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Contos para Dormir
Ilustração do conto A Princesa que Aprendeu a Tecer uma Rede

A Princesa que Aprendeu a Tecer uma Rede

Numa noite quente demais, a princesa Cecília descobre o segredo de Vó Zefa, a tecelã do palácio — e resolve aprender, nó por nó, a fazer um presente para o irmão caçula.

Daniel Otto ·

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No reino à beira do rio, a princesa tinha a maior cama do palácio — e não conseguia dormir nela

Havia um reino pequeno, à beira de um rio largo e marrom, onde as mangueiras davam tanta manga que ninguém dava conta de comer. De dia, as cigarras cantavam tão alto que parecia que o sol fazia barulho. De noite, o calor ficava parado no ar, pesado e morno, como uma colcha que ninguém pediu.

Nesse reino morava a princesa Cecília, que tinha sete anos, um joelho sempre ralado e o maior quarto do palácio.

No meio do quarto ficava a cama real. Era uma cama enorme, com quatro colunas de madeira escura, cortinas de veludo vermelho e doze travesseiros bordados com a coroa da família. Tinha sido da avó da avó da avó de Cecília, e todo mundo dizia que era a cama mais importante do reino.

O problema era que Cecília não conseguia dormir nela.

Ela se virava para a direita. Se virava para a esquerda. Tirava três travesseiros, depois mais três. Abria as cortinas de veludo, que eram quentes feito um casaco. Fechava de novo, porque entrava mosquito. E a cama era tão grande e tão parada que parecia um barco encalhado no meio do quarto.

— Está tudo quieto demais — reclamava ela para o teto. — E tudo quente demais. E tudo parado demais.

O teto, que era um teto muito educado, não respondia.

O barulhinho da varanda

Numa dessas noites em que o calor não deixava ninguém sossegar, Cecília ouviu um som que vinha lá de baixo, da varanda da cozinha.

Nhec... nhec... nhec...

Não era grilo. Não era sapo. Era um rangido macio, sempre igual, que ia e voltava.

Ela desceu a escada na ponta dos pés, com a camisola arrastando no chão, e espiou pela porta da cozinha.

Na varanda, presa entre duas colunas, havia uma rede. Uma rede branca, de algodão trançado, com franjas compridas que quase encostavam no piso. E dentro dela, balançando devagarinho, estava Vó Zefa.

Vó Zefa era a tecelã do palácio. Era ela quem fazia as toalhas da mesa do rei, as cortinas do salão, os panos de prato da cozinha e os cobertorzinhos de todos os bebês que nasciam no reino. Tinha as mãos cheias de dobrinhas e os olhos sempre meio fechados, como quem está sorrindo por dentro.

— Boa noite, princesa — disse ela, sem abrir os olhos. — Calor, né?

— Como a senhora sabia que era eu?

— Ninguém mais nesse palácio anda na ponta dos pés depois da meia-noite.

A princesa Cecília espiando, de camisola, Vó Zefa balançando numa rede branca na varanda da cozinha

Cecília chegou mais perto. A rede ia e vinha, e junto com ela vinha um ventinho que parecia fresco.

— Posso experimentar?

Vó Zefa abriu um olho só. Depois abriu o outro. E saiu da rede com cuidado, segurando a franja para ela não enroscar.

— Deita atravessada — ensinou. — Não reta. Atravessada, que é para a rede abraçar direito.

Cecília deitou meio torta, meio atravessada, e a rede se fechou em volta dela como uma concha. Vó Zefa deu um empurrãozinho com o pé.

Nhec... nhec...

A princesa sentiu o ar passando por baixo das costas. Sentiu o balanço indo e voltando. Ouviu, lá longe, o rio correndo.

Antes do terceiro nhec, estava dormindo.

O camareiro-mor fica muito espantado

De manhã, quem encontrou a princesa foi o camareiro-mor, Seu Anastácio, um homem comprido e sério que cuidava para que tudo no palácio acontecesse do jeito certo, na hora certa, desde sempre.

— Sua Alteza! — ele exclamou, tão alto que um sabiá fugiu da mangueira. — Dormindo numa rede! Na varanda da cozinha!

— Eu dormi a noite inteira — disse Cecília, esfregando os olhos. — Foi a melhor noite da minha vida.

— Princesas dormem em camas de dossel — respondeu Seu Anastácio, com a voz de quem lê um livro de regras. — Com doze travesseiros. Sempre foi assim.

— Mas a cama é quente, e grande, e parada.

— É uma cama real.

— E a rede é uma cama boa — disse Cecília.

Seu Anastácio abriu a boca, fechou a boca e foi embora ajeitando o colarinho, que é o que ele fazia quando não sabia o que responder.

Cecília ficou olhando para a rede. Então teve uma ideia.

— Vó Zefa — perguntou —, onde é que se compra uma rede dessas?

— Comprar? — riu a tecelã. — Essa aí eu fiz.

— A senhora faz rede?

— Faço rede, faço toalha, faço cortina. É tudo fio e paciência. Mais paciência do que fio, para falar a verdade.

— Então me ensina?

Vó Zefa olhou para a princesa de cima a baixo: o joelho ralado, a camisola amassada, o cabelo todo para um lado.

— Ensino — disse ela. — Mas rede não se faz num dia. Nem em dois.

Nó por nó

Nas tardes seguintes, depois da aula de caligrafia e antes do jantar, Cecília ia para o quartinho de Vó Zefa, no fundo do palácio, onde havia um tear de madeira, cestos de novelos e um cheiro bom de algodão e café.

A primeira coisa que aprendeu foi o nó. Um nó só, sempre o mesmo, repetido mil vezes.

— Passa por baixo, dá a volta, puxa firme — ensinava Vó Zefa. — Nem apertado demais, que o fio machuca. Nem frouxo demais, que o fio escapa.

Cecília passou por baixo, deu a volta e puxou. O nó ficou torto.

Tentou de novo. Ficou frouxo.

Tentou de novo. Ficou tão apertado que o fio arrebentou.

Cecília no quartinho de Vó Zefa, concentrada, com a língua de fora, tentando dar um nó no fio de algodão ao lado do tear

— Eu nunca vou conseguir — disse, jogando o fio no colo.

Vó Zefa não disse nada. Pegou uma toalha velha de um cesto e mostrou a ponta para a princesa. Lá no cantinho, escondido, havia um nó todo torto, todo embolado, que não combinava com o resto.

— Essa foi a primeira toalha que eu fiz — disse. — Eu tinha a sua idade. Esse nó feio aí levou uma semana.

— E a senhora não desmanchou?

— Desmanchei esse nó umas vinte vezes. Esse é o vigésimo primeiro. Guardei para lembrar que todo mundo começa torto.

Cecília pegou o fio de novo.

Nos primeiros dias, ela desmanchava mais do que fazia. Às vezes chegava ao fim da tarde com três nós prontos e dois desfeitos. Às vezes ficava com raiva e ia chutar manga no quintal. Mas no dia seguinte, depois da caligrafia, voltava para o quartinho.

Até que, numa tarde de chuva, deu um nó e ele ficou certinho. Deu outro, e ficou certinho também. E mais outro.

Quando o sino do jantar tocou, havia na mesa um pedaço de trama do tamanho de um palmo. Um palmo de rede, com os nós todos iguais.

— Olha, Vó Zefa! — Cecília levantou o pedaço contra a luz. — Olha!

— Tô olhando — disse a tecelã, e os olhos dela sorriam por dentro mais do que nunca.

Para quem é a rede

Foi mais ou menos nessa época que o príncipe Tomé começou a chorar de noite.

Tomé era o irmão caçula de Cecília. Tinha três anos, bochechas redondas e um dente novo nascendo que doía muito. Todas as noites ele chorava no berço, e o rei andava com ele no colo pelo corredor, e a rainha cantava, e ninguém no palácio conseguia dormir.

Uma noite, ouvindo o choro pela parede, Cecília sentou na cama real e pensou no nhec, nhec da varanda. Pensou no ventinho por baixo das costas. Pensou no palmo de rede guardado no quartinho de Vó Zefa.

No dia seguinte, chegou ao tear antes de todo mundo.

— Vó Zefa, a rede que eu estou fazendo não vai ser para mim.

— Não?

— Vai ser pequenininha. Do tamanho do Tomé.

Cecília e Vó Zefa lado a lado no tear, trabalhando juntas numa rede pequena, com novelos coloridos no chão

Vó Zefa não disse nada. Só foi até o cesto do canto e pegou um novelo que ela guardava para ocasiões especiais: um algodão bem macio, cor de manga madura.

— Para rede de presente — explicou —, fio de presente.

Cecília trabalhou todas as tardes. Aprendeu a fazer a franja, que é a parte mais bonita. Aprendeu a fazer o punho, que é a parte mais forte, onde a corda segura. Errou uma carreira inteira e teve que desmanchar tudo até o começo, e dessa vez não chutou manga nenhuma: respirou fundo e recomeçou.

Faltava pouco para a Festa das Crianças, o dia do ano em que, no reino à beira do rio, toda criança dava e ganhava um presente feito com as próprias mãos.

A Festa das Crianças

No dia da festa, o pátio do palácio se encheu de bandeirinhas, de bolo de milho e de crianças correndo com presentes embrulhados em papel de pão. Havia pipas, havia bonecas de pano, havia carrinhos de lata de sardinha.

Cecília entrou no pátio carregando um embrulho pequeno, amarrado com fio de algodão.

— Tomé — disse ela, ajoelhando na frente do irmão. — Isso aqui eu que fiz. Para você dormir.

Tomé rasgou o papel com as duas mãos. Dentro havia uma redinha cor de manga madura, com franjas macias e dois punhos fortes.

O rei olhou. A rainha olhou. Seu Anastácio olhou, e o colarinho dele ficou um pouco torto.

— Foi você que fez? — perguntou a rainha.

— Com a Vó Zefa — disse Cecília. — Mas os nós fui eu. Até os tortos.

Naquela noite, penduraram a redinha de Tomé na varanda, ao lado da rede grande de Vó Zefa. O rei colocou o príncipe lá dentro, atravessado, do jeito certo. Cecília deu o primeiro empurrãozinho.

Nhec... nhec...

Tomé soluçou uma vez. Soluçou mais uma. Depois ficou olhando a franja balançar, e o soluço foi ficando mais espaçado, mais espaçado, até sumir.

O príncipe Tomé dormindo numa redinha cor de manga na varanda, enquanto a princesa Cecília balança a rede com a mão

O palácio inteiro prendeu a respiração. E ouviu, pela primeira vez em muitas noites, o silêncio.

— Ora vejam só — sussurrou Seu Anastácio.

A noite das redes

Na semana seguinte, aconteceu uma coisa que nunca tinha acontecido no reino à beira do rio.

O rei pediu a Vó Zefa uma rede. A rainha pediu outra. E numa tarde muito quente, Cecília encontrou Seu Anastácio sentado na rede da varanda, com as pernas penduradas para fora, balançando devagarinho e fingindo que estava só testando a corda.

— É para inspecionar — disse ele, muito sério, quando viu a princesa.

Dez minutos depois, roncava.

Daquele dia em diante, nas noites de calor, a varanda do palácio virou o lugar mais disputado do reino. As redes ficavam penduradas lado a lado, entre as colunas, como uma fileira de barquinhos. A cama real continuou no quarto, com seus doze travesseiros, para as noites de chuva fria — que também existem no reino à beira do rio, embora sejam poucas.

A varanda do palácio à noite, com várias redes penduradas lado a lado entre as colunas e a lua sobre o rio ao fundo

E numa dessas noites quentes, Cecília deitou atravessada na rede que tinha acabado de fazer para ela mesma. Era uma rede comprida, um pouco torta de um lado, com um nó embolado bem no cantinho da franja. Ela tinha deixado aquele nó ali de propósito.

— Para lembrar que todo mundo começa torto — disse para Vó Zefa, que balançava na rede ao lado.

— Isso — respondeu a tecelã, de olhos fechados. — Agora descansa.

Vai e vem

O rio corria lá longe, devagar.

As cigarras já tinham ido dormir. Os sapos cantavam baixinho, um de cada vez. Um ventinho morno passava por baixo das redes, e as franjas balançavam junto.

Na redinha cor de manga, Tomé dormia com a boca aberta e uma mão pendurada para fora. Na rede grande, o rei ressonava. Seu Anastácio fazia um barulho de chaleira, bem baixinho.

Cecília fechou os olhos.

A rede ia.

E vinha.

Ia...

E vinha.

Cecília dormindo tranquila na rede feita por ela, sob a luz da lua, com a franja balançando devagar

Cada vez mais devagar, como quem vai parando de contar. Ela ainda pensou nos nós que ia aprender amanhã, no novelo cor de céu que tinha visto no cesto de Vó Zefa, num presente para a rainha no aniversário dela.

Mas pensou tudo isso bem baixinho, porque o sono já estava chegando, macio feito algodão.

Nhec...

Nhec...

Boa noite, princesa Cecília. Boa noite, reino à beira do rio.

Boa noite.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Cecília errou muitos nós antes de acertar. Tem alguma coisa que você está aprendendo agora e que ainda sai torta de vez em quando?
  2. Se você fosse fazer um presente com as próprias mãos para alguém da família, o que faria, e para quem?
  3. Qual é o jeito mais gostoso de dormir aqui em casa: na cama, no colo, no sofá, numa rede?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir. A rede de dormir é uma herança dos povos indígenas do Brasil, que já dormiam nelas muito antes da chegada dos europeus, e até hoje é o jeito de descansar de muitas famílias, sobretudo no Norte e no Nordeste. O conto usa esse balanço conhecido para desacelerar a leitura no final e deixa o tema do presente feito à mão para a época do Dia das Crianças.

Perguntas frequentes sobre A Princesa que Aprendeu a Tecer uma Rede

É um conto original?

Sim. Não é recontagem de nenhum conto de fadas tradicional: a princesa, a tecelã e o reino à beira do rio foram criados para o Contos para Dormir.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 8 anos. Os menores acompanham o balanço da rede e a relação com o irmão caçula; os maiores se reconhecem na parte em que Cecília erra, desmancha e tenta de novo.

Quanto tempo leva para ler?

Cerca de 15 minutos em voz alta. Para noites mais curtas, dá para parar quando Cecília termina o primeiro palmo de rede e continuar na noite seguinte.

Como aproveitar melhor a leitura?

Leia o último trecho balançando o ritmo da voz, como uma rede que vai parando. Se tiver uma rede em casa, a história fica ainda melhor lida nela.

Que tal a história de amanhã?