A Caixa de Enfeites da Vó Neide
No primeiro Natal do apartamento novo, a árvore grande não coube na sala e o Davi teve medo de que o Papai Noel não achasse a família. Foi a Vó Neide quem chegou de ônibus com uma lata velha cheia de jornal amassado.

O prédio novo ficava no fim de uma rua de ladeira, no terceiro andar, e ainda tinha cheiro de tinta fresca.
O Davi morava ali havia seis semanas. Estava aprendendo qual degrau da escada rangia, qual porta do corredor era a deles e por que a torneira da cozinha só abria se a gente puxasse para cima e depois para o lado. Na casa antiga, do outro lado da cidade, nada disso precisava ser aprendido. A casa antiga tinha um quintal com pé de acerola e um portão azul que o Davi abria sozinho desde os quatro anos.
— Aqui também vai ficar bom — dizia a mãe, toda vez que ele olhava para as caixas que ainda estavam fechadas num canto.
O Davi respondia que sim. Mas respondia olhando para o chão.
Na véspera do Natal, a mãe tirou da última caixa a árvore de plástico, a mesma de todos os anos, alta e de galhos largos. Montou no canto da sala. A árvore encostou no teto, empurrou a cortina e derrubou o vaso de samambaia.
— Hum — disse o pai.
— Hum — disse a mãe.
Tentaram pôr a árvore perto da janela, e ela tapou a janela. Tentaram atrás do sofá, e o sofá virou um mato. No fim, o pai desmontou tudo, galho por galho, guardou na caixa e disse que no dia seguinte dava um jeito.
O Davi assistia sentado no tapete, de pijama amarelo com estrelinhas azuis, abraçado nos próprios joelhos.

— E o Papai Noel? — perguntou ele, bem quietinho.
— O que tem ele, filho? — disse a mãe.
— Ele sabe que a gente mudou? Ele vai olhar na casa do portão azul. E lá não tem mais ninguém.
A mãe abriu a boca para responder, mas não deu tempo, porque a campainha tocou.
Era a Vó Neide.
Ela tinha vindo de ônibus, três horas de estrada, com uma mala de rodinhas numa mão e, na outra, uma lata de biscoito redonda e azul, de tampa amassada, amarrada com barbante. Usava óculos redondos, um cardigã cor de lilás apesar do calor e o cabelo grisalho preso num coque que já estava se soltando.
— Cheguei antes da ceia para dar uma mão — disse ela, e beijou o Davi na testa. — Mas primeiro me explica por que esse rosto está tão comprido.
O Davi não sabia por onde começar. Falou da árvore que não coube, depois do Papai Noel, depois do portão azul, tudo misturado, e a vó ouviu sem dizer nada, balançando a cabeça de vez em quando. Quando ele terminou, ela olhou em volta da sala pequena, olhou para a caixa onde a árvore tinha sido guardada, e sorriu.
— Árvore grande é uma boa árvore — disse. — Mas nunca foi a única. Vocês têm algum galho por aqui?
— Galho? — perguntou o pai.
— Galho. Desses que caem sozinhos de uma árvore de verdade.

Na calçada em frente ao prédio crescia uma sibipiruna, grande e frondosa, que o Davi via todos os dias da janela do quarto. Ele e o pai desceram os três lances de escada, atravessaram o portão do prédio e ficaram parados embaixo da copa, procurando no chão.
A tarde estava quente. O vento tinha mexido na árvore durante o dia, e entre as folhinhas miúdas caídas na calçada havia um galho do comprimento do braço do Davi, seco, torto e cheio de ramos finos.
— Esse? — perguntou o Davi.
— Esse — disse o pai. — Tem cara de quem estava esperando a gente.
Subiram com o galho devagar, o Davi na frente, carregando como quem carrega uma coisa que pode quebrar. Em casa, a mãe já tinha arranjado um jarro alto e enchido de pedrinhas do vaso da samambaia. O galho entrou no jarro, ficou de pé e, para surpresa de todo mundo, coube no canto da sala exatamente onde a árvore grande tinha derrubado a cortina.
Não parecia uma árvore de Natal. Parecia um galho dentro de um jarro.
— Agora — disse a vó — vem a parte boa.
Ela sentou no sofá, pôs a lata azul no colo, desfez o nó do barbante com os dedos e tirou a tampa. Do lado de dentro, a lata cheirava a papel velho, a guardado e a um leve perfume de cravo. Estava cheia de bolinhas de jornal amassado, cada uma do tamanho de um ovo.
O Davi se ajoelhou ao lado do sofá.
— Posso abrir?
— Pode. Mas uma de cada vez. Cada enfeite tem a sua história, e a história precisa ser contada antes de ele ir para o galho.

A primeira bolinha de jornal escondia uma estrela feita de papel-alumínio, meio torta, com uma ponta mais comprida que as outras.
— Essa é do seu pai — disse a vó. — Ele tinha sete anos. Recortou com uma tesoura sem ponta e brigou comigo porque eu disse que a estrela estava mais para um peixe. Já passou por trinta Natais e nunca perdeu uma ponta.
— Era uma estrela — disse o pai, da cozinha, sem tirar os olhos da panela.
— Era uma estrela — concordou a vó, piscando para o Davi. — Uma estrela com personalidade.
O Davi pendurou a estrela na ponta mais alta do galho. Ela girou um pouco e ficou parada.
A segunda bolinha era um sininho feito de tampa de lata, com um pedacinho de fio de lã vermelha. Quando o Davi o sacudiu, soou um tlim fraquinho, quase um segredo.
— Esse foi a sua mãe. Tinha dez anos e queria um sino de verdade, que a gente não tinha como comprar. Então ela pegou a tampa de uma lata de leite em pó, furou com um prego e enfeitou com lã.
— Ficou lindo — disse a mãe, e o Davi percebeu que ela estava com a voz um pouco molhada.
Veio depois o anjinho de crochê, com um dos olhos de linha mais alto que o outro, que a bisavó tinha feito numa tarde de chuva. Veio a bolinha vermelha com uma rachadura colada com durex transparente.
— Essa, você deixou cair no ano passado — lembrou a vó.
— Eu sei — disse o Davi, baixinho. — Chorei bastante.
— E a gente colou. E ela continua pendurada. Enfeite quebrado e colado é o melhor, porque já sabe aguentar.
O galho foi ficando cheio. A estrela no alto, o sino no meio, o anjo de olho torto balançando num ramo fino, a bolinha rachada mais embaixo, onde o Davi podia ver. Ele recuou dois passos para olhar. Na janela, a luz da tarde atravessava as folhinhas e deixava as sombras tremendo na parede.
Ainda sobrava uma bolinha de jornal no fundo da lata, pequena e dura. A vó demorou um instante antes de entregá-la.
— Essa é a última — disse. — E é sua.

O Davi desfez o papel. Dentro havia uma casinha de cortiça, do tamanho de uma caixa de fósforo, com telhado de papelão pintado de vermelho e um portãozinho azul, tão pequeno que a tinta tinha escorrido um pouco.
— Fui eu que pintei — sussurrou ele.
— Foi. No ano passado, na casa antiga. Você pintou o portão com tanto cuidado que ficou com a língua para fora o tempo todo.
O Davi segurou a casinha na palma da mão. Ficou olhando o portão azul, e olhando, e olhando.
— Vó... então ela veio junto.
— Veio.
— A casa do portão azul veio junto.
— Veio, meu amor. Dentro da lata, de ônibus, três horas de estrada. — A vó se inclinou para perto dele. — Quer saber o que eu acho do Papai Noel?
O Davi fez que sim.
— O Papai Noel não procura casa, procura criança. Casa muda de lugar, de cor, de número. Criança é que fica sendo a mesma. E sabe o que mais? Onde a criança está, o Natal já tem um jeito de chegar. Ele chega pela lata, pelo galho, por um sino de tampa de leite em pó. Ele vem pelo caminho que a gente já fez.
O Davi apertou a casinha de cortiça contra o peito, bem de leve, para não amassar. Depois subiu na ponta dos pés e pendurou a casinha num ramo do meio do galho, onde ela balançou um pouquinho e ficou quieta.

A ceia foi simples e comprida. Teve arroz, farofa, um peru pequeno que o pai jurou ter deixado no ponto certo, salada de maionese e uma travessa de rabanada que a vó trouxera embrulhada num pano de prato. As janelas ficaram abertas por causa do calor. De vez em quando, do apartamento de baixo, vinha uma risada, e do prédio da frente chegava uma música baixinha de rádio.
Depois da sobremesa, o Davi bocejou duas vezes seguidas e a mãe fez que não viu.
Foi a vó quem o levou para a cama. O quarto era pequeno, com uma janela que dava para a rua e para a sibipiruna lá embaixo. Ela ajeitou o lençol, puxou a cadeira para perto, sentou, e o Davi deitou virado para a sala, onde ainda dava para ver, pela porta aberta, o galho com seus enfeites.
— Eu deixei a porta aberta de propósito — disse ela. — Para o galho ficar de olho em você.
— Ele não tem olho.
— Tem a estrela, que é bem esperta.
O Davi sorriu de olho fechado.
Lá fora, o vento da noite mexia nas folhas da sibipiruna, e o barulho entrava no quarto como uma conversa que já estava terminando. Do prédio da frente, algumas janelas ainda tinham luz: uma amarela, uma azul, uma que piscava de vermelho, verde e amarelo, de uma árvore que alguém tinha montado por perto da cortina.
— Vó, quantas janelas acesas tem?
— Vamos contar. — Ela olhou para fora. — Uma. Duas. Três. A quarta é aquela de lá do alto, que tem o pisca-pisca.
— E quem mora nelas?
— Gente que também está com o Natal dentro de casa. Alguns moram ali faz muito tempo. Outros chegaram faz pouco, como você. Mas todos têm a sua caixa de enfeites, em algum armário, e todos hoje abriram a tampa.
O Davi ficou quieto, pensando nisso. Era uma ideia grande, daquelas que precisam de tempo para caber.
— Vó?
— Oi.
— Eu acho que vou gostar daqui.
— Eu também acho.
— Mas ainda sinto saudade do portão azul.
— Claro que sente. Saudade é só o jeito que a gente tem de mostrar que gostou do lugar. — A vó passou a mão no cabelo dele, de leve, no ritmo de quem embala. — E o portão azul está aí na sala, pendurado num galho, olhando para a gente. Quando você acordar, ele vai estar no mesmo ramo. Nenhuma casa de cortiça foge no meio da noite.
O Davi quase riu. O ar ficou mais lento. A cama pareceu um pouco mais funda, o travesseiro mais macio, a respiração da vó no escuro uma coisa quentinha e regular, como a de um relógio antigo.

Na sala, a estrela de papel-alumínio refletiu um pedacinho da luz da rua e brilhou por um instante, bem fraquinho. O sininho de lata se mexeu com a brisa e fez tlim, tão baixo que só quem estava quase dormindo conseguiria ouvir.
O Davi ouviu.
Os olhos dele já estavam fechados, e a mão, aberta em cima do lençol, como quem acabou de largar uma coisa preciosa num lugar seguro.
Lá embaixo, a sibipiruna balançou os galhos uma última vez. Na sala, o galho do jarro ficou quieto, com a estrela no alto, o anjo de olho torto, a bolinha rachada e a casinha de portão azul, todos olhando para a porta do quarto onde a vó, sentada na cadeira, ainda guardou um tempo o ritmo da respiração do neto.
A noite estava calma. O prédio, quieto. O Natal, que nunca tinha se perdido, já estava em casa.
Boa noite, Davi. Boa noite, Vó Neide. Boa noite, casinha de portão azul.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Qual enfeite da lata da Vó Neide você levaria para a sua casa nova, e por quê?
- O Davi tinha medo de que o Papai Noel não o encontrasse. O que a vó disse que deixou o menino mais tranquilo?
- Que enfeite da nossa família tem uma história? Quer que eu conte como ele apareceu aqui em casa?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir. O Davi, a Vó Neide e o prédio da rua da ladeira foram inventados para este conto. A cena se passa num Natal de verão, com calor, janelas abertas e ceia simples, como em muitas casas brasileiras. Os enfeites de papel-alumínio, de lata e de cortiça existem de verdade em muitas famílias: são o tipo de coisa que passa de mão em mão e ganha história.
Perguntas frequentes sobre A Caixa de Enfeites da Vó Neide
Quanto tempo leva para ler esta história?
Cerca de 16 minutos em voz alta, num ritmo calmo. Dá para dividir em duas noites: a primeira termina quando a Vó Neide abre a lata, e a segunda começa com os enfeites sendo pendurados no galho.
Para que idade é indicada?
Dos 4 aos 8 anos. Ela conversa bem com crianças que passaram por uma mudança de casa, de escola ou de cidade, e com famílias que juntam dois lados de tradição num só Natal.
Esta história de Natal é religiosa?
Não. O Papai Noel aparece como parte da conversa do Davi, mas o centro da história é a família, as lembranças que cada enfeite guarda e o jeito de fazer uma casa nova virar lar. Serve para qualquer família.
O final é tranquilo para a hora de dormir?
É. A última cena acontece à noite, com a casa quieta, a vó sentada ao lado da cama e o Davi cada vez mais perto do sono. Não há susto em nenhum momento.


