
A Cigarra e a Formiga
Uma cantou o verão inteiro, a outra carregou grãos o verão inteiro. Quando o frio chegou e a portinha do formigueiro se abriu, ninguém no vale esperava o que veio depois.
Um verão inteiro de música, um inverno inteiro de silêncio — e uma porta pequena no pé do morro
Havia no vale um ipê velho, torto de um lado, que ninguém podava e ninguém derrubava.
Era torto porque tinha nascido em cima de uma pedra e precisou se virar para achar sol. Ninguém se lembrava de um tempo sem ele ali.
No galho mais baixo morava uma cigarra chamada Zezé. Zezé tinha asas transparentes com um brilho esverdeado, do jeito das cigarras, e um lenço vermelho amarrado no pescoço que ela achou num varal e nunca mais devolveu. Debaixo da asa levava um violino de madeira do tamanho de uma folha seca.
E cantava.
Cantava de manhã, quando o sol ainda estava fresco. Cantava ao meio-dia, quando o calor fazia o ar tremer em cima da estrada de terra. Cantava no fim da tarde, quando as sombras esticavam e o vale inteiro cheirava a capim quente.
— Zi-zi-ziiii — dizia o violino.
— Zi-zi-ziiii — respondia o vale.
Ela cantava sobre o que via, e via muita coisa daquele galho. Cantava a poeira que subia atrás do caminhão de leite. Cantava o cachorro amarelo que mudava de lugar conforme a sombra da cerca andava. Cantava o rio, que naquele mês estava baixo e mostrava as pedras.
E nos dias em que não tinha nada para ver, inventava.
Quem passava assobiava junto sem perceber. Fazia tantos verões que era assim que ninguém no vale sabia mais separar uma coisa da outra: o verão era a música, e a música era o verão.

A fila que passava embaixo do galho
Debaixo do ipê passava uma trilha estreita, batida de tanto pé miúdo.
E na trilha passava a fila.
A fila era das formigas. Saía de uma portinha redonda no pé do morro, atravessava o capim, chegava até o campo de trigo e voltava carregada.
Vista lá de cima, a fila parecia um fio escuro esticado no chão, se mexendo devagarinho.
A primeira da fila chamava-se Tereza.
Tereza era vermelho-escura, tinha olhos grandes e usava um avental de folha verde amarrado na cintura. Levava nas costas um grão de trigo maior que a cabeça dela.
Era ela quem abria a trilha de manhã, tirando do caminho o graveto que tinha caído durante a noite. Era ela quem contava os sacos no fim do dia. E era ela quem, quando alguma formiguinha tropeçava e derrubava a carga, voltava dez passos para ajudar a juntar tudo de novo, sem dizer nada e sem fazer cara feia.
— Bom dia, Tereza! — gritava Zezé lá de cima.
— Bom dia, Zezé — respondia Tereza, sem parar de andar.
— Sobe aqui um pouco! Daqui a gente vê o rio.
— Não posso. Tenho grão.
— Sempre tem grão.
— Sempre tem grão — concordava Tereza. — Por isso não posso.
E seguia. Um grão. Outro grão. Mais um grão.
Nunca era o último. O último grão do campo de trigo não existe: sempre tem mais um logo ali, e é por isso que a fila não acabava nunca.
Zezé olhava a fila sumir na curva, dava de ombros, ajeitava o lenço vermelho e encostava o violino no ombro.
— Zi-zi-ziiii.

O verão é comprido
O verão passou assim, e foi um verão comprido daqueles.
Todo dia a mesma conversa, até virar costume.
— Descansa cinco minutos, Tereza.
— Depois eu descanso.
— O verão é comprido — dizia Zezé.
— O verão é comprido — respondia Tereza. — O inverno é mais.
No primeiro mês o depósito do formigueiro tinha um canto cheio. No segundo tinha uma parede inteira. No terceiro as formigas já andavam de lado nos corredores, de tanto saco encostado.
E Zezé não guardou nada, porque cigarra não guarda: come o que acha no dia, dorme onde o galho deixa e canta o que sente.
Uma vez ela até tentou. Achou três sementes bonitas, empilhou num buraquinho do tronco e ficou orgulhosa a manhã inteira. À tarde bateu uma fome, e as três sementes eram exatamente do tamanho da fome.
Numa tarde do fim do verão, com o sol baixando alaranjado, Tereza parou.
Parou mesmo, no meio da trilha, com o grão nas costas. Inclinou a cabeça e ficou ouvindo.
A formiga de trás esbarrou nela.
— Por que você parou?
— Por nada — disse Tereza, e voltou a andar.
Mas não era por nada. É que a música tinha chegado num pedaço comprido e macio, desses que fazem a gente lembrar de coisa que nem aconteceu, e por um instante o grão pareceu mais leve nas costas dela.
Naquela noite, já lá embaixo, uma formiguinha nova perguntou:
— Tereza, o que a gente faz no inverno?
— A gente espera.
— A gente espera fazendo o quê?
Tereza abriu a boca e não achou resposta. Ficou assim um tempo, o que numa formiga tão certinha era esquisito de ver.
— A gente espera — repetiu, por fim. — Dorme e espera.

O dia em que o vento virou
O frio não avisa. Ele vira o vento de um lado para o outro numa madrugada só, e de manhã o mundo está diferente.
Zezé acordou com as asas geladas.
O ipê tinha soltado as folhas quase todas de uma vez, e o galho onde ela morava ficou pelado, com jeito de osso. O capim amarelou. O campo de trigo virou terra vazia, sem um grão sobrando.
Ela saiu atrás de comida. Andou a manhã inteira, e a tarde também.
Procurou embaixo das folhas caídas, que estavam vazias. Procurou na beira do rio, que tinha subido e levado tudo. Procurou no chão do campo colhido, e o que achou foi palha.
Achou uma semente seca no primeiro dia e meia semente no segundo. No terceiro não achou nada.
O vento entrava por baixo do lenço vermelho e saía por cima. Zezé abraçou o violino, mais para segurar alguma coisa do que para tocar.
Tentou tocar assim mesmo, de teimosia. Saiu um som fininho, tremido, que o vento levou embora antes de virar música.
Foi a primeira vez na vida dela que o vale ficou quieto.
E o vale, sem a música, ficou grande demais.
Dava para ouvir o vento entre os galhos pelados, e uma porteira longe batendo sozinha. Zezé nunca tinha reparado nesses barulhos, porque a vida inteira tinha tocado por cima deles.
Na quarta noite começou a chover — não chuva de verão, dessas que passam rindo, mas uma chuva fina e cinzenta que molha devagar e não tem pressa de acabar.
Zezé olhou para o pé do morro.
Lá embaixo, no escuro, havia uma portinha redonda de madeira. E por baixo da porta saía um fiozinho de luz amarela.

A porta pequena no pé do morro
Ela desceu.
Desceu devagar, porque asa molhada não obedece direito, e porque a cada passo pensava em voltar.
Na metade do caminho parou e ensaiou o que ia dizer. Ensaiou três frases diferentes. A primeira parecia pedido demais. A segunda parecia desculpa demais. A terceira ela esqueceu no meio.
Chegou na porta. Era menor do que ela imaginava de cima, e mais gasta, com a madeira lisa de tanta patinha empurrando.
Depois bateu.
Toc. Toc-toc.
Nada.
Bateu de novo, um pouquinho mais forte, e a chuva escorria do lenço vermelho para o chão de terra.
Toc. Toc-toc.
Do outro lado, ouviu-se um arrastar de passos miúdos. Uma voz perguntou alguma coisa, outra voz respondeu, e as duas ficaram discutindo baixinho.
Zezé esperou. A chuva pingava do beiral de raiz em cima da cabeça dela, uma gota de cada vez, sempre no mesmo lugar.
Ela pensou em ir embora antes que alguém abrisse. Chegou a dar meio passo para trás.
Depois encostou a testa na madeira.
— Sou eu — disse ela. — A do galho.
Silêncio.
— Eu sei que é tarde. Eu sei o que vocês vão dizer. Eu não guardei nada.
Mais silêncio.
— Só queria ficar perto da porta. Do lado de dentro do vento. Nem precisa entrar.
Então a trava correu.
A porta abriu um palmo, depois abriu inteira, e a luz amarela do corredor bateu na cara molhada da Zezé de um jeito que ela precisou fechar os olhos.
Na soleira estava Tereza, com o avental de folha e uma cara difícil de ler.
— Você está pingando na minha entrada — disse ela.
— Estou.
— Entra logo, então.

O empréstimo
Lá dentro era quente.
O corredor descia em curva, forrado de raízes finas, e nas paredes havia vaga-lumes velhos em potinhos de casca, piscando devagar. Cheirava a terra e a trigo moído.
Sentaram numa salinha redonda, de teto baixo, com um banquinho de casca de noz e uma manta de algodão dobrada num canto.
Tereza empurrou para ela uma tigela de mingau de trigo, e Zezé comeu tudo sem dizer palavra, o que para uma cigarra é um recorde.
— Obrigada — disse ela no fim. — Amanhã cedo eu saio.
— Sai para onde?
Zezé não respondeu, porque não havia para onde.
Tereza cruzou os braços e ficou olhando um ponto da parede, do jeito de quem está fazendo conta. E estava fazendo mesmo: contava sacos de cabeça.
— Sabe quanto tempo dura o inverno aqui embaixo? — perguntou.
— Não.
— Três meses. Três meses de porta fechada, sem entrar um grão a mais aqui dentro. — Ela apontou o corredor com o queixo. — Tem trigo para três meses e um tiquinho. O tiquinho é o que sobra, e o que sobra é nosso.
— Eu sei — disse Zezé, baixinho. — E eu não tenho com o que pagar.
— Agora não tem.
Tereza descruzou os braços.
— Eu não vou te dar o trigo. Eu vou te emprestar — disse ela. — Você come do que é nosso o inverno inteiro. E quando o trigo estiver de pé outra vez lá no campo, você desce aqui e me paga, grão por grão, andando na fila que nem todo mundo. Antes que a colheita acabe.
Zezé olhou para a porta fechada, para a chuva do lado de fora, para a tigela vazia na frente dela.
— Grão por grão?
— Grão por grão. — Tereza estendeu a patinha. — Palavra de bicho.
Zezé encostou a patinha molhada na patinha dela.
— Palavra de bicho.

O inverno que teve música
O inverno lá embaixo foi comprido do jeito que Tereza tinha avisado.
A porta ficava fechada, ninguém saía, e como não acontecia nada, também não havia muito o que conversar. Numa tarde do primeiro mês, Zezé ouviu no fundo do corredor uma formiguinha chorando — daquele choro sem motivo que dá em quem está fechado há tempo demais.
Então ela foi buscar o violino.
Ninguém tinha pedido. Não estava combinado, não abatia nada da dívida, e Tereza fez questão de deixar isso claro logo na primeira noite:
— Isso aí não desconta um grão.
— Eu sei — disse Zezé. — Não é pagamento. É que eu não sei ficar quieta.
E foi assim o inverno inteiro. Todo fim de tarde — porque mesmo debaixo da terra as formigas sabem quando é fim de tarde —, Zezé se sentava no degrau mais alto da sala redonda, ajeitava o lenço vermelho e encostava o violino no ombro.
— Zi-zi-ziiii.
As formiguinhas paravam de brigar. As velhas paravam de remendar saco. Tereza encostava na parede, com o avental amassado de um dia inteiro de conserto, e deixava os braços caírem.
Teve música de manhã de neblina, rápida, para acordar todo mundo. Teve música de meio do dia, para quem estava com as patas ocupadas.
E teve, no fim de tudo, a música mais lenta, que Zezé inventou ali mesmo e que servia para uma coisa só: fazer o corredor inteiro ficar quieto de sono.
O inverno passou sem que ninguém contasse os dias, o que naquele formigueiro era novidade.
O primeiro dia de sol
Numa manhã, a luz voltou a entrar pela fresta da porta.
Tereza abriu a trava. Lá fora o capim estava molhado, verde de novo, e o ipê velho tinha começado a soltar as primeiras flores amarelas.
As duas ficaram sentadas na soleira, sem pressa, olhando o vale acordar.
— Você vai subir de novo — disse Tereza.
— Vou. — Zezé ajeitou o lenço vermelho. — Depois.
E foi depois mesmo.
Quando o trigo ficou de pé outra vez lá no campo, apareceu na trilha uma cigarra de lenço vermelho, sem violino, andando atrás da última formiga da fila.
Ninguém comentou nada. Tereza olhou de longe e não disse uma palavra, que era o jeito dela de dizer bom dia.
Cigarra não foi feita para carregar grão, e deu para notar. Zezé derrubava a carga nas curvas. Cansava antes do meio-dia. Voltava dez passos para juntar o que tinha caído.
Mas voltava.
Levou muitos dias. Numa tarde, Tereza contou os sacos como contava sempre, ficou um tempo parada olhando a conta e disse:
— Está pago.
— Está pago — repetiu Zezé, que já não sentia os ombros.
— Então sobe.
E ela subiu.
Naquele verão a fila voltou a passar embaixo do ipê, um grão, outro grão, mais um grão, e a música voltou a cair de cima do galho na cabeça de quem passava.
Só que agora, quando o sol baixava e as sombras esticavam, a primeira da fila parava um instantinho no meio da trilha.
Ficava ali, com o grão nas costas, ouvindo.
E ninguém atrás dela reclamava.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- A Zezé cantou o verão inteiro e não guardou nada. Ela fez errado?
- A Tereza emprestou o trigo em vez de dar de presente. Por que será que ela fez assim?
- Se você fosse morar três meses embaixo da terra, o que levaria junto?
Sobre esta história
A fábula da cigarra e da formiga é atribuída a Esopo, que viveu na Grécia por volta do século VI a.C., e chegou até nós porque foi recontada por gente demais para caber numa lista — entre eles Fedro, em latim, e Jean de La Fontaine, nas Fábulas de 1668. Todas essas versões antigas são de domínio público, e é delas que este texto sai. O enredo é o de sempre: a cigarra canta o verão inteiro, a formiga carrega grãos, o frio chega e a cigarra bate à porta. Em La Fontaine a cigarra não pede esmola — ela pede emprestado, dando a palavra de que devolve o principal e os juros antes de agosto, e a formiga recusa. A única mudança de desfecho aqui é que a formiga aceita o empréstimo, e a cigarra paga mesmo a dívida quando o trigo cresce de novo; a promessa de pagamento já estava no texto de 1668. Não usamos nada das adaptações da fábula feitas depois para o cinema e o desenho animado.
Perguntas frequentes sobre A Cigarra e a Formiga
Qual é a moral da fábula A Cigarra e a Formiga?
A moral tradicional é que quem se prepara com antecedência atravessa melhor a época difícil — a formiga guardou comida no verão e por isso passou o inverno tranquila. Nesta versão a lição continua inteira e ganha uma segunda parte: quem pede ajuda também assume um compromisso, e a cigarra volta na estação seguinte para pagar o que deve, grão por grão.
A fábula é de Esopo ou de La Fontaine?
As duas coisas. A história nasce com Esopo, na Grécia antiga, e ficou famosa no mundo todo na versão em versos de Jean de La Fontaine, publicada em 1668. Como as duas são de domínio público, qualquer pessoa pode recontá-las.
O final é triste? A formiga expulsa a cigarra?
Não. No texto antigo a formiga recusa o empréstimo e fecha a porta, e é um final duro para ler na hora de dormir. Aqui ela aceita emprestar o trigo, e a cigarra paga a dívida na estação seguinte. O conflito continua existindo — a cigarra passa frio e fome antes de bater na porta —, só o desfecho é resolvido de outro jeito.
Para que idade esta história é indicada?
Dos 4 aos 8 anos. É uma fábula com duas personagens fáceis de guardar, muita repetição para ler em voz alta e um final que desacelera de propósito, para ser lido já com a luz baixa.


