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Contos para Dormir
Ilustração do conto O Vilarejo Onde Cada Um Tinha Sua Cor

O Vilarejo Onde Cada Um Tinha Sua Cor

Em Colorim, cada família brilhava numa cor diferente. Davi era azul, Leo era amarelo — e ninguém imaginava o que aconteceria quando os dois virassem amigos.

Equipe Contos para Dormir ·

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Naquele vilarejo especial, as crianças aprenderam que a amizade verdadeira supera qualquer diferença

No vilarejo de Colorim, cada família tinha sua própria cor. Não a cor da pele — isso era igual para todos —, mas uma cor de alma que brilhava levemente ao redor das pessoas quando elas sentiam emoções fortes: os Amarelos ficavam luminosos quando estavam felizes; os Azuis pulsavam suavemente quando estavam tristes; os Verdes brilhavam quando estavam curiosos; os Vermelhos faiscavam quando estavam com raiva ou animados. Era uma coisa linda de se ver numa festa, quando todas as cores misturavam-se no ar como fogos de artifício suaves.

Quem chegasse a Colorim no fim de uma tarde qualquer levava um tempinho para entender o que estava vendo. As casas eram baixas, de telhado inclinado e janela larga, e todas as ruas de pedra desciam para o mesmo campo verde no meio do vilarejo. Cheirava a pão doce saindo dos fornos e a grama recém-cortada. E, se a pessoa ficasse bem quieta, ouvia um zumbido fininho, como o de uma abelha muito longe: era o barulho que as cores faziam ao acender. Uma criança passava correndo atrás de uma bola e deixava atrás de si um rastro dourado que demorava três segundos para sumir no ar. Ninguém achava aquilo estranho. Em Colorim, sentir era uma coisa que se via.

As cores do vilarejo se misturam no céu

Mas havia um problema. Com o tempo, as famílias de cada cor foram se juntando cada vez mais entre si e se afastando das outras. Os Amarelos achavam que os Azuis eram dramáticos demais. Os Vermelhos achavam que os Verdes eram lentos e pensavam demais. Os Azuis achavam os Amarelos fúteis. E assim por diante.

Ninguém havia decidido isso numa reunião. Foi acontecendo de a padaria dos Amarelos ficar cheia só de Amarelos e de as festas de aniversário terem convidados de uma cor só. Depois vieram as frases prontas, ditas de leve, no meio de outro assunto: "Ah, mas você sabe como eles são." As crianças cresciam ouvindo essas opiniões dos adultos, e aos poucos foram incorporando-as sem questionar.

Dois Meninos, Duas Cores

Foi nesse contexto que Davi e Leo cresceram. Davi era Amarelo — filho de uma família alegre e expansiva, sempre cheia de risadas e festas. Leo era Azul — filho de uma família quieta, reflexiva, que amava música lenta e conversas profundas. Os dois moravam na mesma rua, mas nunca haviam trocado mais de três palavras, porque cada um havia aprendido em casa que os da outra cor "eram muito diferentes".

A casa de Davi ficava no número 12 e era impossível não notar. O portão vivia aberto, tinha sempre gente entrando e saindo, alguém rindo alto na cozinha e um cheiro de bolo que escapava pela janela e atravessava a calçada inteira. A casa de Leo ficava no número 27, do outro lado, e era o contrário: cortina meio fechada mesmo ao meio-dia, um violão tocando devagar lá dentro.

De manhã, os dois esperavam o mesmo ônibus da escola no mesmo poste. Davi ficava de um lado, Leo do outro, com uns seis passos de distância, como se alguém tivesse marcado o chão. Às vezes Davi olhava de rabo de olho para aquele menino sério de mochila azul e pensava em dizer bom dia. Às vezes Leo olhava para o menino que ria sozinho lendo gibi e pensava a mesma coisa. Nenhum dos dois dizia nada. Seis passos podem ser uma distância enorme quando ninguém nunca ensinou você a atravessá-la.

Dois meninos esperando o ônibus em lados opostos de um poste, um com brilho amarelo e outro com brilho azul

Até o dia em que Davi quebrou o tornozelo.

Foi uma queda boba de bicicleta numa descida rápida. Ele pegou a curva da rua de pedra torto demais e não teve tempo nem de frear. Davi voou do banco, rolou pelo asfalto e ficou deitado na calçada com a perna torta e o joelho sangrando, cercado de uma auréola amarela forte — da cor de quem está com dor e com medo ao mesmo tempo.

Nenhum de seus amigos estava por perto. Era tarde da tarde, a rua estava quase vazia, e a bicicleta jazia de lado a três metros dele, com a roda ainda girando devagar. Davi tentou se levantar uma vez, sentiu uma pontada quente subir pela perna e desistiu. Sentou-se no meio-fio, abraçou o joelho e ficou olhando para o fim da rua, torcendo para aparecer alguém — e ao mesmo tempo com vergonha de que aparecesse.

Foi Leo quem passava por ali, voltando da escola com a mochila nas costas. Quando viu Davi caído, parou. Ficou um segundo avaliando a situação — o azul ao redor dele pulsando de preocupação —, e então foi até o menino sem hesitar.

— Consegue se levantar? — perguntou ele.

— Não sei — respondeu Davi, tentando esconder a dor na voz. — Acho que torci o tornozelo.

Leo jogou a mochila no chão, agachou-se, examinou o tornozelo com cuidado — sua mãe era enfermeira e ele havia aprendido o básico de primeiros socorros — e disse com calma: — Não parece quebrado, mas está bastante inchado. Você mora perto daqui?

— Número 12 — disse Davi. — Duas quadras.

— Então a gente vai devagar — respondeu Leo, e levantou a bicicleta do chão para tirá-la do caminho.

Leo ajudou Davi a chegar em casa, e ali nasceu uma amizade que ninguém esperava

Um menino agachado cuidando do tornozelo de outro sentado no meio-fio de uma rua de pedra

Ajuda que Vem de Onde Menos Se Espera

Leo ajudou Davi a se levantar, colocou o braço dele no próprio ombro e o carregou praticamente até a porta de casa. Foram duas quadras de caminhada lenta e silenciosa, com Davi mancando e Leo sustentando, o amarelo e o azul deles misturando-se no ar em algo que nenhum dos dois sabia nomear — uma cor entre os dois, que não era nem amarela nem azul.

No meio do caminho, Davi arriscou:

— Desculpa. Eu tô pesado.

— Você tá — disse Leo, sem parar de andar. — Mas falta pouco.

Davi riu, e a risada doeu no tornozelo, e ele riu de novo mesmo assim. Era a primeira vez na vida que ouvia um Azul fazer piada, e a piada era boa.

A mãe de Davi abriu a porta e ficou pálida ao ver o filho mancando, mas rapidamente mudou de expressão quando notou quem estava ajudando. — Leo, filho dos Sousa? — perguntou ela, com um tom levemente surpreso que qualquer criança de Colorim saberia interpretar: surpreso porque ele era Azul.

— Sim, senhora — disse Leo, com toda a educação que sua família lhe havia ensinado. — Encontrei seu filho caído na rua. Acho que precisa gelo no tornozelo.

A mãe de Davi ficou quieta por um momento. Depois abriu a porta completamente. — Entre, Leo. Muito obrigada.

Enquanto a mãe de Davi cuidava do tornozelo, Leo ficou sentado na cozinha tomando o suco que lhe ofereceram. Era uma cozinha barulhenta mesmo vazia: relógio alto na parede, geladeira cheia de ímãs, cheiro de alho no ar. Leo, que vinha de uma casa silenciosa, achou aquilo estranhamente confortável.

Os dois meninos ficaram em silêncio por um momento — o amarelo de Davi ainda forte com o resquício da dor, o azul de Leo suave e calmo. Então Davi disse, sem pensar muito:

— Por que você me ajudou? A gente nem se conhece.

Leo encolheu os ombros. — Você estava machucado. Não precisa de mais motivo do que isso.

Dois meninos na cozinha de uma casa, um com o pé apoiado numa cadeira e o outro segurando um copo de suco

O Que a Amizade Revela

Nos dias seguintes, enquanto Davi ficou em casa com o tornozelo enfaixado, Leo voltou para visitar. Trouxe o dever de casa, depois trouxe um jogo de tabuleiro, depois simplesmente passou para conversar. E conversaram — de verdade, como dois meninos que se descobrem tendo mais em comum do que jamais imaginaram possível.

Davi descobriu que Leo era engraçado de um jeito diferente — não engraçado de gargalhadas, mas de observações sutis que faziam a gente pensar e depois dar aquela risada baixinha de quem entendeu algo verdadeiro. Leo descobriu que Davi era muito mais profundo do que parecia — debaixo da alegria constante, havia um menino que pensava muito sobre o mundo e que tinha perguntas que nunca havia feito para ninguém porque achava que pareceria estranho.

Descobriram também coisas pequenas e importantes: que os dois odiavam beterraba, que os dois sabiam assobiar a mesma música sem saber o nome dela, que Leo desenhava mapas de lugares que não existiam e que Davi guardava numa caixa de sapato todas as pedras estranhas que já tinha achado na rua. Numa das tardes, Davi mostrou a caixa. Leo pegou cada pedra, virou na mão contra a luz da janela e ficou sério, do jeito que só ele ficava sério, e disse: — Essa aqui é a melhor. — E era mesmo.

— Você já se perguntou por que as nossas cores aparecem? — perguntou Davi uma tarde. — Tipo, de onde vem isso?

Leo ficou pensativo. — Já. Minha mãe diz que é porque sentimentos são energia, e energia tem cor. Mas eu acho que tem mais coisa do que isso.

— Tipo o quê?

— Tipo… você já notou que quando as cores se misturam, aparece uma cor nova? Quando você estava com dor e eu estava preocupado, a cor entre a gente era uma espécie de roxo. Nunca vi ninguém falar sobre isso.

Davi ficou olhando para Leo por um longo momento. — Eu também vi — disse ele baixinho. — Achei que tinha imaginado.

— Não imaginou — disse Leo. — Só que pra ver, precisa ter alguém do outro lado.

Dois meninos sentados no chão de um quarto com um jogo de tabuleiro entre eles e um brilho roxo no ar

Com o tempo, a amizade entre Davi e Leo mostrou para toda a aldeia o poder das diferenças

O Dia em que Colorim Mudou

A amizade entre Davi e Leo cresceu devagar e com raízes fundas, como as melhores amizades crescem. Eles estudavam juntos, brincavam juntos, discutiam sobre tudo — às vezes concordando, às vezes brigando e se reconciliando, mas sempre voltando um para o outro com mais respeito do que antes.

Quando o tornozelo sarou, os seis passos do ponto de ônibus viraram nenhum. Davi aprendeu a ficar quieto quando Leo estava pensando, e Leo aprendeu que às vezes é bom rir alto por nada. Na casa número 12, a mãe de Davi passou a fazer bolo de fubá aos sábados porque tinha descoberto que era o preferido do amigo do filho.

Os adultos observavam com estranheza. Alguns comentavam nas esquinas: — Aquele menino Amarelo está sempre com o Azul. Isso não é normal. Mas as crianças eram crianças — elas não tinham o mesmo cuidado dos adultos em manter as distâncias, e logo os amigos de Davi começaram a conviver com Leo, e os amigos de Leo com Davi, e ali uma coisa nova começou a se formar em Colorim.

Foi devagar, como acontecem as coisas verdadeiras. Um Verde emprestou a bola para um Vermelho no recreio. As esquinas continuaram comentando, mas cada vez mais baixinho, porque é difícil manter uma opinião firme sobre um grupo inteiro quando você já jantou na casa de alguém dele.

Numa festa da escola, quando todas as famílias se reuniram no campo central, algo que nunca havia acontecido antes ocorreu: as cores no ar, em vez de ficarem separadas em grupos distintos, começaram a se misturar. Amarelo e Azul viravam verde dourado. Azul e Vermelho viravam um lilás intenso. Quando alguém riu de uma piada e outro ficou curioso, e um terceiro ficou animado, o ar sobre o campo ficou cheio de uma cor que não tinha nome — uma cor que só existe quando muitos sentimentos diferentes se encontram no mesmo lugar ao mesmo tempo.

Uma criança pequena apontou para o céu e gritou: — Que bonito! E todos olharam.

Dois meninos deitados na grama ao entardecer olhando para um céu de cores misturadas

Davi e Leo estavam lado a lado, olhando para o mesmo céu colorido, e nenhum dos dois precisou dizer nada. Às vezes as melhores coisas não precisam de palavras — elas simplesmente brilham no ar entre as pessoas que as entendem.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. No vilarejo, cada família tinha uma cor. Que cor você acha que seria a sua?
  2. O Davi e o Leo eram bem diferentes. O que os dois descobriram juntos?
  3. O que você aprendeu com um amigo que é diferente de você?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para ser lida em voz alta na hora de dormir. Não é uma adaptação de conto tradicional: os personagens e o enredo são nossos.

Perguntas frequentes sobre O Vilarejo Onde Cada Um Tinha Sua Cor

Qual é a moral desta história?

Que as diferenças entre as pessoas são justamente o que torna a amizade rica. Quando as cores se encontram, aparece uma terceira que nenhuma das duas faria sozinha.

Esta história serve para falar sobre respeito às diferenças?

Serve muito bem, inclusive em sala de aula. A metáfora das cores é concreta o bastante para crianças de 5 anos entenderem e rica o bastante para render conversa com crianças de 10.

Para que idade esta história é indicada?

A faixa sugerida é de 5 a 9 anos. Os menores acompanham bem a ideia de cada família de Colorim brilhar numa cor, e a queda de bicicleta do Davi segura a atenção até o fim. Dos 7 aos 9, dá para conversar sobre por que os adultos do vilarejo evitavam quem era de outra cor.

Que tal a história de amanhã?