
Tito e Capi: a Briga com a Bia
Tito brigou com a irmã por causa de um desenho rasgado e foi dormir bravo. Mas a Capi sabe que raiva não cabe direito no travesseiro.
Teve briga hoje. E a raiva do Tito não quer ir dormir
Tito estava deitado com os braços cruzados e a cara virada para a parede.
Bravo. Muito bravo.
No começo da tarde, ele tinha feito o desenho mais bonito da vida dele: um foguete laranja, com fogo saindo atrás e três estrelas em volta. E aí a Bia, a irmã de oito anos, passou correndo pela mesa, esbarrou no copo de suco, e o suco caiu bem em cima do foguete. Quando ela foi pegar o papel, ele rasgou no meio.
Tito tinha gritado. A Bia tinha gritado de volta. A mãe tinha mandado os dois para o quarto.
E agora ele não conseguia dormir, porque a raiva ainda estava ali, quente, do tamanho de um elefante.
— Nossa — disse uma voz grossa e devagarinha do lado do travesseiro. — Que bico enorme.
A Capi estava sentada, com as patas cruzadas igualzinho às dele.
— Não estou com bico — disse Tito, com bico.
— Ah, desculpa — disse a Capi. — Deve ser outro menino.
Tito quase riu, mas segurou.

— A Bia estragou meu desenho — disse ele. — De propósito.
— Hum — fez a Capi. — Foi de propósito mesmo?
Tito pensou. Lembrou da Bia correndo para pegar o telefone que tocava. Lembrou da cara dela quando o suco caiu.
— Acho que... não — admitiu. — Ela esbarrou.
— E depois?
— Depois ela tentou salvar e rasgou.
— Então ela tentou salvar — disse a Capi. — Isso é diferente de estragar.
Tito ficou quieto. A raiva diminuiu um pouquinho, do tamanho de um cavalo.
— Mas eu ainda estou bravo.
— Pode estar — disse a Capi. — Raiva não vai embora só porque a gente manda. Ela vai embora devagar, igual água escorrendo da pia. Sem pressa.
— E o que eu faço com ela até lá?
— Primeiro, dá um nome para ela — disse a Capi. — Fala bem alto, aqui só para mim: "Eu fiquei bravo porque gostava muito do meu desenho".
Tito falou baixinho:
— Eu fiquei bravo porque gostava muito do meu desenho.
— Viu? Agora ela já tem nome. Raiva com nome fica menor.
Era verdade. A raiva já estava do tamanho de um cachorro. Um cachorro meio cansado.
— Capi, será que a Bia também está brava?
— Escuta — disse a Capi.
Do outro lado da parede, Tito ouviu um barulhinho. Fungado. Alguém tinha chorado no quarto ao lado.
— Ela está triste — sussurrou Tito. — Igual a mim. Só que do outro lado da parede.
— Às vezes quem estraga uma coisa sem querer fica mais triste que o dono da coisa — disse a Capi.
Tito ficou olhando para o teto. Depois pegou a lanterna da mesinha, um lápis e um papel, e desenhou, bem rápido, um foguete pequeno. Embaixo escreveu, do jeito que sabia: "BIA".
Saiu da cama na ponta dos pés, passou o papel por baixo da porta do quarto da irmã e voltou correndo.
Do outro lado, a fungação parou. E, um tempinho depois, três batidinhas na parede.
Toc. Toc. Toc.
— Isso quer dizer o quê? — perguntou a Capi.
— Quer dizer "boa noite" — disse Tito, sorrindo. — A gente inventou quando eu era pequeno.

Ele bateu três vezes de volta. Toc. Toc. Toc.
A raiva agora era do tamanho de uma formiga. Uma formiga dormindo, bem encolhidinha, que nem lembrava mais por que tinha ficado brava.
— Agora — disse a Capi, se aninhando do lado dele —, as três respiradas de capivara.
Tito puxou o ar pelo nariz, como quem sente cheiro de bolo. Soltou pela boca, devagarinho, como quem esfria uma sopa.
— Um.
Puxou de novo. Soltou mais devagar.
— Dois.
Do outro lado da parede, a Bia também estava quietinha.
— Três — sussurrou a Capi.
Os olhos do Tito fecharam. A mão ficou encostada na parede, perto da irmã.
Boa noite, Tito. Boa noite, Bia. Boa noite, Capi.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Você já ficou bravo com alguém de casa? O que ajudou a raiva passar?
- Por que você acha que a Bia rasgou o desenho sem querer?
- O que você colocaria num bilhete para fazer as pazes com alguém?
Sobre esta história
Terceiro episódio da série As Noites de Tito e Capi, história original do Contos para Dormir. Brigas entre irmãos costumam ir para a cama junto com a criança. A história não manda o Tito "esquecer": deixa a raiva ser dita, mostra o outro lado e termina com um gesto pequeno de reconciliação — e, como toda a série, com as três respiradas de capivara.
Perguntas frequentes sobre Tito e Capi: a Briga com a Bia
Quanto tempo leva para ler?
Cerca de 5 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do site.
Para que idade é indicada?
Dos 3 aos 6 anos, e especialmente para famílias com mais de um filho, nos dias em que a convivência entre irmãos ficou difícil.
A história ensina a criança a pedir desculpa?
Mostra um caminho, sem sermão: primeiro reconhecer a raiva, depois entender o que aconteceu do outro lado, e só então pensar num gesto de paz. Vale conversar sobre isso depois da leitura usando as perguntas acima.


