Contos para Dormir
Ilustração do conto O Pinheiro Torto da Praça

O Pinheiro Torto da Praça

Todo ano a cidade escolhia a árvore mais bonita para enfeitar. Este ano, por um engano, escolheram a pior de todas.

Na véspera do Natal, uma árvore que ninguém queria acabou no meio da praça

Na cidade de Vila Alta, escolher a árvore de Natal era coisa séria.

Todo ano, no começo de dezembro, uma comissão subia até o pinheiral do morro para decidir qual seria. E os critérios eram rigorosos: tinha que ser alta, tinha que ser cheia, e — principalmente — tinha que ser reta.

Reta como um poste. Reta de dar gosto.

A árvore escolhida era cortada, descia o morro num caminhão e era plantada no meio da praça, onde ficava até janeiro, coberta de luzinhas.

Era sempre muito bonita.

E, verdade seja dita, ninguém prestava muita atenção nela.

O Erro do Seu Anselmo

Naquele ano, quem foi buscar a árvore foi o seu Anselmo, que trabalhava na prefeitura havia trinta anos e enxergava mal desde os cinquenta.

A comissão tinha marcado a árvore escolhida com uma fita vermelha.

Só que na véspera ventou forte, e a fita voou.

Seu Anselmo chegou no pinheiral de manhã cedo, com neblina, procurou a fita, não achou, e resolveu que não ia ficar ali a manhã inteira. Escolheu o pinheiro que lhe pareceu mais alto e mandou cortar.

Quando o caminhão chegou na praça e baixaram a árvore, a cidade inteira parou para olhar.

Aquele pinheiro era torto.

Torto de um jeito quase engraçado: subia reto até a metade, aí fazia uma curva para a esquerda, mudava de ideia e voltava para a direita, e terminava com a ponta apontando para um lado que não era o de cima. De um dos lados faltavam galhos, então tinha um buraco na copa. Do outro, os galhos eram tão compridos que quase encostavam no chão.

O presidente da comissão levou a mão à testa.

— Anselmo.

— Foi a fita — disse seu Anselmo, muito vermelho. — A fita voou.

O Problema Prático

Já era dia vinte e dois.

Não dava tempo de subir o morro de novo, cortar outra, descer, plantar. E o pinheiro certo já estava lá em cima, cortado por engano numa segunda tentativa que também deu errado, porque no fim das contas cortaram dois.

A comissão se reuniu de emergência na padaria.

— A gente pode não pôr árvore este ano — sugeriu alguém.

— Sem árvore? — a dona da mercearia quase deixou cair a xícara. — E as crianças?

— Então põe essa aí.

— Aquela coisa?

Discutiram uma hora. No fim, decidiram por falta de alternativa: ia a torta mesmo, e que ninguém comentasse.

A Noite dos Enfeites

À tarde, foram enfeitar.

E aí descobriram a primeira coisa engraçada.

Numa árvore reta, os enfeites ficam todos parecidos, pendurados na mesma altura, dando a volta certinha. É bonito e é previsível.

Naquela árvore, não teve jeito de fazer certinho. Os galhos compridos de um lado pediam bolas grandes. O buraco na copa precisou ser resolvido com uma fita comprida que alguém enrolou em espiral. A ponta torta não segurava a estrela de jeito nenhum, então penduraram a estrela num galho lateral, o que ficou completamente errado e, por algum motivo, muito bonito.

As crianças da vizinhança foram chegando para ajudar, porque tinha galho baixo o suficiente para elas alcançarem — coisa que nunca tinha acontecido antes.

Quando escureceu e acenderam as luzes, a praça ficou em silêncio.

O Que Aconteceu Depois

Seu Anselmo conta a história do pinheiro torto

Na noite seguinte, aconteceu uma coisa que não estava nos planos de ninguém.

As pessoas começaram a parar.

Não passar pela praça: parar mesmo. Sentar no banco. Olhar a árvore. Comentar a curva esquisita do meio. Rir do galho que quase encostava no chão. Tirar foto com a família debaixo daquela ponta virada para o lado.

Um menino perguntou para a mãe por que a árvore era daquele jeito.

— Porque ela cresceu procurando o sol — disse a mãe, que era professora e sabia dessas coisas. — Deve ter tido uma árvore grande do lado dela, fazendo sombra. Aí ela foi entortando para achar a luz.

O menino ficou olhando a árvore com outra cara depois disso.

— Então ela é torta porque ela tentou.

O Ano Seguinte

Passou o Natal, veio janeiro, tiraram a árvore.

E em dezembro do ano seguinte, quando a comissão se reuniu para escolher a nova, houve uma discussão inesperada na padaria.

— A gente vai buscar uma reta de novo? — perguntou a dona da mercearia.

Silêncio.

— É que ano passado o pessoal parou na praça — disse o padeiro. — Faz uns quinze anos que eu vendo pão aqui e nunca vi tanta gente sentada naquele banco.

Discutiram outra hora.

No fim, mandaram o seu Anselmo — que já estava aposentado, mas foi feliz da vida — subir o morro com uma única instrução:

— Traz a mais esquisita que você achar.

Hoje em Vila Alta

Dizem que virou tradição.

Todo ano, a árvore da praça de Vila Alta é escolhida entre as tortas, as furadas, as que têm um galho a mais de um lado só. Quanto mais estranha, melhor.

Dizem que gente de cidade vizinha vem ver.

E dizem que o seu Anselmo, que morreu velhinho alguns anos depois, contava aquela história do dia da fita para qualquer um que sentasse ao lado dele no banco da praça — sempre terminando do mesmo jeito, com um sorriso meio sem-vergonha:

— Foi o melhor erro que eu já fiz na vida.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Por que você acha que as pessoas começaram a parar na praça só depois do pinheiro torto?
  2. O seu Anselmo errou e ficou com vergonha. Mas o erro dele deu certo. Isso acontece?
  3. Tem alguma coisa em você ou na sua casa que é torta e você gosta assim?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para dezembro. Não tem nada de religioso: fala do Natal como a época em que a cidade se junta na praça — e serve para qualquer família, independentemente do que se celebra.

Perguntas frequentes sobre O Pinheiro Torto da Praça

Qual é a moral desta história?

Que a perfeição costuma passar despercebida e que o que tem um jeito próprio é o que fica na memória. Também fala sobre um erro que acaba dando mais certo do que o plano original.

Esta é uma história religiosa?

Não. É uma história de Natal sobre a árvore da praça e sobre a cidade se reunir. Não trata de nenhum conteúdo religioso e serve para qualquer família.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 8 anos. É uma boa leitura para o mês de dezembro, principalmente para crianças que andam se comparando com os colegas.

Que tal a história de amanhã?