
Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Vegetariano
E se o lobo não quisesse comer a vovó… mas sim aprender a fazer sopa de legumes? Uma releitura divertida do clássico.
Na floresta de sempre, a menina da capa vermelha encontrou um lobo que ninguém tinha entendido direito
Era uma vez uma menina que morava na beira de uma floresta e usava uma capa vermelha com capuz, feita pela avó. A capa tinha sido cortada grande de propósito, para durar, e a barra arrastava um pouquinho no chão, o que ela achava elegante.
Todo mundo a chamava de Chapeuzinho Vermelho, e ela já tinha desistido de corrigir.
Numa manhã de sábado, a mãe entregou-lhe uma cesta.
— Leve para a vovó. Tem pão fresco, um queijo e um pote de mel.
— Posso ir sozinha?
A mãe olhou para a cesta. Depois para a menina. Depois para a floresta, que naquela manhã estava quieta e cheirava a mato molhado.
— Pode. Mas vai pelo caminho de sempre, sem parar.
— Ver as coisas pode?
— Ver pode. Parar não.
Chapeuzinho prometeu, e dessa vez estava falando sério.
O Encontro
A trilha começava logo depois do portão e entrava na floresta como quem entra numa sala. Em cima, as copas se fechavam e deixavam passar só uns riscos de sol, que mudavam de lugar toda vez que o vento mexia.
Chapeuzinho ia contando cogumelos. Era um jogo dela: os comuns valiam um ponto, os alaranjados valiam dois, e os que nasciam grudados no tronco valiam cinco.
Estava no vinte e três quando ouviu um barulho no mato.
Um barulho grande.
Chapeuzinho parou. Os pássaros pararam junto. O mato se abriu.
E de lá saiu um lobo.
Era enorme. Pelo cinzento, orelhas em pé, patas do tamanho de pratos. Chapeuzinho sentiu o coração dar um pulo e a cesta ficar pesada de repente.
O lobo também levou um susto. Deu um passo para trás, tropeçou numa raiz e se apoiou numa árvore para não cair.
Os dois ficaram se olhando.
E aí Chapeuzinho reparou em duas coisas esquisitas.
Primeira: o lobo estava com um avental amarrado na cintura.
Segunda: o avental estava sujo de terra, e o lobo carregava, debaixo do braço, um molho de cenouras com as folhas ainda presas.
— Você é… — começou Chapeuzinho.
— Por favor, não grita — disse o lobo, apressado. — Todo mundo grita. Aí vem gente com pá e enxada e eu tenho que passar a tarde inteira escondido no barranco.
Chapeuzinho fechou a boca.
Depois abriu de novo:
— Por que você está com cenoura?
A Verdade Sobre o Lobo
O lobo suspirou. Foi um suspiro comprido, de quem já explicou aquilo muitas vezes e nunca foi ouvido até o fim.
— Porque eu planto cenoura.
— Lobo não planta cenoura.
— Eu sei — disse ele. — Acredite, eu sei. Meu pai também disse isso. Meus irmãos ainda dizem.
Ele sentou-se num tronco caído, o que fez com que ficasse quase da altura de Chapeuzinho, e continuou:
— Eu nunca gostei de caçar. Desde filhote. O barulho, a correria, a parte de comer... nada disso me agrada. Uma vez eu experimentei um nabo assado que um lenhador tinha esquecido na fogueira e pensei: é isso.
— Nabo — repetiu Chapeuzinho.
— Assado. Com um pouquinho de sal.
— E os seus irmãos sabem?
— Souberam num domingo — disse o lobo. — Eu tinha feito um refogado de abobrinha. Eles cheiraram a panela, se olharam e foram embora sem falar nada. Até hoje perguntam se eu já melhorei.
Chapeuzinho olhou para o molho de cenouras, depois para o avental, depois para a cara do lobo, que era uma cara grande e cheia de dentes mas não era uma cara má.
— E por que você está aqui na trilha?
O lobo pareceu envergonhado.
— Eu estava indo até a casa da senhora do fim do caminho. Faz três semanas que eu passo por lá no fim da tarde e sinto o cheiro que sai da janela. É uma sopa. Deve ter alho-poró, deve ter batata, e tem uma coisa que eu não consigo identificar de jeito nenhum, e isso está me deixando maluco. Eu acordo de madrugada pensando nisso. Já tentei salsa. Já tentei louro. Já tentei uma coisa que o meu vizinho jura que é orégano e não é.
— É a minha avó — disse Chapeuzinho.
O Problema de Bater na Porta
— É sua avó? — o lobo levantou as orelhas. — Então você pode me apresentar!
— Por que você não bate na porta?
O lobo olhou para ela como quem não acredita na pergunta.
— Menina. Eu sou um lobo. Eu bato na porta de uma senhora que mora sozinha na floresta e o que acontece?
Chapeuzinho pensou.
— Ela grita.
— Ela grita. E depois vem o lenhador. E depois eu passo a tarde no barranco, que é úmido.
Ficaram os dois em silêncio, considerando o tamanho do problema.
Foi então que Chapeuzinho teve uma ideia.
— E se eu bater primeiro?
A Casa da Vovó
A casa da vovó ficava numa clareira, com telhado baixo, chaminé torta e uma horta pequena do lado esquerdo.
O lobo ficou dois passos atrás, tentando ocupar menos espaço do que ocupava, o que não deu muito certo.
Bateram na porta.
— Vovó, sou eu! — gritou Chapeuzinho. — Trouxe a cesta! E trouxe... uma visita.
— Que visita, minha filha?
— A senhora promete não gritar?
Houve uma pausa do outro lado da porta. Uma pausa desconfiada.
— Prometo.
— Promete mesmo?
— Chapeuzinho.
A porta se abriu.
A vovó olhou para a neta. Depois para o lobo enorme parado atrás dela, de avental, segurando um molho de cenouras contra o peito como quem segura flores.
E a vovó, que tinha setenta e oito anos e já tinha visto muita coisa, ficou um bom tempo em silêncio.
O lobo prendeu a respiração.
Depois ela falou:
— Essas cenouras foram colhidas hoje?
— Hoje de manhã — disse o lobo.
— Terra boa?
— Barro com areia. Eu ponho casca de ovo.
— Casca de ovo — repetiu a vovó, e alguma coisa no rosto dela mudou de lugar.
A vovó abriu a porta inteira.
— Entra. Mas limpa a pata no capacho.
A Sopa

Por dentro, a cozinha era quente e cheirava a fumaça de lenha, a pão e a uma terceira coisa mais funda que o lobo não sabia nomear. Havia molhos de erva secando pendurados num arame perto da janela, e uma panela de ferro tão grande que ele olhou para ela com respeito.
— A senhora cozinha nisso?
— Desde antes da sua mãe nascer — disse a vovó, e apontou a bancada com o queixo. — Descasca.
A tarde inteira foi assim.
O lobo descascou os legumes, porque tinha garras boas para isso e mão firme. Descascava devagar, com a ponta da língua de fora, e as cascas saíam em fitas compridas que caíam na tigela quase sem quebrar. A vovó fingiu que não estava reparando. Estava reparando muito.
A vovó cuidou do fogo e do tempero: punha sal, provava, punha mais um pouquinho, e a cada prova fazia uma cara diferente que ninguém conseguia interpretar.
Chapeuzinho ficou encarregada de mexer a panela, que era o cargo mais importante e todo mundo concordou. Ela subiu num banquinho e mexeu em oito, do jeito que a avó tinha ensinado, para não pegar no fundo.
— Mais devagar — dizia a vovó.
— Estou devagar.
— Está no ponto de fazer onda.
Do lado de fora, a tarde foi mudando de cor. A luz da janela ficou cor de mel, e o vapor da panela subia dentro dela e ficava dourado antes de sumir no teto.
E, no meio do caminho, o lobo finalmente descobriu qual era o ingrediente misterioso que ele não conseguia identificar da janela.
A vovó tirou um raminho de um pote, esfregou entre os dedos e deixou cair na panela.
O lobo parou de descascar.
— Nunca! — disse ele, escandalizado. — Erva-doce?
— Uma pitadinha só — disse a vovó. — No fim, com o fogo desligado. Se puser antes, some.
— Eu passei três semanas sem dormir por causa de erva-doce.
— Pois é.
— Três semanas.
— Você devia ter batido na porta — disse a vovó.

O lobo abriu a boca para responder e não respondeu nada, porque não tinha o que responder. Chapeuzinho riu tanto que precisou largar a colher.
Comeram os três na mesa da cozinha, com o pão fresco da cesta e o queijo cortado em fatias grossas. A sopa estava quente demais e ninguém esperou esfriar; sopraram e comeram assim mesmo. A tigela do lobo era uma travessa, porque nenhuma tigela da casa servia, e ele a segurou com as duas patas para sentir o calor.
Durante um tempo ninguém falou nada, que é o maior elogio que uma comida pode receber.
O lobo repetiu duas vezes e pediu desculpa pelas duas.
— Desculpa.
— Come.
— É que eu não queria abusar...
— Come.

Depois da segunda tigela, o lobo contou da horta: das cenouras plantadas perto do muro para pegar o sol da manhã, do canteiro de nabos que deu errado dois anos seguidos, e do espantalho que não espanta nada, porque os pássaros da região já entenderam a situação.
A vovó ouviu tudo. Fez três perguntas. Uma delas era sobre a profundidade do canteiro, e o lobo teve que pensar antes de responder.
Quando anoiteceu, ele foi embora com um pote de sopa e a receita escrita num papel, dobrado em quatro e guardado no bolso do avental como se fosse dinheiro.
— Sábado que vem eu trago abóbora — disse ele, já na porta.
— Abóbora de pescoço ou abóbora redonda?
— De pescoço.
— Então traz.

Depois
Voltou.
E no outro sábado também.
Na terceira vez ele já não bateu com aquele jeito de quem pede desculpa por existir: bateu duas vezes, firme, com a abóbora apoiada no ombro. Chapeuzinho abriu antes da segunda batida terminar.
E foi assim que a coisa virou hábito. Aos sábados o lobo chegava no fim da manhã, deixava as botas de horta do lado de fora e limpava a pata no capacho sem ninguém precisar lembrar. Às vezes trazia salsa. Uma vez trouxe um pé de couve tão grande que teve que entrar de lado.

E aí veio o inverno.
O caminho ficou duro de geada e a floresta ficou quieta daquele jeito que ela só fica no frio. Num sábado de manhã bem gelada, o lobo apareceu com um saco de batatas nas costas, o pelo branco nas pontas, e a notícia de que tinha começado a plantar alho-poró.
— Alho-poró é chato — disse a vovó.
— Eu sei.
— Precisa de terra funda e de paciência.
— Eu tenho as duas coisas.
A vovó olhou para ele por cima dos óculos.
— Então eu ensino.
Passaram a tarde na mesa, com o desenho da horta rabiscado no verso de um papel de embrulho, discutindo canteiro por canteiro.

Dizem que o lenhador, que passou por ali um dia e viu a cena pela janela, ficou parado no meio do caminho por um tempo bem longo, coçando a cabeça.
Depois deu de ombros e foi embora.
Nunca contou para ninguém, porque achou que ninguém ia acreditar.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Todo mundo tinha medo do Lobo sem nunca ter conversado com ele. Isso é justo?
- A Chapeuzinho fez uma pergunta em vez de sair correndo. O que teria acontecido se ela corresse?
- Você já mudou de ideia sobre alguém depois de conhecer melhor?
Sobre esta história
Releitura bem-humorada do conto tradicional. O original de Charles Perrault (1697) e a versão dos Irmãos Grimm (1812) são de domínio público, e é dali que vêm a capa vermelha, o caminho pela floresta e a casa da avó. O resto — o lobo cozinheiro, a horta e a sopa — é invenção nossa.
Perguntas frequentes sobre Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Vegetariano
Esta é a história original de Chapeuzinho Vermelho?
Não. É uma releitura nossa, bem-humorada, em que o lobo não quer fazer mal a ninguém. Se você procura a versão tradicional, ela está no acervo com o título Chapeuzinho Vermelho.
Qual é a moral desta versão?
Que fama não é a mesma coisa que verdade. O lobo é temido por causa das histórias que contam sobre lobos, e basta uma pessoa disposta a perguntar em vez de fugir para tudo mudar.
Esta versão é menos assustadora que a original?
Bem menos. Não há perigo real em nenhum momento: ninguém é engolido, ninguém precisa ser resgatado. É uma boa escolha para crianças que acharam a versão tradicional pesada demais.


