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Contos para Dormir
Ilustração do conto Tito e Capi: o Dente Mole

Tito e Capi: o Dente Mole

O dente da frente de Tito está mole, e ele tem certeza de que vai cair no meio da noite. A Capi tem uma ideia muito calma para isso.

Daniel Otto ·

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O dente da frente está mole. E o Tito tem certeza de que ele vai cair hoje

Tito estava deitado com a boca aberta, empurrando o dente da frente com a língua.

Para frente. Para trás. Para frente.

O dente balançava feito uma porteira velha.

— Mãe disse que ele vai cair logo — falou Tito para o teto. — E se cair hoje? E se cair quando eu estiver dormindo? E se eu engolir?

Do canto da cama veio um bocejo comprido e grosso.

— Você está mexendo nesse dente faz tanto tempo — disse a Capi, abrindo um olho de pelúcia — que até eu fiquei com o dente mole.

— Capivara tem dente mole?

— Capivara tem dente que nunca para de crescer — disse a Capi, orgulhosa. — Por isso a gente roe tanto capim.

Tito sentou na cama.

— Capi, eu acho que vou puxar ele agora. Aí resolve.

— Hum — fez a Capi, coçando a orelha. — E ele já quer sair?

Tito empurrou com a língua. O dente balançou, mas ficou firme lá no lugar.

— Ainda não — admitiu.

— Então deixa — disse a Capi. — Dente sabe a hora dele. Sem pressa.

Tito sentado na cama, de boca aberta, tocando o dente da frente com o dedo, enquanto a capivara de pelúcia observa de perto com cara curiosa

— Mas e se ele cair dormindo? E se eu engolir?

A Capi pensou um pouco, mastigando o nada, como as capivaras fazem.

— Sabe por que o dente fica mole? — perguntou ela.

— Por quê?

— Porque tem um dente novo vindo aí embaixo, empurrando devagarinho. É como uma planta nascendo e empurrando a terra. O dente velho sai para dar lugar.

Tito arregalou os olhos.

— Tem um dente novo dentro da minha boca?

— Tem. Maior e mais forte. Esse dente mole está só segurando o lugar até o outro chegar.

— Então ele não está quebrando?

— Está crescendo — disse a Capi. — Que é bem diferente.

Tito encostou a língua no dente com mais carinho, como quem faz um agradinho.

— Mas aí eu vou ficar banguela?

— Por um tempinho — disse a Capi. — Um buraquinho na frente, bem no meio do sorriso. A Bia ficou, quando tinha a sua idade. Lembra?

Tito lembrou. A Bia assobiava pelo buraquinho e todo mundo ria.

— Eu vou poder assobiar pelo buraco?

— Vai poder tentar — disse a Capi. — Que já é metade da graça.

— E se cair de noite mesmo assim?

— Aí ele cai no travesseiro, ou na sua mão, ou fica pendurado esperando você acordar. Dente mole quase nunca escapa sozinho no escuro. E, se escapar, amanhã a gente procura juntos, com a lanterna.

— E se eu engolir?

— Aí ele vai fazer uma viagem, e você vai ganhar um dente novo do mesmo jeito — disse a Capi, muito tranquila. — O dente novo não liga para onde o velho foi parar.

Tito riu. Imaginou o dente fazendo uma viagem, de mochila e tudo.

— Capi, quando ele cair, eu posso guardar numa caixinha?

— Pode. Numa caixinha bem bonita. E, quando você for grande, vai abrir a caixinha e lembrar desta noite.

Tito deitou de novo. A língua parou de empurrar o dente.

— Agora — disse a Capi, se ajeitando do lado dele —, o dente fica onde está. Ele tem o trabalho dele, e a gente tem o nosso.

— Qual é o nosso?

— As três respiradas de capivara.

Tito dormindo tranquilo com a boca fechada e um sorriso, abraçado à capivara de pelúcia, no quarto escuro iluminado só pela fresta da porta

Tito puxou o ar pelo nariz, bem comprido, como quem sente cheiro de bolo saindo do forno. Soltou pela boca, devagarinho, como quem esfria uma sopa.

— Um — disse a Capi.

Puxou de novo. Soltou de novo, mais devagar.

— Dois.

Lá dentro da boca, sem fazer barulho nenhum, o dente novo continuava subindo, um tiquinho por noite.

— Três — sussurrou a Capi.

Os olhos de Tito fecharam. A boca fechou também, com o dente mole bem quietinho no lugar dele, esperando a hora.

— Boa noite, dente — murmurou Tito.

— Boa noite, Tito — disse a Capi. — Sem pressa.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Você já teve um dente mole? Como foi quando ele caiu?
  2. Por que você acha que a Capi não deixou o Tito puxar o dente?
  3. Se você fosse guardar um dente numa caixinha, como seria a caixinha?

Sobre esta história

Segundo episódio da série As Noites de Tito e Capi, história original do Contos para Dormir. O medo de o dente cair dormindo é muito comum entre os 5 e os 7 anos, quando os dentes de leite começam a amolecer. A história trata a troca de dentes como sinal de crescimento e termina, como toda a série, com as três respiradas de capivara.

Perguntas frequentes sobre Tito e Capi: o Dente Mole

Quanto tempo leva para ler?

Cerca de 5 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do site.

Para que idade é indicada?

Dos 3 aos 6 anos. Funciona bem na fase em que o primeiro dente de leite começa a amolecer, ou antes dela, para a criança já saber o que esperar.

Preciso ter lido o primeiro episódio?

Não. Cada história da série se entende sozinha. Quem leu o primeiro só reconhece a Capi e o ritual das respiradas com mais facilidade.

Que tal a história de amanhã?