.

Do outro lado da parede, a Bia também estava quietinha.

— Três — sussurrou a Capi.

Os olhos do Tito fecharam. A mão ficou encostada na parede, perto da irmã.

Boa noite, Tito. Boa noite, Bia. Boa noite, Capi.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Você já ficou bravo com alguém de casa? O que ajudou a raiva passar?
  2. Por que você acha que a Bia rasgou o desenho sem querer?
  3. O que você colocaria num bilhete para fazer as pazes com alguém?

Sobre esta história

Terceiro episódio da série As Noites de Tito e Capi, história original do Contos para Dormir. Brigas entre irmãos costumam ir para a cama junto com a criança. A história não manda o Tito "esquecer": deixa a raiva ser dita, mostra o outro lado e termina com um gesto pequeno de reconciliação — e, como toda a série, com as três respiradas de capivara.

Perguntas frequentes sobre Tito e Capi: a Briga com a Bia

Quanto tempo leva para ler?

Cerca de 5 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do site.

Para que idade é indicada?

Dos 3 aos 6 anos, e especialmente para famílias com mais de um filho, nos dias em que a convivência entre irmãos ficou difícil.

A história ensina a criança a pedir desculpa?

Mostra um caminho, sem sermão: primeiro reconhecer a raiva, depois entender o que aconteceu do outro lado, e só então pensar num gesto de paz. Vale conversar sobre isso depois da leitura usando as perguntas acima.

Que tal a história de amanhã?