Contos para Dormir
Ilustração do conto Os Dinossauros e a Última Fruta do Vale

Os Dinossauros e a Última Fruta do Vale

A seca levou tudo, menos uma fruta dourada balançando no galho mais alto — e os três dinossauros que a queriam descobriram que nenhum deles chegava lá sozinho.

Equipe Contos para Dormir ·

Na seca mais longa que o vale já tinha visto, uma fruta dourada balançava no galho mais alto — e três dinossauros olhavam para cima

Fazia três meses que não chovia no Vale do Sol Comprido.

Três meses é muito tempo. É tempo de o riacho virar um fio, o fio virar uma poça e a poça virar só uma mancha escura na pedra, marcando o lugar por onde a água costumava passar.

O capim ficou amarelo. As samambaias enrolaram as pontas. As árvores grandes soltaram as folhas todas de uma vez, como quem tira o casaco e joga no chão.

E as frutas, que eram a melhor coisa daquele vale, foram sumindo uma por uma.

Zuza foi a primeira a perceber que ainda tinha uma.

Zuza era uma dinossaura pequena, cor de laranja queimado, com listras creme descendo pelas costas. Tinha rabo comprido, pernas finas e o costume de correr sem destino nenhum, só porque as pernas pediam. Era a mais rápida do vale — e sabia bem disso.

Naquela manhã ela corria como sempre quando sentiu um cheiro no ar.

Um cheiro doce. Cheiro de mel morno.

Zuza parou tão de repente que quase capotou por cima do próprio focinho.

A Última Fruta do Vale

O cheiro vinha da figueira velha, a árvore mais antiga dali, de tronco tão largo que quatro dinossauros lado a lado mal davam a volta nele.

Zuza chegou embaixo, esticou o pescoço e olhou para cima.

E lá estava.

No galho mais alto de todos, bem na pontinha, uma fruta. Grande, redonda, dourada, tão madura que parecia acesa por dentro.

A última fruta do vale.

Zuza deu um pulo. Não chegou nem perto.

Deu outro pulo, dessa vez com corrida e impulso. Não chegou nem perto do nem perto.

Foi então que ela ouviu passos. Passos largos, de quem anda sem pressa nenhuma.

Uma dinossaura pequena de listras creme olha para cima, para uma fruta dourada no galho mais alto de uma figueira enorme

Era Nara.

Nara era pescoçuda: cauda enorme, olhos calmos e um pescoço que não acabava mais. A mais alta do vale. Quando esticava o pescoço todo, alcançava folhas que os outros nem enxergavam direito.

— Bom dia — disse Nara, sem tirar os olhos da fruta.

— Bom dia — disse Zuza, sem tirar os olhos da fruta também.

Atrás de Nara veio um barulho diferente. Um barulho de chão apanhando.

Era Bento. Bento tinha placas nas costas, pernas grossas feito tronco e um jeito de andar que fazia as pedrinhas pularem no caminho. Era o mais forte do vale, e não precisava dizer isso para ninguém, porque dava para ver de longe.

Os três ficaram lado a lado, embaixo da figueira, olhando para cima.

— Ah — disse Bento.

— É — disse Nara.

— Pois é — disse Zuza.

Três Jeitos de Não Alcançar

Nara tentou primeiro, porque era a mais alta.

Esticou o pescoço. Esticou mais. Esticou até doer, até as patas da frente saírem do chão, até ficar equilibrada só nas de trás como uma torre que balança.

A ponta do focinho dela chegou a encostar na folha de baixo do galho.

Só na folha.

E a fruta continuou lá em cima, balançando de leve, sem ligar para nada daquilo.

Bento tentou depois, porque era o mais forte.

Encostou o ombro no tronco da figueira e empurrou. Empurrou com as pernas de trás, com as costas, com tudo o que tinha. O tronco era tão grosso que nem percebeu. Bento empurrou de novo, e a árvore soltou três folhas secas — três — que caíram girando até o chão.

E a fruta continuou lá em cima, balançando de leve, sem ligar para nada daquilo.

Zuza tentou por último, porque era a mais rápida.

Ela disparou numa corrida enorme, atravessou o campo inteiro, subiu o barranco sem diminuir o passo, saltou do alto da pedra e voou — voou de verdade, por um instante, com as quatro patas no ar e o rabo esticado atrás.

Caiu de pé no capim seco, do outro lado, e passou tão longe da fruta que nem valia a pena medir.

E a fruta continuou lá em cima, balançando de leve, sem ligar para nada daquilo.

A dinossaura pequena salta do alto de uma pedra com as quatro patas no ar, enquanto uma dinossaura de pescoço comprido e um dinossauro de placas assistem

Quem Merece a Fruta

Sentaram os três na sombra da figueira, ofegando.

E aí começou.

— Eu deveria comer — disse Nara. — Sou a mais alta. Fui a que chegou mais perto.

— Chegar perto não é chegar — disse Bento. — Eu sou o mais forte. Se essa árvore fosse um pouco mais fina, a fruta já estava no chão.

— Mas ela não é mais fina — disse Zuza. — E eu sou a mais rápida. Eu cheguei aqui primeiro. Eu achei a fruta.

— Achar não é alcançar — disse Nara.

— Empurrar também não — disse Zuza.

— Correr, menos ainda — disse Bento.

Ficaram calados.

O sol subiu mais um pouco. A sombra da figueira encolheu, e os três tiveram que se ajeitar para caber dentro dela.

— A gente pode ficar aqui discutindo até a fruta apodrecer — disse Nara.

Ninguém respondeu, porque era verdade, e ninguém gosta de responder verdade.

A Ideia da Menor

Zuza estava olhando para cima havia um tempo, com a cabeça torta, daquele jeito que ela olhava as coisas quando estava pensando.

— Nara — disse ela. — Quando você esticou, faltou quanto?

— Faltou isso — respondeu Nara, e mostrou com o focinho uma distância pequena, do tamanho de um passo.

— E se você estivesse mais alta?

— Eu não fico mais alta. Eu já sou do tamanho que eu sou.

— E se você estivesse em cima de alguma coisa?

As duas cabeças viraram ao mesmo tempo para o Bento.

Bento demorou um instante para entender. Quando entendeu, deu um passo para trás.

— Ah, não.

— Bento.

— Eu sou forte. Não sou escada.

— Você é forte o bastante para ser escada — disse Zuza. — É diferente.

A dinossaura pequena de listras creme aponta o focinho para o alto explicando um plano para os outros dois dinossauros na sombra de uma árvore seca

Bento olhou para a fruta. Olhou para as próprias costas, que eram largas e cheias de placas. Olhou para a fruta de novo.

— Se ela me pisar no rabo, eu vou reclamar — avisou.

— Reclama depois — disse Nara.

O Plano

O plano tinha três partes, e cada um ficou com a sua.

Bento se encostou no tronco da figueira e firmou as quatro patas no chão, uma de cada vez, procurando o lugar em que a terra estava mais dura. Baixou a cabeça, arqueou as costas e ficou parado feito pedra.

— Pode subir — disse ele, com a voz apertada.

Nara subiu.

Subir num Bento não é fácil. Ela colocou uma pata, depois outra, e sentiu tudo balançar. Bento resmungou uma coisa que ninguém entendeu, mas não saiu do lugar.

— Devagar — dizia Zuza, de baixo. — Devagar. Devagar.

— Eu estou indo devagar — respondeu Nara, entre os dentes.

— Então mais devagar ainda.

A terceira pata subiu. Depois a quarta. Uma placa das costas de Bento estalou, e os três prenderam a respiração ao mesmo tempo — mas era só o barulho que as placas fazem, e nada aconteceu.

Quando Nara ficou de pé em cima dele, ela era, de longe, a coisa mais alta que aquele vale já tinha visto.

Esticou o pescoço.

Esticou mais.

E dessa vez o focinho passou da folha. Passou do galho. Chegou na fruta.

— Encostei! — disse ela, e a voz saiu esquisita, porque falar de pescoço todo esticado é difícil.

— Não empurra ainda! — gritou Zuza lá de baixo. — Se você empurrar, ela cai!

— Ela vai cair de qualquer jeito!

— Então deixa cair no lugar certo!

E foi aí que Zuza correu para debaixo do galho, se plantou no chão, mediu a distância com os olhos e disse:

— Pode soltar.

Uma dinossaura de pescoço comprido em pé sobre as costas de um dinossauro de placas alcança a fruta dourada, com a dinossaura pequena esperando no chão

Nara empurrou a fruta com a pontinha do focinho.

A fruta soltou do galho.

E começou a cair.

Só que uma fruta que cai de um galho tão alto não cai reto. Ela bate numa folha e muda de ideia. Bate num graveto e muda de novo.

Zuza viu aquilo vindo torto e fez a única coisa que sabia fazer melhor do que todo mundo.

Ela correu.

Correu três passos para a esquerda, escorregou numa raiz, se ajeitou, voltou dois passos, olhou para cima e perdeu a fruta de vista contra o sol. Piscou. Achou de novo. A fruta tinha batido em mais um galho e vinha agora quase por cima do Bento.

— SAI! — gritou Zuza.

Bento não saiu, porque Bento estava segurando a Nara e não podia sair de jeito nenhum.

Então Zuza cortou caminho por baixo dele, passou raspando entre as pernas grossas do amigo, freou derrapando na terra seca, esticou o pescoço, abriu as patas da frente e —

puf.

A fruta caiu bem no meio das costas listradas dela, quicou uma vez, e Zuza a segurou no ar antes que encostasse no chão.

Bento soltou o ar todo de uma vez e sentou onde estava, com Nara descendo às pressas de cima dele. Ficaram os dois no chão, de pernas tremendo.

Os três se olharam.

E aí veio o silêncio.

A Pergunta que Sobrou

Porque a fruta era uma só.

E eles eram três.

— Bom — disse Bento, ainda ofegante. — Quem come?

Ninguém respondeu na hora.

Zuza olhou para a fruta nas próprias patas. Estava morna do sol, e o cheiro de mel agora estava tão perto que dava para sentir na garganta.

Ela podia ter corrido. Era a mais rápida. Ninguém a alcançaria nem se tentasse a tarde inteira.

Mas ela ficou parada.

A dinossaura pequena de listras creme segura a fruta dourada entre as patas da frente e olha para os outros dois dinossauros

— Eu não teria alcançado — disse Zuza.

— Nem eu — disse Nara.

— Nem eu — disse Bento.

Zuza virou a fruta nas patas, procurou um lugar bom e repartiu em três.

Não saiu igual. Nunca sai igual. Um pedaço ficou maior, outro menor, e o terceiro ficou meio torto. Nara pegou o menor sem falar nada. Era a maior de todos, e achou que aguentava melhor a fome.

Comeram devagar, sentados na sombra que tinha sobrado.

Era pouca coisa para três bichos com fome de três meses de seca. Mas era doce, e era fresca, e escorreu pelo queixo dos três ao mesmo tempo, e nenhum deles falou nada por um bom tempo depois.

As Sementes

Foi Zuza quem viu primeiro, de novo.

No meio do pedaço dela, presas na polpa, havia sementes. Vinte, contando bem. Pretas, pequenas, duras.

— Olha isso.

Nara chegou perto. Bento chegou perto.

— E o que a gente faz com isso? — perguntou Bento.

Nara ficou um tempão olhando as sementes.

— A chuva sempre volta — disse ela. — Demora, mas volta. Sempre voltou.

Então os três desceram até o leito seco do riacho, onde a terra ainda guardava um pouco de umidade lá no fundo.

Bento abriu os buracos, um por um, com a garra da pata da frente — sem pressa, porque garra grande em buraco pequeno é coisa que exige cuidado.

Zuza colocava as sementes, uma em cada buraco, correndo de um para o outro e voltando.

Nara cobria tudo com terra, empurrando com o focinho.

Levaram a tarde inteira. Quando terminaram, o sol já estava baixo e alaranjado, daquele jeito que deixa até chão seco parecendo bonito.

Os três dinossauros plantam sementes pretas no leito seco de um riacho sob a luz baixa e alaranjada do fim da tarde

A Noite em que Choveu

Eles não voltaram para casa naquela noite.

Ficaram ali mesmo, embaixo da figueira velha, encostados uns nos outros, porque o vale esfria depressa quando o sol some.

Zuza foi a primeira a sentir.

Uma gota. Na ponta do focinho.

Ela abriu um olho. Não disse nada.

Veio outra. E outra. E depois veio aquele barulho baixinho que a chuva faz quando começa devagar, batendo nas folhas secas uma de cada vez, como se estivesse contando.

Bento roncou e nem acordou.

Nara esticou o pescoço, deixou a chuva molhar o rosto inteiro e depois enrolou o pescoço de volta, todo dobrado, do jeito que os pescoçudos dormem.

Zuza ficou acordada mais um pouquinho, só para ouvir.

Lá embaixo, no leito do riacho, vinte sementes pretas estavam quietinhas debaixo da terra, começando a fazer aquilo que as sementes fazem quando ninguém está olhando.

E chovia devagar.

E chovia devagar.

E o vale inteiro dormiu.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. A Zuza era a mais rápida e podia ter fugido com a fruta. Por que você acha que ela ficou parada?
  2. Bento disse que era forte, não escada. Você já ajudou de um jeito que não era o seu jeito de sempre?
  3. Se a fruta fosse sua e desse para repartir em três, como você repartiria?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para este site. Não é reconto de fábula nem de conto de fadas: o Vale do Sol Comprido, os três dinossauros e a última fruta madura foram inventados aqui. Como nas outras histórias de dinossauros do site, os bichos falam e têm nome — é uma história sobre dividir, com dinossauros dentro, e não um texto de divulgação científica.

Perguntas frequentes sobre Os Dinossauros e a Última Fruta do Vale

Qual é a moral desta história de dinossauros?

Que nem sempre dá para separar o mérito de cada um quando o resultado só apareceu porque três fizeram partes diferentes da mesma coisa. A história não explica isso em nenhum momento: ela mostra três dinossauros que fracassam sozinhos e conseguem juntos, e deixa a conclusão para a conversa depois da leitura.

Esta história serve para explicar sobre dividir e repartir?

Serve, e funciona bem justamente por não dar sermão. A fruta é uma só, os dinossauros são três, e a divisão sai desigual — um pedaço maior, um menor, um torto. É um bom gancho para falar de partilha com crianças que estão aprendendo a repartir brinquedo e lanche.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 8 anos. Os personagens são fáceis de guardar porque cada um tem uma característica só — a mais alta, o mais forte, a mais rápida — e há frases que se repetem, do tipo que a criança começa a falar junto na segunda ou terceira vez.

O final é tranquilo para ler antes de dormir?

Sim. A história termina com a chuva chegando devagar à noite, os três dinossauros encostados uns nos outros embaixo da figueira e as sementes plantadas debaixo da terra. O ritmo desacelera de propósito nas últimas linhas.

Que tal a história de amanhã?