Contos para Dormir
Ilustração do conto A Noite de Natal no Sertão

A Noite de Natal no Sertão

Dalva só conhecia o Natal por uma figura de neve dentro de uma lata de biscoito — até reparar que o mandacaru do terreiro tinha formato de árvore.

Equipe Contos para Dormir ·

Na terra rachada do sertão, uma menina de oito anos resolveu que o Natal ia acontecer ali

Riacho Seco era um lugar pequeno.

Umas quinze casas de barro caiado espalhadas no pé de um serrote, um armazém, um cruzeiro de madeira fincado no meio do terreiro grande. Em volta de tudo, a caatinga: mato cinzento, galho torto, espinho.

Fazia oito meses que não chovia.

Oito meses é muito tempo. É tempo de o açude encolher até virar uma poça marrom no fundo do barro. É tempo de o chão do terreiro rachar em quadradinhos, feito casca de tartaruga. É tempo de a poeira subir toda vez que alguém pisa — e é tempo de o povo já ter parado de olhar para o céu no fim da tarde, porque olhar cansa.

Nessa vila morava uma menina chamada Dalva.

Dalva tinha oito anos, duas trancinhas presas com fitinha vermelha e um vestido de chita amarelo de florzinha, que tinha sido da prima antes de ser dela. Andava descalça o dia inteiro, e a sola do pé dela já era da cor do chão.

E Dalva nunca tinha visto neve.

Dizer isso é pouco. Ela nunca tinha visto neve, nem pinheiro, nem lareira, nem casaco de gola de pele. Nada daquilo existia num raio de muitas léguas. Mesmo assim, ela sabia direitinho como era cada uma dessas coisas.

Sabia por causa do papel.

O papel que veio de longe

O papel morava dentro de uma lata de biscoito, embaixo da cama.

Era uma folha arrancada de uma folhinha de parede velha que alguém tinha deixado no armazém havia uns três anos. Estava amassada nos cantos e desbotada no meio, mas não tinha perdido nada do que importava.

Dava para ver a casinha de telhado pontudo, coberta de branco. Dava para ver o pinheiro na frente, com bolinhas coloridas penduradas. Dava para ver a fumacinha saindo da chaminé e as pessoas de casaco grosso, todas rindo, com o nariz vermelho de frio.

Dalva pegava aquele papel quase toda noite. Passava o dedo em cima do branco do telhado e ficava imaginando que aquilo devia ser gelado.

Menina sentada na soleira de uma casa de barro caiada segurando um papel amassado com desenho de casa na neve

— Mãe — perguntou ela numa tarde de dezembro. — O Natal passa aqui?

Dona Zulmira estava peneirando farinha na porta da cozinha.

— Como assim, se passa? Passa todo ano, menina.

— Passa mesmo? Ou passa só na estrada, indo para outro lugar?

A mãe parou a peneira no ar.

— Por que você está falando isso?

Dalva mostrou o papel.

— Porque no Natal é assim. E aqui não é assim de jeito nenhum.

Dona Zulmira olhou o desenho. Depois olhou o terreiro rachado lá fora, o sol batendo branco em cima da poeira, a camisa do marido secando no arame em três minutos.

Não soube o que responder.

O que não dá no sertão

Quem respondeu foi o avô.

Seu Firmino estava na rede da varanda, com o chapéu de couro em cima do peito, do jeito que passava as horas mais quentes do dia. Tinha setenta e tantos anos, era magro que só, e a barba branca dele era curtinha porque ele aparava toda semana com a tesourinha de unha.

— Deixa eu ver esse tal de Natal — disse ele.

Dalva entregou o papel. O avô olhou demorado, virou de lado, virou de novo.

— Isso aqui é pinheiro — falou. — Pinheiro não dá aqui.

— E o branco?

— Neve. Também não dá.

— E a fumaça saindo da casa?

— Aquilo é fogo aceso dentro de casa, minha filha, porque lá é frio. Se a gente acender fogo dentro de casa em dezembro, a gente derrete.

Dalva riu. Depois parou de rir e ficou olhando o chão.

— Então não dá para ter Natal aqui.

Seu Firmino se levantou da rede devagar, do jeito de quem não tem mais pressa nenhuma, e foi até a beira da varanda. Apontou com o queixo para a entrada do terreiro.

— Pinheiro não dá. Mas dá aquilo ali.

Dalva olhou.

Era o mandacaru.

Tinha um mandacaru plantado ali desde antes de Dalva nascer. Um cacto alto, bem mais alto que um homem, com braços grossos e verdes subindo direto para o céu. Espinhento do pé à ponta, e ninguém encostava nele por nada.

Dalva olhou para aquilo com uma cara nova.

Braços abertos. Verde. Em pé o ano inteiro, chovendo ou não chovendo.

Menina de trancinhas e avô sertanejo de chapéu de couro parados diante de um cacto mandacaru alto no fim da tarde

— Vô — disse ela devagar. — Aquilo tem formato de árvore de Natal.

Seu Firmino botou o chapéu na cabeça.

— Tem, né.

O que é que a senhora tem que brilha?

No dia seguinte, Dalva saiu de casa com a lata de biscoito debaixo do braço.

Bateu na primeira porta.

— Dona Bastiana, bom dia. O que é que a senhora tem, aí dentro de casa, que brilha?

Dona Bastiana ficou olhando a menina um tempo.

— Brilha como?

— Brilha de brilhar. Que reflete. Que pisca quando bate a luz.

A mulher entrou, mexeu numa gaveta e voltou com um punhado de tampinha de garrafa.

— Serve?

— Serve muito.

Na segunda porta:

— Seu Alípio, bom dia. O que é que o senhor tem, aí dentro do armazém, que brilha?

Seu Alípio era um homem de barriga grande e paciência curta, mas naquele dia estava sem freguês nenhum e sem nada para fazer. Foi até a prateleira do fundo e voltou com um saco de papel de bala. Papel de bala colorido, daqueles que estalam na mão e reluzem.

— Não me diga que é para comer.

— Não senhor. É para pendurar.

Terceira porta:

— Dona Chiquinha, o que é que a senhora tem que brilha?

Dona Chiquinha era a mais velha da vila, mais velha até do que seu Firmino. Sumiu lá dentro e demorou. Voltou com um colar de miçanga quebrado, azul e prateado, enrolado num lenço.

— Isso aqui era da minha mãe. O fio arrebentou faz uns quarenta anos e eu nunca joguei fora.

— A senhora me empresta?

— Eu te dou.

A lata foi enchendo.

Foi enchendo de tampinha, papel de bala, miçanga, retalho de chita, botão de madrepérola, pena branca de galinha e rodela de lata velha com a beirada dobrada, para não cortar a mão de ninguém.

No fim da tarde chegou o vaqueiro Januário com um chocalho. Tinha desatarraxado do pescoço da cabra mais mansa e entregou dizendo que era só emprestado. Nunca pediu de volta.

Menina segurando uma lata de biscoito cheia de tampinhas e papéis coloridos na porta de uma vizinha

O mandacaru mais enfeitado do mundo

Enfeitar mandacaru não é como enfeitar pinheiro.

Pinheiro, pelo que Dalva entendia do papel, é uma árvore macia. Mandacaru é uma coisa que se defende. Cada braço dele é uma fileira de espinho, e espinho de mandacaru é comprido, duro e não perdoa.

Na primeira tentativa, Dalva levou três espetadas em menos de um minuto.

Sentou no chão, chupou o dedo e ficou pensando.

Foi aí que o irmão dela apareceu. Cosme tinha cinco anos, era todo redondo e falava tão pouco que ninguém em casa costumava perguntar nada a ele. Mas foi dele a ideia.

— Amarra no espinho.

— Como assim?

— Em vez de encostar, amarra. O espinho segura.

Dalva olhou para o mandacaru de outro jeito, pela segunda vez naquela semana.

O espinho não era o problema.

O espinho era o gancho.

Ela cortou o retalho de chita em tiras finas e amarrou uma no primeiro espinho. Ficou. Amarrou a rodela de lata. Ficou. Enfiou um papel de bala pelo espinho e torceu a ponta, e o papel abriu na luz que nem uma flor.

Quando dona Zulmira saiu para chamar as crianças para o almoço, encontrou um pedaço do mandacaru enfeitado e dois filhos cobertos de poeira, discutindo qual espinho ficava melhor com a miçanga azul.

Ela não chamou ninguém para o almoço.

Foi buscar a linha de costura e ficou.

À tarde, dona Bastiana passou para ver e acabou subindo no banquinho para alcançar os braços de cima. Seu Alípio fechou o armazém uma hora mais cedo, coisa que ninguém nunca tinha visto ele fazer. Januário trouxe uma escada. Dona Chiquinha não subiu em nada, porque tinha oitenta e seis anos, mas sentou numa cadeira ali do lado e foi mandando: mais para a direita, mais para cima, tira essa tampinha daí que ficou feia.

Quando o sol baixou, o mandacaru de Riacho Seco estava irreconhecível.

Cacto mandacaru coberto de enfeites coloridos com vizinhos em volta ao entardecer

A noite de vinte e quatro

Não tinha luz elétrica em Riacho Seco.

Tinha lamparina de querosene, tinha candeeiro, tinha vela e tinha lua. Naquela noite, cada um levou o que tinha para o terreiro.

Puseram tudo no chão, em roda, em volta do mandacaru.

Acenderam uma lamparina por vez. A cada uma, o cacto ficava um pouco mais claro: as rodelas de lata pegavam a luz e devolviam, as tampinhas piscavam, e as miçangas de dona Chiquinha brilhavam azul.

Dalva ficou parada olhando aquilo sem falar nada.

Não era neve. Não era nem parecido com neve.

Era outra coisa.

Dona Zulmira fez cuscuz e um bolo de macaxeira que sobrou pouco. Dona Bastiana trouxe rapadura raspada num prato fundo. Seu Alípio abriu o armazém às nove da noite só para tirar de lá um vidro de doce de leite que estava guardando havia meses sem saber bem para quê.

Januário tinha uma sanfona de oito baixos, meio surda de um lado. Tocou assim mesmo.

Cantaram as cantigas de reisado que todo mundo daquela região sabe de cor sem nunca ter aprendido, dessas que passam de avó para neto sem ninguém ensinar direito. Cosme dormiu no colo da mãe antes da terceira. Acordou de novo na quarta.

Lá pelas onze, dona Chiquinha, que estava de frente para o mandacaru, apontou com o dedo torto.

— Olha ali.

Todo mundo virou.

Nos braços do cacto, entre os enfeites, tinham nascido uns botões brancos e gordos que ninguém tinha reparado durante o dia. E naquele momento, um por um, eles estavam se abrindo.

Flor de mandacaru abre de noite. Abre grande, branca, de pétala larga, e solta um cheiro doce que não combina em nada com o resto da planta.

Seu Firmino tirou o chapéu da cabeça.

— Esse pé aí não bota flor à toa — disse ele, baixo. — Minha mãe me ensinou, e a mãe dela ensinou antes: quando ele floresce no meio da seca, é porque a chuva já saiu de algum canto e vem vindo.

Ninguém respondeu nada.

Todo mundo ali conhecia o dito. Tinham ouvido a vida inteira. E ninguém quis ser o primeiro a acreditar em voz alta, porque acreditar em chuva depois de oito meses é uma coisa que dói se não vier.

Flores brancas grandes abrindo nos braços do cacto enfeitado, cercado de lamparinas acesas

O cheiro que chegou primeiro

A festa foi acabando do jeito que festa de vila acaba: devagar, sem ninguém combinar.

Um apagou a lamparina, outro pegou a cadeira, seu Alípio saiu reclamando do joelho. Januário carregou dona Chiquinha até a porta dela pelo braço, e ela foi reclamando que não precisava, e ele foi levando do mesmo jeito.

Dalva deitou na rede da varanda, que era onde ela dormia quando a noite estava quente demais para o quarto. Ficou olhando o mandacaru, ainda aceso pelas duas últimas lamparinas.

Depois dormiu.

O que acordou Dalva de madrugada não foi barulho.

Foi cheiro.

Aquele cheiro que não tem nome certo e que todo mundo do sertão reconhece na hora, mesmo dormindo, mesmo depois de oito meses sem sentir: cheiro de terra molhada. Cheiro de chão bebendo.

Dalva sentou na rede.

Caiu um pingo no telhado. Caíram dois. Caíram três, quatro, cinco juntos — e depois tantos que não deu mais para contar, e virou um som só, aquele chiado grosso e contínuo de chuva de verdade em telha de barro.

— Mãe — chamou ela. — Mãe, é chuva!

A casa inteira levantou de uma vez.

E não foi só a casa. Acendeu lamparina em toda a vila ao mesmo tempo, porta batendo, gente saindo de camisola para o terreiro sem nem pegar chinelo.

Cosme saiu correndo e caiu sentado na primeira poça da vida dele.

Dona Zulmira ficou parada no meio da chuva, com a mão na boca, rindo e chorando ao mesmo tempo, que é uma coisa que acontece.

Januário achou o chocalho pendurado no mandacaru e sacudiu aquilo com toda a força. O chocalho junto com a água virou a coisa mais alta que Riacho Seco tinha ouvido no ano inteiro.

Seu Firmino não falou nada. Só tirou o chapéu de novo e ficou de cabeça descoberta debaixo d'água, deixando escorrer.

E Dalva abriu os braços no meio do terreiro, com a cara virada para cima e os olhos fechados, sentindo a chuva bater na testa, nos ombros, nos pés — e o chão, que fazia oito meses estava rachado que nem casca de tartaruga, começou a amolecer devagarinho embaixo dela.

Família comemorando de braços abertos sob a chuva no terreiro, ao lado do cacto enfeitado

Depois da chuva chegar

Choveu a noite inteira.

Entraram todos encharcados, um de cada vez, pingando no chão de cimento queimado. Dona Zulmira distribuiu pano de prato para enxugar cabeça, porque toalha não dava para tanta gente. Cosme foi trocado de roupa dormindo em pé e nem acordou direito.

Aos poucos a vila foi ficando quieta de novo.

Lá fora, a chuva continuou — mas já era outra chuva, dessas mansas, sem trovão, que só ficam caindo igual por horas.

Antes de deitar de novo, Dalva passou no quarto e puxou a lata de biscoito de baixo da cama.

Voltou para a rede da varanda com a lata no colo e um lençol seco por cima. Dali dava para ver o terreiro escuro, a água escorrendo em fiozinho pela terra e o mandacaru ali no meio, todo enfeitado e todo florido, pingando papel de bala.

Ela abriu a lata e tirou o papel de dentro.

Olhou o telhado branco. Olhou o pinheiro. Olhou a fumacinha da chaminé e o povo de casaco.

Continuava bonito.

Só que agora era só uma figura de um lugar longe, e não mais o desenho de uma coisa que faltava. Dalva dobrou o papel com cuidado nos vincos antigos, guardou de volta na lata e fechou a tampa.

A rede balançava devagar.

O barulho da chuva no telhado é um barulho bom de dormir: sempre igual, sem susto, feito alguém contando a mesma história baixinho a noite inteira. Dalva ficou escutando aquilo, contando as pingueiras do beiral, uma, duas, três.

Não chegou nem perto de terminar de contar.

E dormiu antes de a chuva parar.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. A Dalva perguntava sempre a mesma coisa nas portas: o que é que a senhora tem que brilha? Se ela batesse aqui, o que a gente daria?
  2. O Cosme descobriu que o espinho não atrapalhava, servia de gancho. Você já resolveu alguma coisa assim, ao contrário do esperado?
  3. O que a sua família faz na noite de Natal que não é igual ao das figuras?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita por nós e ambientada no sertão brasileiro. Não é reconto: a Dalva, o Cosme, o seu Firmino e os vizinhos foram inventados para este texto, e a vila do conto não corresponde a nenhum povoado específico — Riacho Seco é um nome comum no sertão e foi usado aqui como nome de ficção. Já a paisagem é real: o mandacaru é um cacto do sertão que floresce à noite, com flores brancas e grandes, e a crença popular de que mandacaru florido em plena seca anuncia chuva circula na região há gerações, transmitida de boca em boca. Essa crença é patrimônio oral e não pertence a ninguém; a história foi construída em volta dela sem citar, adaptar nem parafrasear letra de canção, poema ou qualquer versão publicada.

Perguntas frequentes sobre A Noite de Natal no Sertão

Existe história de Natal brasileira, sem neve e sem pinheiro?

Esta é uma. A história se passa no sertão em dezembro, com quarenta graus, terra rachada e nenhum floco de neve. A árvore de Natal é um mandacaru enfeitado com tampinha de garrafa e papel de bala, e o presente que chega de madrugada é a chuva.

Para que idade esta história é indicada?

Dos 5 aos 10 anos. As crianças menores acompanham bem pela repetição da pergunta que a Dalva faz de porta em porta. As maiores costumam gostar da parte da seca e entendem sozinhas por que a chuva importa tanto naquele lugar.

O final é calmo para ler na hora de dormir?

É. Depois da chuva chegar, o ritmo baixa de propósito: todo mundo volta para dentro de casa, as redes balançam, o barulho da água no telhado vira som de fundo e a história termina com a Dalva pegando no sono. Ninguém se perde, ninguém passa mal e nada fica em suspense.

Quanto tempo leva para ler em voz alta?

Cerca de 16 minutos em voz alta, num ritmo tranquilo. É uma das mais longas do acervo: dá para ler inteira numa noite ou parar no fim da festa de véspera e deixar a chegada da chuva para o dia seguinte, que também funciona.

Que tal a história de amanhã?