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Contos para Dormir
Ilustração do conto O Menino Samuel e a Voz da Noite

O Menino Samuel e a Voz da Noite

Três vezes na mesma noite, um menino ouviu alguém chamar seu nome. E três vezes correu até o quarto do velho sacerdote.

Equipe Contos para Dormir ·

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No silêncio de um templo antigo, um menino ouviu seu nome e não sabia quem estava chamando

Havia um templo antigo, de pedra, com uma lamparina que ficava acesa a noite inteira.

De dia aquele lugar cheirava a pão, a azeite e a poeira quente do caminho. De noite cheirava só a azeite — aquele cheiro morno que fica no ar depois que todo mundo já foi para casa.

As paredes eram grossas e o chão era frio o ano inteiro. Quando o vento soprava lá fora, as frestas altas faziam um assobio fininho, parecido com o barulho de alguém soprando na boca de uma jarra.

Nesse templo morava um menino chamado Samuel.

Ele era pequeno — tinha uns nove ou dez anos — e ajudava em tudo o que uma criança pode ajudar. Varria o chão de pedra. Buscava água no poço antes de o sol esquentar. Dobrava os panos. Espantava os pardais que entravam pela janela alta e depois não achavam mais a saída.

E cuidava do azeite da lamparina, que era a tarefa mais importante de todas, porque a chama não podia apagar antes do amanhecer.

E cuidava também do velho Eli.

O Velho Eli

Eli era o sacerdote do templo. Era muito velho — tão velho que ninguém no povoado lembrava dele moço. Tinha as costas curvadas, a barba branca comprida e os olhos já não enxergavam quase nada: distinguia luz de sombra, e olhe lá.

Ele gostava do menino, e o fim de todas as noites era igual. Samuel passava no quarto do velho para dar boa-noite, e Eli esticava a mão no escuro até encontrar o ombro dele.

— Chama acesa? — perguntava.

— Acesa — dizia Samuel.

— E o templo, como é que está?

Eli ensina Samuel a escutar

Essa segunda pergunta o menino demorou meses para entender. No começo respondia "está limpo", "está arrumado", "está tudo no lugar". Até a noite em que o velho riu baixinho e explicou:

— Não é para olhar, meu filho. É para escutar. Fica quietinho um instante e me diz o que você está ouvindo.

Samuel ficou quieto. Foi mais difícil do que parecia: a primeira coisa que ele ouviu foi a própria vontade de responder logo.

— O vento — disse por fim. — E o azeite estalando. E um cachorro, bem longe.

— Pronto — respondeu Eli, satisfeito. — Isso é escutar. É a coisa mais difícil que existe, e quase ninguém tem paciência de aprender.

Depois daquela noite virou combinado entre os dois, e toda vez tinha que ser uma coisa nova: o galo do vizinho, uma carroça bem longe, a chuva chegando antes de chegar. Samuel achava graça no começo. Mas foi reparando no mundo de um jeito diferente.

O velho sabia do que estava falando. Cego como era, conhecia o templo pelos sons. Sabia onde estava pelo eco dos próprios passos. Sabia se a porta grande tinha ficado aberta pelo cheiro de campo que entrava. E sabia que Samuel estava chegando antes de o menino falar qualquer coisa, só pelo barulho dos pés descalços na pedra.

Os dois dormiam em quartos separados, um de frente para o outro, no mesmo corredor.

Naquela noite, Samuel fez tudo como sempre. Deu boa-noite. Atravessou a sala grande no escuro, subiu os degraus baixos e chegou bem perto da lamparina para conferir o azeite. Estava bom. A chama tremia um pouquinho, então ele ajeitou o pavio com a ponta do dedo, bem devagar, para não se queimar.

Menino na ponta dos pés ajeitando o pavio de uma lamparina de barro no templo escuro

Depois voltou para o quarto, apagou a candeia pequena, deitou na esteira e puxou a coberta de lã até o queixo.

Toda noite era assim: ele ouvia o vento passar pelas frestas e dormia antes de terminar de pensar no dia seguinte.

Toda noite, menos aquela.

A Primeira Vez

Aquela noite tinha começado igual a todas as outras, sem nada de diferente. O jantar tinha sido pão com azeite. O vento era o vento de sempre. Não teve trovão, não teve barulho estranho, não teve aviso nenhum.

O menino estava naquele lugar bom entre acordado e dormindo, quando os pensamentos já ficam meio tortos e a gente nem se importa. Estava pensando no poço. Depois nos pardais. Depois em nada.

Foi aí que ouviu:

— Samuel.

Ele abriu os olhos no escuro.

Não era sonho. Sonho não acorda a gente daquele jeito, com o coração batendo depressa e a orelha inteira acordada antes do resto do corpo.

Era uma voz. Clara, sem pressa, chamando o nome dele — do jeito que se chama alguém sabendo que vai ser atendido.

Depois da voz, o silêncio ficou maior do que era antes. Samuel sentou na esteira com a coberta caída no colo e prendeu a respiração para escutar melhor. O quarto era o mesmo de sempre: a esteira, a jarra de água no canto, a fresta lá em cima com um fiozinho de céu.

Só podia ser o Eli. Quem mais seria? Não havia mais ninguém no templo, e o velho às vezes precisava de água no meio da noite, ou de ajuda para achar o manto no escuro.

Menino sentado de repente na esteira, no escuro, com os olhos arregalados de quem acabou de ouvir alguma coisa

O menino levantou num pulo, enrolou a coberta nos ombros e atravessou o corredor frio descalço, com a mão espalmada na parede para não tropeçar.

O quarto de Eli cheirava a lã e a azeite velho. Dava para ouvir a respiração comprida do velho, aquela respiração funda de quem está dormindo faz tempo.

Samuel parou na porta.

— Estou aqui. O senhor me chamou.

Eli acordou devagar, do jeito que os velhos acordam — primeiro a mão, depois a cabeça, depois a voz.

— Eu? — ele levantou um pouco o rosto na direção da porta. — Não chamei, meu filho. Deve ter sido o vento. Volta a deitar.

Samuel ficou um instante parado ali, esperando que aquilo se explicasse sozinho. Não se explicou.

O corredor pareceu mais escuro na volta do que tinha parecido na ida. Ele foi com passinhos curtos, encostando a mão na parede para contar as portas, e entrou no quarto de costas, como quem não quer virar as costas para o escuro.

Deitou de novo e puxou a coberta. Achou estranho, mas estava com sono — e sono ganha de estranheza quase sempre.

A Segunda Vez

Não tinha nem se acomodado direito quando ouviu outra vez, no mesmo tom, com a mesma calma:

— Samuel.

Dessa vez ele sentou na esteira num segundo só.

— Já vou! — respondeu alto, meio impaciente, achando que o velho estava brincando com a cara dele.

Levantou sem a coberta, acendeu a candeia pequena na brasa que ainda restava e saiu batendo o calcanhar na pedra, com pressa, do jeito de quem já sabe o caminho de cor.

Menino atravessando descalço um corredor estreito de pedra à luz fraca de uma candeia

— Eli, o senhor chamou de novo. Eu ouvi bem. Eu ouvi o senhor falando o meu nome.

O velho se apoiou no cotovelo, confuso, virando o rosto na direção da voz do menino.

— Não chamei, não, Samuel.

— Mas...

— Deve ser sonho. Isso acontece com todo mundo. Vai deitar, menino, que amanhã tem água para buscar.

— O senhor tem certeza mesmo?

— Tenho, meu filho. Vai.

Samuel voltou. Deitou. E ficou de olhos abertos no escuro por um tempo bem comprido, olhando um teto que ele nem enxergava direito, esperando.

Contou o vento. Contou os estalos do azeite lá na sala grande. Contou até onde sabia contar e recomeçou do começo.

Nada aconteceu.

O templo ficou quieto do jeito que fica quando não vai acontecer mais nada naquela noite.

Aos poucos foi relaxando. Os ombros afrouxaram, a respiração foi ficando mais funda. Foi ficando com sono outra vez.

A Terceira Vez

— Samuel.

O menino se sentou na esteira de uma vez só.

Agora estava com um pouquinho de medo — não muito, mas um pouquinho.

Pensou em ficar deitado e fingir que não tinha escutado nada. Pensou em puxar a coberta por cima da cabeça e esperar amanhecer.

Só que era mais teimosia do que medo: ele tinha ouvido, tinha ouvido as três vezes, e não ia deixar aquilo assim, entalado, sem resposta, até de manhã.

Levantou. Atravessou o corredor pela terceira vez naquela noite, e dessa vez foi devagar, pensando no que ia dizer.

— Eli — falou, e a voz saiu menor do que ele queria. — Eu não estou sonhando. Alguém está me chamando pelo nome.

Sacerdote idoso sentado na beirada da cama, muito quieto, e o menino parado no vão da porta

E aqui é a parte de que Samuel se lembrou pelo resto da vida.

O velho Eli não riu dele. Não disse que era imaginação. Não disse "de novo?". Não mandou o menino voltar para a cama e parar de encher.

Ele ficou muito quieto, sentado na beirada da cama, com os pés no chão frio e os olhos cegos abertos no escuro, do jeito de quem está juntando as coisas com calma dentro da cabeça.

Ficou assim tanto tempo que Samuel chegou a achar que ele tinha dormido sentado.

Mas não tinha dormido. O velho tinha entendido.

O Que Eli Ensinou

— Meu filho — disse ele, devagar. — Volta e deita de novo.

— Mas eu...

— Escuta o resto. Se a voz chamar outra vez, não venha correndo até aqui. Fica deitado, quietinho. E responde assim: fala, que eu estou escutando.

Samuel repetiu baixinho, para não esquecer.

— Fala, que eu estou escutando.

— Isso — disse o velho. — E depois não fala mais nada. Essa é a parte difícil.

O menino ficou parado na porta um instante, com uma pergunta atravessada.

— Eli, o senhor não está bravo? Eu acordei o senhor três vezes.

O velho sorriu no escuro, e dava para ouvir o sorriso na voz dele:

— Menino, se eu tivesse gritado com você da primeira vez, você não teria voltado na terceira. E aí a gente nunca ia descobrir o que era.

Samuel foi pensando nisso pelo corredor de volta. Achou que era a coisa mais sensata que já tinham dito para ele.

De Volta à Esteira

Chegou no quarto, deitou e puxou a coberta até o peito. E, dessa vez, não tentou dormir: ficou quieto, respirando devagar, com os ouvidos bem abertos, do jeito que o velho tinha ensinado meses antes, numa noite qualquer, sem saber que um dia ia servir para aquilo.

Menino deitado na esteira sob a coberta, de olhos abertos, escutando o silêncio do templo

O templo estava em silêncio.

Dava para ouvir a chama da lamparina estalando de vez em quando, lá na sala grande. Dava para ouvir o vento passar pelas frestas altas. E dava para ouvir uma coisa que ele nunca tinha percebido antes: o próprio coração, batendo devagarinho no ouvido encostado no braço.

Ele esperou muito tempo. Tanto tempo que quase desistiu duas vezes — e nas duas ficou onde estava, sem sair da esteira, do jeito combinado.

E então veio, outra vez, sem pressa nenhuma:

— Samuel.

O menino não levantou. Não correu. Não teve medo.

Respondeu baixinho, no escuro, exatamente como o velho havia ensinado:

— Fala. Eu estou escutando.

E depois não falou mais nada.

O Resto da Noite

O que Samuel ouviu naquela noite é outra história, e ele levou um bom tempo para conseguir contar ao Eli de manhã, porque era coisa séria e ele era criança.

Mas dizem que o menino não dormiu mais até o amanhecer.

Ficou ali, deitado na esteira, olhando a luz da lamparina tremer no teto de pedra, vendo o preto da fresta lá em cima virar azul e o azul ir ficando quase branco, com aquela sensação boa e assustadora de quem entendeu, pela primeira vez na vida, que estava sendo levado a sério.

E dizem também que, quando cresceu, Samuel virou um homem conhecido em toda a região — não por falar muito, mas justamente pelo contrário.

Ele era conhecido por escutar.

Quem chegava com um problema, ele ouvia até o fim, sem interromper, sem ficar pensando na resposta enquanto o outro ainda falava.

Uma coisa que ele tinha aprendido numa noite, quando era pequeno, no chão de um templo antigo — depois de correr três vezes para o lugar errado.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Samuel correu três vezes até o quarto do Eli. Você teria continuado indo?
  2. O Eli não ficou bravo por ser acordado tantas vezes. Por que você acha que não?
  3. O que é mais difícil: falar ou escutar de verdade?

Sobre esta história

Recontagem infantil de um episódio narrado no primeiro livro de Samuel, em que um menino que vivia no templo ouve seu nome durante a noite. O texto desta página é nosso, escrito para leitura em voz alta na hora de dormir.

Perguntas frequentes sobre O Menino Samuel e a Voz da Noite

Qual é a moral desta história?

Que entender leva tempo e que ninguém precisa acertar de primeira. E que escutar — de verdade, em silêncio — é uma habilidade que se aprende, não algo que já se sabe fazer.

Esta história é boa para a hora de dormir?

Muito. Ela se passa inteira à noite, num lugar silencioso, com uma criança deitada na cama. O ritmo é lento e nada assustador acontece.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 8 anos. A repetição das três chamadas ajuda os menores a acompanhar e a antecipar o que vem — o que costuma dar segurança na hora de dormir.

Que tal a história de amanhã?