Contos para Dormir
Ilustração do conto O Presente que Ninguém Quis

O Presente que Ninguém Quis

Na mesa da troca tinha embrulho prateado, embrulho com laço dourado — e um de papel pardo, amarrado com barbante, que ninguém quis pegar.

Equipe Contos para Dormir ·

Na noite em que todos os embrulhos brilhavam, o mais feio de todos era o único feito à mão

Em Boa Espera, a véspera de Natal acontecia no salão da praça.

Era assim havia tanto tempo que ninguém lembrava de quando tinha começado. Cada família levava um presente embrulhado, sem nome de dono, e deixava na mesa comprida encostada na parede do fundo. Depois havia comida, havia conversa, havia criança correndo entre as pernas dos adultos.

O salão cheirava a bolo de fubá e a cera do assoalho. Alguém sempre pendurava as mesmas bandeirinhas de papel, que já estavam meio desbotadas de tanto guardar e desguardar. As lâmpadas ficavam baixas, e a luz delas deixava tudo cor de mel.

E, no fim da noite, havia a troca.

Duda tinha sete anos e esperava por aquela noite desde outubro.

Ela chegou cedo, de vestido amarelo de bolinhas, o cabelo preso em dois coques que a mãe fazia sempre apertado demais. Largou a mão da mãe na porta e foi direto para a mesa dos presentes, que era o único lugar do salão que interessava de verdade.

A mesa estava linda.

Tinha embrulho de papel prateado. Tinha embrulho vermelho com laço dourado. Tinha um comprido e fino, de fita azul, que só podia ser um pandeiro ou uma espada. Tinha um redondo, brilhante, embrulhado com tanto capricho que dava pena de abrir.

Duda foi andando devagar ao longo da mesa, olhando um por um, guardando na cabeça qual era o melhor. Ela não podia tocar em nada — essa era a única coisa que a mãe tinha pedido na porta —, mas olhar não estava proibido, e ela olhou com muito cuidado.

Foi andando, e a mesa foi acabando.

E foi assim que ela chegou na ponta.

Menina de vestido amarelo diante de uma mesa comprida cheia de presentes brilhantes, olhando para um embrulho de papel pardo esquecido na ponta

O Embrulho da Ponta da Mesa

Na ponta da mesa tinha um embrulho diferente de todos os outros.

Era de papel pardo. Daquele papel meio áspero, cor de pão, que a padaria usa para embrulhar broa. Não tinha fita. Não tinha laço. Estava amarrado com barbante, e o barbante estava dado num nó torto, com as pontas de tamanhos diferentes.

Em cima, no papel, alguém tinha desenhado uma estrela a lápis.

A estrela também estava torta. Uma ponta saiu maior que as outras, e dava para ver o risco por cima, no lugar onde a mão tinha tremido.

E o embrulho era mole. Não tinha forma nenhuma. Era um monte.

Bruno chegou primeiro. Bruno tinha nove anos e opinião sobre tudo.

Ele apertou o embrulho com os dedos, dos dois lados, como quem examina uma fruta na feira.

— Roupa — disse ele.

— Roupa? — perguntou Lila.

— Roupa. Mole assim só pode ser roupa.

Lila apertou também. Fez uma careta.

— É roupa mesmo.

E colocou de volta na ponta da mesa, um pouquinho mais para a ponta do que estava antes.

A notícia correu o salão no tempo que uma notícia leva para correr um salão cheio de criança, que é quase nenhum tempo.

Em cinco minutos, todo mundo com menos de doze anos já sabia: o embrulho pardo era roupa.

E não tem nada que estrague mais um presente, aos sete anos, do que a suspeita de que ele é roupa.

Duda ficou olhando o embrulho mais um pouco, depois que os outros já tinham ido embora rir de outra coisa.

A estrela torta continuava lá, riscada a lápis.

Ela achou meio bonita, mas não falou nada, porque falar aquilo em voz alta, naquele salão, naquela noite, era pedir para virar assunto.

Um menino aperta o embrulho de papel pardo com os dedos e faz careta de decepção enquanto a menina de vestido amarelo observa

A Regra dos Papelzinhos

A troca em Boa Espera tinha uma regra só, e a regra era antiga.

Dona Marlene passava com um chapéu de palha cheio de papelzinhos dobrados. Cada criança tirava um. No papelzinho vinha um número.

Quem tirava o um escolhia primeiro, na mesa inteira, o presente que quisesse. Depois o dois. Depois o três. E assim por diante, até acabar.

Não tinha troca depois. Não tinha choro. O que você pegou era seu.

Naquele ano eram dezenove crianças.

Dona Marlene sacudia sempre o chapéu antes de oferecer, para ninguém dizer depois que os papéis estavam arrumados. Sacudia com força, olhando para os adultos, como quem avisa que ali não havia truque.

O chapéu foi passando de mão em mão. Cada uma abria o papelzinho com aquela cara de quem abre um bilhete importante.

— Sete!

— Três! Eu tirei três!

— Quinze… — disse Rafa, e afundou na cadeira.

Duda foi quase a última a botar a mão no chapéu. Sobraram dois papéis no fundo. Ela pegou um, abriu bem devagar, e leu.

Dezenove.

Virou o papel, para ver se tinha algum engano do outro lado.

Não tinha.

Dezenove de dezenove. A última da fila.

Duda olhou a mesa comprida, cheia de embrulhos brilhantes, e fez a conta que qualquer criança de sete anos faz em um segundo: dezoito pessoas iam escolher antes dela.

Ia sobrar exatamente um presente.

E ela sabia qual.

Duda dobrou o papelzinho de novo, bem dobradinho, e ficou com ele apertado na mão fechada o resto da espera.

A menina segura um papelzinho dobrado junto ao peito e olha de longe, desanimada, para a mesa cheia de presentes brilhantes

Um a Um, a Mesa Foi Esvaziando

O número um foi o Bruno. Claro que foi o Bruno.

Ele atravessou o salão sem pressa, aproveitando cada passo, e pegou o embrulho comprido de fita azul. Voltou com ele atravessado no peito, do jeito que se carrega um troféu.

O número dois pegou o redondo brilhante.

O número três pegou o prateado.

E o embrulho pardo continuou na ponta da mesa.

O quatro chegou perto, olhou o pardo, chegou a estender a mão — e desviou para a caixa vermelha de laço dourado.

O cinco nem olhou.

O seis olhou, apertou, disse "roupa" e pegou outro.

E o embrulho pardo continuou na ponta da mesa.

A mesa foi ficando com espaços. Depois com buracos. Depois com mais espaço do que embrulho.

Sete. Oito. Nove.

Cada criança que voltava do fundo do salão passava carregando o presente na frente do corpo, para todo mundo ver, e sentava com ele no colo sem abrir. Abrir era só depois. A regra também era antiga.

Dez. Onze. Doze.

E o embrulho pardo continuou na ponta da mesa.

Treze. Catorze.

Rafa, o quinze, correu para pegar um pacote pequeno e pesado que vinha namorando a noite toda, e voltou abraçado com ele como quem carrega um bebê.

Dezesseis. Dezessete.

A mesa comprida do salão de Boa Espera tinha começado a noite com dezenove embrulhos. Sobraram dois.

Um quadrado, de papel de bolinhas.

E o pardo.

A dezoito era a Manu. Ela levantou, andou até a mesa e nem fingiu que estava em dúvida. Pegou o de bolinhas e voltou para o lugar dela.

E o embrulho pardo continuou na ponta da mesa.

Sozinho.

Numa mesa comprida e vazia.

A menina pega com as duas mãos o último embrulho que sobrou numa mesa comprida completamente vazia

O Barbante e o Papel Pardo

O salão inteiro ficou quieto.

Não foi um silêncio de respeito. Foi daquele meio sem graça, de quando todo mundo percebe ao mesmo tempo uma coisa que ninguém queria ter percebido.

Duda levantou da cadeira.

Atravessou o salão devagar, com dezoito crianças e um monte de adultos olhando, e cada passo pareceu mais comprido do que o anterior.

Chegou na mesa.

Pegou o embrulho pardo com as duas mãos.

Era mais leve do que ela esperava. E era macio. Do jeito que um travesseiro é macio.

Voltou para o lugar dela e sentou no chão, com o embrulho no colo.

Aí, pelo salão inteiro, o papel começou a rasgar de uma vez só.

— Abre! — gritou o Bruno do outro lado do salão, com um pandeiro na mão. — Abre logo!

Duda puxou uma ponta do barbante. O nó era torto, mas era firme: ela teve que insistir três vezes até ele soltar.

O papel pardo abriu de uma vez só, com aquele barulho seco que papel áspero faz.

E de dentro caiu uma cor.

Depois outra.

Depois um monte delas.

De Quem Eram Aqueles Retalhos

Era uma colcha.

Uma colcha de retalhos, do tamanho de uma criança, costurada em quadradinhos. Devia ter uns cem quadrados, talvez mais. Nenhum igual ao outro.

— Eu falei — disse o Bruno. — Eu falei que era roupa.

Alguém riu. Não muita gente.

Duda não estava ouvindo.

Ela tinha aberto a colcha no colo e estava com o dedo parado em cima de um quadrado amarelo, de florzinhas brancas miúdas.

— Mãe — disse ela.

A mãe da Duda chegou por trás e olhou por cima do ombro dela.

E não falou nada.

Ficou um tempo sem falar nada, o que era estranho, porque a mãe da Duda falava sempre.

— Esse aqui era o seu vestido — disse ela por fim. — Quando você tinha três anos. Você não tirava ele nem para dormir.

Duda olhou o quadrado amarelo de florzinhas brancas.

Lila chegou perto. Lila era curiosa e não tinha vergonha de nada.

— Esse azul aqui — disse ela, apontando — é a camisa do meu irmão. A do time. Rasgou no cotovelo e a minha mãe deu para alguém.

Rafa se abaixou também.

— Esse verde é da cortina da escola. A antiga, do ano passado.

A colcha de retalhos coloridos aberta no colo da menina, com duas crianças agachadas perto apontando os quadradinhos

E aí foi todo mundo.

Um por um, os quadrados foram sendo reconhecidos. O xadrez do avental de dona Marlene. O vermelho da toalha das festas juninas. O listrado do macacão do Bruno, de quando o Bruno era pequeno e ainda não tinha opinião sobre tudo.

A colcha inteira era Boa Espera.

Cortada em quadradinhos e costurada junto.

A Cadeira Perto da Porta

Foi a mãe da Duda quem falou primeiro.

— Isso é costura da dona Filó.

O salão virou a cabeça na mesma direção, todo mundo de uma vez.

Perto da porta, na cadeira de sempre, estava dona Filó.

Dona Filó era a pessoa mais velha de Boa Espera. Ia a todas as festas do salão e ficava sempre no mesmo lugar, encostada na porta, porque dizia que dali dava para ver todo mundo chegar. Falava pouco. Ria baixinho. As mãos dela tremiam um pouco, e fazia uns anos que ela precisava chegar bem perto das coisas para enxergar direito.

Estava com as mãos no colo, olhando para elas.

Duda se levantou com a colcha nos braços.

Atravessou o salão outra vez. Dessa vez o caminho pareceu curto.

Parou na frente da cadeira.

— A senhora que fez?

Dona Filó demorou um pouco para responder.

— Fiz.

— Quanto tempo a senhora levou?

— Ah, minha filha. Os retalhos eu venho juntando faz muito ano. Guardo tudo o que sobra de roupa nesta rua. — Ela deu de ombros, meio sem jeito. — A costura mesmo eu fiz ontem. Comecei depois do almoço e terminei quando o galo cantou.

— A senhora ficou a noite toda?

— A minha mão não anda depressa mais — disse dona Filó, e riu daquele jeito baixinho dela. — Se eu queria terminar a tempo, tinha que ser assim.

Duda olhou a colcha nos braços. Depois olhou as mãos da dona Filó, paradas no colo.

Aí ela fez a única coisa que fazia sentido fazer.

Abriu a colcha, sentou no chão encostada na cadeira e puxou uma ponta por cima dos joelhos da dona Filó.

Sobrou pano para as duas.

A menina sentada no chão ao lado da cadeira de uma senhora idosa, as duas cobertas pela mesma colcha de retalhos

O Caminho de Casa

O resto da noite foi ficando mais devagar.

As crianças foram chegando perto, sem empurrar, e cada uma mostrava para a dona Filó o quadrado que tinha achado. Ela pegava o pano, trazia bem junto do olho e dizia de quem era. Errou dois. Acertou todos os outros.

Bruno largou o pandeiro em cima de uma cadeira e não pegou mais.

Quando a festa acabou, dona Marlene apagou as luzes do salão, e a praça de Boa Espera ficou naquele escuro azul em que as praças ficam depois das festas.

Duda foi para casa a pé, com a colcha nos ombros, arrastando uma ponta no chão sem que a mãe visse.

Em casa, ela não quis dobrar a colcha.

Deitou, puxou por cima e ficou um tempo passando o dedo pelos quadrados no escuro. Achava um pelo tato e tentava lembrar de quem era.

Este é o macacão do Bruno.

Este é da cortina da escola.

Este aqui, o amarelo de florzinhas, é o meu.

Ela ia até uns quinze e perdia a conta. Aí recomeçava.

Foi recomeçando cada vez mais devagar, até parar de recomeçar.

E dormiu quentinha, embaixo de Boa Espera inteira.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Por que você acha que ninguém quis pegar o embrulho de papel pardo?
  2. A Duda tirou o último número e mesmo assim a noite acabou bem. Já aconteceu de você ficar com o que sobrou e gostar?
  3. Se você fosse fazer um presente com as suas próprias mãos, faria o quê e para quem?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para dezembro. Não tem conteúdo religioso: trata do Natal como a noite em que a vila inteira se junta no salão da praça para trocar presentes. A colcha de retalhos costurada com sobras de roupa da vizinhança é um costume brasileiro antigo, e foi dele que a história nasceu.

Perguntas frequentes sobre O Presente que Ninguém Quis

Qual é a moral desta história?

Que o valor de um presente não está no embrulho, e que o trabalho de quem faz alguma coisa à mão costuma ficar invisível até alguém parar para olhar. A história mostra isso sem explicar: quem descobre é a criança que abre o pacote.

Esta é uma história religiosa?

Não. É uma história de Natal sobre a festa da vila e a troca de presentes no salão da praça. Não trata de nenhum conteúdo religioso e serve para qualquer família, independentemente do que se celebra.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 9 anos. É boa para dezembro e principalmente para a semana do amigo secreto da escola, quando a comparação entre presentes costuma aparecer sozinha na conversa.

A história tem final triste?

Não. Tem um trecho em que a menina fica sem graça por ser a última da fila, mas o final é caloroso e vai desacelerando até ela dormir. É um conto pensado para ser lido na hora de deitar.

Que tal a história de amanhã?