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Contos para Dormir
Ilustração do conto O Vaga-lume que Queria Ser Pisca-Pisca

O Vaga-lume que Queria Ser Pisca-Pisca

No sítio da Vó Lurdes, um vaga-lume pequeno passou dezembro inteiro tentando piscar igual às luzinhas da árvore de Natal. Ninguém imaginava que ia precisar dele na véspera.

Daniel Otto ·

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Um vaga-lume, um mês de dezembro e uma árvore de Natal que piscava sem parar

Lá no interior, depois de uma estrada de terra vermelha e de uma porteira que range, existe um sítio pequeno com uma casa branca de janelas verdes.

Na casa mora a Vó Lurdes. No quintal moram as galinhas, um cachorro amarelo chamado Biscoito, um pé de manga carregado e, nas moitas de capim perto do riacho, uma porção de vaga-lumes.

Um deles se chamava Pisco.

O Pisco era o menor vaga-lume do capinzal. Tinha o corpo comprido e escuro, as asinhas finas e, na ponta da barriga, uma luz verde-amarelada que acendia e apagava. Acendia, apagava. Acendia, apagava. Do jeitinho que os vaga-lumes fazem desde que o mundo é mundo.

Até o começo de dezembro, o Pisco nunca tinha achado nada de errado com isso.

Mas no começo de dezembro a Vó Lurdes montou a árvore de Natal.

Era uma árvore pequena, de plástico, que passava o ano inteiro dentro de uma caixa em cima do guarda-roupa. A vó tirou a caixa, soprou a poeira, abriu os galhos um por um e colocou a árvore na varanda, perto da janela. Pendurou umas bolinhas vermelhas, um anjo de pano e, por último, enrolou nos galhos um fio comprido de luzinhas coloridas.

Quando ela ligou o fio na tomada, as luzinhas começaram a piscar.

Vermelho, verde, azul, amarelo. Rápido, rápido, rápido. Depois devagar. Depois todas juntas. Depois uma de cada vez, correndo pelos galhos como se estivessem brincando de pega-pega.

O Pisco, que passava voando bem naquela hora, parou no ar.

— O que é aquilo? — perguntou ele, para ninguém.

Um vaga-lume pequeno parado no ar diante de uma varanda à noite, olhando encantado para uma árvore de Natal enfeitada com luzinhas coloridas piscando

Daquela noite em diante, o Pisco não pensou em mais nada.

Ele ficava pousado no parapeito da varanda, olhando as luzinhas. Contava as piscadas. Tentava entender a ordem. E depois voava até o capinzal e tentava fazer igual.

Acendia. Apagava. Acendia, apagava, acendia, apagava, acendiaapagavaacendia...

— Pisco, você está bem? — perguntou uma vaga-lume mais velha, a Dona Lamparina. — Está piscando que nem soluço.

— Estou treinando — explicou o Pisco, sem fôlego. — Quero ser pisca-pisca.

— Você já é pisca-pisca — disse a Dona Lamparina. — Todo vaga-lume é.

— Não desse jeito — disse o Pisco. — As luzinhas da varanda piscam rápido, devagar, todas juntas, uma de cada vez. E elas são vermelhas, e azuis, e amarelas. Eu só sei ser desta cor.

A Dona Lamparina olhou para ele com paciência de vaga-lume velho.

— Cada luz tem o seu jeito — disse ela. — A sua também tem.

Mas o Pisco não ouviu direito. Já estava treinando de novo.


Na semana do Natal, chegou um carro pela estrada de terra vermelha. A porteira rangeu, o Biscoito latiu de alegria, e de dentro do carro saíram o filho da Vó Lurdes, a nora e uma menina de seis anos com uma mochila de unicórnio nas costas.

Era a Nina, a neta da vó. Ela vinha passar o Natal no sítio, como todo ano.

A Nina correu pela casa inteira, abraçou a vó duas vezes, deu comida para as galinhas, molhou o pé no riacho e, quando a noite chegou, foi sentar na varanda, perto da árvore.

Foi ali que ela viu o Pisco.

Ele estava pousado num galho da árvore de Natal, bem no meio das luzinhas, piscando com toda a força. Acendia, apagava. Acendia, apagava. Tentando acompanhar a luzinha vermelha do lado, que piscava muito mais rápido do que ele.

— Vó! — chamou a Nina, baixinho, para não espantar. — Tem uma luzinha diferente na árvore. Uma que voa.

A Vó Lurdes veio da cozinha secando as mãos no avental, ajeitou os óculos e olhou.

— Ah — disse ela, sorrindo. — É um vaga-lume. Faz uns dias que ele vem aí. Acho que gostou da árvore.

— Por que ele pisca?

— Os vaga-lumes piscam para conversar uns com os outros — explicou a vó. — Cada piscada é um jeito de dizer alguma coisa. "Estou aqui." "Vem cá." "Está tudo bem."

A Nina chegou o rosto bem perto do galho.

— E o que esse está dizendo?

A vó olhou o Pisco piscando rápido, atrapalhado, tentando acompanhar as luzinhas.

— Esse aí — disse ela — acho que está tentando dizer que quer ser outra coisa.

Uma menina de seis anos com tranças, de pijama, ajoelhada na varanda com o rosto perto de um galho da árvore de Natal, observando um vaga-lume aceso entre as luzinhas, enquanto a avó sorri ao lado

Nas noites seguintes, a Nina e o Pisco viraram amigos.

Ela não sabia que ele se chamava Pisco, claro. Ela chamava de "Luzinho". Mas toda noite, depois do jantar, a Nina sentava na varanda, e toda noite o Pisco aparecia e pousava no mesmo galho.

A Nina inventou uma brincadeira. Ela pegava a lanterna pequena da vó, cobria com a mão e piscava: uma vez. Esperava. O Pisco piscava de volta: uma vez.

Ela piscava duas vezes. Ele piscava duas.

Ela piscava três. Ele, três.

— Vó, ele entende! — dizia a Nina, encantada.

E o Pisco, lá no galho, pensava a mesma coisa da menina.

Mas, assim que a Nina ia dormir, ele voltava a treinar. Rápido, devagar, todas juntas, uma de cada vez. Ainda queria ser igual às luzinhas de tomada. Ainda achava que só assim ia ser bonito de verdade.


Chegou a véspera de Natal.

Desde cedo a casa da Vó Lurdes cheirava a comida boa. Tinha arroz com passas, que a Nina tirava de um lado do prato, frango assado, farofa de banana e, na geladeira, um pavê que ninguém podia tocar antes da meia-noite. O tio chegou da cidade com os dois primos. A vizinha, Dona Cida, veio trazer uma travessa de rabanada.

O dia estava quente, muito quente, daquele calor de dezembro que faz até o Biscoito procurar sombra embaixo da mesa.

E, no fim da tarde, o céu começou a mudar.

Primeiro ficou amarelado. Depois cinza. Depois um cinza tão escuro que parecia noite antes da hora. Um vento morno balançou o pé de manga, derrubou duas mangas no chão e levantou o pano da mesa.

— Vem chuva — disse a Vó Lurdes, olhando para cima. — Chuva de verão. Daquelas que chegam com pressa e vão embora com pressa também.

Ela tinha razão. A chuva chegou de uma vez, grossa e barulhenta, batendo no telhado como se tivesse muita coisa para contar. Um trovão rolou longe, depois outro mais perto. A Nina correu para dentro e se encostou na vó.

E aí, no meio de um relâmpago bem branco, plic: a luz da casa apagou.

Apagou a lâmpada da cozinha. Apagou o ventilador. Apagou a televisão onde passava um desenho de Natal.

E apagaram as luzinhas da árvore.

A varanda escura numa noite de chuva forte, com a árvore de Natal apagada, a família reunida perto da janela e uma menina abraçada à avó, iluminadas só pelo clarão de um relâmpago distante

Ficou tudo escuro.

O tio procurou o celular para fazer de lanterna. A nora achou uma vela na gaveta. Alguém disse "deve ser o transformador lá da estrada" e alguém respondeu "na véspera de Natal, olha que sorte".

A chuva foi passando, do jeito que a vó tinha dito. Primeiro ficou mais fina. Depois virou chuvisco. Depois parou, e só ficou o barulho das gotas pingando das folhas e um cheiro bom de terra molhada.

Mas a luz não voltou.

A Nina foi até a varanda e ficou olhando para a árvore apagada. Sem as luzinhas, ela parecia só um monte de galhos de plástico com umas bolinhas penduradas.

— Vó — disse a Nina, com a voz pequena —, a árvore apagou. Não vai ter Natal?

A Vó Lurdes sentou na cadeira de balanço e puxou a neta para o colo.

— Natal não mora na tomada, minha flor — disse ela. — Mora aqui, ó. — E deu um beijo na cabeça da Nina. — Mas eu entendo. A árvore apagada fica triste mesmo.


Lá do capinzal, o Pisco tinha visto tudo.

Tinha visto a chuva chegar, o relâmpago, a casa apagar. E tinha visto a Nina parada na frente da árvore escura, com a cabeça baixa.

Ele voou até a varanda e pousou no galho de sempre.

Acendeu. Apagou.

Era uma luz só. Pequenininha. No meio de uma árvore inteira apagada, quase não fazia diferença.

O Pisco pensou nas luzinhas de tomada, que piscavam rápido, devagar, todas juntas, de todas as cores. Pensou que ele, sozinho, nunca ia conseguir fazer aquilo.

E então lembrou do que a Dona Lamparina tinha dito, e do que a vó tinha explicado para a Nina naquela primeira noite: os vaga-lumes piscam para conversar.

"Vem cá."

O Pisco voou até a beira da varanda, virou a barriga para o capinzal e piscou do jeito mais vaga-lume que sabia. Não rápido, não atrapalhado. Uma piscada longa, calma, clara.

Vem cá.

Esperou.

E lá no capinzal, uma luz respondeu.

Depois outra. Depois cinco. Depois vinte.

Pelo meio do quintal molhado, por cima das poças, entre os galhos do pé de manga, os vaga-lumes começaram a chegar. A Dona Lamparina na frente, os primos do Pisco, os vizinhos da moita do riacho, até uns vaga-lumes do outro lado da cerca que o Pisco nem conhecia.

Eles chegaram na varanda e foram pousando na árvore de Natal. Um em cada galho. Dois na ponta. Três em volta do anjo de pano.

Dezenas de vaga-lumes chegando em fila pelo quintal molhado à noite, voando por cima das poças e entre os galhos de uma mangueira em direção à varanda da casa

A Nina levantou a cabeça do colo da vó.

— Vó — sussurrou ela. — Vó, olha.

A árvore estava acendendo de novo.

Não era igual antes. Não tinha vermelho, nem azul. Era tudo de uma cor só, verde-amarelada, quente. E as luzes não corriam pelos galhos brincando de pega-pega. Elas piscavam devagar, cada uma no seu tempo, como se a árvore estivesse respirando.

Acende. Apaga. Acende. Apaga.

O tio parou de mexer no celular. A nora apagou a vela. Os primos ficaram quietos pela primeira vez no dia. A Dona Cida pôs a mão no peito e disse "ai, gente, que coisa mais linda". Até o Biscoito saiu de baixo da mesa, sentou na frente da árvore e ficou olhando, de orelha em pé.

Ninguém falou nada por um tempo.

E o Pisco, no galho do meio, entendeu uma coisa que nenhuma luzinha de tomada tinha conseguido ensinar para ele: não precisava ser outra luz. A noite precisava justamente da luz que ele já tinha.


A Nina desceu do colo da vó bem devagar, para não espantar ninguém, e foi até a árvore. Pegou a lanterna pequena, cobriu com a mão e piscou uma vez.

No galho do meio, o Pisco piscou de volta. Uma vez.

— É o Luzinho — disse ela, com um sorriso enorme. — Vó, foi ele que chamou os outros.

— Eu acho que foi — disse a vó.

— Ele ficou o mês inteiro tentando piscar igual às luzinhas — lembrou a Nina. — E no fim era só piscar igual a ele mesmo.

A vó riu baixinho, daquele jeito que ela ria quando a neta dizia uma coisa que nem gente grande sabia dizer.

A família jantou ali mesmo, na varanda, com os pratos no colo, olhando a árvore de vaga-lumes. Comeram o frango, a farofa de banana, as rabanadas da Dona Cida. A Nina tirou as passas do arroz, como sempre. E quando deu meia-noite, a vó abriu o pavê e todo mundo comeu, ainda falando baixinho, como se estivessem dentro de uma igreja, ou de um sonho.

A família reunida na varanda à noite, sentada em cadeiras e no chão com pratos no colo, todos olhando em silêncio para a árvore de Natal toda acesa por vaga-lumes de luz verde-amarelada

Depois da meia-noite, o calor foi passando. A brisa que ficou depois da chuva era fresquinha e cheirava a terra e a manga madura.

A vó armou a rede na varanda, bem em frente à árvore, e a Nina deitou nela com o travesseiro de casa. A vó sentou na cadeira de balanço ao lado e foi balançando a rede com o pé, devagarinho, para lá e para cá.

Os vaga-lumes também estavam ficando com sono.

As piscadas, que antes eram de um em um segundo, foram ficando mais espaçadas. Acende... apaga. Acende... apaga. Um vaga-lume da ponta voltou para o capinzal. Depois mais dois. A Dona Lamparina deu uma última piscada para o Pisco, que queria dizer "muito bem", e foi embora também.

— Vó — murmurou a Nina, de olhos meio fechados. — Amanhã o Luzinho volta?

— Volta — disse a vó. — Vaga-lume gosta de casa onde é bem recebido.

Lá longe, na estrada, a luz da rua acendeu de novo. Dentro de casa, a geladeira voltou a fazer barulho. Alguém lá dentro disse "voltou a luz!", e o tio foi até a tomada da árvore.

— Deixa — pediu a vó, baixinho. — Deixa desligada hoje.

O tio olhou para a árvore, olhou para a Nina na rede, e deixou.

Uma menina dormindo tranquila numa rede na varanda à noite, com a avó cochilando na cadeira de balanço ao lado, e um único vaga-lume ainda aceso no galho do meio da árvore de Natal

No galho do meio, sobrou só o Pisco.

Ele olhou para a menina na rede, que já respirava devagar, com a boca entreaberta e uma mão pendurada para fora. Olhou para a vó, que também tinha fechado os olhos na cadeira de balanço. Olhou para o céu, que depois da chuva tinha ficado limpo e cheio de estrelas.

As estrelas piscavam lá em cima. Bem devagar, cada uma no seu tempo. Igualzinho a ele.

O Pisco acendeu uma última vez. Uma piscada longa, calma, quentinha, que queria dizer "está tudo bem".

Depois apagou, fechou as asas e ficou ali mesmo, no galho, dormindo também.

E a varanda inteira ficou em silêncio, embalada pelo balanço da rede, que foi parando, parando, até parar.

Boa noite, Nina. Boa noite, Pisco. Feliz Natal.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Por que você acha que o Pisco queria tanto ser um pisca-pisca?
  2. O que mudou quando o Pisco parou de imitar as luzinhas e piscou do jeito dele?
  3. Se faltasse luz aqui em casa numa noite especial, o que a gente poderia fazer junto?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir. O sítio da Vó Lurdes, o vaga-lume Pisco e a menina Nina foram inventados para este conto. A ambientação é de Natal brasileiro de verão, com calor, chuva de fim de tarde e quintal cheio de bicho, e não a paisagem de neve das histórias importadas. Os vaga-lumes piscam de verdade para se comunicar uns com os outros, e aparecem justamente nas noites quentes e úmidas do fim do ano.

Perguntas frequentes sobre O Vaga-lume que Queria Ser Pisca-Pisca

Quanto tempo leva para ler esta história?

Cerca de 15 minutos em voz alta, num ritmo calmo. Dá para dividir em duas noites: a primeira termina quando a Nina e o Pisco viram amigos, e a segunda começa na véspera de Natal.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 8 anos. Os menores gostam de contar as piscadas junto com o Pisco; os maiores costumam perceber antes da Nina o que o vaga-lume está tentando fazer.

Esta história de Natal é religiosa?

Não. É uma história sobre uma família reunida na véspera, uma noite de chuva e uma luz pequena que ajuda. Serve para qualquer família, com ou sem tradição religiosa.

O final é tranquilo para a hora de dormir?

É. A tempestade passa cedo, ninguém se assusta de verdade e o último trecho é todo em ritmo lento: os vaga-lumes piscam cada vez mais devagar e a Nina adormece na rede da varanda.

Que tal a história de amanhã?