Contos para Dormir
Ilustração do conto O Pequeno Dino que Não Queria Dormir

O Pequeno Dino que Não Queria Dormir

Água, mais uma história, o rabo está torto: um filhote de dinossauro sempre tem uma última coisinha antes de fechar os olhos.

Equipe Contos para Dormir ·

Uma noite de lua cheia, um ninho de samambaias e seis coisinhas que ainda faltavam

No fundo do vale, onde o rio faz uma curva e depois desiste de correr depressa, havia um ninho de samambaias.

O ninho era fundo, macio e do tamanho exato. Dentro dele morava um filhote de dinossauro chamado Tito.

Tito era laranja, da cor de abóbora madura, com a barriga cor de creme e três placas redondas nas costas — ainda pequenas, do tamanho de três moedas grandes. No pescoço ele usava um lenço azul. O lenço era dele desde sempre, e ele não tirava nem para entrar no rio.

Tito gostava de quase tudo.

Gostava de correr no capim molhado de orvalho. Gostava de escorregar no barro da beira. Gostava de folha nova, dessas bem verdinhas que nascem na pontinha do galho e estalam quando a gente morde.

Só tinha uma coisa no mundo inteiro de que Tito não gostava.

Dormir.

E o motivo era simples. É que de noite acontecia coisa demais. O vento mexia nas árvores. Os bichos pequenos saíam. O céu enchia de pontinhos. E Tito achava um desperdício muito grande fechar os olhos justo na hora em que o vale ficava mais interessante.

A mãe do Tito era enorme, quente, e cheirava a folha de goiabeira. Quando ela se deitava em volta do ninho, fazendo uma curva com o corpo, o ninho virava o lugar mais seguro do mundo.

Toda noite era a mesma coisa.

A lua subia devagar por cima do morro. Os grilos começavam. O rio baixava o barulho, do jeito que a gente fala mais baixo dentro de casa.

E a mãe dizia:

— Hora de dormir, Tito.

E Tito dizia:

— Já vou.

E não ia.

A Primeira Coisinha

Naquela noite não foi diferente.

Tito se enrolou no ninho. Fechou os olhos. Contou até três. Abriu os olhos de novo.

— Mãe.

— Oi, filho.

— Falta uma coisinha.

— Que coisinha?

— Água — disse Tito. — Um golinho só.

A mãe não bufou. A mãe não disse "de novo?". A mãe levantou o pescoço, olhou para o filho por um instante e foi.

Caminhou até a beira do rio, sem pressa. Escolheu uma folha grande, dessas de fazer barquinho, dobrou as quatro pontas com cuidado e encheu de água até quase a borda.

Voltou devagar, para não derramar.

Tito bebeu.

Um golinho. Depois outro. Depois um terceiro, esse já sem sede nenhuma, só porque era gostoso.

— Acabou? — perguntou a mãe.

— Acabou.

— Então agora a gente dorme.

— Agora a gente dorme — disse Tito.

E não dormiu.

Filhote de dinossauro laranja bebendo água de uma folha dobrada em forma de barquinho, dentro de um ninho de samambaias

Mais Uma História

Passou um tempinho.

Os grilos continuavam. A lua tinha subido mais um pouco por cima do morro.

— Mãe.

— Oi, filho.

— Falta uma coisinha.

— Que coisinha?

— Uma história.

A mãe encostou o queixo na beirada do ninho, bem pertinho da orelha do Tito, e falou baixo, do jeito que se fala quando a casa já está no escuro.

— Era uma vez um caramujo.

— Era uma vez um caramujo — repetiu Tito, todo feliz.

— Esse caramujo queria atravessar uma pedra. A pedra era do tamanho de dez caramujos, e ele era do tamanho de um.

— E aí?

— E aí ele foi.

— Só isso?

— Só isso. Ele foi. Andou um pouquinho. Parou. Andou outro pouquinho. Parou. Levou a noite inteira.

— E não teve pressa nenhuma?

— Nenhuma. Caramujo não sabe ter pressa. Ele só sabe ir.

— E chegou?

— Chegou de manhã — disse a mãe. — E do outro lado tinha capim molhado, que é a comida preferida dos caramujos.

Tito ficou quieto um tempo, pensando no caramujo.

— Mãe.

— Oi.

— Mais uma.

— Essa era a última.

— A última de hoje ou a última de sempre?

— A última de hoje — disse a mãe, e riu com o nariz, uma risadinha curta.

— Então tá bom — disse Tito. — Agora a gente dorme.

— Agora a gente dorme.

E não dormiram.

Mãe dinossauro com o queixo apoiado na beirada do ninho contando uma história bem baixinho para o filhote de olhos arregalados

O Rabo Estava Torto

Passou mais um tempinho.

— Mãe.

— Oi, filho.

— Falta uma coisinha.

— Que coisinha?

— Meu rabo tá torto.

A mãe abriu um olho só.

— Torto como?

— Torto assim — disse Tito, e sacudiu o rabo de um lado para o outro, o que não mostrou nada. — Ele fica dobrado embaixo de mim. E quando ele fica dobrado embaixo de mim, ele fica formigando. E quando ele fica formigando, eu não durmo.

Era uma explicação bem comprida para um rabo tão pequeno.

A mãe levantou. Contornou o ninho. Pegou o rabo do Tito com muito jeito, do jeito que se pega uma coisa que a gente não quer acordar, e puxou devagarinho até ele ficar reto, esticadinho, apontando para o morro.

— Assim?

— Mais para lá.

Ela ajeitou mais para lá.

— Assim?

— Mais para cá.

Ela ajeitou mais para cá.

— E agora?

Tito mexeu o rabo. Mexeu de novo, só para conferir. Sorriu.

— Agora tá perfeito.

— Então agora a gente dorme.

— Agora a gente dorme — disse Tito.

E não dormiu.

Mãe dinossauro puxando com cuidado o rabo do filhote até deixá-lo esticado e reto sobre as folhas do ninho

O Lado Frio da Coberta

A lua já estava alta.

No vale, quando a lua fica alta, o ar esfria. Não muito. Só o tanto que dá vontade de puxar a coberta.

A coberta do Tito era um monte de folhas secas de embaúba, largas como leque, que a mãe juntava toda semana e sacudia para tirar a poeira.

— Mãe.

— Oi, filho.

— Falta uma coisinha.

— Que coisinha?

— A coberta tá fria de um lado.

— De qual lado?

— Desse aqui — disse Tito, batendo com a patinha. — Esse lado aqui é quente. Esse lado aqui é frio. Eu não consigo dormir com metade de mim quente e metade de mim fria.

A mãe pensou um pouquinho.

Depois fez uma coisa muito simples: virou a coberta do avesso.

O lado que tinha passado a noite encostado no corpo do Tito subiu — morninho, quase quente. E o lado frio desceu para encostar no ninho.

— Ah — disse Tito.

— Melhorou?

— Melhorou muito.

Ele se enroscou todo. As três placas das costas apareceram por cima das folhas, como três morrinhos pequenos.

— Agora a gente dorme — disse a mãe.

— Agora a gente dorme.

E dessa vez os dois quase dormiram.

Quase.

Coberta de folhas largas sendo virada do avesso sobre o filhote de dinossauro enroscado no ninho de samambaias

O Vaga-lume que Foi Embora

— Mãe.

A voz do Tito saiu mais baixa dessa vez. Ele mesmo não percebeu.

— Oi, filho.

— Falta uma coisinha.

— Que coisinha?

— O vaga-lume foi embora.

Toda noite havia um vaga-lume no galho torto da árvore que crescia por cima do ninho. Ele acendia, apagava, acendia, apagava, sempre no mesmo lugar. Tito dormia olhando aquilo desde que era bem pequeno.

Naquela noite o galho estava escuro.

A mãe olhou para o galho. Olhou para o filho. E não disse "amanhã ele volta". Também não disse "dorme assim mesmo".

Ela levantou, foi até a beira das samambaias e ficou ali, parada, esperando.

Não chamou. Ninguém chama vaga-lume.

Ficou só esperando, quietinha, com a lua nas costas.

E depois de um tempo — não muito, mas um tempo — apareceu uma luzinha lá longe, em cima da água. Depois outra. Depois a primeira veio chegando, subindo, chegando, até pousar no galho torto de sempre.

Acendeu.

Apagou.

Acendeu.

A mãe voltou para o ninho e se deitou em volta do Tito outra vez, fazendo a curva de sempre com o corpo.

— Voltou — disse ela.

— Voltou — disse Tito.

E os dois ficaram um tempinho só olhando. Acende. Apaga. Acende. Apaga.

Vaga-lume aceso pousado num galho torto acima do ninho, com a mãe e o filhote olhando a luzinha

A Pergunta Sobre o Rio

— Mãe.

— Oi, filho.

— Falta uma coisinha.

— Que coisinha?

— Não é coisinha. É uma pergunta.

— Então pergunta.

Tito respirou fundo.

— O rio dorme?

A mãe demorou para responder. Não porque não soubesse. Foi porque estava com sono também, e porque a pergunta era bonita e merecia um tempo.

— Dorme — disse ela por fim.

— Mas ele continua andando.

— Continua.

— Como é que ele dorme andando?

— É que o rio dorme do jeito dele — disse a mãe, bem baixinho. — De noite ele anda mais devagar. Você ouve?

Tito ficou quieto.

Ouviu.

De dia o rio fazia barulho de rio apressado, cheio de pedra, todo estalado. De noite ele fazia outro barulho, mais liso e mais comprido, parecido com alguém respirando fundo.

— Ouvi — disse Tito.

— Esse é o rio dormindo.

— E a lua dorme?

— A lua dorme de dia.

— E o morro?

— O morro dorme o ano inteiro. Ele quase não acorda.

— E o vaga-lume?

— O vaga-lume tira sonequinhas. É por isso que ele acende e apaga.

Tito achou aquilo a coisa mais engraçada do mundo, mas não riu alto. Riu por dentro, que é o riso da hora de dormir.

— E as samambaias?

— As samambaias dormem enroladinhas. De manhã elas se abrem de novo, bem devagar, uma folhinha de cada vez.

— E os grilos?

— Os grilos dormem de dia, para poder cantar de noite.

— E a mãe? — perguntou Tito, baixinho. — A mãe dorme?

— A mãe dorme depois — disse ela.

— Depois de quê?

— Depois de todo mundo.

Tito pensou naquilo com cuidado, do jeito que a gente pensa quando já está quase dormindo e o pensamento vai ficando mole nas beiradas.

— Então eu durmo primeiro — disse ele.

— Isso.

— Aí você pode dormir também.

— Isso mesmo — disse a mãe.

A Coisinha que Não Terminou

O vale estava todo quieto.

Os grilos tinham diminuído. O rio respirava fundo. O vaga-lume acendia e apagava no galho torto, tirando as sonequinhas dele.

A mãe estava com os olhos fechados.

Tito abriu a boca.

— Mãe.

— Oi, filho — disse ela, e a voz saiu bem devagar, arrastadinha.

— Falta uma...

E aí ele parou.

Não porque tinha esquecido. Nem porque tinha desistido.

Ele parou porque o resto da frase ficou comprido demais de repente, e as pálpebras estavam muito pesadas, e o lado quente da coberta estava exatamente no lugar certo, e o rabo estava reto apontando para o morro, e a barriga estava com água dentro, e o caramujo já tinha atravessado a pedra, e o vaga-lume tinha voltado para o galho.

Não faltava mais nada.

A mãe esperou o resto da frase.

O resto da frase não veio.

Ela abriu um olho só, bem devagar, e olhou.

Filhote de dinossauro dormindo de boca meio aberta com a mãe enrolada em volta do ninho sob a luz da lua

Tito estava dormindo. De boca meio aberta, com uma pata em cima do lenço azul e as três placas das costas subindo e descendo, subindo e descendo, no ritmo do rio.

A mãe encostou o queixo na beirada do ninho, bem pertinho da orelha dele.

— Boa noite — disse ela, mesmo sabendo que ele já não ia ouvir.

E dormiu também.

No Fundo do Vale

Dizem que no fundo do vale, onde o rio faz a curva e desiste de correr depressa, o ninho de samambaias continua lá.

E dizem que toda noite é a mesma coisa.

A lua sobe. Os grilos começam. O rio baixa o barulho.

Alguém pede água.

Alguém pede uma história.

Alguém acha que o rabo está torto.

E alguém, sem pressa nenhuma, vai buscar a água na folha dobrada, conta de novo a história do caramujo que atravessou a pedra, e endireita o rabo — mais para lá, mais para cá, assim, perfeito.

Água.

História.

Rabo.

Coberta.

Vaga-lume.

Rio.

E a lua vai andando por cima do morro sem fazer barulho nenhum.

Boa noite, Tito.

Boa noite, vale.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. O Tito pediu água, história, rabo reto e coberta virada. Qual pedido você achou mais engraçado?
  2. A mãe nunca disse não. Por que você acha que ela foi buscar tudo o que ele pediu?
  3. E aqui em casa, qual é a coisinha que sempre falta na hora de dormir?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para a hora de dormir de crianças bem pequenas. O Tito, a mãe dele e o ninho de samambaias são inventados. Os dinossauros aqui falam e usam lenço no pescoço, como nas histórias infantis de sempre — não é um texto de divulgação científica, e sim um conto de ninar com dinossauros. A repetição dos diálogos é proposital: ela existe para ser lida em voz alta, cada vez um pouco mais devagar, até a última página sair quase sussurrada.

Perguntas frequentes sobre O Pequeno Dino que Não Queria Dormir

O que fazer quando a criança pede mil coisas na hora de dormir?

Pedir água, mais uma história e ajeitar o travesseiro é um comportamento comum entre 2 e 5 anos, e costuma ter menos a ver com teimosia do que com a dificuldade de encerrar o dia sozinha. Um ritual fixo e previsível — sempre na mesma ordem, sempre com a voz baixando — costuma resolver melhor do que discutir cada pedido. Foi essa ideia que virou história aqui.

Esta história é indicada para que idade?

Dos 2 aos 5 anos. As frases são curtas, o vocabulário é simples e o mesmo diálogo volta várias vezes, o que ajuda crianças bem pequenas a acompanhar e até a repetir junto. Também funciona bem para quem ainda não fala muito, porque o ritmo importa mais que o enredo.

Por que as falas se repetem tanto?

A repetição é de propósito. Criança pequena se acalma com o que já conhece, e um trecho que volta igual várias vezes vira quase uma canção. Na leitura em voz alta, vale ir baixando o tom a cada repetição: a história foi escrita para ser lida cada vez mais devagar.

A história tem final tranquilo?

Tem. Não há susto, perigo nem despedida triste em nenhum momento. O conto termina com os dois dormindo no ninho, o rio correndo devagar e a lua atravessando o morro — o trecho final foi escrito para ser lido quase sussurrando, já com a luz apagada.

Que tal a história de amanhã?