
O Dragão que Assoprava Bolhas de Sabão
Um dragãozinho diferente não solta fogo — solta bolhas de sabão! E é isso que vai transformá-lo no herói mais querido do reino.
Num reino onde todos esperavam fogo, um dragãozinho trouxe outra coisa — e ninguém mais quis brigar
Existia, entre duas montanhas, um vale dividido ao meio por um rio.
De um lado do rio ficava o Reino de Cima. Do outro, o Reino de Baixo. E os dois brigavam havia tanto tempo que ninguém mais lembrava direito por quê.
Alguém tinha dito alguma coisa. Ou não tinha dito. Ou tinha dito e o outro entendeu errado. Contava-se que a briga havia começado por causa de uma vaca, mas o bisneto do dono da vaca já era velho, e a vaca, coitada, nem existia mais.
O que existia era o costume.
Toda primavera, os dois reinos se juntavam nas margens do rio, faziam muito barulho, batiam escudos, gritavam coisas atravessadas e voltavam para casa cansados.
E cada reino tinha o seu dragão.
Os Dragões do Vale
O dragão do Reino de Cima chamava-se Fumaça. Era enorme, cinzento como dia de chuva, e soltava labaredas que chamuscavam o mato da beira do rio.
O dragão do Reino de Baixo chamava-se Brasido. Era enorme, avermelhado como telha velha, e soltava labaredas que chamuscavam o mato da outra beira.
Nenhum dos dois gostava muito daquilo, mas era o trabalho deles.
Acontece que Fumaça e Brasido já estavam ficando velhos. O Fumaça já precisava de três tentativas para acender.
E foi assim que, naquele ano, o Reino de Cima descobriu que tinha um dragão novo para apresentar: o filhote do Fumaça.
O nome dele era Pipo.
O Problema do Pipo
Pipo era pequeno para a idade. Era dourado feito manteiga no sol, de barriga clara, com dois chifrinhos ainda moles, uma fileira de espinhos nas costas que mais pareciam dentes de serrote de brinquedo e uns olhos castanhos enormes, do tipo com que ninguém consegue ficar bravo por muito tempo.
E tinha um problema sério, do ponto de vista de um reino em guerra.
Ele não soltava fogo.
Já tinham tentado de tudo. O pai explicou a técnica cem vezes:
— Enche o peito. Aquece por dentro. Empurra tudo de uma vez.
Pipo enchia o peito. Aquecia por dentro. Empurrava tudo de uma vez.
E saíam bolhas de sabão.
Bolhas grandes, redondas, brilhando com todas as cores, que subiam devagarinho e estouravam no ar com um pop delicado.
Tentaram com fome, tentaram com pimenta, tentaram até deixar Pipo bravo. Saíram bolhas, bolhas com cheiro de pimenta e bolhas tristes, nessa ordem.
O rei do Reino de Cima ficou muito preocupado.
— Bolha de sabão — repetiu ele, olhando pela janela. — Nós temos um dragão de bolha de sabão.
— É uma fase — disse o Fumaça, sem muita convicção.
— E se for uma fase comprida?
O Fumaça não respondeu, porque também não sabia.
A Primavera Chegou
Chegou a primavera, e com ela o dia do costume.
O vale amanheceu cheirando a grama molhada e a pão quente, porque os dois reinos tinham acordado cedo para assar pão, cada um do seu lado: brigar dá fome.
Os dois se juntaram nas margens do rio. De um lado, os escudos do Reino de Cima. Do outro, as lanças do Reino de Baixo, com bandeirinhas tremendo no vento. No meio, a água correndo, sem ligar para nada daquilo.
O velho Brasido subiu na pedra da margem de baixo, respirou fundo, tossiu uma vez e soltou uma labareda comprida no céu. O Reino de Baixo comemorou batendo as lanças no chão.
Chegou a vez do Reino de Cima.
Só que o Fumaça tinha acordado com dor nas costas naquela manhã e não conseguiu subir na pedra. Tentou duas vezes e, na terceira, sentou na grama com cara de quem pede desculpa.
Fez-se um silêncio constrangedor.
— Pipo — sussurrou o rei. — Vai você.
— Eu faço bolha — lembrou Pipo.
— Eu sei — disse o rei. — Faz bonito.
O Que Aconteceu no Rio
Pipo subiu na pedra.
Ele era tão pequeno que, lá de baixo, muita gente do outro lado não conseguiu ver direito o que era. Alguém perguntou se era um dragão ou um jacaré.
Pipo olhou para os dois exércitos. Viu gente com cara de cansada dos dois lados.
E viu um menino do Reino de Baixo, mais ou menos do tamanho dele, segurando um escudo pesado demais para os braços que tinha. O menino não gritava nada. Estava só ali, esperando aquilo acabar.
Pipo conhecia aquela cara. Era a cara que ele fazia nos treinos de fogo.
Aí ele encheu o peito, aqueceu por dentro e empurrou tudo de uma vez.
E veio a maior nuvem de bolhas de sabão que já se viu naquele vale.
Foram milhares. Grandes como abóboras, pequenas como uvas, todas brilhando com o sol da manhã, subindo em espiral, atravessando o rio, passando por cima dos escudos, descendo entre as lanças. O vale inteiro ficou cor de arco-íris, e a gritaria parou de uma vez só, como se alguém tivesse fechado uma porta.
Ninguém sabia o que fazer.

Então o menino do Reino de Baixo, aquele do escudo pesado, largou o escudo no chão e estourou uma bolha com o dedo.
E riu.
Foi tudo o que precisou.
A Guerra que Virou Outra Coisa
Houve um instante curtinho em que os dois exércitos ficaram sem saber se aquilo contava como perder. Ninguém tinha combinado nada parecido. Ninguém sabia que cara fazer.
Aí uma bolha do tamanho de um chapéu desceu bem no nariz de um capitão do Reino de Cima e estourou ali mesmo, com um pop, e o capitão riu antes de conseguir se segurar.
Depois disso não deu mais para voltar atrás.
Em menos de um minuto, o vale inteiro estava correndo atrás de bolhas. Um soldado pulou para alcançar uma das mais altas e caiu sentado na grama. O soldado do lado riu dele — e pulou também, e caiu sentado do mesmo jeito.
Um menino do Reino de Cima e outro do Reino de Baixo bateram de frente correndo atrás da mesma bolha. Caíram os dois, ficaram rindo no chão e levaram um tempo para lembrar que deviam ser inimigos. Quando lembraram, já não parecia fazer sentido.
Capacetes foram aparecendo largados pelo chão, virados de boca para baixo, feito panelas esquecidas. Escudos viraram bandeja, viraram trenó de descer barranco, viraram barquinho — e um deles desceu o rio inteiro sozinho, com três bolhas em cima, sem ninguém correr atrás.

Uma senhora do Reino de Cima ensinou uma criança do Reino de Baixo a estourar duas bolhas de uma vez, uma com cada mão.
— Precisa esperar elas ficarem lado a lado — explicou. — Se tiver pressa, some as duas.
A criança treinou. Errou, errou, errou. Acertou na quarta tentativa e gritou tão alto que assustou um cavalo, e a senhora bateu palmas como se aquilo fosse neta dela.
Mais adiante, dois soldados descobriram que tinham o mesmo nome e acharam essa a coisa mais engraçada do mundo inteiro.
E Pipo continuou soprando. Enchia o peito, aquecia por dentro, empurrava tudo de uma vez, e vinha mais uma nuvem. Nunca na vida tinham pedido para ele fazer aquilo de novo. Ele fez de novo umas quarenta vezes.
O general das lanças, conhecido no vale inteiro por nunca sorrir, tentou equilibrar uma bolha na ponta do dedo. A bolha estourou. Ele ficou furioso. Tentou de novo. Estourou de novo. Ficou mais furioso ainda. Na terceira vez a bolha ficou parada ali, tremendo, redonda, brilhando na ponta do dedo dele por três segundos inteiros — e o general riu tão alto que dois soldados largaram o que estavam fazendo só para ver quem era.

Alguém lembrou do pão. Foram buscar os cestos nos dois lados do rio e puseram tudo junto em cima de uma pedra grande, sem ninguém combinar nada. O pão do Reino de Cima era redondo, o do Reino de Baixo era comprido, e no fim da tarde já não se sabia mais de quem era o quê.
Apareceu queijo. Apareceu uma jarra de suco de amora que virou na grama, e ninguém ligou.
No meio do rio havia três pedras chatas que ninguém nunca usava, porque ficavam bem na fronteira, e sentar ali seria quase o mesmo que pedir desculpa. Estavam ali desde sempre, secas e quentes de sol, esperando.
O velho Fumaça atravessou mancando e sentou numa delas.
O velho Brasido olhou, pensou, olhou de novo, e sentou na de trás. Uma parte do vale inteiro viu aquilo, e uma parte do vale inteiro resolveu não ver.
Ficaram os dois calados, com os pés na água fria, vendo as bolhas do Pipo passarem por cima.
— As suas doem também? — perguntou o Brasido. — As costas.
— Doem desde antes de você nascer — disse o Fumaça.
— A gente devia ter conversado antes.
— A gente devia.

O menino do escudo pesado atravessou o rio com a água na altura dos joelhos, chegou até a pedra do Pipo e ficou olhando para cima.
— Faz de novo — pediu.
Pipo fez de novo.
— Faz uma bem grande.
Pipo encheu o peito até doer e soltou uma bolha do tamanho de uma janela, que subiu devagar, girando, com o vale inteiro refletido de cabeça para baixo lá dentro. Os dois ficaram vendo até ela estourar em cima de uma árvore.
— Você é o melhor dragão que eu já vi — disse o menino.
Pipo não soube o que responder, então soprou mais uma bolha, que era o jeito dele de responder as coisas.
O Rei e a Rainha
Quando o sol começou a baixar, os dois reinos estavam misturados nas duas margens do rio, molhados até a cintura, sujos de grama e sem fôlego de tanto rir.
O rei do Reino de Cima e a rainha do Reino de Baixo se olharam de perto pela primeira vez na vida. Ele estava com a coroa torta. Ela estava descalça, com os sapatos na mão.
— Por que a gente briga mesmo? — perguntou o rei.
A rainha pensou bastante. Olhou para o rio, olhou para os soldados, olhou para uma bolha que passou entre os dois e estourou sozinha no ar.
— Sinceramente? Não faço a menor ideia.
— Nem eu.
E os dois deram de ombros.

Depois ficaram um tempo sem falar nada, o que era estranho, porque não era um silêncio de briga. Era o outro tipo.
— Ano que vem — disse a rainha, devagar —, a gente podia fazer isso de novo.
— Isso o quê?
— Isso — disse ela, e apontou o vale inteiro.
O rei olhou para o vale inteiro. Tinha um general chorando de rir dentro de um arbusto.
— Tudo bem — disse ele.
O Costume Novo
Nunca mais houve batalha no vale.
O que houve, todo ano na primavera, foi outra coisa: os dois reinos se juntavam nas margens do rio, levavam comida, estendiam pano na grama e ficavam a tarde inteira correndo atrás das bolhas do Pipo. Os escudos continuaram vindo, mas só para servir queijo.
O velho Fumaça passou a tomar chá com o velho Brasido às quintas-feiras, na pedra do meio do rio, e os dois reclamavam das costas um para o outro com muito gosto.
As crianças que nasceram depois cresceram achando esquisitíssimo que um dia tivesse havido briga ali. Perguntavam por quê. Os adultos começavam a explicar, percebiam no meio da explicação que não sabiam explicar, e mudavam de assunto.
Numa dessas quintas-feiras, o Fumaça disse ao filho:
— Sabe que eu passei a vida inteira soltando fogo e nunca resolvi nada?
Pipo, que já estava maior e soltava bolhas do tamanho de carroças, só encheu o peito e soprou mais uma.

Ela subiu devagar, brilhando com todas as cores, atravessou o rio e foi estourar do outro lado — que, a essa altura, já nem era mais o outro lado.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Os dois reinos brigavam há cem anos e ninguém lembrava por quê. Como você acha que uma briga chega nesse ponto?
- O Pipo não usou força nenhuma. O que ele usou?
- Já teve uma briga sua que acabou porque alguém fez todo mundo rir?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir, escrita para conversar sobre conflito e reconciliação com crianças pequenas — sem vilão, sem derrota e sem ninguém precisando pedir desculpa de joelhos.
Perguntas frequentes sobre O Dragão que Assoprava Bolhas de Sabão
Qual é a moral desta história?
Que brigas raramente terminam por força, e que oferecer alegria costuma funcionar melhor do que insistir em quem tem razão. Ninguém perde no final — os dois lados ganham juntos.
Esta história tem partes assustadoras?
Não. Apesar de ter dragões e dois exércitos, nada de ruim acontece com ninguém: a única coisa que voa pelo ar são bolhas de sabão. É segura até para crianças que se assustam com facilidade.
Para que idade é indicada?
Dos 3 aos 7 anos. É divertida, tem imagens fáceis de visualizar e serve bem para conversar sobre brigas de escola ou de irmãos.


