Contos para Dormir
Ilustração do conto A Última Estrela Cadente do Ano

A Última Estrela Cadente do Ano

Na última noite do ano, uma estrela cadente muito especial cruza o céu. Quem estiver acordado pode fazer um pedido…

Equipe Contos para Dormir ·

Era uma vez, numa noite cheia de estrelas…

Era a última noite do ano, e o céu sobre a pequena cidade de Vela do Pinheiro estava tão repleto de estrelas que parecia uma manta de veludo bordada com mil pedacinhos de luz. As casas tinham suas janelas iluminadas, e de dentro delas escapavam risos, músicas e o cheiro delicioso de bolos e doces sendo preparados para a festa da virada. Cheirava a canela, a laranja assada, a pipoca doce. Em algum quintal, um cachorro latia para os primeiros foguetes. Mas numa das casas, bem no alto de uma colina coberta de grama macia, uma menina chamada Isis estava sentada sozinha no peitoril de sua janela, com os joelhos abraçados ao peito e os olhos fixos no céu escuro. Isis tinha sete anos, cabelos cacheados pretos como a noite e olhos cor de mel que, naquele momento, brilhavam com uma mistura de tristeza e esperança.

Naquele ano, muita coisa tinha mudado na vida de Isis. A família tinha se mudado para uma cidade nova, longe dos avós, longe dos amigos de sempre, longe da escola onde ela conhecia cada canto e cada cheiro. Na casa antiga, ela sabia de cor quantos passos havia da cama até a cozinha e qual degrau da escada rangia mais alto. Ali, tudo ainda era estranho: o vizinho que tocava piano cedo demais, o caminho até a padaria. O novo apartamento era bonito, mas ainda não parecia um lar — parecia a casa de outra pessoa, onde as caixas de mudança ainda faziam torres tortas nos cantos. A nova escola era grande demais, com corredores compridos e um pátio onde todo mundo já tinha com quem sentar. E a saudade às vezes apertava o coração da menina como uma mão invisível. Sua mãe, Dona Vitória, sempre dizia que mudanças eram como as estações do ano — às vezes frias e cinzentas, mas sempre seguidas de primaveras cheias de flores. Isis ouvia, concordava com a cabeça, mas por dentro ainda duvidava.

Os novos amigos esperam a estrela no telhado

— Já são quase onze da noite, meu bem — disse a mãe, aparecendo na porta do quarto com uma caneca de chocolate quente fumegante. — Não quer descer para ver os fogos com a gente?

— Daqui a pouco, mamãe — respondeu Isis, sem tirar os olhos do céu. — Estou esperando uma coisa.

— Uma coisa? — Dona Vitória inclinou a cabeça, curiosa, mas sem apressar a filha. — Coisa importante?

— Muito importante — disse Isis, bem séria. — A vovó Dulce explicou.

Dona Vitória sorriu, deixou a caneca no criado-mudo, ajeitou o cobertor xadrez nos ombros da menina e se foi de mansinho, entendendo que às vezes as crianças precisam de um momento só delas. Isis pegou a caneca quente, sentiu o calor se espalhar pelas mãos e subir até o rosto numa nuvem de cheiro doce, e continuou sua vigília. Lá fora, o vento mexia devagar nos pinheiros da colina, e cada agulha verde parecia sussurrar a mesma coisa: espera, espera, espera. Ela estava esperando uma estrela cadente. Não qualquer estrela — ela queria a última estrela cadente do ano, aquela que, segundo a avó Dulce, carregava o poder de um desejo muito especial.

O Segredo da Vovó Dulce

A avó Dulce era uma mulher pequena e enrugada, com mãos que cheiravam a canela e cabelos brancos sempre presos num coque. Ela sabia de tudo sobre o céu — sobre as constelações, sobre as fases da lua, sobre o comportamento das nuvens antes da chuva. Sabia dizer, só de olhar para o horizonte, se ia chover no dia seguinte. Sabia apontar com o dedo enrugado o desenho do escorpião entre as estrelas e o rio de luz pálida que atravessa a noite inteira de ponta a ponta. E toda vez que uma estrela cadente riscava o céu escuro, ela fechava os olhos por exatamente três segundos, murmurava algo muito baixinho e depois abria os olhos com um sorriso satisfeito.

Avó de cabelos brancos apontando as constelações para a neta pela janela do quarto

— Vovó, o que você pede quando vê uma estrela cadente? — tinha perguntado Isis certa vez, ainda no apartamento antigo, deitada na cama da avó enquanto as duas olhavam pela janela do quarto.

— Ah, isso é segredo, minha flor — respondeu a avó, com um brilho nos olhos. — Mas posso te contar uma coisa: a última estrela cadente de cada ano é especial. Ela é a que vai dormir mais tarde, a que ainda está acordada quando todo mundo já está comemorando. E como ela é corajosa e persistente, o desejo que ela carrega tem mais força do que qualquer outro.

— Mais força como assim? — insistiu Isis, curiosa.

— Ela não realiza desejos impossíveis, que fique claro — disse a avó, erguendo um dedo. — Mas ela tem o poder de abrir portas. De preparar o coração para receber o que está vindo. É como se ela avisasse: esteja pronta, porque a coisa boa está a caminho.

— E se ela passar e eu piscar bem na hora errada? — perguntou Isis.

— Aí você espera o ano seguinte — riu a avó, alisando os cachos da neta. — Estrela cadente ninguém chama. Só dá para estar pronta quando ela chega.

— Então o difícil é ficar acordada.

— O difícil é ficar acordada — concordou a avó, puxando o cobertor até o queixo das duas. — A parte mais importante do pedido não é a estrela, minha flor. É você.

Isis não entendeu bem aquilo naquela noite. Guardou a frase assim mesmo, como quem guarda uma pedra bonita no bolso, sem saber ainda para quê.

A aventura estava apenas começando…

A Noite Mais Longa do Ano

Com as palavras da avó ecoando na memória, Isis ficou de olhos bem abertos, recusando o sono que teimava em puxar suas pálpebras para baixo. Lá embaixo, ela ouvia as vozes dos pais, os sons da televisão contando os minutos para a virada, o tintilar das taças sendo preparadas. A cidade lá fora começava a se iluminar com os primeiros fogos de artifício dos impacientes que não conseguiam esperar a meia-noite.

Menina enrolada num cobertor à janela, com uma caneca nas mãos, olhando a cidade iluminada

Para não dormir, Isis inventou tarefas. Contou estrelas: chegou a trinta e sete e perdeu a conta. Recomeçou pelas mais brilhantes e perdeu de novo. Bebeu o chocolate em golinhos minúsculos, para que durasse mais tempo. Desenhou uma estrela no vidro embaçado e ficou olhando o desenho sumir devagar.

— Não durma — pediu baixinho para si mesma. — Só mais um pouquinho.

O relógio da sala bateu, e o som subiu pela escada até o quarto. Faltava pouco agora. O céu, no entanto, continuava parado e quieto, sem nenhuma pressa de atender à menina da janela. Isis apoiou o queixo no braço. Piscou. Piscou de novo, mais demorado.

Então, faltando exatos doze minutos para o ano novo, aconteceu.

Uma luz atravessou o céu de um lado ao outro, lenta e solene, como se soubesse que estava sendo observada. Não era o riscar rápido das estrelas cadentes normais — era uma luz dourada e firme, que deixou um rastro cor de laranja e rosa antes de sumir atrás das montanhas distantes. Por um instante, a colina inteira pareceu prender a respiração: o vento sossegou, o cachorro parou de latir, até os foguetes deram uma pausa. Isis abriu a boca, fechou os olhos por três segundos exatos, como a avó ensinara, e murmurou seu desejo com toda a força do coração.

— Eu quero ser feliz aqui. Eu quero encontrar um amigo de verdade na escola nova. E eu quero que a saudade doa menos.

Eram três desejos, não um — mas Isis achou que uma estrela tão corajosa como aquela merecia ouvir a verdade toda.

Menina de olhos fechados na janela do quarto enquanto um risco dourado cruza o céu

Quando abriu os olhos, o céu estava do mesmo jeito de antes, cheio de estrelas quietinhas fingindo que nada tinha acontecido. Mas alguma coisa dentro do peito de Isis tinha mudado de lugar, como um móvel pesado que finalmente encontra a parede certa. Lá embaixo, a família começou a contar em voz alta, e a menina desceu correndo os degraus, ainda de cobertor nos ombros, para chegar a tempo do abraço da virada.

O Primeiro Dia do Ano Novo

O momento mais especial da história…

No primeiro dia do ano novo, Isis acordou com um sentimento estranho no peito — não era tristeza, não era euforia. Era algo mais quieto e firme, como quando o sol ainda não apareceu mas o céu já está claro. Ela desceu para o café da manhã e encontrou sua mãe fazendo panquecas com gotas de chocolate, que era sua receita favorita de domingo. A cozinha cheirava a manteiga derretida, e a frigideira fazia aquele barulhinho de chuva fina.

— Bom ano novo, meu amor — disse Dona Vitória, dando-lhe um abraço demorado e cheiroso. — Como você está?

— Estou bem — respondeu Isis, e pela primeira vez em muito tempo, ela realmente acreditou no que disse.

Depois do café, mãe e filha abriram juntas a última caixa da mudança, aquela que ninguém tinha tido coragem de desmontar. Lá dentro, embrulhados em papel de jornal, estavam os potes de vidro da avó Dulce e um quadrinho bordado com estrelas amarelas. Isis pendurou o quadrinho na parede do quarto, bem em frente à cama, e naquele instante o quarto deixou de ser um quarto qualquer.

Menina pendurando um quadrinho bordado de estrelas na parede do quarto, ao lado da mãe

Três dias depois, quando as aulas recomeçaram, aconteceu algo que Isis nunca havia planejado. Ela estava sozinha no pátio da escola, durante o recreio, tentando abrir um pacotinho de biscoito teimoso, quando uma menina de tranças cor de cobre e óculos redondos se aproximou e disse:

— Posso te ajudar? Eu sei abrir esses pacotes impossíveis. É só virar assim — ela pegou o pacote, torceu levemente as pontas, e ele abriu com um estalinho satisfatório. — Meu nome é Clara. Você é nova, né? Eu também fui nova no ano passado. É esquisito no começo, mas depois melhora.

— Melhora quando? — perguntou Isis, que precisava muito saber a resposta.

— Mais ou menos agora — disse Clara, dando de ombros, como quem diz uma coisa óbvia demais para explicar.

Isis olhou para Clara e sentiu uma coisa quente e boa se expandir dentro do peito, bem no lugar onde a saudade costumava doer.

— Meu nome é Isis — ela disse, e ofereceu a metade dos biscoitos.

As duas passaram o resto do recreio sentadas no degrau do pátio, descobrindo que gostavam do mesmo sabor de suco, que nenhuma das duas sabia assobiar direito e que Clara também tinha uma avó que conhecia os nomes das estrelas. Clara ensinou o segredo do assobio, que não funcionou nem para uma nem para outra, e as duas riram tanto que precisaram sentar de novo. Quando o sinal tocou, voltaram para a sala andando bem devagar, do jeito de quem quer esticar um pouco mais o caminho, e já combinando de sentar juntas no dia seguinte.

Duas meninas sentadas no degrau do pátio da escola dividindo biscoitos

O Que a Estrela Realmente Fez

Semanas depois, Isis ligou para a avó Dulce para contar tudo. Sobre Clara, sobre a escola que estava ficando menos estranha, sobre a professora de arte que tinha pendurado seu desenho na parede da sala. Sobre o degrau da escada nova que rangia — porque agora ela já sabia qual era. A avó ouviu tudo com aquele silêncio atento que só os avós sabem ter.

— Então a estrela funcionou? — perguntou Isis, animada.

— As estrelas nunca fazem o trabalho por nós, minha flor — respondeu a avó, com a voz quentinha. — O que elas fazem é abrir os olhos do coração. Você estava na janela naquela noite porque escolheu estar. Você pediu com honestidade. E quando a Clara chegou, você deu espaço para a amizade entrar. A estrela só preparou o terreno. Quem plantou a flor foi você.

— Então fui eu que fiz? — perguntou Isis, baixinho.

— Vocês duas — corrigiu a avó. — Você e a menina das tranças. Amizade é sempre coisa de dois.

Isis ficou pensando nisso por um longo tempo depois de desligar o telefone. Então foi até sua janela, olhou para o céu ainda claro da tarde, e prometeu para si mesma que no próximo ano novo, estaria acordada de novo — não para pedir, mas para agradecer.

E assim, felizes para sempre…

E naquela noite, quando Dona Vitória foi apagar a luz do quarto de Isis, encontrou a menina já adormecida com um sorriso suave no rosto — como alguém que acabou de descobrir que, às vezes, os lugares novos se tornam os mais queridos de todos.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Se você visse uma estrela cadente hoje, qual pedido faria?
  2. Mudar de lugar assusta. O que ajuda a gente a se sentir em casa num lugar novo?
  3. Como se faz para começar uma amizade com alguém que a gente acabou de conhecer?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para ser lida em voz alta na hora de dormir. Não é uma adaptação de conto tradicional: os personagens e o enredo são nossos.

Perguntas frequentes sobre A Última Estrela Cadente do Ano

Qual é a moral desta história?

Que todo lugar novo guarda uma amizade esperando para acontecer. É uma história sobre mudanças e sobre a coragem de se abrir para o desconhecido.

Esta história é boa para a virada do ano?

É a mais indicada do acervo para as últimas noites de dezembro: se passa na última noite do ano e fala de recomeços, pedidos e esperança.

Para que idade é indicada?

Dos 3 aos 7 anos. A Isis tem sete anos e vive uma situação que crianças dessa faixa reconhecem de perto: casa nova, escola nova e a saudade de quem ficou para trás. Não há vilão, susto nem final triste, e o último trecho termina com a menina dormindo.

Quanto tempo leva para ler em voz alta?

Cerca de 15 minutos, no ritmo calmo de 140 palavras por minuto que o site usa para leitura em voz alta. É uma das histórias mais longas do acervo, mas vem dividida em quatro partes com título, então dá para parar no fim de um trecho e retomar na noite seguinte.

Que tal a história de amanhã?