
O Sino que Perdeu o Som
Na véspera do Natal o sino da vila abriu a boca e não saiu nada — e quanto maiores as ferramentas que trouxeram para consertá-lo, mais calado ele ficou.
Na serra, na véspera do Natal, um sino de bronze abriu a boca e não saiu nada
Em cima da serra, onde a estrada de terra acaba e a neblina começa, existe uma vila chamada Pedra Serena.
São umas trinta casas de janela colorida, uma padaria, um armazém que vende de linha de costura a pá de jardim, e uma igrejinha branca de porta azul. Ao lado da igrejinha sobe uma torre de pedra, estreita e sem enfeite nenhum, com um arco aberto lá no alto.
E dentro do arco mora a Marieta.
A Marieta é um sino. Um sino de bronze grande, esverdeado nas bordas de tanto sereno, com o badalo pendurado no meio feito uma língua pesada. Ela tem nome porque em Pedra Serena tudo que é importante ganha nome — e a Marieta já era importante muito antes de qualquer pessoa que mora ali hoje ter nascido.
Era ela quem acordava a vila de manhã. Era ela quem chamava para o almoço. Era ela quem avisava, no fim da tarde, que estava na hora de recolher a roupa do varal antes que a neblina descesse e molhasse tudo outra vez.
E era ela, todo ano, quem abria a noite de Natal.
A pessoa que mais gostava da Marieta era uma menina chamada Bia.
Bia tinha sete anos, cabelo cacheado preso em dois coques e um casaco de lã vermelho de botões grandes que tinha sido da mãe dela. Morava na terceira casa depois do armazém, com o pai, a mãe e a avó Nice.
Todo fim de tarde ela parava no meio da praça, com o cachecol amarelo enrolado até o queixo, e ficava esperando a badalada das cinco.
Não porque precisasse saber a hora. Porque gostava do jeito que o barulho batia no morro e voltava.

O ano em que ninguém teve tempo
Antigamente — e antigamente ali quer dizer uns poucos anos atrás — a vila inteira se juntava embaixo da torre na véspera.
Chegavam devagar, de casaco, trazendo banquinho. Ficavam na praça conversando até escurecer. E quando a primeira estrela aparecia por cima do morro, alguém começava a cantiga e todo mundo entrava junto:
Ô sino da Pedra Serena,
a noite já vem, já chegou.
Quem canta debaixo de ti
não fica sozinho, não, não.
Aí, e só aí, seu Otávio puxava a corda. E a Marieta soltava a badalada comprida do Natal, aquela que descia a serra inteira e ia bater lá longe, na vila do outro lado do vale.
Só que os anos foram passando e a vila foi ficando ocupada, do jeito que os lugares ficam.
A padaria abriu mais cedo. O armazém abriu mais tarde. Compraram um aparelho de televisão na casa da esquina e depois compraram outro na casa da frente. As pessoas continuaram gostando umas das outras exatamente como antes — só que passaram a gostar de dentro de casa.
Ninguém combinou de parar de ir à praça. Foi só ficando para o ano seguinte.
E naquele dezembro, a única pessoa que ainda olhava para o alto da torre todo santo dia era a Bia.
A véspera em que a Marieta não falou
No dia vinte e quatro, quando a primeira estrela apareceu em cima do morro, seu Otávio subiu os degraus da torre com a chave no bolso, como fazia havia quarenta anos.
Firmou os pés. Segurou a corda com as duas mãos. Puxou.
O sino balançou.
O badalo foi de um lado ao outro, bem devagar, encostou no bronze — e não saiu nada.
Seu Otávio franziu a testa e puxou de novo, mais forte.
O sino balançou mais.
Nada. Nem um tim. Nem um tom.

Ele desceu os degraus com a cara de quem viu uma coisa impossível, atravessou a praça e bateu na porta da padaria.
— A Marieta emudeceu.
— Emudeceu como?
— Emudeceu. Balança e não fala.
Em dez minutos tinha gente na praça de novo, o que já era estranho por si só. Todo mundo de pescoço torto, olhando para o arco lá em cima.
Um sino rachado a gente ouve: faz um barulho feio, de panela batendo. Um sino sem badalo a gente vê. Mas um sino inteirinho, com o badalo no lugar, encostando no bronze em silêncio — isso ninguém em Pedra Serena tinha visto na vida.
As ferramentas foram ficando maiores
O primeiro a tentar foi seu Otávio, com a corda.
Puxou. Puxou de novo. Puxou pendurando o peso inteiro do corpo, os pés saindo do chão.
Nada. Nem um tim. Nem um tom.
Aí dona Cida veio com o cabo da vassoura dela, subiu os degraus e cutucou o badalo de perto, bem devagarinho, do jeito que a gente toca numa coisa que respeita.
Nada. Nem um tim. Nem um tom.
Aí chamaram o Zulmiro, que é ferreiro e entende de metal. O Zulmiro chegou com um martelo, olhou o sino por baixo e deu duas batidinhas de leve na saia de bronze.
Nada.
Foi buscar um martelo maior.
Nada.
Foi buscar a marreta.
E aí a vila inteira encolheu o pescoço, porque marreta em sino de bronze é coisa que dá aflição só de imaginar — mas o Zulmiro bateu, e o som que saiu foi o som da marreta batendo, um "tuc" seco e curto, e mais nada. Como bater num tronco.
Depois da marreta veio a escada. Depois da escada veio uma escada maior. Depois vieram duas cordas novas e uma roldana emprestada do sítio do seu Aldo.
O filho do seu Aldo subiu no telhado da igrejinha para ver o sino de cima. A mãe dele gritou da praça que descesse já daquele telhado.
E, entre uma ideia e outra, a noite foi chegando de mansinho por trás do morro.

O que a Bia ouviu lá em cima
Ninguém reparou quando Bia subiu.
Os adultos estavam todos em volta da roldana, discutindo se puxava por cima ou por baixo, e a porta da torre estava aberta desde a tarde. Ela subiu os degraus de pedra, um de cada vez, segurando na parede fria.
Lá em cima cabiam duas pessoas e a Marieta.
O sino era muito maior de perto, com folhinhas desenhadas em volta da borda, tão apagadas de chuva que quase não davam mais para ver.
Ela se sentou na viga de madeira, encostou a bochecha no metal — que estava gelado — e ficou ali um tempo.
Sem nada para fazer, começou a cantarolar. Bem baixinho, do jeito distraído com que a gente canta quando está esperando alguma coisa.
Ô sino da Pedra Serena...
E o sino fez:
— Tim.
Bia levantou a cabeça de uma vez.
Foi um som pequeno. Do tamanho de uma colher batendo num copo. Mas foi um som, veio de dentro do bronze, e ela sentiu na bochecha antes de ouvir.
Ficou muito quieta.
Depois falou:
— Marieta?
Nada.
Bateu no sino com a mão. Nada. Bateu com o pé. Nada. Chamou de novo, mais alto, e o silêncio continuou exatamente do mesmo tamanho.
Então ela respirou fundo e cantou a linha inteira, com a voz meio trêmula de frio:
Ô sino da Pedra Serena, a noite já vem, já chegou.
— Tim. Tim.
Duas vezes. Um pouquinho mais forte.

Ninguém acreditou
Bia desceu correndo os degraus e chegou na praça sem fôlego.
— Ele responde! — disse ela. — Ele responde se a gente canta!
— Agora não, Bia — disse o pai, que estava segurando a ponta de uma corda.
— Mas eu subi lá e...
— Você subiu na torre? — disse a mãe, e a conversa virou outra, do tipo que não interessa a ninguém contar.
Ela tentou o Zulmiro.
— Seu Zulmiro, o sino faz tim quando a gente canta.
— Faz tim quando a gente bate, minha filha. E hoje não está fazendo nem isso.
Tentou o seu Otávio, que foi o único que se abaixou para ouvir direito. Ele escutou tudo, coçou a nuca e disse:
— Deve ter sido o vento no arco, Bia. Lá em cima venta esquisito.
Bia ficou parada no meio da praça, com o cachecol amarelo enrolado até o queixo, enquanto os adultos amarravam a corda nova numa argola.
Ela sabia o que tinha ouvido.
Só que saber sozinha não adiantava nada.
E foi então que ela pensou na avó.
A avó que sabia a cantiga
A avó Nice tinha oitenta e dois anos e um xale de crochê azul que usava desde sempre, no inverno e no verão, porque em Pedra Serena esfria à noite mesmo em dezembro.
Ela quase não saía mais. Passava as tardes na cadeira perto da janela, escutando a vila em vez de andar por ela.
Bia entrou em casa com o casaco desabotoado.
— Vó, a senhora sabe a cantiga do sino?
Dona Nice tirou os óculos.
— Que pergunta é essa, menina. Fui eu que ensinei essa cantiga pra sua mãe.
— A senhora consegue cantar hoje?
— Hoje?
— Agora. Na praça.
A avó olhou pela janela, para a neblina que já estava descendo e para os vultos que se mexiam em volta da torre.
Depois olhou para a neta.
— Me dá o xale — disse ela. — E me dá o braço, que a calçada da praça é torta.
As duas foram descendo a rua devagar, muito devagar, a bengala batendo na pedra num tique-taque miudinho. A neblina fazia um halo em volta de cada lâmpada. Ninguém as viu chegar.

A noite em que a vila cantou
Dona Nice parou embaixo da torre, ajeitou o xale nos ombros e esperou o fôlego voltar.
Aí ela cantou.
A voz saiu fina, tremida nas pontas, do jeito das vozes de oitenta e dois anos:
Ô sino da Pedra Serena,
a noite já vem, já chegou.
E a Marieta respondeu.
— Tim.
O Zulmiro largou a marreta no chão.
Todo mundo virou o pescoço ao mesmo tempo, e por um segundo a praça inteira ficou tão quieta que dava para ouvir a neblina.
— Continua, vó — sussurrou Bia.
Quem canta debaixo de ti...
— Tim. Tom.
Dona Cida largou a vassoura e entrou na segunda linha, meio atrasada. A voz dela era grossa e desafinava um pouco.
— Tim. Tom. Tim.
O som estava crescendo.
Seu Otávio entrou. O pai de Bia entrou. A mãe de Bia entrou. O filho do seu Aldo desceu do telhado cantando de cima da escada, o que rendeu outro grito da mãe dele — mas ela mesma estava cantando, e bronca cantada não assusta ninguém.
E quanto mais gente cantava, mais forte a Marieta respondia. Como se estivesse voltando de muito longe, um pedaço por vez.
Ô sino da Pedra Serena,
a noite já vem, já chegou.
Quem canta debaixo de ti
não fica sozinho, não, não.
Aí veio.
A badalada comprida do Natal, aquela inteira, aquela que faz o peito da gente vibrar por dentro. Desceu a serra, atravessou o vale e foi bater lá longe, na vila do outro lado — e um tempinho depois, tão fininho que era quase imaginação, o sino de lá respondeu.
Ninguém tinha puxado corda nenhuma.

Depois que o sino se calou de novo
A badalada foi diminuindo do jeito que as badaladas fazem: primeiro para de ser barulho, depois vira um zumbido de metal, depois vira uma coisa que talvez só esteja no ouvido da gente.
E aí acabou, e sobrou a praça.
Ninguém foi embora logo.
Trouxeram cadeira de dentro de casa. A padaria abriu outra vez só para tirar do forno o que já ia sair mesmo, e o cheiro tomou conta da praça inteira. O Zulmiro guardou a marreta na sacola com um cuidado meio sem graça, como quem devolve uma coisa que não precisava ter trazido.
Dona Nice ficou sentada num banco com o xale bem fechado, e todo mundo passou por ela em algum momento da noite, um de cada vez, para dizer alguma coisa.
Bia sentou no chão, encostada na perna da avó.
— Vó.
— Oi.
— Por que ele parou de falar?
Dona Nice ficou um tempo olhando a torre.
— Sino é bicho de responder, minha filha — disse ela. — Passa tempo demais sem ninguém falar com ele, desacostuma.
— É verdade isso?
— Sei lá — disse a avó, e riu baixinho. — Mas serve.
A neblina desceu de vez, e uma por uma as janelas da vila foram acendendo. As pessoas foram indo embora sem pressa nenhuma, e o barulho das conversas foi ficando cada vez mais espalhado, até virar só o som dos passos na pedra.
De lá para cá ficou combinado — sem ninguém combinar, que é como as coisas ficam combinadas em Pedra Serena.
Todo fim de tarde alguém passa embaixo da torre e canta um pedacinho. Nem precisa ser a cantiga inteira. Uma linha basta.
Às vezes é dona Cida, voltando do armazém com a sacola pesada. Às vezes é o Zulmiro, que canta muito mal e nem liga. Às vezes é o filho do seu Aldo, que canta correndo, de bicicleta.
E a Marieta responde — tim — e segue tocando as cinco da tarde como sempre tocou.
Naquela noite, quando a praça já estava vazia, Bia foi para a cama de janela aberta, que é como ela gosta.
A colcha estava fria no começo e foi esquentando devagar.
Lá fora não tinha mais nada acontecendo. Só a neblina passando na frente da lâmpada da rua, a torre de pedra recortada no escuro e o silêncio grande e macio que fica numa vila depois que todo mundo entrou.
Bia ficou pensando na badalada que atravessou o vale e voltou.
Pensou que no ano seguinte ia levar a avó de novo, e que dessa vez ia levar o banquinho junto, porque banco de praça é duro.
E dormiu antes de terminar de pensar.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Por que você acha que as ferramentas grandes não resolveram nada?
- A Bia foi buscar a avó em vez de tentar sozinha de novo. Por que isso mudou as coisas?
- Tem alguma coisa que a sua família fazia junto e faz tempo que não faz?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir. A vila de Pedra Serena, o sino Marieta e a cantiga que aparece no texto foram inventados para este conto: não são folclore nem tradição de lugar nenhum. A ambientação é de vila brasileira de serra, onde dezembro tem noite fria e neblina baixa — e não a paisagem de neve que costuma aparecer nas histórias de Natal.
Perguntas frequentes sobre O Sino que Perdeu o Som
Esta história de Natal é religiosa?
Não. O sino fica numa igrejinha porque é ali que os sinos costumam morar, mas a história não conta nenhuma passagem bíblica nem pede nenhuma crença. O que está em jogo é a vila voltar a se reunir na véspera. Serve para qualquer família.
Para que idade esta história é indicada?
Dos 4 aos 9 anos. As crianças menores acompanham pela repetição das ferramentas, que vão ficando cada vez maiores e mais engraçadas. As maiores costumam descobrir o que está acontecendo antes da própria Bia.
Qual é a moral de O Sino que Perdeu o Som?
Que existem coisas que não se resolvem com força nem com ferramenta melhor, porque nem tudo que emudece está quebrado. Algumas coisas só voltam quando alguém chega perto e faz a primeira parte.
O final é calmo para ler na hora de dormir?
É. O último trecho baixa o ritmo de propósito: a praça vai esvaziando devagar, as conversas viram só barulho de passo na pedra e a história termina com a Bia adormecendo de janela aberta. Ninguém se perde, ninguém se machuca e nada fica sem resposta.


