Contos para Dormir
Ilustração do conto A Bruxa Boa e o Bolo de Chocolate Mágico

A Bruxa Boa e o Bolo de Chocolate Mágico

Nem toda bruxa é malvada! Dona Melinda prepara um bolo de chocolate tão mágico que espalha alegria pela vila inteira.

Equipe Contos para Dormir ·

No fim da rua de pedra, numa casa torta, morava a vizinha que ninguém tinha coragem de cumprimentar

Na vila de Pedra Miúda havia uma rua que subia o morro, e no fim dessa rua havia uma casa torta.

Torta mesmo: o telhado pendia para a esquerda, a chaminé para a direita, e a porta era daquelas que só fecham se você levantar um pouquinho. No quintal cresciam ervas que ninguém sabia nomear e um pé de figo que dava figo o ano inteiro, o que já era suspeito por si só.

Ali morava Dona Melinda.

Dona Melinda era bruxa. Isso todo mundo sabia — ela mesma nunca escondeu, tinha chapéu e tudo.

O que ninguém sabia era mais nada.

Ninguém sabia, por exemplo, que ela gostava de figo com queijo, que dormia de janela aberta mesmo no frio e que tinha um caderno de receitas herdado.

Ninguém sabia porque ninguém nunca tinha perguntado.

O Costume de Atravessar a Rua

Quando Dona Melinda descia para comprar farinha, acontecia sempre a mesma coisa.

As conversas na feira baixavam de volume. Uma mãe puxava a criança para perto. Alguém atravessava para a outra calçada, fingindo que estava indo mesmo naquela direção.

Não era ódio. Era pior, de certo modo: era costume. As pessoas de Pedra Miúda desviavam dela como se desvia de uma poça, sem pensar, sem raiva, sem nem olhar direito para o que estavam desviando.

O padeiro atendia, mas atendia rápido, sem olhar muito.

— Bom dia — dizia Dona Melinda.

— Bom dia — respondia o padeiro, para o balcão.

— Dois quilos de farinha, por favor. Da branca.

— Dois quilos — repetia ele, já medindo, já embrulhando, já querendo acabar.

Ela pagava, guardava a farinha na sacola e subia o morro de volta, contando os degraus da rua de pedra para não pensar em outra coisa. Eram cento e nove.

Fazia isso havia dezenove anos.

O Inverno Ruim

Naquele ano o inverno veio pesado.

Choveu três semanas seguidas. O rio subiu e levou a ponte pequena. A colheita de batata deu errado. E, como acontece quando muita coisa dá errado ao mesmo tempo, as pessoas de Pedra Miúda começaram a brigar entre si.

O ferreiro brigou com o carpinteiro por causa de um portão. A dona da mercearia parou de falar com a irmã por um motivo que as duas já tinham esquecido. Os meninos brigavam na rua. Os adultos brigavam na fila.

A vila inteira ficou de mau humor, de um jeito grudento que não passava.

Lá de cima do morro, da janela da casa torta, Dona Melinda via tudo. Via a fila da mercearia se desmanchar em vozes altas.

E pensava: alguém tem que fazer alguma coisa.

Depois pensava: mas quem é que vai ouvir a bruxa?

Ficou uma semana nessas duas frases, uma empurrando a outra, até que numa terça à noite olhou para o caderno de receitas em cima da mesa e teve uma ideia que não dependia de ninguém ouvindo.

O Que Ela Fez

Numa quarta-feira, Dona Melinda desceu à vila e comprou uma quantidade estranha de coisas.

Farinha demais. Ovos demais. Manteiga demais. E todo o chocolate que a mercearia tinha, o que fez a dona levantar as sobrancelhas mas não perguntar nada.

— É... — começou a dona da mercearia. — É bastante chocolate.

— É — concordou Dona Melinda, e não explicou.

Subiu o morro com quatro sacolas, parando duas vezes só para respirar.

E acendeu o forno.

Passou o resto da quarta e a quinta inteira cozinhando. Derreteu chocolate em banho-maria, mexendo devagar, do jeito que o caderno mandava. A cozinha ficou quente como um dia de verão e o vidro da janela embaçou inteiro.

A fumaça que saía da chaminé torta tinha um cheiro que descia o morro e entrava pela janela das casas, e mais de uma pessoa em Pedra Miúda parou o que estava fazendo e ficou farejando o ar sem entender de onde vinha aquilo.

Na quinta à noite, com as costas doendo, cortou tudo em pedaços do mesmo tamanho, embrulhou cada um num quadrado de pano e copiou o mesmo bilhete muitas vezes, até a mão cansar.

Saiu de casa às quatro da manhã de sexta, quando a vila ainda dormia, com um cesto no braço e a chuva fina caindo no chapéu.

Na sexta de manhã, quando o pessoal da vila acordou, encontrou em cada soleira de porta um embrulho de pano.

Dentro, um pedaço de bolo de chocolate ainda morno.

E um bilhete escrito com uma letra antiga e caprichada:

Está feio o inverno. Isto aqui ajuda. Não é feitiço, é manteiga boa. — M.

A Manhã do Bolo

A vila encontra os embrulhos de bolo nas soleiras

Ninguém comeu na hora. Primeiro todo mundo desconfiou.

O ferreiro cutucou o pedaço dele com o dedo. A dona da mercearia cheirou. Um homem chegou a dar um pedacinho para o cachorro e ficou observando o cachorro por dez minutos, o que não fazia sentido nenhum porque o cachorro comia sapato.

— É da bruxa — disse o ferreiro.

— Claro que é da bruxa — disse a mulher dele. — Quem mais assina M.?

— Pois então.

— Pois então o quê?

O ferreiro não soube responder.

Foi uma criança, claro, quem comeu primeiro.

Chamava-se Nica, tinha seis anos, e a única coisa que passou pela cabeça dela ao ver o embrulho foi que estava com fome.

E gritou da porta de casa:

— MÃE! VEM AQUI!

A mãe veio correndo com aquele susto de mãe, que já vem com as mãos na frente.

— Que foi? Que foi?!

Nica não conseguiu explicar, porque estava com a boca cheia. Só apontou para o bolo e depois apontou para o próprio rosto, que estava fazendo uma cara difícil de descrever.

Em meia hora, Pedra Miúda inteira estava comendo bolo.

Lá em cima, Dona Melinda não tinha saído de perto da janela a manhã toda. Fez chá e esqueceu de beber. Tinha certeza de que alguém ia subir o morro para devolver o embrulho, ou pior, para reclamar.

O que ela viu, em vez disso, foi um monte de gente parada na porta de casa, mastigando.

Dona Melinda espia a vila pela janela embaçada da casa torta, ainda de avental

E aconteceu uma coisa engraçada. Como todo mundo tinha ganhado, todo mundo começou a comentar. E como todo mundo começou a comentar, as pessoas se falaram. E como as pessoas se falaram, o ferreiro e o carpinteiro se encontraram na rua com a boca cheia de chocolate e acharam ridículo continuar brigando por causa de um portão.

— O portão — começou o ferreiro.

— Deixa o portão — disse o carpinteiro. — Você provou o meio? O meio é melhor que a beirada.

— Provei. É melhor mesmo.

E ficou por isso.

A dona da mercearia foi até a casa da irmã levar o pedaço dela, porque a irmã morava no fim da vila e talvez não tivesse ganhado.

Tinha ganhado. Comeram os dois pedaços juntas.

Nenhuma das duas tocou no assunto da briga. Falaram do bolo, falaram da chuva, falaram de uma prima que ia casar. Deu certo assim.

A Subida do Morro

Ao meio-dia, um grupo subiu a rua de pedra.

Subiu parando, discutindo quem ia falar, empurrando o outro para a frente.

Dona Melinda ouviu os passos e ficou tensa, porque na experiência dela um grupo subindo o morro nunca tinha sido coisa boa.

Guardou o pano de prato. Endireitou o chapéu. Pensou em não abrir.

Abriu a porta levantando um pouquinho, como era preciso.

Lá fora estavam umas quinze pessoas. O padeiro na frente, com o chapéu na mão.

O padeiro, de chapéu na mão, espera na porta torta com alguns vizinhos

— Dona Melinda — disse ele, e engasgou um pouco. — A senhora... a senhora tem a receita?

Ela ficou olhando para eles. Contou até quatro antes de responder.

— Vocês subiram o morro para pedir a receita de um bolo.

— Não — disse o padeiro. — A gente subiu para pedir desculpa. A receita é que a gente também queria, mas isso é depois.

Atrás dele, alguém completou baixinho:

— Dezenove anos, Dona Melinda.

— Dezenove anos — repetiu ela.

Dona Melinda ficou muito quieta.

Ficou quieta tanto tempo que o padeiro começou a amassar o chapéu sem perceber.

Depois abriu a porta inteira.

— Entrem. Mas limpem o pé, que eu passei pano hoje.

A Cozinha Cheia

Não coube todo mundo. Ficaram alguns no quintal, embaixo do pé de figo, e não reclamaram porque figo o ano inteiro é uma coisa que impressiona.

— Como é que dá figo em julho? — perguntou um.

— Cuidado — disse outro, meio de brincadeira. — Deve ser magia.

Era só que o muro segurava o sol e o pé estava plantado no canto certo. Mas ninguém quis estragar a graça.

Dentro, a cozinha cheirava a chocolate de dois dias antes. Havia potes em todas as prateleiras, cada um com o nome de uma erva escrito à mão, e uma colher de pau tão usada que estava fina de um lado só.

Dona Melinda ensinou a receita em voz alta, com as mãos na massa, e todo mundo anotou como pôde — uns no papel, uns na palma da mão, o ferreiro em nada porque disse que ia decorar e depois não decorou.

Dona Melinda ensina a receita com as mãos na massa, cercada de vizinhos na cozinha

— Manteiga em ponto de pomada — dizia ela. — Pomada, não derretida. Derretida vira outra coisa.

— E se a gente não tiver chocolate desse?

— Aí faz de fubá, que também é bom. Mas não sai dizendo por aí que a receita é minha.

— E o forno? — quis saber uma menina, que era a Nica e tinha se enfiado ali na frente de todo mundo.

— O forno tem que estar quente antes de a massa entrar. Se entrar em forno frio, o bolo fica baixinho e triste.

— Triste como?

— Como uma pessoa que ninguém chamou para nada — disse Dona Melinda, e mexeu a massa mais um pouco.

Riram. Foi a primeira vez que alguém riu dentro daquela casa em muito tempo, e Dona Melinda precisou virar de costas um instante para mexer numa panela que não precisava ser mexida.

Quando o padeiro perguntou qual era o ingrediente mágico, ela respondeu sem levantar a cabeça:

— Não tem.

— Não tem?

— Bolo bom é manteiga boa, chocolate de verdade e forno na temperatura certa. Mágica é a parte de levar na casa dos outros.

O padeiro anotou até essa última frase, embaixo da receita, com a mesma letra torta com que anotava os pedidos do dia.

No fim da tarde saíram todos para o quintal, porque dentro já não dava para respirar direito, e comeram figo com queijo sentados no muro baixo. Alguém disse que figo com queijo era a melhor coisa do mundo.

— Eu sei — disse Dona Melinda.

Vizinhos sentados no muro do quintal comendo figo embaixo da figueira, ao fim da tarde

Depois Daquele Inverno

O inverno continuou ruim mais duas semanas, e depois passou, como sempre passa.

A ponte pequena foi refeita num mutirão de sábado. Dona Melinda apareceu com dois bolos e uma panela de café, e ninguém achou aquilo estranho — o que era, no fundo, a coisa mais nova que tinha acontecido em Pedra Miúda naquele ano.

A colheita seguinte deu bem melhor.

E a rua que subia o morro deixou de ser uma rua que ninguém usava. Passaram a subir crianças atrás de figo, vizinhas atrás de erva para chá e o padeiro atrás de opinião sobre fermento.

O padeiro, aliás, pôs o bolo na vitrine da padaria e escreveu no cartão: bolo da Dona Melinda. Perguntou antes se podia. Ela disse que sim, mas que era para ele caprichar na manteiga, porque o nome era dela e ela tinha uma reputação a zelar.

Nica subia quase toda semana. Aprendeu a reconhecer as ervas pelo cheiro, aprendeu a levantar a porta um pouquinho para fechar e aprendeu a chamar Dona Melinda de vizinha, que era o que ela sempre tinha sido.

Na feira, o volume das conversas continuava mudando quando ela chegava. Só que agora era porque três pessoas falavam com ela ao mesmo tempo.

Dona Melinda cumprimentada na rua de pedra, entregando um embrulho de pano numa porta

Dizem que virou costume, em Pedra Miúda, que quando alguém está de mau humor demais, um vizinho aparece na porta com um pedaço de bolo embrulhado num pano.

Não resolve tudo.

Mas, segundo eles, ajuda mais do que parece.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Todo mundo tinha medo da Dona Melinda sem nunca ter falado com ela. Por que isso acontece?
  2. Ela poderia ter ficado brava e não fazer nada. Por que você acha que ela fez o bolo?
  3. Para quem você levaria um pedaço de bolo hoje?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para virar do avesso a figura da bruxa dos contos de fadas — aqui ela não é vilã nem precisa de resgate: é só uma vizinha que ninguém deu chance.

Perguntas frequentes sobre A Bruxa Boa e o Bolo de Chocolate Mágico

Qual é a moral desta história?

Que fama não é verdade, e que alguém precisa dar o primeiro passo para quebrar um mal-entendido. Dona Melinda não espera a vila mudar de ideia — ela oferece algo primeiro.

Esta história tem bruxa má ou parte assustadora?

Não. Não há vilão nem susto em nenhum momento: o conflito é um mal-entendido entre vizinhos, e se resolve na cozinha. É segura para crianças que se assustam com facilidade.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 8 anos. O tema de não julgar pela aparência funciona bem já com os menores, e a parte da receita costuma dar vontade de fazer bolo de verdade no dia seguinte.

Que tal a história de amanhã?