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Contos para Dormir

Tito e Capi: a Noite na Casa da Vó

Primeira vez dormindo longe de casa. A cama da Vó Cida era grande, o quarto era escuro e a casa fazia barulhos que o Tito não conhecia. Ainda bem que a Capi veio na mochila.

Daniel Otto ·

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Ilustração do conto Tito e Capi: a Noite na Casa da Vó

A cama da Vó Cida era enorme. Tão grande que o Tito, deitado bem no meio, não alcançava nenhuma das beiradas com os pés.

Era a primeira vez que ele dormia lá sozinho. A mãe e o pai tinham ido a um casamento, a Bia estava na casa de uma amiga, e o Tito tinha chegado de tarde com a mochila nas costas, todo animado.

De tarde tinha sido ótimo. Teve bolo de fubá, teve a Pipoca, a cachorra velha da vó, e teve dominó na mesa da cozinha.

Mas agora a luz estava apagada. E de noite a casa da vó era outra casa.

O Tito puxou o lençol até o nariz e abriu a mochila no escuro, procurando com a mão.

Achou uma coisa macia, gordinha, de orelhas pequenas.

— Ufa — disse uma voz grossa e sonolenta lá de dentro. — Pensei que você ia me esquecer aqui a noite inteira.

— Capi! — sussurrou o Tito. — Você veio!

— Eu sempre venho — disse a Capi, saindo da mochila e se espreguiçando. — Capivara não fica para trás.

Tito deitado numa cama grande e antiga, num quarto escuro com cortina de renda, tirando de dentro da mochila uma capivara de pelúcia que boceja e se espreguiça

Foi nessa hora que veio o primeiro barulho.

Toc. Toc. Toc. Toc.

O Tito se encolheu.

— Capi, o que é isso?

A Capi levantou uma orelha. Ficou escutando com toda a calma do mundo.

— Isso aí é o relógio grande da sala — disse ela. — Aquele de madeira, com o pêndulo dourado. Ele passa a noite inteira contando o tempo. Não para nunca.

— Nem para dormir?

— Nem para dormir. Ele fica acordado para que a gente não precise ficar.

O Tito ficou ouvindo. Toc. Toc. Toc. Até que não era tão feio.

Aí veio outro barulho, comprido e grave, vindo da cozinha.

Rrrrrrrrrrrrr.

— E isso? — cochichou o Tito, de olho arregalado.

— Isso — disse a Capi — é a geladeira da Vó Cida ronronando. Geladeira velha ronrona igual a gato. Ela está guardando o resto do bolo de fubá para o seu café da manhã.

O Tito quase riu.

— Geladeira não é gato.

— Tem certeza? — perguntou a Capi. — Escuta.

Rrrrrrrrrrrr.

Era igualzinho a um gato.

Um pouco depois, a janela fez nhéééc, bem fininho. O Tito já estava abrindo a boca para perguntar, mas a Capi respondeu antes.

— É o vento empurrando a janela, querendo entrar para ver você dormir. Mas a janela não deixa. Janela de vó é muito educada.

E então, no corredor, bem perto da porta, alguma coisa suspirou.

Fffffff.

Dessa vez o Tito sentou na cama de uma vez.

— Capi. Isso respirou.

— Respirou mesmo — concordou a Capi, sem se mexer. — Vamos ver quem é?

Ela pulou da cama e foi até a porta, com aquele passinho de capivara que não tem pressa nenhuma. O Tito foi atrás, devagarinho, segurando a pontinha do rabo dela. A Capi empurrou a porta com o focinho.

No tapete do corredor, enroladinha que nem um pão, estava a Pipoca. A cachorra velha abriu um olho, olhou para o Tito, bateu o rabo duas vezes no chão e soltou outro suspiro comprido.

Fffffff.

— Ela dorme aqui todo dia — sussurrou a Capi. — Na frente do quarto de quem está visitando. É o trabalho dela.

O Tito passou a mão na cabeça da Pipoca, que era quente e cheirava a quintal. Depois voltou para a cama, bem mais leve.

Tito de pijama, ajoelhado no corredor escuro, fazendo carinho numa cachorra velha enrolada no tapete, com a capivara de pelúcia ao lado e uma luz fraca vindo da sala

Deitado de novo, ele ficou escutando a casa.

O relógio contando. Toc. Toc.

A geladeira ronronando. Rrrrrr.

A janela educada. Nhéc.

A Pipoca respirando na porta. Fffff.

— Capi — disse ele baixinho —, a casa da vó faz muito barulho.

— Faz — disse a Capi. — Toda casa faz. É a casa respirando. Na sua casa também tem, você é que já se acostumou.

O Tito pensou nisso. Na casa dele, tinha a torneira que pingava e o carro do vizinho chegando tarde. Ele nunca tinha tido medo deles.

— Agora — disse a Capi, se aninhando do lado do travesseiro —, as três respiradas de capivara.

O Tito puxou o ar pelo nariz, como quem sente cheiro de bolo de fubá. Soltou pela boca, como quem esfria uma sopa.

— Um.

Puxou de novo. Soltou mais devagar.

— Dois.

Lá na sala, o relógio contou junto. Toc.

— Três — sussurrou a Capi.

Os olhos do Tito fecharam. A cama enorme ficou do tamanho certo.

Boa noite, Tito. Boa noite, Pipoca. Boa noite, Vó Cida. Boa noite, Capi.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Que barulhos a nossa casa faz de noite? Vamos ficar quietinhos e ouvir?
  2. Qual barulho da casa da Vó Cida você achou mais engraçado?
  3. O que você levaria na mochila para dormir fora de casa?

Sobre esta história

Quarto episódio da série As Noites de Tito e Capi, história original do Contos para Dormir. A primeira noite longe de casa costuma ser difícil justamente pelos sons desconhecidos. A história não diz ao Tito que não há nada para temer: ela investiga cada barulho com ele até cada um ganhar nome. Termina, como toda a série, com as três respiradas de capivara.

Perguntas frequentes sobre Tito e Capi: a Noite na Casa da Vó

Quanto tempo leva para ler?

Cerca de 6 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do site.

Para que idade é indicada?

Dos 3 aos 6 anos, e é boa para ler na véspera ou na própria noite em que a criança vai dormir na casa dos avós, de um amigo ou num lugar de viagem.

Precisa ter lido os outros episódios?

Não. Cada noite de Tito e Capi se entende sozinha. Quem já conhece a série vai reconhecer a Capi, a Bia e as três respiradas do final.

Que tal a história de amanhã?