Contos para Dormir
Ilustração do conto O Saci que Não Gostava de Assustar

O Saci que Não Gostava de Assustar

Todo saci nasce para pregar sustos. O Juca nasceu com um problema: ele preferia devolver o chinelo perdido.

Equipe Contos para Dormir ·

No taquaral, quando o vento faz redemoinho no meio do caminho, é sinal de que alguém de carapuça vermelha acabou de passar

Atrás do Capão Fundo, onde a estrada de terra vira trilha e a trilha vira mato, existe um taquaral.

Taquaral é isso: um bambuzal fechado, alto, de vara fina e verde, que estala sozinho quando venta. De dia parece só mato. De noite, se você parar quieto e prender a respiração, dá para ouvir umas risadinhas lá dentro.

São os sacis.

Saci é pequeno, do tamanho de uma criança de sete anos. Tem uma perna só, e por isso anda aos pulinhos — pu-lo, pu-lo, pu-lo —, mais rápido do que gente correndo com as duas. Na cabeça usa uma carapuça vermelha, que é onde mora a magia. E quando quer ir longe, vira redemoinho: aquele rodopio de poeira e folha seca que sobe girando no meio do caminho e some.

Vruuu.

Um saci menino de carapuça vermelha pulando numa perna só entre bambus altos ao entardecer

No taquaral do Capão Fundo moravam onze sacis.

O mais velho se chamava Quirino, tinha a carapuça puída de tanto uso e sabia o nome de todos os ventos.

O mais novo se chamava Juca.

E o Juca é o motivo desta história.

A Escola do Quirino

Todo saci novo passa um verão inteiro aprendendo com o saci mais velho. É assim desde sempre.

O Quirino ensinava de manhã bem cedo, sentado numa taquara que dobrava com o peso dele e voltava.

— Primeira coisa — dizia ele. — Redemoinho.

O Juca girou o dedo no ar. Levantou um rodopio de folha seca do tamanho de um chapéu, que andou dois passos e desmanchou.

— Melhor do que o meu primeiro — reconheceu o Quirino. — Segunda coisa: crina de cavalo. A gente embola. Bem embolada, com nó em cima de nó.

O Juca fez uma cara.

— Terceira coisa, e essa é a principal — o Quirino se ajeitou na taquara. — Susto.

— Susto — repetiu o Juca.

— Susto. A pessoa vem pela trilha à noite, distraída, pensando na vida. Você se esconde. Espera. E na hora exata: pula na frente e grita.

— E aí?

— E aí ela leva um susto.

O Juca esperou o resto da explicação. Não veio mais nada.

— Mas depois? — insistiu ele. — Depois do susto, o que acontece?

— Depois do susto ela vai embora correndo e a gente ri.

O Juca ficou olhando para o próprio pé um tempo comprido.

— Eu não quero — disse afinal.

O Quirino desceu da taquara.

— Como assim, não quer?

— Não quero pular na frente de ninguém. Não quero gritar. Não acho graça em correria.

O velho saci ajeitou a carapuça puída, do jeito que a gente ajeita o chapéu quando não sabe o que dizer.

— Saci que não assusta não é saci — falou.

E foi embora aos pulinhos.

O saci menino de carapuça vermelha ouvindo um saci muito velho sentado numa taquara fina, pequeno redemoinho de folhas entre os dois

A Primeira Noite de Serviço

Mesmo assim mandaram o Juca trabalhar.

É que existe um rodízio. Cada noite um saci desce ao Capão Fundo e faz o serviço. Naquela terça-feira era a vez dele, e o Quirino não voltou atrás.

O Juca desceu a trilha devagar, com a carapuça amassada na mão em vez de na cabeça.

O Capão Fundo àquela hora era quase nada: umas vinte casas, um curral, um pé de manga velho no meio do terreiro e um cachorro que latiu duas vezes e desistiu.

Ele se escondeu atrás do tanque de lavar roupa.

Esperou.

Passou um homem voltando da roça, com a enxada no ombro e o pensamento longe. Era a hora exata. Era o susto perfeito.

O Juca não pulou.

Ficou ali, agachado, com o coração batendo forte, e deixou o homem passar.

Passou também uma senhora com uma bacia de roupa na cintura. Passou um menino correndo atrás de um bezerro que não queria entrar no curral. Passou uma moça cantarolando baixinho, tão distraída que quase esbarrou no tanque.

Quatro sustos perfeitos. Quatro.

O Juca deixou todos irem embora inteiros.

Quando o terreiro esvaziou de vez, ele saiu de trás do tanque — e foi então que reparou numa coisa.

Debaixo do tanque, meio enterrado na terra molhada, havia um chinelo. Um chinelo azul, de criança, sozinho. Do tipo que some e a mãe procura a semana inteira e no fim compra outro par.

O Juca puxou o chinelo. Bateu a terra. Cheirou, porque saci cheira as coisas para saber de quem são, e aquele cheirava a criança que corre muito.

Deu três pulinhos até a casa de janela azul e deixou o chinelo no degrau, bem no meio, impossível de não ver.

Depois subiu para o taquaral.

E dormiu melhor do que nunca.

O saci de carapuça vermelha deixando um chinelo azul de criança no degrau de uma casa, sob luz de lua

O Que Some no Capão Fundo

Nas semanas seguintes, o Juca foi juntando as noites dos outros.

— Você me empresta a sua quarta? — perguntava.

— Empresto.

— E o sábado também?

— Empresto, ué. Você é maluco, mas pode levar.

Então ele descia quase toda noite. E foi descobrindo uma coisa que ninguém no taquaral tinha percebido: o Capão Fundo perdia um monte de objeto.

Sumia dedal. Sumia chave de portão. Sumia a colher de pau boa, aquela de cabo comprido. Sumia meia — sempre uma, nunca as duas. Sumia lápis, sumia moeda, sumia o brinco pequeno da orelha esquerda.

E nada sumia de verdade. Tudo estava em algum lugar bobo.

O dedal tinha rolado para trás do baú. A chave estava dentro da bota. A colher de pau tinha caído no vão entre o fogão e a parede. A meia estava enrolada dentro do lençol, e ficou ali três meses.

O Juca achava tudo.

Era bom nisso do jeito que algumas pessoas são boas em cantar: sem esforço, sem saber explicar como.

Ele entrava pela fresta, dava a volta na casa em silêncio, farejava um pouquinho e pronto — sabia onde estava.

Aí punha o objeto num lugar visível e ia embora antes de clarear.

No começo o pessoal do Capão Fundo achou que estava ficando distraído.

Depois começou a achar estranho.

— Ó, apareceu — dizia a Dona Cota, mostrando o dedal. — Em cima da máquina, no meio da mesa. E eu procurei aí umas quarenta vezes.

O saci de carapuça vermelha deixando um dedal prateado bem em cima de uma máquina de costura antiga, dentro de uma casa simples antes do amanhecer

A Menina que Não Se Assustou

A Manu tinha oito anos, morava na casa de janela azul e não dormia direito desde que o chinelo apareceu no degrau.

Ela sabia que chinelo não anda sozinho.

Então ficou de tocaia. Três noites de janela encostada, com o olho na fresta, lutando contra o sono e perdendo. Na quarta noite, ganhou.

Viu um vulto pequeno atravessar o terreiro aos pulinhos, com uma coisa vermelha na cabeça.

A Manu abriu a janela inteira.

— Ei!

O Juca congelou no meio do pulo, o que é uma posição difícil para quem tem uma perna só.

Os dois ficaram se olhando.

Ele esperou o grito. Esperou a correria, a porta batendo, o "socorro" que o Quirino jurava que vinha sempre.

A Manu apoiou os cotovelos no parapeito.

— Foi você que achou meu chinelo?

O Juca demorou a responder.

— Fui.

— Estava onde?

— Debaixo do tanque.

— Eu procurei debaixo do tanque.

— Estava enterradinho — explicou ele. — Só a alcinha aparecia.

A Manu fez que sim devagar, aceitando a informação do jeito que criança aceita: sem achar nada impossível.

— Você é saci.

— Sou.

— Saci não deveria estar me assustando agora?

— Deveria — disse o Juca.

— E por que não está?

Ele pensou. Ninguém nunca tinha perguntado daquele jeito, com paciência, esperando resposta de verdade.

— Porque eu não gosto — disse ele. — Fica todo mundo mal e ninguém ganha nada.

A Manu recebeu aquilo como se fosse a coisa mais razoável já dita naquele terreiro.

Depois sumiu janela adentro e voltou com um novelo de linha embolado do tamanho de um repolho.

— Você é bom de achar coisa. É bom de desembolar também?

A Linha da Pipa

Era a linha da pipa dela, e estava num nó só, um nó grande e burro, desses que apertam mais cada vez que você puxa.

O Juca sentou no degrau. A Manu sentou ao lado.

Ele começou pela ponta, que é por onde se começa. Afrouxava um pouquinho, passava a linha por dentro, afrouxava de novo. Não puxava nunca.

— Puxar é que estraga — disse ele.

Levaram a noite inteira.

O saci de carapuça vermelha e uma menina de oito anos sentados lado a lado num degrau, desembolando devagar um novelo de linha de pipa, com vaga-lumes em volta

Conversaram baixinho o tempo todo, porque conversa baixinho combina com nó apertado. Ele contou do taquaral e das onze carapuças penduradas nas taquaras. Ela contou da escola, do irmão pequeno que morde, do dia em que a pipa dela subiu mais alto que a caixa d'água.

Quando o céu começou a clarear atrás do morro, a linha estava inteira, enrolada certinha num pedaço de bambu.

— Amanhã eu solto ela — disse a Manu, bocejando. — Você vem ver?

— Saci não anda de dia.

— Então de tarde. Bem tardinha.

— Tardinha eu venho.

Ele já estava dois pulos longe quando ela chamou de novo.

— Ô saci.

— Que foi?

— Obrigada.

O Juca subiu a trilha com uma sensação esquisita no peito, quente e leve, que ele não sabia nomear e que não tinha nada a ver com susto nenhum.

A Roda no Taquaral

A notícia chegou no taquaral antes dele.

Notícia de saci corre dentro do redemoinho, e redemoinho é rápido.

Quando o Juca chegou, os outros dez estavam formando roda no meio das taquaras. O Quirino no centro, de braços cruzados.

— Sentou no degrau — disse o Quirino. — Sentou. No degrau. Com gente.

— Sentei.

— A noite inteira.

— A noite inteira.

Um saci de carapuça remendada ergueu a mão.

— E desembolou linha?

— Desembolei.

Fez-se um silêncio daqueles em que só o bambu fala.

— Juca — o Quirino falou mais devagar, e a voz dele não estava brava, estava preocupada, que é pior. — Saci que não assusta não é saci. É o que sempre se disse.

— Eu sei o que sempre se disse.

— Então me diz uma coisa. Para que serve um saci?

O Juca olhou os dez ao redor. Todos esperando.

— Para o Capão Fundo saber que tem alguém no taquaral — disse ele. — É só isso que o susto faz, Quirino. Faz a pessoa lembrar que a gente existe.

— E daí?

— E daí que agora eles lembram assim mesmo. A Dona Cota acha o dedal em cima da mesa e sabe. O menino acha a bola no telhado e sabe. Ninguém precisa correr para lembrar da gente.

O saci menino de carapuça vermelha de pé no meio do bambuzal, falando firme diante de um saci muito velho de carapuça puída

O Quirino abriu a boca. Fechou.

Ajeitou a carapuça puída, que é o que ele fazia quando não sabia o que dizer.

— É outro serviço — falou por fim.

— É o mesmo serviço — disse o Juca. — Só que ao contrário.

O Redemoinho que Devolveu Tudo

Ninguém decidiu nada naquela noite.

Mas na noite seguinte, quando o Juca desceu a trilha, tinha um saci atrás dele. E depois outro. E na terceira noite eram sete.

Passaram a semana inteira vasculhando o Capão Fundo — atrás dos baús, no vão dos fogões, embaixo das camas, no fundo dos bolsos de casaco guardado.

Juntaram um monte.

Sessenta e três objetos, contados um por um: chaves, dedais, brincos, bolinhas de gude, um óculos, três colheres, uma dentadura, muita meia.

Aí o Quirino apareceu.

Chegou sem avisar, no fim da última noite, e ficou olhando aquela pilha de coisa perdida no meio do terreiro.

— Vocês querem devolver isso tudo de uma vez? — perguntou.

— Queremos.

— Então saiam da frente.

O saci mais velho do taquaral girou o dedo no ar do jeito que só ele sabia, e o vento veio. Não um ventão: um redemoinho manso, largo, cor de poeira dourada, que passou por cima da pilha e levantou tudo devagar.

Vruuu.

As coisas subiram girando. Rodaram um pouco no ar, como se estivessem escolhendo.

E foram descendo, uma por uma, cada qual na soleira da sua casa.

O Sono do Taquaral

O Capão Fundo acordou naquele dia sem entender nada e, um minuto depois, entendendo tudo.

A Dona Cota achou o óculos que tinha perdido no inverno passado.

O homem da enxada achou a aliança.

A Manu não achou nada, porque não tinha perdido nada — mas tinha um pedaço de bambu no degrau, com linha nova enrolada, e ela entendeu o recado.

De tardinha ela soltou a pipa.

Subiu alto, mais alto que a caixa d'água, e ficou lá em cima balançando devagar contra o céu laranja. Se você olhasse com atenção, dava para ver um redemoinho pequenininho girando bem ao lado dela, acompanhando, sem atrapalhar.

Dizem que desde então é assim no Capão Fundo.

Quando alguma coisa some, ninguém se desespera. Deixa a janela encostada, vai dormir, e de manhã a coisa está no degrau.

E lá no taquaral, quando o dia clareia e o vento para de mexer nas taquaras, os onze sacis vão se recolhendo.

Penduram as carapuças vermelhas nas varas mais finas, que é onde carapuça descansa.

O Quirino é sempre o último a subir.

O Juca é sempre o primeiro a dormir.

E o taquaral fica quieto, quieto, só estalando de leve, do jeito que bambu estala mesmo quando não tem vento nenhum.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. O Juca continuou sendo saci fazendo tudo ao contrário. Dá para fazer uma coisa do seu jeito e ainda ser a mesma coisa?
  2. A Manu não se assustou com ele. Por que você acha que ela não teve medo?
  3. Se você tivesse uma carapuça mágica por uma noite, o que faria com ela?

Sobre esta história

O saci é personagem do folclore brasileiro e está em domínio público: nenhuma pessoa inventou, ele veio de boca em boca pelo interior do país antes de qualquer livro. Os traços que usamos aqui são os tradicionais — uma perna só, carapuça vermelha onde mora a magia, o pulo, o redemoinho de poeira e a mania de esconder objetos —, registrados por estudiosos como Luís da Câmara Cascudo em Geografia dos Mitos Brasileiros (1947) e recolhidos antes disso por Monteiro Lobato na enquete que virou O Sacy-Pererê: Resultado de um Inquérito (1918). Esses dois livros entram aqui como referência para conferir os traços, não como texto-base: o saci é patrimônio oral, não pertence a ninguém, e nada neste conto foi copiado, adaptado ou parafraseado desses volumes — nem de qualquer versão moderna do personagem em desenho, série ou cinema. A história em si é original do Contos para Dormir: o Juca, o Quirino, a Manu e o Capão Fundo foram inventados para este conto e não aparecem em nenhuma versão anterior. Deixamos de fora o cachimbo, que aparece em boa parte das descrições tradicionais, por ser história para criança pequena.

Perguntas frequentes sobre O Saci que Não Gostava de Assustar

O saci é uma história de terror? Vai dar medo no meu filho?

Não. Nesta versão o saci é o personagem principal e justamente o que ele não quer é assustar ninguém. Não há aparição no escuro, não há perseguição e ninguém leva susto de verdade. Se a criança já ouviu falar de saci como bicho-papão, esta história tende a desfazer isso.

Quem é o saci no folclore brasileiro?

É um menino travesso de uma perna só que usa uma carapuça vermelha mágica e se desloca dentro de redemoinhos de vento. Na tradição oral ele apronta pequenas travessuras: esconde objetos, embola crina de cavalo, assusta viajante desavisado. Não é um espírito mau — é um brincalhão.

Para que idade esta história é indicada?

Dos 4 aos 9 anos. Os menores acompanham pela repetição das coisas que somem e pelo barulho do redemoinho, que dá vontade de imitar em voz alta. Os maiores costumam se interessar pela discussão entre o Juca e o Quirino sobre o jeito certo de fazer as coisas.

O final é calmo para ler na hora de dormir?

É. O último trecho baixa o ritmo de propósito: o vento para, o taquaral silencia e a história termina com as carapuças vermelhas penduradas nas taquaras finas e os onze sacis dormindo. Nada fica em aberto e ninguém acaba a noite com problema.

Que tal a história de amanhã?