
A Coruja que Tinha Medo do Dia
Todas as corujas do bosque dormem quando o sol chega. Nina queria ver o dia — e não conseguia nem botar a cara para fora do oco.
Todas as corujas do bosque dormem quando o sol chega. Todas, menos uma.
No oco de um jatobá bem velho morava uma coruja chamada Nina.
Nina era pequena, do tamanho de duas mãos juntas, com penas cor de canela e o peito salpicado de branco, como se alguém tivesse sacudido farinha nela. Tinha olhos enormes, cor de âmbar, e um tufo de penas claras em cima de um dos olhos, meio torto, que deixava ela com cara de estar sempre desconfiada de alguma coisa.
A família da Nina era uma família de corujas comuns. À noite saíam todos. Cortavam o escuro sem fazer barulho nenhum, pousavam nos galhos altos, escutavam o bosque inteiro respirar. De madrugada voltavam, se ajeitavam no oco do jatobá e dormiam o dia inteiro com a cabeça enfiada no ombro.
Nina fazia tudo isso. Voava, escutava, voltava.
Só que ela não dormia.
Ficava ali, encostada na borda do oco, olhando a fresta de luz que aparecia lá fora e ouvindo os barulhos de um mundo que ela nunca tinha visto. Passarinho conversando. Abelha zunindo. Bicho miúdo remexendo folha seca. Alguém rindo longe, num lugar que ela não sabia onde era.
— Mãe — perguntou uma vez. — Como é o dia?
A mãe abriu um olho só.
— Claro — disse. — Claro demais.
E dormiu de novo.
Nina perguntou para o pai, que respondeu a mesma coisa com outras palavras. Perguntou para o irmão mais velho, que resmungou que dia é assunto de passarinho e que coruja que se preze não se mete. Perguntou para a tia, que morava dois galhos acima e sabia tudo, e a tia respondeu que dia é claro e pronto, minha filha, agora deixa a tia dormir.
Ninguém no jatobá inteiro achava aquilo uma pergunta interessante.
Numa dessas manhãs, Nina esperou todo mundo pegar no sono. Depois foi chegando de mansinho até a boca do oco e botou a cara para fora.
A luz bateu nela como um tapa.
Ardeu. Os olhos encheram de água na hora, o mundo virou um borrão branco, e ela recuou de costas, tropeçando nas próprias patas, até bater no fundo escuro do oco. Ficou lá encolhida, com o coração batendo no pescoço.
Era isso, então. O dia não queria ela.

Daquele dia em diante, Nina passou a ter medo.
Não do escuro, como as crianças. Nina tinha medo do claro. Bastava a primeira linha de luz aparecer no céu para o peito dela apertar e as patas quererem entrar.
E mesmo assim, toda madrugada, lá estava ela na borda do oco — com medo e com vontade ao mesmo tempo, que é uma mistura esquisita de sentir.
O Beija-Flor que Chegou Cedo
Foi numa madrugada dessas que apareceu o Tico.
Tico era um beija-flor de costas verdes, daquele verde que troca de cor conforme o bicho vira, e de garganta vermelha. Voava tão depressa que parecia estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Ele parou no ar bem na frente do oco, zumbindo.
— Você é a coruja que não dorme?
Nina se assustou.
— Quem falou isso?
— Todo mundo. As formigas comentam. A gente escuta.
Nina não soube o que responder, então respondeu a verdade.
— Eu queria ver o dia.
— Então vem ver.
— Eu não consigo. Eu já tentei. Arde.
Tico pousou. Beija-flor pousado é coisa rara de se ver, e ele ficou ali no galho, do tamanho de um dedo, olhando aquela coruja vinte vezes maior do que ele — e toda encolhida de medo.
— Você tentou o dia inteiro de uma vez — disse ele. — Ninguém come um jatobá inteiro de uma mordida.
— Eu só botei a cara para fora.
— Ao meio-dia?
Nina pensou. Era mais ou menos meio-dia, sim.
— Pois é — disse Tico. — Você abriu a porta na hora mais barulhenta da festa.
— E como é que faz?
— De um pouquinho — disse Tico. — O dia se come de um pouquinho.
Nina inclinou a cabeça para o lado, quase de ponta-cabeça, que é o que as corujas fazem quando estão pensando com força.
— Começando por onde?
— Pelo pedaço mais parecido com a sua noite. O comecinho de tudo. Aquela hora em que o escuro ainda está aqui e a luz só encostou. Isso quase nem é dia. Isso é a beirada do dia.

A Beirada do Dia
No dia seguinte, Tico chegou antes do sol.
— Combinado assim — disse ele. — Hoje a gente vai só até o galho torto. Nem um passo além.
O galho torto era ali do lado, três saltinhos para fora do oco. De noite, Nina passava por ele sem nem olhar.
O céu ainda estava roxo. Roxo de tempestade que já foi embora. Nina pulou uma vez, duas, três, e ficou em cima do galho torto com as penas todas eriçadas, esperando a ardência chegar.
Não chegou.
Estava claro, sim, mas era um claro macio, sem gume. Dava para ficar.
— Está vendo? — disse Tico, girando no ar. — Isso aqui é sobra da sua noite. O sol nem levantou direito.
Nina ficou. Ficou olhando o roxo virar rosa e o rosa virar laranja, sem entender direito de onde vinham aquelas cores, porque cor era uma coisa que ela quase não enxergava no escuro. À noite, o bosque inteiro é prata e cinza e azul-escuro, tudo muito nítido e nada colorido.
Aquilo, então, era outra coisa.
Um sabiá começou a cantar em algum lugar atrás dela. Depois outro respondeu, mais longe. Depois um terceiro, tão longe que era quase só uma ideia de sabiá. Nina já tinha ouvido aquilo mil vezes de dentro do oco, abafado pela madeira, e nunca tinha percebido que eram três, e que um esperava o outro terminar.
Aquilo, então, também era outra coisa.
— Amanhã a gente vai até onde? — perguntou ela, e a própria voz saiu com um tremor que ela não tinha pedido.
— Até a moita de flores — disse Tico. — Um pouquinho.
— Um pouquinho — repetiu Nina.
E entrou para dormir com a cabeça cheia de laranja.

As Cores que Não Existem de Noite
Foi indo assim.
Um dia, o galho torto. No outro, a moita de flores, três árvores adiante. Depois a pedra chata perto do córrego. Depois a curva onde o capim fica alto.
Toda madrugada Tico chegava com a mesma pergunta, sempre no mesmo tom, como quem bate na porta:
— Hoje a gente vai até onde?
E Nina respondia o lugar, e ia.
O que ela mais gostava eram as cores.
À noite, uma flor é um vulto claro. De manhã, aquela mesma flor era vermelha. Não vermelha de longe: vermelha na cara dela, gritando de vermelho, com o meio amarelo e uma abelha desastrada dentro, se sujando toda.
— Isso é vermelho? — perguntou ela na primeira vez.
— Isso é vermelho.
— Igual à sua garganta?
— Melhor que a minha garganta — disse Tico. — Mas não conta para ninguém.
Nina descobriu que borboleta é bicho que só aparece de manhã, e que borboleta parada e borboleta voando parecem dois bichos diferentes.
Descobriu o verde das folhas novas, que não é o mesmo verde das folhas velhas. Descobriu que a água do córrego, de manhã, fica cheia de pedacinhos de sol tremendo em cima. Descobriu que tem um cheiro que só chega quando o orvalho começa a secar, e que esse cheiro é a coisa mais parecida com o gosto de estar acordado.
E descobriu uma coisa que ninguém tinha contado para ela: de manhã cedo o bosque está começando, e de noite o bosque está terminando. É o mesmo bosque, as mesmas árvores, o mesmo córrego — mas um está se espreguiçando e o outro está se ajeitando para dormir, e dá para sentir a diferença no ar.
Ela voltava para o oco de olho apertado e coração acelerado, se enfiava no meio dos irmãos adormecidos e ficava um tempão sem conseguir dormir, repassando as cores.

O Dia em que a Nina Quis Demais
Uma hora tinha que acontecer, e aconteceu.
Nina cansou do pouquinho.
Já tinha ido até a curva do capim alto. Já tinha visto o vermelho, o verde novo e o sol tremendo na água. E ficava pensando: se a beirada do dia é assim, imagina o miolo.
Naquela manhã ela não esperou o Tico.
Ficou no galho torto vendo o laranja passar, vendo o céu ficar daquele azul liso de meio da manhã, e não entrou. Ficou. Apertava os olhos, doía um pouco, mas dava para aguentar. Se dava para aguentar aquilo, pensou ela, dava para aguentar o resto.
Aí saiu sozinha, quando o sol já estava alto, e voou reto para o meio do campo aberto.
Foi horrível.
A luz não ardeu como um tapa daquela vez — ardeu como se o mundo inteiro tivesse acendido de uma vez só. O campo sumiu num branco sem borda nenhuma. Nina não enxergava o chão, não enxergava as árvores, não enxergava nem as próprias asas.
Foi parar no meio de uma touceira de capim, se enroscou, se desenroscou de qualquer jeito e ficou quietinha ali, encolhida, com os dois olhos fechados com força e o peito subindo e descendo depressa.
Ouviu o zumbido antes de qualquer outra coisa.
— Não abre os olhos — disse Tico. — Vira para a esquerda e anda. Eu vou zumbindo na frente.
Nina andou de olhos fechados, tropeçando, ouvindo aquele zumbidinho ir e voltar, ir e voltar, até que o chão ficou mais fresco e o branco atrás das pálpebras foi virando cinza.
— Pode abrir. Está na sombra.
Ela abriu. Estava debaixo de uma folha larga, do tamanho de um guarda-chuva. Os olhos doíam, o bico tremia, e ela disse a coisa que estava entalada desde o começo:
— Eu nunca vou conseguir.

O Tamanho Certo
Tico não disse que ela ia conseguir.
Também não disse que ela tinha feito bobagem, que ele já sabia, que era para ter esperado. Ele ficou ali um tempo, quietinho para um beija-flor, olhando o campo branco lá fora.
— Nina — disse ele. — O que você viu hoje de manhã?
— Nada. Só branco.
— E ontem?
Ela pensou.
— A teia da aranha com orvalho. Parecia de vidro.
— E anteontem?
— O bando de periquitos passando. Todos gritando ao mesmo tempo.
— Então — disse Tico. — O meio-dia não é seu. Nunca vai ser. Você tem olho de escuro, e olho de escuro não foi feito para campo aberto ao meio-dia. Isso não é você não conseguir. Isso é você ser coruja.
Nina ficou remoendo aquilo.
— Mas o começo do dia é seu — continuou ele. — E olha que o começo do dia é a melhor parte. Os bichos da noite já foram dormir, os bichos do dia ainda não acordaram direito. Sobrou para você e para mim.
— E se eu quiser mais?
— Aí você quer mais e não tem. Igual a todo mundo. Eu queria enxergar no escuro que nem você, e não enxergo nada. De noite eu durmo agarrado num galho igual a uma folha seca, torcendo para o vento se comportar.
— Sério?
— Sério. Já caí três vezes.
Nina riu. Foi um riso curto, meio embargado, mas foi riso.
Na madrugada seguinte, ela levou a irmã menor até o galho torto. A irmã reclamou o caminho inteiro, disse que estava com sono, disse que ia contar para a mãe. Aí o céu ficou rosa e ela parou de falar.
Na outra madrugada, foram três. Na outra, cinco, e a mãe atrás, resmungando que aquilo era hora de gente dormir.
Mas ficou. Ficou até o laranja.

A Hora de Dormir da Nina
Hoje em dia, no jatobá velho, a madrugada termina de um jeito diferente.
As corujas voltam do voo da noite, como sempre. Mas em vez de entrar direto no oco, elas param no galho de fora e esperam.
Esperam o roxo. Esperam o rosa. Esperam o laranja encostar nas folhas de cima.
Tico chega zumbindo, dá duas voltas em torno da Nina só para atrapalhar, e vai cuidar das flores dele.
E quando a luz começa a ficar dura, quando o claro perde a maciez e o dia deixa de ser beirada e vira miolo, a Nina é a primeira a dizer:
— Chega por hoje.
Aí todas entram.
Entram sem pressa, uma de cada vez, do jeito de quem já viu o que queria ver.
Lá dentro do jatobá é escuro e é morno, e tem cheiro de madeira antiga. Do lado de fora o dia continua, com todo o barulho dele, e ali dentro o barulho chega macio, como chega o som de uma conversa em outro cômodo da casa.
As corujas se ajeitam, uma encostada na outra, bico embaixo da asa.
Nina se encaixa no lugar dela, que é o mais perto da boca do oco, porque ela gosta de sentir a luz de longe.
Fecha um olho.
Fecha o outro.
E dorme com um pedacinho de laranja guardado, esperando amanhã.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- O Tico disse que ninguém come um jatobá inteiro de uma mordida. O que ele quis dizer com isso?
- A Nina quis ver o dia todo de uma vez e se deu mal. Já aconteceu de você querer uma coisa depressa demais?
- Tem alguma coisa que você quer muito fazer e ainda dá um friozinho na barriga?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir, escrita para este site. A Nina e o Tico não vêm de nenhum conto antigo: foram inventados aqui. O detalhe de que as corujas enxergam muito bem no escuro, mas veem pouca cor à noite, é verdadeiro — o resto é história, e nela os bichos conversam, como nas histórias infantis de sempre.
Perguntas frequentes sobre A Coruja que Tinha Medo do Dia
Qual é a moral desta história?
Que uma coisa grande demais para encarar de uma vez costuma caber quando é dividida em pedaços pequenos. E que ser diferente do resto da família não é defeito: a Nina não vira uma coruja comum no final, ela encontra o jeito dela.
Esta história serve para criança que tem medo de alguma coisa?
Serve, sim. O medo da Nina é levado a sério do começo ao fim — ninguém diz a ela que é bobagem. O caminho que o beija-flor propõe, de ir se aproximando aos pouquinhos, é parecido com o que se costuma recomendar para medos de infância em geral.
Para que idade é indicada?
Dos 4 aos 8 anos. Tem dois personagens fáceis de guardar, frases curtas e uma repetição que as crianças pegam rápido e passam a falar junto na segunda leitura.
A história é assustadora ou tem final triste?
Não. A Nina passa um susto no meio da história, mas nada de ruim acontece com ela, e o último trecho é calmo de propósito, para fechar os olhos logo depois. Ninguém se machuca e ninguém fica sozinho.


