
O Vento e o Sol
Dois vizinhos muito antigos discutem quem é o mais forte do mundo e escolhem um viajante distraído para resolver a questão — sem nunca perguntar nada a ele.
Dois vizinhos muito antigos, uma estrada comprida e um casaco que ninguém conseguia tirar
Era uma manhã de outono na Estrada dos Álamos.
O chão estava duro de frio. As folhas tinham ficado amarelas quase todas de uma vez, do jeito que elas fazem, e o caminho de terra seguia reto entre as árvores até sumir na curva.
Por aquela estrada vinha um homem chamado Nicolau.
Nicolau já era velho, de barba branca curta e bochechas rosadas. Usava um casaco de lã cor de telha, um cachecol listrado de creme e um chapéu de feltro marrom. O casaco era antigo, tinha um remendo no cotovelo e cheirava um pouco a fumaça de lareira, do jeito que cheiram as roupas de quem mora perto do fogo.
Ele ia para a vila do outro lado do bosque, que ficava a uma manhã inteira de caminhada. Não tinha nenhuma pressa de chegar.
Andava com uma mão nas costas, assobiando baixinho, parando às vezes para olhar uma folha bonita — e não fazia a menor ideia de que, naquele exato momento, dois vizinhos muito antigos estavam olhando para ele lá de cima.

A Discussão no Alto do Céu
Os dois vizinhos eram o Vento e o Sol.
Moravam ali desde antes de existir estrada, antes de existir álamo, antes de existir gente para caminhar embaixo. E se davam bem, na maior parte do tempo. Um passava, o outro esperava. Depois o outro passava, e era o primeiro que esperava.
De manhã cedo o Vento gostava de correr por cima dos campos, e o Sol ficava atrás das nuvens deixando ele correr. De tarde o Sol se espalhava em cima dos telhados, e o Vento se recolhia no meio do bosque e ficava quieto.
Era um arranjo antigo. Funcionava havia tanto tempo que nenhum dos dois lembrava de quem tinha sido a ideia.
Só que naquela manhã eles começaram a discutir.
Começou como começam essas coisas: por bobagem.
— Olha só o que eu faço — disse o Vento.
E passou correndo por cima do bosque.
As árvores se curvaram todas para o mesmo lado. Um bando de pássaros saiu voando de uma vez só. Uma porta bateu longe, numa casa que nem dava para ver.
— Viu? — disse o Vento. — Não existe força maior que a minha.
O Sol, que estava só começando a subir, não respondeu logo. Ele quase nunca respondia logo.
— É bonito — disse o Sol, enfim.
— Bonito? — o Vento se ofendeu na hora. — Eu derrubo telha. Eu levanto onda no mar. Eu arranco árvore pela raiz quando eu quero.
— Eu sei.
— Então diz. Quem é o mais forte dos dois?
— Sou eu — disse o Sol, calmíssimo.
O Vento parou no ar. Ficou tão parado que uma folha que estava subindo desistiu e voltou para o chão.
— Você — repetiu o Vento.
— Eu.
— Você, que não faz barulho nenhum.
— Esse mesmo.
A Aposta
O Vento deu três voltas na montanha, que era o jeito dele de pensar.
— Então vamos resolver isso agora — disse ele, voltando. — Uma prova.
— Que prova?
O Vento olhou para baixo, procurando alguma coisa. Foi aí que viu Nicolau, pequenininho lá embaixo, andando devagar pela Estrada dos Álamos com aquele casaco cor de telha fechado até o pescoço.
— Aquele ali — disse o Vento. — Está vendo o casaco dele?
— Estou vendo.

— O primeiro que tirar o casaco daquele homem ganha. E o outro nunca mais diz que é o mais forte.
O Sol demorou um pouco para responder. Lá embaixo, Nicolau parou no meio do caminho, ajeitou o chapéu e olhou para cima — para as nuvens que começavam a se juntar de um lado e para a claridade morna que vinha do outro. Depois seguiu andando, sem desconfiar de nada.
— Combinado — disse o Sol. — Mas eu vou por último.
— Por quê?
— Porque você não vai conseguir esperar a sua vez se for depois de mim.
O Vento achou aquilo um insulto e um elogio ao mesmo tempo, e ficou sem saber o que responder.
— Então eu começo — disse ele.
E encheu o peito.
O Vento Sopra
A primeira rajada chegou de lado.
Veio zunindo pelo meio dos álamos, levantou uma nuvem de poeira e passou por Nicolau com um assobio comprido.
O chapéu quase voou.
Nicolau segurou o chapéu com uma mão e apertou o casaco com a outra.
— Nossa — disse ele, para ninguém. — Virou o tempo.
Lá em cima, o Vento riu.
— Isso é só o começo — avisou.
A segunda rajada foi mais brava. Chegou de frente, empurrando, do jeito que ele faz quando quer ver a gente andar para trás. As folhas amarelas subiram todas juntas e ficaram rodando no ar.
Nicolau baixou a cabeça, encolheu os ombros e apertou mais o casaco.
A terceira veio pior ainda. Fez os álamos se dobrarem até quase encostar no chão. Fez o cachecol de Nicolau esvoaçar feito uma bandeira. Levou o assobio dele para longe, no meio da música.
E Nicolau, em vez de largar o casaco, fez uma coisa que o Vento não esperava.
Ele parou. Puxou as abas do casaco com as duas mãos. Fechou o botão de cima, aquele que ninguém nunca fecha. Enrolou o cachecol mais uma vez no pescoço. Enfiou o chapéu até as orelhas.
E continuou andando.
— Ah, é assim? — disse o Vento.

Atrás do Muro de Pedra
O Vento soprou como havia muito tempo não soprava.
Soprou por cima. Soprou por baixo. Deu a volta e soprou pelas costas, tentando entrar por dentro da gola. Fez a estrada inteira virar um redemoinho de folha e poeira.
O bosque todo chacoalhou. As cercas rangeram. Uma janela bateu duas vezes na casa do vale, tuc, tuc, e alguém lá dentro se levantou para fechar o trinco.
E Nicolau, que era velho mas não era bobo, saiu do meio do caminho, atravessou o pasto e se agachou atrás de um muro baixo de pedra, na parte onde o vento não chegava.
Sentou no chão frio. Puxou os joelhos. Enrolou-se no casaco como quem se embrulha num cobertor.
E ficou ali, quietinho, esperando passar.
Do outro lado do muro, o barulho era grande. Do lado de cá, quase nada. Nicolau tinha aprendido isso de tanto andar por aquela estrada: que quase sempre existe um lado de cá.
O Vento soprou mais um pouco em cima do muro. Soprou até fazer chacoalhar as pedras soltas do topo. Soprou até ficar sem fôlego, o que acontece com o vento também, ainda que ele nunca admita.
Depois foi diminuindo. Diminuiu, diminuiu, diminuiu — e virou um assobio fininho no meio das árvores.
Nicolau espiou por cima do muro.
O ar estava parado.
— Passou — disse ele, se levantando e batendo a poeira da calça. — Sempre passa.
E o casaco continuava exatamente onde estava: fechado até o botão de cima, com o cachecol enrolado por dentro.

Agora É a Vez do Sol
O Vento voltou lá para cima bufando.
— Aquele casaco é pregado nele — reclamou. — Ninguém tira aquilo. Nem você.
— Talvez — disse o Sol.
— Pode ir. Vai lá. Faz o seu barulho.
— Eu não faço barulho.
— Pois é — disse o Vento. — Esse é o seu problema.
O Sol não discutiu. Só empurrou uma nuvem de leve para o lado, do jeito que a gente afasta a cortina de manhã, e apareceu.
Não apareceu de uma vez. Apareceu devagar.
Primeiro só um pedaço, uma claridade morna que caiu em cima da estrada e foi secando a poeira molhada. Nicolau voltou para o caminho e sentiu aquilo nas costas. Nem pensou no assunto — nas coisas boas a gente quase nunca repara na hora.
Depois o Sol subiu mais um pouco.
O chão começou a esquentar. Os álamos pararam de tremer. Um gafanhoto ensaiou uma nota, esfregando uma perna na outra. Longe, uma vaca mugiu, do jeito preguiçoso que as vacas fazem quando bate sol.
As folhas amarelas, que estavam todas espalhadas pela estrada, ficaram tão bonitas com a luz em cima que pareciam moedas.
Nicolau parou.
Desabotoou o botão de cima — aquele que ninguém nunca fecha.
— Olha só — disse ele. — Melhorou.
Lá em cima, o Vento fez cara de quem não viu.

O Casaco Sai Sozinho
O Sol não teve pressa.
Subiu mais um pouquinho. E mais um pouquinho.
O dia ficou daquele jeito raro que só o outono sabe fazer: sem frio, sem calor demais, com um cheiro bom de terra esquentando.
Nicolau tirou o cachecol e enfiou no bolso.
Andou mais um trecho.
Tirou o chapéu e abanou o rosto com ele.
Andou mais um trecho.
E então parou no meio da Estrada dos Álamos, soltou um suspiro comprido, abriu os braços e deixou o casaco escorregar pelos ombros como quem tira um peso das costas.
Dobrou o casaco no braço.
— Ufa — disse Nicolau.
Do lado do caminho corria um riacho pequeno. Ele foi até lá, se agachou, molhou a mão e passou na nuca. A água estava gelada e boa. Sentou numa pedra grande, com o casaco dobrado no colo, e ficou olhando a água passar.
Não estava com pressa nenhuma de chegar na vila. Nunca esteve.
Tirou do bolso um pedaço de pão que trazia embrulhado num pano e comeu devagar, jogando as migalhas na água para os peixinhos disputarem.
Depois de um tempo, começou a assobiar de novo.
Lá em cima, o Vento olhava aquilo tudo sem dizer uma palavra.

O Que o Vento Quis Saber
— Como é que você fez isso? — perguntou o Vento, por fim.
— Fiz o quê?
— O casaco. Eu soprei a manhã inteira e ele fechou mais. Você não fez nada e ele tirou sozinho.
O Sol pensou um instante.
— Eu não fiz nada com o casaco — disse ele. — Eu fiz com o dia.
O Vento ficou quieto.
— O casaco foi decisão dele — completou o Sol. — Eu só esquentei o caminho.
O Vento deu mais três voltas na montanha. Voltou mais devagar do que tinha ido.
— Você ganhou — disse.
— Ganhei.
— Não conta para ninguém.
— Não conto — prometeu o Sol.
E, para ser justo, ele nunca contou. Quem contou foi o gafanhoto, que estava ali perto e ouviu tudo. E daí a história correu o mundo e chegou até esta noite, até esta cama, até aqui.
O Fim do Dia na Estrada
De tarde, o ar esfriou de novo.
Nicolau parou no meio do caminho, sacudiu o casaco para tirar a poeira e vestiu de novo, com toda a calma. Enrolou o cachecol. Ajeitou o chapéu. Seguiu andando.
O Sol foi descendo atrás do bosque, devagarinho, deixando o céu cor de laranja e depois cor de damasco e depois cor de nada.
E o Vento — que estava cansado, e cansaço deixa qualquer um mais manso — passou de leve por cima dos álamos só para ouvir o barulhinho que as folhas fazem quando ele passa de leve.
As folhas fizeram o barulhinho.
Nicolau chegou na vila quando as primeiras janelas já estavam acesas. Bateu os pés na soleira para tirar a terra. Pendurou o casaco cor de telha atrás da porta, no gancho de sempre, com o cachecol por cima e o chapéu por cima do cachecol.
Comeu uma sopa. Lavou a tigela. Apagou a luz.
E lá fora, na Estrada dos Álamos, ficou aquele silêncio bom de estrada vazia à noite — com o Vento passando bem devagar entre as árvores, e o Sol descansando do outro lado do mundo, esperando a hora de subir de novo.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Por que você acha que o Nicolau segurou mais forte o casaco quando o Vento soprou?
- O Vento e o Sol apostaram sem perguntar nada para o Nicolau. Isso foi justo?
- Tem alguma coisa que você só consegue fazer quando ninguém está te apressando?
Sobre esta história
Esta fábula é atribuída a Esopo, que teria vivido na Grécia por volta do século VI a.C., e aparece nas coleções antigas com o título Bóreas e Hélios — o vento norte e o sol. A versão latina que levou a fábula até a Idade Média é a de Avianus, De Vento et Sole, escrita lá pelo ano 400; foi dela que Jean de La Fontaine tirou o título dos seus versos, Phébus et Borée, publicados nas Fábulas de 1668. Todas essas versões são de domínio público. Nosso reconto é fiel ao enredo original: a discussão, a aposta, o vento que sopra em vão e o sol que aquece devagar. O que acrescentamos foi só o que uma história de dormir pede — nome para o viajante, cheiro de estrada, tempo para as coisas acontecerem. Não usamos nada das adaptações feitas depois para o cinema ou para o desenho animado.
Perguntas frequentes sobre O Vento e o Sol
Qual é a moral da fábula O Vento e o Sol?
Que a delicadeza consegue o que a força bruta não consegue. O Vento sopra com toda a fúria e o viajante só se agasalha mais; o Sol aquece com calma e o casaco sai sozinho. É uma das formas mais antigas de dizer que convencer funciona melhor do que obrigar.
Essa história é de Esopo mesmo?
Sim. A fábula é atribuída a Esopo, contador de histórias grego do século VI a.C., e ficou conhecida no mundo todo através de Avianus, que a escreveu em latim lá pelo ano 400, e de Jean de La Fontaine, que a pôs em versos franceses em 1668. Como são textos antiquíssimos, estão em domínio público e qualquer pessoa pode recontá-los.
Para que idade esta história é indicada?
Dos 4 aos 8 anos. São só três personagens, o enredo é fácil de acompanhar e a repetição das rajadas de vento funciona muito bem na leitura em voz alta — dá vontade de fazer voz de vento.
A história tem alguma parte assustadora para ler antes de dormir?
Não. O Vento sopra forte e derruba folhas, mas ninguém se machuca e nada de ruim acontece com o viajante. A segunda metade é toda de sol morno e fim de tarde, feita de propósito para ir baixando o ritmo até o sono.


