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Contos para Dormir
Ilustração do conto Tito e Capi: a Véspera da Escola Nova

Tito e Capi: a Véspera da Escola Nova

Amanhã é o primeiro dia de Tito na escola nova, e a cabeça dele não desliga. Até que a capivara de pelúcia abre um olho e diz: sem pressa.

Daniel Otto ·

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Amanhã tem escola nova. E a cabeça do Tito não quer desligar

Era uma noite de domingo, e o quarto de Tito já estava escuro. Só a luzinha do corredor desenhava um risco amarelo embaixo da porta.

Tito tinha cinco anos, um pijama de foguetes e um problema: amanhã era o primeiro dia na escola nova.

Ele virou para um lado. Virou para o outro. Puxou o lençol até o nariz.

E a cabeça dele não parava.

E se eu não achar o banheiro? E se ninguém quiser brincar comigo? E se a professora falar meu nome errado? E se eu esquecer a lancheira? E se...

— Tito — disse uma voz grossa e devagarinha, bem do lado do travesseiro. — Você está pensando tão alto que eu acordei.

Tito arregalou os olhos.

Ali, encostada na parede, estava a Capi. A capivara de pelúcia que a vó tinha dado no aniversário dele. Gordinha, marrom, com as orelhas pequenas e um focinho que parecia estar sempre sorrindo.

Só que agora a Capi estava piscando.

— Você fala? — sussurrou Tito.

— Só de noite — disse a Capi, se espreguiçando. — De dia eu fico muito ocupada sendo de pelúcia.

Tito, de pijama de foguetes, sentado na cama no quarto escuro, olhando espantado para a capivara de pelúcia que acaba de abrir os olhos

Tito sentou na cama.

— Capi, amanhã é a escola nova. E eu não sei onde fica o banheiro, e não conheço ninguém, e...

— Ei, ei — disse a Capi, levantando uma pata macia. — Sem pressa.

— Mas são muitas coisas!

— São — concordou a Capi. — Por isso mesmo. Capivara nunca come o capim todo de uma vez. Come um tufinho, depois outro. Vamos pegar só um tufinho do seu medo?

Tito pensou.

— O banheiro — disse ele. — Eu não sei onde fica o banheiro.

— Hum — fez a Capi, coçando o queixo. — E o que a gente faz quando não sabe onde fica uma coisa?

— Pergunta?

— Pergunta. Pronto. Esse tufinho já foi. Qual é o próximo?

Tito sorriu um pouquinho.

— E se ninguém quiser brincar comigo?

A Capi ficou quieta um tempo, mastigando o nada, como as capivaras fazem.

— Sabe o que eu faço quando chego numa lagoa nova? — disse ela. — Eu sento perto de alguém. Não falo nada. Só fico ali, perto. Daqui a pouco, a outra capivara chega mais perto também. Às vezes é só isso que precisa.

— Sentar perto?

— Sentar perto. E, se der vontade, perguntar o nome.

Tito deitou de novo. Os pensamentos ainda estavam lá, mas pareciam menores, como peixinhos em vez de tubarões.

— E se a professora falar meu nome errado?

— Aí você fala certinho para ela: "É Tito". Professora gosta de aprender nome — disse a Capi. — Amanhã ela vai ter um monte de nomes novos para aprender. Igualzinho a você.

— E a lancheira?

— Essa a sua mãe já deixou pronta na porta — disse a Capi. — Eu vi. Tem até bolacha.

Tito riu baixinho.

— Agora — disse a Capi, se ajeitando do lado dele —, o resto dos tufinhos fica para amanhã. Amanhã você resolve o amanhã. Hoje a gente só precisa fazer uma coisa.

— O quê?

— As três respiradas de capivara.

Tito deitado de olhos fechados, abraçado à capivara de pelúcia, respirando devagar sob a luz suave que entra pela fresta da porta

Ela explicou bem devagar:

— Você puxa o ar pelo nariz, bem comprido, como quem sente o cheiro de um bolo saindo do forno. E solta pela boca, bem devagarinho, como quem esfria uma sopa quente. Vamos?

Tito puxou o ar. Cheiro de bolo.

Soltou. Sopa quente.

— Um — disse a Capi.

Puxou de novo, mais devagar. Soltou mais devagar ainda.

— Dois.

Na terceira vez, os olhos do Tito já estavam pesados. A Capi encostou o focinho no ombro dele, quentinha.

— Três — sussurrou ela.

O risco de luz embaixo da porta continuava lá. A casa estava quieta. Em algum lugar, a lancheira esperava na porta, com bolacha dentro.

— Capi? — murmurou Tito, quase dormindo. — Você vai estar aqui amanhã?

— Sempre que a noite ficar comprida — disse a Capi. — Sem pressa.

E fechou os olhos de pelúcia.

Boa noite, Tito. Boa noite, Capi.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Qual foi a coisa nova que deu mais frio na barriga em você até hoje?
  2. Se a Capi viesse dormir aqui hoje, o que você contaria para ela?
  3. Vamos fazer as três respiradas de capivara juntos?

Sobre esta história

Primeiro episódio da série As Noites de Tito e Capi, história original do Contos para Dormir. A série acompanha um menino de cinco anos em noites comuns e difíceis, sempre com a mesma companheira e o mesmo ritual de três respiradas no fim — a repetição é de propósito, para a criança reconhecer o ritual e poder usar na vida real.

Perguntas frequentes sobre Tito e Capi: a Véspera da Escola Nova

Quanto tempo leva para ler?

Cerca de 5 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do site, pensada para noites de semana.

Para que idade é indicada?

Dos 3 aos 6 anos, especialmente para crianças que vão começar na escola ou mudar de turma.

O que são as três respiradas de capivara?

É o ritual que fecha todas as histórias da série: puxar o ar devagar, como quem cheira um bolo, e soltar devagar, como quem esfria a sopa. Vale fazer junto com a criança no fim da leitura.

Que tal a história de amanhã?