Contos para Dormir
Ilustração do conto A Primeira Noite de Natal

A Primeira Noite de Natal

Uma viagem longa, uma cidade cheia, um estábulo emprestado — e uma estrela que ficou parada no céu a noite inteira.

Numa noite fria, numa cidade lotada, um estábulo emprestado virou o lugar mais importante do mundo

Naquele tempo, o imperador mandou que todas as famílias voltassem para a cidade de origem para serem contadas num grande recenseamento.

Foi assim que Maria e José tiveram que viajar.

Eles moravam em Nazaré e precisavam chegar a Belém — uns cem quilômetros de estrada de terra, subindo e descendo morro. Hoje isso é uma viagem de carro. Naquela época, era mais de uma semana andando, com um jumento carregando o que dava.

E Maria estava esperando um bebê. Bem no fim da espera.

A Estrada

Foram devagar.

Paravam mais do que o normal, porque José ficava preocupado. Dormiam onde dava — debaixo de árvore, em pousada barata quando havia, no chão quando não havia.

À noite fazia frio, daquele frio seco de deserto que entra pela roupa.

Toda vez que paravam, José perguntava:

— Você está bem?

E Maria respondia que sim, mesmo quando estava cansada demais para conversar.

A Cidade Cheia

Quando finalmente avistaram Belém, no fim do oitavo dia, encontraram um problema.

A cidade estava tomada.

Todo mundo tinha voltado ao mesmo tempo, por causa da mesma ordem. As ruas estreitas fervilhavam de gente, de bicho, de bagagem. E as hospedarias estavam todas lotadas.

José bateu numa porta. Não tinha lugar.

Bateu na segunda. Não tinha lugar.

Bateu na terceira, na quarta, na quinta. Em algumas nem abriram.

Estava ficando tarde. O frio aumentando. E Maria já não estava mais conseguindo disfarçar o cansaço.

O Homem que Ofereceu o Pouco

Numa das últimas portas, um homem abriu, olhou para o casal e viu a situação.

— Não tenho quarto — disse ele. — Está tudo ocupado, de verdade.

José agradeceu e ia se virando para ir embora quando o homem falou de novo:

— Espera.

Ele coçou a cabeça, sem jeito.

— Eu tenho um estábulo aqui atrás. É onde ficam os bichos. É quente, porque eles esquentam. Tem palha limpa. Não é lugar de gente, mas...

— A gente aceita — disse José, antes que ele terminasse.

O homem levou os dois até lá, com uma lamparina na mão. Era um cômodo baixo, cheirando a feno e animal, com uma vaca, alguns carneiros e um burro que olhou para os recém-chegados com desconfiança e depois voltou a comer.

Não era o que ninguém teria escolhido.

Mas era um teto, era quente, e estava ali quando fez falta.

O Nascimento

Os pastores chegam guiados pela estrela

O menino nasceu naquela noite.

Maria o enrolou em panos e o colocou para dormir na manjedoura — que é o cocho onde se põe a comida dos bichos —, forrada com palha limpa.

O estábulo ficou muito quieto.

Os animais pararam de mastigar. Do lado de fora, dava para ouvir a cidade se aquietando aos poucos, as vozes ficando esparsas, as lamparinas se apagando uma a uma nas janelas.

E, lá em cima, apareceu no céu uma estrela que ninguém tinha visto antes.

Era grande. Baixa. E ficou parada exatamente sobre aquele ponto, a noite inteira, brilhando tanto que fazia sombra no chão.

Os Pastores

A poucos quilômetros dali, nos campos, alguns pastores passavam a noite acordados tomando conta das ovelhas — que é o que pastor faz de madrugada, porque é quando o rebanho corre mais perigo.

Eles eram gente simples. Trabalho pesado, roupa suja, mãos calejadas. Não eram o tipo de pessoa que costumava receber notícia importante antes de ninguém.

Naquela noite, foram os primeiros a saber.

Levantaram-se assustados, deixaram tudo e foram a pé até Belém, procurando o lugar exato — que não foi difícil de achar, porque havia uma estrela parada em cima dele.

Chegaram ao estábulo com o barro do campo ainda nos pés.

E ficaram ali na porta, sem coragem de entrar, até Maria fazer sinal para que entrassem.

Os Visitantes de Longe

Muito tempo depois — não naquela noite, como os presépios costumam mostrar, mas meses ou até anos mais tarde —, chegaram outros visitantes.

Vinham de muito longe, do lado de lá do deserto. Eram estudiosos do céu, gente que passava a vida anotando o movimento das estrelas, e tinham visto aquela luz nova aparecer.

Seguiram a estrela por meses de viagem.

Quando finalmente encontraram o menino, abriram o que traziam: ouro, incenso e mirra — presentes caros, dos que se levam a um rei.

Ninguém sabe quantos eram. A tradição fala em três porque os presentes eram três, mas o texto antigo não diz o número.

A Noite Que Ficou

Dizem que o dono do estábulo nunca se acostumou com a ideia.

Ele havia oferecido a única coisa que tinha sobrando, num dia em que estava cansado e a casa estava cheia, para um casal que ele não conhecia.

Poderia ter dito que não. Ninguém teria achado ruim — a cidade inteira estava dizendo não naquela noite.

Dizem que, anos depois, quando as pessoas começaram a contar essa história, ele ficava quieto num canto, ouvindo.

E que, quando alguém perguntava se era verdade que tinha sido no estábulo dele, ele respondia sempre a mesma coisa:

— Era o que eu tinha.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. O dono do estábulo ofereceu o que tinha, mesmo sendo pouco. Isso conta como presente?
  2. Os pastores estavam trabalhando de madrugada quando foram avisados. Por que você acha que foram eles os primeiros a saber?
  3. O que a sua família faz na noite de Natal?

Sobre esta história

Recontagem infantil da narrativa do nascimento de Jesus, presente nos evangelhos de Lucas e Mateus. Alguns detalhes que aparecem em presépios pelo mundo — como o número de visitantes que seguiram a estrela — vêm da tradição popular formada ao longo dos séculos, e não do texto original. O texto desta página é nosso.

Perguntas frequentes sobre A Primeira Noite de Natal

Esta é a história do primeiro Natal?

Sim. É a narrativa do nascimento de Jesus, recontada em linguagem simples para crianças, a partir do que aparece nos evangelhos de Lucas e Mateus.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 8 anos. É uma boa leitura para a época do Natal, especialmente na véspera, e ajuda a criança a entender o que os presépios representam.

Quanto tempo leva para ler?

Cerca de 7 minutos em voz alta. Cabe bem na noite do dia 24, antes de dormir.

Que tal a história de amanhã?