
Tito e Capi: a Véspera da Escola Nova
Amanhã é o primeiro dia de Tito na escola nova, e a cabeça dele não desliga. Até que a capivara de pelúcia abre um olho e diz: sem pressa.
Amanhã tem escola nova. E a cabeça do Tito não quer desligar
Era uma noite de domingo, e o quarto de Tito já estava escuro. Só a luzinha do corredor desenhava um risco amarelo embaixo da porta.
Tito tinha cinco anos, um pijama de foguetes e um problema: amanhã era o primeiro dia na escola nova.
Ele virou para um lado. Virou para o outro. Puxou o lençol até o nariz.
E a cabeça dele não parava.
E se eu não achar o banheiro? E se ninguém quiser brincar comigo? E se a professora falar meu nome errado? E se eu esquecer a lancheira? E se...
— Tito — disse uma voz grossa e devagarinha, bem do lado do travesseiro. — Você está pensando tão alto que eu acordei.
Tito arregalou os olhos.
Ali, encostada na parede, estava a Capi. A capivara de pelúcia que a vó tinha dado no aniversário dele. Gordinha, marrom, com as orelhas pequenas e um focinho que parecia estar sempre sorrindo.
Só que agora a Capi estava piscando.
— Você fala? — sussurrou Tito.
— Só de noite — disse a Capi, se espreguiçando. — De dia eu fico muito ocupada sendo de pelúcia.

Tito sentou na cama.
— Capi, amanhã é a escola nova. E eu não sei onde fica o banheiro, e não conheço ninguém, e...
— Ei, ei — disse a Capi, levantando uma pata macia. — Sem pressa.
— Mas são muitas coisas!
— São — concordou a Capi. — Por isso mesmo. Capivara nunca come o capim todo de uma vez. Come um tufinho, depois outro. Vamos pegar só um tufinho do seu medo?
Tito pensou.
— O banheiro — disse ele. — Eu não sei onde fica o banheiro.
— Hum — fez a Capi, coçando o queixo. — E o que a gente faz quando não sabe onde fica uma coisa?
— Pergunta?
— Pergunta. Pronto. Esse tufinho já foi. Qual é o próximo?
Tito sorriu um pouquinho.
— E se ninguém quiser brincar comigo?
A Capi ficou quieta um tempo, mastigando o nada, como as capivaras fazem.
— Sabe o que eu faço quando chego numa lagoa nova? — disse ela. — Eu sento perto de alguém. Não falo nada. Só fico ali, perto. Daqui a pouco, a outra capivara chega mais perto também. Às vezes é só isso que precisa.
— Sentar perto?
— Sentar perto. E, se der vontade, perguntar o nome.
Tito deitou de novo. Os pensamentos ainda estavam lá, mas pareciam menores, como peixinhos em vez de tubarões.
— E se a professora falar meu nome errado?
— Aí você fala certinho para ela: "É Tito". Professora gosta de aprender nome — disse a Capi. — Amanhã ela vai ter um monte de nomes novos para aprender. Igualzinho a você.
— E a lancheira?
— Essa a sua mãe já deixou pronta na porta — disse a Capi. — Eu vi. Tem até bolacha.
Tito riu baixinho.
— Agora — disse a Capi, se ajeitando do lado dele —, o resto dos tufinhos fica para amanhã. Amanhã você resolve o amanhã. Hoje a gente só precisa fazer uma coisa.
— O quê?
— As três respiradas de capivara.

Ela explicou bem devagar:
— Você puxa o ar pelo nariz, bem comprido, como quem sente o cheiro de um bolo saindo do forno. E solta pela boca, bem devagarinho, como quem esfria uma sopa quente. Vamos?
Tito puxou o ar. Cheiro de bolo.
Soltou. Sopa quente.
— Um — disse a Capi.
Puxou de novo, mais devagar. Soltou mais devagar ainda.
— Dois.
Na terceira vez, os olhos do Tito já estavam pesados. A Capi encostou o focinho no ombro dele, quentinha.
— Três — sussurrou ela.
O risco de luz embaixo da porta continuava lá. A casa estava quieta. Em algum lugar, a lancheira esperava na porta, com bolacha dentro.
— Capi? — murmurou Tito, quase dormindo. — Você vai estar aqui amanhã?
— Sempre que a noite ficar comprida — disse a Capi. — Sem pressa.
E fechou os olhos de pelúcia.
Boa noite, Tito. Boa noite, Capi.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Qual foi a coisa nova que deu mais frio na barriga em você até hoje?
- Se a Capi viesse dormir aqui hoje, o que você contaria para ela?
- Vamos fazer as três respiradas de capivara juntos?
Sobre esta história
Primeiro episódio da série As Noites de Tito e Capi, história original do Contos para Dormir. A série acompanha um menino de cinco anos em noites comuns e difíceis, sempre com a mesma companheira e o mesmo ritual de três respiradas no fim — a repetição é de propósito, para a criança reconhecer o ritual e poder usar na vida real.
Perguntas frequentes sobre Tito e Capi: a Véspera da Escola Nova
Quanto tempo leva para ler?
Cerca de 5 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do site, pensada para noites de semana.
Para que idade é indicada?
Dos 3 aos 6 anos, especialmente para crianças que vão começar na escola ou mudar de turma.
O que são as três respiradas de capivara?
É o ritual que fecha todas as histórias da série: puxar o ar devagar, como quem cheira um bolo, e soltar devagar, como quem esfria a sopa. Vale fazer junto com a criança no fim da leitura.


