
O Ratinho do Campo e o Ratinho da Cidade
Um primo de gravata-borboleta chega à roça dizendo que milho não é jantar — e convida o ratinho do campo para conhecer a mesa mais farta da cidade.
Dois primos, duas casas muito diferentes e uma noite que nenhum dos dois ia esquecer
Tico morava no meio de um milharal, numa toca cavada embaixo da raiz de um pé de goiaba.
A porta da casa dele era um buraco redondo, do tamanho exato de um ratinho do campo. Por dentro tinha três cômodos: um de dormir, um de comer e um terceiro que ele chamava de despensa, mas que na verdade era só um canto onde ele empilhava o que ia achando pela roça.
Na despensa do Tico tinha grão de milho, tinha semente de girassol, tinha um pedaço de rapadura embrulhado em folha de bananeira e tinha três amendoins que ele estava guardando para uma ocasião especial.
Era pouco? Era. Mas era dele, e ele sabia onde estava cada coisa até de olhos fechados.
De manhã, Tico subia até a boca da toca e ficava olhando o milharal balançar. De tarde, descia até a beira do córrego e molhava as patas na água fria. De noite — ah, de noite era a melhor parte.
De noite Tico sentava na porta de casa, encostava o queixo nas patinhas e escutava.
Escutava o vento passando entre as folhas de milho, aquele barulho comprido de papel sendo amassado bem devagar. Escutava os grilos, que começavam sempre um de cada vez, como se estivessem se chamando pelo nome. Escutava um sapo lá longe, sozinho, teimoso.
E quando a lua subia bem alto, ele entrava, se enrolava na cama de palha e dormia até o galo.

O Primo que Chegou de Bengala
Numa tarde de sexta-feira apareceu na roça um rato que ninguém conhecia.
Era cinzento, de pelo penteado para trás, e usava uma gravata-borboleta azul. Trazia na pata uma bengalinha de galho lustrado, que ele ia apoiando no chão a cada passo, mais para fazer bonito do que por precisão. Vinha andando pela trilha do milharal com cara de quem pisou numa coisa molhada e não gostou nem um pouco.
— Com licença — disse ele. — Estou procurando um tal de Tico.
— Sou eu — disse Tico, da porta de casa.
— Bartolomeu — respondeu o rato, esticando a pata. — Seu primo de segundo grau, por parte de avó. Da cidade.
Tico nunca tinha ouvido falar de nenhum primo de segundo grau por parte de avó. Mas primo é primo, e primo que anda três dias para chegar é primo com fome. Então ele abriu a porta e mandou Bartolomeu entrar.
Bartolomeu entrou. Olhou o cômodo de dormir. Olhou o cômodo de comer. Olhou a despensa.
— É… aconchegante — disse ele.
— É a minha casa — disse Tico, todo contente.
— Sim, sim. Aconchegante.
Bartolomeu sentou no banquinho de rolha, cruzou as pernas e ficou olhando em volta com aquele jeito de quem procura uma coisa e não acha.
— E o resto? — perguntou.
— Resto do quê?
— Da casa.
— É essa.
— Ah — disse Bartolomeu. — Aconchegante.
Tico foi buscar água fresca no pote de tampinha e serviu ao primo, que bebeu com o dedinho levantado.
Lá fora o sol descia atrás do milharal e pintava tudo de laranja. Um bem-te-vi gritou três vezes e parou.
— O que foi isso? — perguntou Bartolomeu, dando um pulo no banquinho.
— Passarinho.
— E ele grita assim, do nada?
— Grita.
— A qualquer hora?
— A hora que ele quiser.
Bartolomeu ajeitou a gravata-borboleta e não disse mais nada.

O Jantar Debaixo do Pé de Goiaba
Naquela noite, Tico caprichou.
Estendeu uma folha de bananeira no chão, do lado de fora, bem embaixo do pé de goiaba. Pôs no meio os melhores grãos de milho da despensa, uma pilha de sementes de girassol e o pedaço de rapadura, que ele raspou com o dente até virar um montinho de açúcar escuro.
E pôs os três amendoins. Os três. Os da ocasião especial.
— Pronto — disse ele, sentando. — Bom apetite.
Bartolomeu olhou o milho. Olhou o girassol. Olhou a rapadura raspada.
Depois pegou um grão de milho com dois dedos, girou o grão contra a luz da lua, deu uma mordidinha e mastigou durante muito tempo.
— Primo — disse ele. — Posso ser sincero?
— Pode.
— Isso não é jeito de jantar.
Tico parou de mastigar.
— Como assim?
— Milho, primo. Milho seco. Semente. Raspa de rapadura. — Bartolomeu limpou a boca com a pontinha da gravata. — Na cidade onde eu moro, a gente come queijo.
— Eu já comi queijo — disse Tico.
— Queijo de verdade? Daqueles amarelos, molinhos, que grudam no dente?
Tico pensou.
— Acho que o meu era branco.
— Ah, primo — suspirou Bartolomeu, e o suspiro foi tão comprido que apagaria uma vela. — Você não sabe o que está perdendo.
E aí ele começou a contar.
Contou de uma casa grande, de janela alta, com uma mesa comprida no meio da sala. Contou que naquela mesa sobrava comida todo santo dia. Contou de bolo. De pão doce. De uma coisa chamada geleia, que é fruta amassada com açúcar e que fica brilhando na colher.
Tico ouvia com os olhos ficando cada vez maiores.
— E é só chegar? — perguntou.
— É só subir — disse Bartolomeu.
Bem nessa hora o vento passou pelo milharal e fez aquele barulho comprido, de papel sendo amassado devagar.
— Escuta — disse Tico.
Bartolomeu ficou quieto.
— Escutar o quê?
— Isso.
— Isso o quê?
— O vento.
Bartolomeu franziu o nariz.
— Primo, isso é só vento.
— Pois é — disse Tico.

A Estrada de Terra
Tico passou a noite inteira pensando em geleia.
Fechava os olhos e via a colher brilhando. Virava para o outro lado e via o bolo. Quando o galo cantou, ele já estava de pé, com um lenço de bolinhas amarrado no pescoço e dois grãos de milho guardados para o caminho.
— Eu vou — disse.
Bartolomeu bateu palmas.
Foram andando pela beira da estrada de terra, os dois em fila, o primo da cidade na frente contando vantagem. Andaram a manhã inteira. Ao meio-dia, uma carroça carregada de cebola passou balançando, e Bartolomeu deu um pulo certeiro para dentro de um saco aberto.
— Vem! — chamou. — Daqui em diante é de carona!
Tico pulou também. Lá dentro cheirava a cebola de um jeito que fazia os olhos arderem, mas era macio e balançava que nem rede.
Pela boca do saco dava para ver a roça indo embora. Primeiro sumiu o pé de goiaba. Depois sumiu o milharal inteiro. Depois sumiram as cercas, e o mato foi ficando baixinho, e o chão foi ficando duro.
Quando o dia acabou, aconteceu uma coisa que Tico não esperava: em vez de o mundo ficar escuro, ele ficou aceso.
Começaram a aparecer luzes. Luzes altas, em cima de postes. Luzes em fileira, dentro das janelas. Luzes que se mexiam, indo e vindo, presas na frente de coisas grandes e barulhentas que passavam correndo.
E o barulho não parava. Não era um barulho, era um monte deles empilhados: motor, buzina, gente falando, portão fechando, um cachorro respondendo a outro cachorro do outro lado da rua.
Tico apertou o lenço no pescoço.
— É sempre assim? — perguntou.
— Assim como? — disse Bartolomeu.
— Assim… ligado.
— Ah — riu o primo. — Você acostuma.

O Banquete em Cima da Mesa
A casa era mesmo grande.
Tinha um portão de ferro, um corredor de pedra e uma frestinha embaixo da porta da cozinha por onde os dois passaram deitados de lado.
Dentro estava tudo escuro e quieto. Cheirava a comida guardada.
— Os donos dormem cedo — sussurrou Bartolomeu. — A gente tem a noite inteira.
Subiram pela perna da mesa, que era lisa e dava trabalho, agarrando com as unhas. Quando Tico botou a cabeça para fora da borda, ficou sem palavra.
A mesa era um campo. Uma toalha branca esticada até onde a vista alcançava, e em cima dela restos de um jantar de gente grande.
Tinha uma travessa com pedaços de bolo. Tinha meia fatia de pão doce. Tinha uma tigela de queijo em cubos, amarelo, molinho, exatamente do jeito que o primo tinha descrito. E, bem no meio, brilhando na luz que entrava pela janela, tinha o pote de geleia com uma colher esquecida dentro.
— Sirva-se — disse Bartolomeu, abrindo os braços.
Tico não sabia por onde começar, então começou por tudo.
Mordeu o bolo e o bolo se desmanchou na boca. Mordeu o queijo e o queijo grudou no dente, igualzinho o primo tinha prometido. Enfiou a mão na geleia até o cotovelo, tirou o dedo cheio, provou — e fechou os olhos.
Era doce e azedo ao mesmo tempo. Era a coisa mais gostosa que ele já tinha comido na vida.
— E então? — perguntou Bartolomeu, de boca cheia.
— Eu não sabia — disse Tico. — Eu não sabia mesmo.
Os dois riram alto, ali em cima da toalha branca, no meio das migalhas, com a barriga estufada e o bigode melado.

O Susto
Foi aí que a porta da cozinha rangeu.
Não devagar. De uma vez.
A luz se acendeu e encheu a sala inteira, branca demais, e antes que Tico entendesse o que estava acontecendo, o primo já tinha agarrado o braço dele.
— CORRE!
Correram pela toalha, pularam da borda da mesa e caíram em cima de uma cadeira. Da cadeira para o chão. Do chão para debaixo do armário.
Tico só viu de relance: uma sombra macia e comprida atravessando a cozinha, sem fazer barulho nenhum, com dois olhos amarelos que giraram na direção deles.
Um gato.
Enfiaram-se atrás de um pote de barro, colados na parede fria, e ficaram lá.
Do lado de fora, dois cachorros começaram a latir no quintal, um respondendo o outro, cada vez mais alto. Alguém arrastou uma cadeira. Alguém falou. O gato passou pela frente do pote, parou, cheirou o ar e continuou andando.
O coração do Tico batia tão rápido que ele achou que dava para ouvir.
Ficaram um tempão ali, sem se mexer, até a luz apagar e a casa voltar a ficar quieta.
— Pronto — sussurrou Bartolomeu, se ajeitando. — Já foi. Daqui a pouco a gente volta lá em cima e termina a geleia.
Tico olhou para o primo no escuro.
— Isso acontece muito?
Bartolomeu deu de ombros.
— Toda noite, mais ou menos.
— Toda noite?
— É. Uma hora é o gato, outra hora é o cachorro, outra hora é alguém que desceu para beber água. — Ele bocejou. — A gente acostuma.
Tico ficou quieto, encostado no pote de barro, escutando. Escutou motor. Escutou buzina. Escutou um cachorro que não desistia.
Em nenhum lugar daquele barulho todo havia um grilo.
A Volta pelo Milharal
De manhã, Tico agradeceu o jantar, elogiou a geleia com sinceridade e disse que estava indo embora.
— Já? — disse Bartolomeu. — Mas hoje tem bolo de novo.
— Eu sei — disse Tico. — Estava ótimo.
O primo insistiu um pouco, mais por educação do que por vontade de convencer, e no fim resolveu acompanhá-lo até a estrada. Só até a estrada, ele avisou.
Foi até a estrada. Depois foi até a curva. Depois foi até a ponte de madeira. E, quando os dois perceberam, já estavam no meio da roça outra vez, três dias depois, com o pé de goiaba aparecendo lá na frente.

O milharal estava do mesmo jeito. O córrego também. A toca também, com a porta redonda do tamanho exato de um ratinho do campo.
Tico entrou, arrumou a palha da cama, conferiu a despensa e comeu um grão de milho só para sentir o gosto de casa.
Depois foi sentar na porta, do jeito de sempre, com o queixo nas patinhas.
Bartolomeu sentou do lado, meio sem jeito, sem saber direito o que se faz numa porta de toca à noite.
O Silêncio que Faz Barulho
O sol se pôs. O céu foi ficando roxo e depois azul-escuro, e as primeiras estrelas apareceram uma de cada vez, sem pressa.
Os grilos começaram. Primeiro um. Depois outro respondendo. Depois o milharal inteiro cheio deles.
O vento passou entre as folhas de milho e fez aquele barulho comprido, de papel sendo amassado bem devagar.
Bartolomeu levantou as orelhas.
— Primo — disse ele, baixinho.
— Oi.
— Escuta.
Tico sorriu e não respondeu nada.
Ficaram os dois ali, olhando o mato escuro, escutando o sapo teimoso lá longe, até a lua subir bem alto por cima do pé de goiaba.
Naquela noite Bartolomeu dormiu na cama de palha, e Tico dormiu numa esteirinha dobrada do lado. Nenhum dos dois acordou no meio da noite. Nenhuma porta rangeu. Nenhuma luz acendeu.
De manhã, o primo da cidade espreguiçou até estalar as costas, olhou em volta e disse que fazia anos que não dormia uma noite inteira daquele jeito.
Ficou mais três dias. Aprendeu o nome do córrego, comeu semente de girassol sem reclamar e chegou a admitir que rapadura raspada tem lá o seu valor.
Depois arrumou a gravata-borboleta, pegou a bengala e voltou para a casa grande, porque a casa grande era a casa dele, e a gente sempre volta para a nossa.
Mas combinaram uma coisa antes de se despedir: uma vez por ano Tico ia à cidade provar a geleia, e uma vez por ano Bartolomeu vinha à roça dormir a noite inteira.
E foi assim que ficou.
Hoje, se você passar por um milharal numa noite quente e ficar bem quietinho, talvez escute o vento fazendo aquele barulho comprido de papel amassado devagar.
Se escutar, é sinal de que está tudo certo por lá.
Boa noite, Tico. Boa noite, Bartolomeu.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Se você fosse o Tico, teria ido conhecer a cidade ou teria ficado no milharal?
- O Bartolomeu vivia num lugar cheio de comida e mesmo assim dormia mal. Por que será?
- Qual é o barulho da sua casa que você gosta de escutar antes de dormir?
Sobre esta história
Esta é uma recontagem da fábula de Esopo conhecida como O Rato do Campo e o Rato da Cidade, contada na Grécia por volta do século VI a.C. Ela chegou até nós por caminhos famosos: o poeta romano Horácio a colocou em verso nas Sátiras (livro II, sátira 6), por volta do ano 30 a.C., e o francês Jean de La Fontaine a publicou em suas Fábulas, em 1668, com o título Le Rat de ville et le Rat des champs. Todas essas versões são de domínio público, e é delas que este texto sai. Nossa versão mantém a viagem, o banquete em cima da mesa e a interrupção assustadora, mas suaviza o susto: aqui aparecem um gato e dois cachorros, ninguém se machuca e ninguém é perseguido até o fim. Também demos nomes aos dois primos e alongamos a volta para casa, que no original cabe em duas linhas. Não usamos nada das adaptações feitas depois para o cinema ou para o desenho animado.
Perguntas frequentes sobre O Ratinho do Campo e o Ratinho da Cidade
Qual é a moral da fábula do ratinho do campo e o ratinho da cidade?
A moral tradicional diz que é melhor uma comida simples em paz do que um banquete comido com medo. Nesta recontagem a ideia aparece de um jeito mais suave: cada um dos primos descobre onde consegue dormir tranquilo, sem tentar convencer o outro a mudar de vida.
Esta história é assustadora para crianças pequenas?
Não. O susto do gato e dos cachorros dura poucas linhas, os dois se escondem a tempo e ninguém se machuca. Depois disso a história vai desacelerando até terminar com todo mundo dormindo, o que costuma funcionar bem na hora de deitar.
Quem escreveu a fábula do rato do campo e do rato da cidade?
A origem é de Esopo, fabulista grego do século VI a.C., e a história circulou muito tempo de boca em boca. As versões escritas mais conhecidas são a de Horácio, nas Sátiras, e a de La Fontaine, de 1668. Todas são de domínio público.
Para que idade esta história é indicada?
Dos 4 aos 8 anos. Tem diálogo suficiente para fazer vozes diferentes, as duas casas são fáceis de imaginar e o final é calmo o bastante para ler já com a luz baixa.


