
O Ursinho que Perdeu o Sono
Bento procurou o sono embaixo da cama, atrás da porta e dentro do armário — sem saber que ele estava esperando no lugar mais óbvio.
Tem noite em que o sono chega antes da gente. E tem noite em que ele se atrasa
Bento era um ursinho marrom de orelhas redondas.
Ele já tinha tomado banho. Já tinha escovado os dentes. Já estava de pijama, aquele de listra azul.
Mas quando deitou na cama, aconteceu uma coisa esquisita.
O sono não estava lá.
Bento sentou. Olhou para o travesseiro. Olhou para o cobertor.
Nada.
— Mãe — ele chamou. — Eu perdi o meu sono.

A Procura
A mãe veio até o quarto, sentou na beirada da cama e ficou séria.
— Perdeu mesmo?
— Perdi.
— Então vamos procurar.
Ela não mandou ele deitar. Não disse que já era tarde. Só pegou a mão dele.
Os dois olharam embaixo da cama.
Embaixo da cama tinha um chinelo, uma bolinha e muita poeira.
O sono não estava lá.
Os dois olharam atrás da porta.
Atrás da porta tinha o roupão pendurado e uma sacola vazia.
O sono não estava lá.
Os dois olharam dentro do armário.
Dentro do armário tinha camiseta dobrada, meia enrolada e o casaco de inverno.
O sono não estava lá.
Os dois olharam dentro da gaveta da mesinha.
Na gaveta tinha uma pedrinha que o Bento achou na rua, um lápis sem ponta e um adesivo já usado.
O sono não estava lá.
Os dois olharam atrás da cortina.
Atrás da cortina tinha a janela, o vidro frio e a rua lá fora, escura e quieta.
O sono não estava lá — mas o Bento ficou um tempinho olhando a rua, porque era bonito.
Pela Casa Inteira
Foram até a cozinha.
Abriram a geladeira. Só tinha leite, queijo e um pote de goiabada.
— Aqui não — disse Bento.
Foram até a sala.
Olharam embaixo do sofá, atrás da almofada, dentro do cesto de brinquedo.
Embaixo do sofá tinha duas peças de quebra-cabeça e um carrinho sem roda.
Dentro do cesto tinha tanta coisa que Bento quase se distraiu.
— Aqui também não.
Foram até o banheiro.
Olharam dentro da banheira, atrás do box, embaixo da pia.
— Nadinha.
Foram até a área de serviço, que era o cômodo mais frio da casa.
Lá tinha o tanque, o varal e três panos de prato pendurados.
— Sono nenhum aqui — disse a mãe. — Está muito frio. Sono não gosta de frio.
Voltaram pelo corredor.
No corredor tinha o quadro da vovó, o interruptor que rangia e o tapete que sempre enrolava numa ponta.
Bento olhou embaixo do tapete, só por garantia.
Não tinha sono. Tinha um botão.
Bento começou a ficar preocupado.
— E se o meu sono foi embora de vez?
A mãe balançou a cabeça.
— Sono não vai embora. Ele só se esconde num lugar difícil.
— Difícil quanto?
— Difícil de procurar em pé — ela disse. — Esse é o problema.
Bento não entendeu bem, mas gostou da resposta.

O Lugar Difícil
Voltaram para o quarto.
A mãe apagou a luz grande e acendeu só o abajur.
— Deita — ela disse. — Vamos procurar deitado, que é mais fácil.
Bento deitou.
A mãe puxou o cobertor até o queixo dele e deitou também, do lado, com a cabeça no mesmo travesseiro.
— Fecha o olho — ela disse. — Sono gosta de escuro.
Bento fechou.
— Agora respira devagar. Sono gosta de devagar.
Bento respirou devagar.
— Agora fica bem quietinho. Sono gosta de quieto.
Bento ficou quietinho.
Ficou tão quietinho que começou a escutar coisas que antes não dava.
Escutou a geladeira roncando lá longe, na cozinha.
Escutou um carro passando na rua, chegando e indo embora.
Escutou a respiração da mãe, comprida e devagar, bem do lado da orelha dele.
E escutou a própria respiração também, que sem ele mandar tinha ficado igualzinha à dela.
E foi aí que ele sentiu.
O sono não estava embaixo da cama, nem no armário, nem atrás da cortina do banheiro.
O sono estava ali, quentinho, bem no fundo dele mesmo — só esperando a casa parar de correr atrás.
— Achei — Bento tentou dizer.
Mas a palavra saiu pela metade, e a outra metade virou sonho.
Boa noite, Bento. 🌙
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Onde você acha que o sono se esconde?
- O que ajuda você a pegar no sono quando ele demora?
- A mãe do Bento não brigou nenhuma vez. Por que será?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir. A brincadeira de procurar o sono pela casa é uma ideia antiga da literatura infantil, e aqui ela vira uma ronda curtinha pelos cômodos — de propósito, porque a repetição de "não estava lá" funciona como um balanço para a criança pequena.
Perguntas frequentes sobre O Ursinho que Perdeu o Sono
Quanto tempo leva para ler esta história?
Cerca de 6 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do acervo, feita para as noites em que a hora já passou e não cabe um conto longo.
Para que idade é indicada?
Dos 2 aos 5 anos. As frases são curtas, a estrutura se repete de um cômodo para outro e o vocabulário é bem simples, o que ajuda a criança pequena a acompanhar até o fim.
Esta história é assustadora?
Não. Bento procura o sono embaixo da cama e dentro do armário, mas não há nada escondido em lugar nenhum — e a história trata esses cantos como lugares comuns da casa, sem nenhum mistério.
Serve para criança que resiste na hora de dormir?
Sim, é justamente para isso. Em vez de mandar dormir, a história mostra um adulto acompanhando a procura com calma, e o sono chegando sozinho quando o corpo para. Muitas crianças pegam no sono no meio da última página.


