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Contos para Dormir

A Rena que Tirou um Cochilo na Rede

Era o primeiro Natal da Pirueta puxando o trenó, e o calor do Brasil foi demais para ela. Quem cuidou da rena cansada foi uma menina de pijama verde, com a ajuda de todos os bichos do quintal.

Daniel Otto ·

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Ilustração do conto A Rena que Tirou um Cochilo na Rede

Naquele ano, pela primeira vez, a Pirueta ia puxar o trenó do Natal.

Ela era a mais nova de todas as renas e tinha os menores chifres da turma: dois galhinhos finos, ainda sem as pontas. As outras renas tinham chifres enormes, cheios de ramos, que balançavam ao vento como árvores de inverno. Os da Pirueta pareciam duas varetas.

Mas o Papai Noel tinha olhado para ela, em outubro, e dito:

— Este ano, vai ser você na ponta de trás, no lado esquerdo.

A Pirueta quase desmaiou de felicidade. Passou novembro inteiro treinando. Passou dezembro inteiro sem dormir direito, de tanta ansiedade.

E agora, na noite de Natal, depois de quarenta e duas casas, quatro países e duas travessias de mar, ela voava com os olhos pesados e as pernas moles.

— Tudo bem aí atrás? — perguntou a Cometa, a rena mais velha, sem virar a cabeça.

— Ótima! — respondeu a Pirueta, e bocejou no meio da palavra.

Um trenó puxado por renas voando sobre um mar prateado de lua, em direção a uma costa com luzinhas, e na ponta de trás a rena menor, de chifres finos, bocejando

O ar foi mudando. Lá em cima, onde as renas moravam, o ar era seco e cortante. Agora ele estava quente e úmido, cheirando a terra molhada e a fruta madura. A Pirueta tinha um pelo grosso, feito para o frio, e começou a sentir que estava dentro de um cobertor.

Cada batida de asas dava mais trabalho. O trenó começou a pesar nas costas dela, e o sino do arreio fez tlin, depois tlin, depois um tlin bem devagar.

Lá embaixo apareceu um sítio no escuro: uma casa baixa, uma varanda, uma estradinha de terra e, no quintal, uma mangueira enorme.

A Pirueta olhou para a copa da mangueira, grande e fresca, e pensou: só um minutinho de sombra.

Foi a última coisa que ela pensou de pé.

O Papai Noel sentiu o trenó balançar, olhou para trás e viu a rena menor descendo em curva, cada vez mais lenta, até pousar de leve na terra batida, debaixo da mangueira. Ele fez o trenó descer atrás dela, sem barulho, e se ajoelhou do lado da Pirueta.

— Estou bem — disse ela, com um fiapo de voz. — Eu só... fechei os olhos um pouquinho.

— Eu sei — disse o Papai Noel, com a voz grossa e macia. — E é por isso que você vai ficar aqui.

A Pirueta quis protestar, mas não achou força.

— Quem voa dormindo puxa torto, Pirueta — continuou ele. — E o trenó não pode puxar torto. Descanse. Eu termino as últimas casas daqui e passo para buscar você antes de o dia nascer. Combinado?

— Mas eu ia puxar o trenó a noite inteira...

— E vai puxar muitos outros anos. Uma rena que sabe a hora de parar é a melhor rena que existe.

Ele ajeitou o laço vermelho no pescoço dela, subiu no trenó e foi embora, subindo entre as estrelas, com o sino cada vez mais baixinho.

A Pirueta ficou sozinha embaixo da mangueira. Estava cansada demais para dormir e quente demais para ficar parada.

A rena menor deitada na terra batida embaixo de uma mangueira grande, à noite, enquanto o Papai Noel, ajoelhado ao lado dela, a cobre com carinho, e o trenó espera atrás

Na varanda da casa, uma menina de pijama verde estava acordada.

Chamava-se Lia, tinha sete anos e não conseguia dormir. Era véspera de Natal, o calor parecia uma mão pesada em cima da cama, e ela tinha ouvido, lá longe, um barulhinho de sino.

Ela saiu de mansinho, descalça, pisando só nas tábuas que não rangiam. Atravessou a varanda, desceu os dois degraus e parou.

Embaixo da mangueira, uma rena pequena, de chifres finos e pelo grosso, respirava rápido, de boca aberta.

— Ai, minha nossa — sussurrou a Lia.

A rena abriu um olho.

— Você está com calor — disse a Lia, que sempre reparava nessas coisas. — Eu também fico assim quando esqueço de tirar o casaco no ônibus.

A Pirueta fez que sim com a cabeça, sem forças.

— Fica aí — disse a Lia. — Eu já volto.

Voltou com a bacia de água do filtro e um pano de prato molhado. Colocou a bacia na frente da rena, que bebeu tudo de uma vez. Depois torceu o pano e passou, bem de leve, na testa e no pescoço dela.

A Pirueta soltou um suspiro tão fundo que balançou as folhas da mangueira.

Mas ainda estava muito quente.

— Você precisa de ajuda — disse a Lia. — E eu não dou conta sozinha.

O quintal do Vô Tonho era cheio de gente.

Primeiro chegou a Dona Maricota, a jumenta, grande, cinzenta e sempre calma. Ela olhou a rena, olhou a Lia e se posicionou entre a Pirueta e o resto do quintal, bem de lado, para fazer sombra no lugar que a lua iluminava.

Depois chegou o Tampinha, o cachorro, que era pequeno e amarelo e passava o dia inteiro correndo atrás da própria cauda. Naquela noite ele se deitou aos pés da rena, em silêncio, e ficou espantando os mosquitos com o rabo.

Por último chegou o Seu Aurélio, o galo, de crista vermelha e muito orgulhoso do próprio canto. Estava com o bico aberto para cantar, achando que já era de manhã.

— Psiu! — disse a Lia, de dedo na boca. — Hoje não. Hoje é noite de dormir.

O Seu Aurélio fechou o bico, ficou ofendido por uns três segundos e depois subiu na cerca, bem quietinho, de vigia.

Uma menina de pijama verde descalça, com uma bacia d'água e um pano úmido, cuidando de uma rena pequena deitada na terra, enquanto uma jumenta cinzenta faz sombra, um cachorro amarelo pequeno se deita aos pés dela e um galo vigia da cerca

— Pronto — disse a Lia, olhando em volta. — Agora ela está cuidada. Mas ainda não está dormindo.

A Pirueta se mexeu, incomodada. A terra do chão era dura e quente, mesmo à noite. Ela se virava para um lado, depois para o outro, e nenhum jeito parecia o certo.

A Lia ficou pensando. Olhou para a mangueira. Olhou para o poste da varanda. E teve uma ideia.

— Espera aqui — disse ela, o que era uma coisa meio boba de falar para uma rena que não conseguia levantar.

Entrou em casa na ponta dos pés. No fundo do corredor, pendurada num gancho, estava a rede velha da avó, de listras azuis e brancas, que ninguém usava desde o ano passado.

Era pesada. A Lia arrastou do gancho até a varanda, da varanda até o quintal, parando duas vezes para respirar. Na terceira vez, uma coisa quente e peluda encostou no ombro dela: era a Dona Maricota, que pegou uma ponta da rede com os dentes e foi levando, devagar, até a mangueira.

— Obrigada, Dona Maricota — sussurrou a Lia.

Amarrou uma ponta no tronco da mangueira, com o nó que o Vô Tonho tinha ensinado, o de marinheiro. Amarrou a outra no poste do curral. A rede ficou esticada, baixinha, a meio palmo do chão, balançando um pouco com o vento.

A Pirueta olhou aquilo sem entender.

— É uma rede — explicou a Lia. — A gente dorme nela quando faz calor. O ar passa por baixo, e ela balança. Sobe aqui.

A rena subiu com cuidado, primeiro as patas da frente, depois as de trás, e a rede cedeu, esticou e acomodou o corpo dela inteiro, como um abraço comprido.

A Pirueta fechou os olhos.

Ela nunca tinha dormido numa coisa que se mexia. Lá no norte, onde morava, o chão era sempre firme e frio. Aqui, o mundo inteiro parecia embalar devagar, para um lado e para o outro, igual ao trenó nos primeiros minutos do voo, só que muito mais macio.

— Como é que chama isso? — murmurou ela.

— Chama rede — disse a Lia. — E chama balanço de rede. É o melhor do mundo.

Uma menina de pijama verde puxando uma rede de listras azuis e brancas, amarrada no tronco de uma mangueira, com uma jumenta ajudando e uma rena pequena observando curiosa

A Lia sentou no banco de madeira, ao lado da rede, e começou a empurrar com a ponta do pé, de leve, no ritmo de uma respiração.

Ia e vinha. Ia e vinha.

O quintal ficou quieto. Os grilos cantaram baixinho, de tempos em tempos. Um sapo, lá longe, respondeu com uma nota só. A coruja da mangueira, que tinha acordado com a movimentação, olhou, olhou, piscou e voltou para o galho.

— Eu conheço uma cantiga — disse a Lia. — A minha avó cantava para mim, quando eu era pequena. Quer ouvir?

A Pirueta não respondeu. Mas as orelhas dela viraram para o lado da Lia.

A Lia cantou. Não era uma cantiga com palavras difíceis nem melodia complicada. Tinha poucas notas, repetidas, e falava de um boi, de uma lua e de um sono que vinha chegando de mansinho. Ela cantou a primeira vez devagar, a segunda mais devagar ainda, e na terceira já não sabia se estava cantando ou só respirando no ritmo.

— Lia — disse a Pirueta, bem baixinho, com os olhos fechados. — Você acha que o Papai Noel vai ficar bravo?

— Bravo por quê?

— Porque eu parei no meio do caminho.

— Ele mesmo falou para você parar — lembrou a Lia. — Eu ouvi. A janela do meu quarto dá para cá.

— Ele falou?

— Falou. Disse que uma rena que sabe a hora de parar é a melhor de todas.

A Pirueta ficou quieta um tempo. Depois, bem devagar, o canto da boca dela subiu.

— A melhor de todas — repetiu.

E o balanço da rede foi diminuindo, diminuindo, até virar só um movimento pequeno, de quem já não precisa de empurrão.

Uma rena pequena adormecida numa rede listrada de azul e branco debaixo de uma mangueira, à noite, com uma menina de pijama verde sentada ao lado num banco, empurrando de leve com o pé, e pirilampos flutuando entre as folhas

A Lia ficou olhando a rena dormir. Ela tinha a respiração lenta e o peito subindo e descendo, e uma pata da frente se mexia de vez em quando, como quem sonha que está correndo.

A Lia bocejou. Primeiro uma vez, depois outra.

Tinha ficado a noite inteira esperando o Papai Noel, de olho aberto, na varanda. E agora que ele tinha passado, e deixado uma rena para ela cuidar, o sono chegou todo de uma vez.

Ela encostou a cabeça no encosto do banco. O Tampinha subiu e se enrolou no colo dela. A Dona Maricota se deitou com um suspiro no capim, ali ao lado. O Seu Aurélio, na cerca, escondeu a cabeça debaixo da asa.

E a Lia dormiu.

Foi assim que o Vô Tonho encontrou todo mundo, quando saiu da casa, de chinelo e camiseta, atrás de um copo d'água.

Ele parou no meio do quintal.

Olhou a neta no banco, de boca aberta, com o cachorro no colo. Olhou a Dona Maricota deitada no capim, o galo dormindo na cerca e a rede da avó pendurada na mangueira. E dentro da rede, balançando de leve, uma rena de laço vermelho.

O Vô Tonho esfregou os olhos. Depois, bem devagar, sorriu por baixo do bigode branco.

Voltou à varanda sem fazer um ruído, pegou a manta de crochê do sofá e cobriu a Lia até o queixo. Em seguida olhou para o céu, cheio de estrelas, e tocou na aba do chapéu de palha, que ele estava usando mesmo de madrugada.

— Boa noite, compadre — disse ele para o céu, em voz baixa. — Pode ficar tranquilo. Eles estão todos aqui, bem cuidados.

Um velho de bigode branco e chapéu de palha cobrindo com uma manta de crochê uma menina adormecida num banco, ao lado de uma rede onde dorme uma rena, sob um céu de estrelas com um pequeno trenó distante

Lá longe, no alto, um sino fez tlin.

Era o trenó voltando, e vinha bem devagar, sem pressa e sem barulho. O Papai Noel desceu até o quintal e pousou na terra macia, debaixo da mangueira. Olhou a rena na rede. Olhou a menina no banco, a jumenta no capim, o galo dormindo de pé.

Ele já ia acordar a Pirueta, mas ficou olhando mais um instante.

— Mais cinco minutinhos — disse, para ninguém.

Sentou no chão, encostado no tronco da mangueira, com as botas esticadas, e fechou os olhos só um pouquinho, só para descansar as costas.

A noite estava quente e calma. A rede balançava de leve. Os grilos cantavam baixinho, e de vez em quando um sapo respondia. Lá em cima, as estrelas piscavam devagar, uma de cada vez.

O sítio inteiro dormia: a menina, o cachorro, a jumenta, o galo, a rena, o avô na varanda, e até o Papai Noel, encostado na mangueira, com um sorriso no rosto.

Faltava ainda muito para o dia nascer.

Boa noite, Lia. Boa noite, Pirueta. Boa noite, Vô Tonho. Boa noite, Dona Maricota, Tampinha e Seu Aurélio.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. A Pirueta estava com tanto calor que nem conseguia voar direito. O que a Lia fez para ela se sentir melhor?
  2. Cada bicho do quintal ajudou do seu jeito. Qual deles você mais gostou, e por quê?
  3. Se você estivesse puxando o trenó a noite inteira, de que você ia precisar para descansar um pouquinho?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir. A rena Pirueta, a menina Lia, o Vô Tonho e os bichos do sítio foram inventados para este conto. A ambientação é de Natal brasileiro de verão, com noite quente, quintal de terra batida, pé de manga e rede de varanda, e a história usa o calor, o balanço da rede e os sons do campo como ritmo de ninar.

Perguntas frequentes sobre A Rena que Tirou um Cochilo na Rede

Quanto tempo leva para ler esta história?

Cerca de 16 minutos em voz alta, num ritmo calmo. Dá para dividir em duas noites: a primeira termina quando a Lia amarra a rede, e a segunda começa com a Pirueta se deitando nela.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 8 anos. Os menores gostam de reconhecer os bichos do quintal e os sons que eles fazem; os maiores costumam se identificar com a Pirueta, que tem vergonha de admitir que está cansada.

Esta história de Natal é religiosa?

Não. O Papai Noel e as renas aparecem como personagens de fantasia, e o centro da história é o cuidado de uma criança com um animal cansado. Serve para qualquer família.

O final é tranquilo para a hora de dormir?

É. Todo o último trecho acontece com o sítio quieto, a rede balançando e os personagens adormecendo um por um. Não há susto em nenhum momento.

Que tal a história de amanhã?