Contos para Dormir
Ilustração do conto O Gigante Gentil e a Cidade dos Sonhos

O Gigante Gentil e a Cidade dos Sonhos

Todo mundo tem medo do gigante… até descobrirem que ele só quer ajudar. Uma história sobre não julgar pelo tamanho.

Equipe Contos para Dormir ·

No alto da montanha, morava alguém que todos temiam mas ninguém conhecia de verdade…

Na cidade de Vento Sereno, havia uma montanha tão alta que sua ponta desaparecia nas nuvens nos dias nublados. E no cume daquela montanha, desde antes de qualquer morador se lembrar, vivia um gigante chamado Aldo. Aldo tinha trinta metros de altura, cabelos cor de musgo e mãos tão grandes que cada palma era do tamanho de uma carroça. Sua voz, quando falava, fazia as janelas vibrarem e as xícaras treme-tremerem nas mesas. Quando ele dava um passo, a terra estremecia levemente, como um suspiro do chão. E nas noites frias, quando ele espirrava lá em cima, todos os cachorros da praça acordavam ao mesmo tempo e ficavam olhando para o alto, sem saber para que lado latir.

Por isso, todos em Vento Sereno tinham medo de Aldo. As crianças eram proibidas de subir a montanha. Os adultos faziam três voltas longas ao redor do caminho que levava ao cume. E o prefeito da cidade havia colocado uma placa na entrada da trilha que dizia: PERIGO — GIGANTE. PROIBIDO SUBIR. Ninguém reclamava da placa. Ninguém a questionava. Era assim desde sempre, e desde sempre parecia suficiente. Na fila da padaria contavam-se histórias: que o gigante jantava carroças inteiras, que arrancava pinheiros para usar de palito. Ninguém sabia dizer quem tinha visto. Mas todo mundo sabia contar.

Havia, no entanto, uma coisa em Vento Sereno que ninguém conseguia explicar direito. Depois das tempestades grandes, quando o vento arrancava telhas e as espalhava pelos quintais, algumas casas amanheciam com o telhado inteirinho outra vez — as telhas encaixadas com capricho, uma ao lado da outra, sem uma rachadura sequer. Os adultos davam de ombros e diziam que o vento às vezes devolve o que leva. E, como aquilo era uma boa notícia, ninguém achava esquisito o bastante para perguntar mais nada.

O gigante ajuda a cidade a consertar os telhados

Mas havia uma menina em Vento Sereno que tinha o péssimo hábito de questionar as coisas que eram “assim desde sempre”. Seu nome era Marina, ela tinha sete anos, cabelos curtos e um olhar que sua professora descrevia como “incansavelmente curioso”. Marina havia lido todos os livros da biblioteca municipal sobre gigantes e nenhum deles mencionava que gigantes eram necessariamente perigosos — só que eram grandes. E ser grande, Marina sabia por experiência própria, não significava querer machucar ninguém. No caderninho onde ela anotava as coisas que não fechavam, havia uma linha escrita com letra caprichada: telhados que se consertam sozinhos. E, embaixo, uma única pergunta: desde quando o vento sabe encaixar telha?

A Menina que Subiu a Montanha

Numa tarde de sábado em que sua mãe estava ocupada consertando a cerca do jardim, Marina enfiou uns biscoitos no bolso do casaco, amarrou bem os cadarços das tênis e começou a subir a trilha proibida. Ela não estava com medo. Estava com curiosidade — que é uma sensação completamente diferente, mesmo que o coração bata do mesmo jeito nas duas. Ao passar pela placa, parou um instante e leu a palavra PERIGO devagar, do jeito que se lê uma coisa que a gente quer conferir se é mesmo verdade. Depois deu de ombros, exatamente como os adultos davam quando falavam do vento, e seguiu em frente.

A trilha era linda, cheia de cogumelos laranja e pedras cobertas de líquen verde. Cheirava a terra molhada e a pinheiro, e o barulho da cidade foi ficando cada vez mais fino, até virar um zumbido de brinquedo lá embaixo. Quanto mais alto Marina ia, mais frio e mais limpo o ar ficava. Em certo trecho o caminho entrou dentro de uma nuvem, e por alguns minutos ela andou no meio de um algodão cinzento onde só dava para enxergar os próprios pés. Marina subiu por quase uma hora até que chegou ao cume — uma enorme plataforma rochosa coberta de musgo macio — e ficou parada, boquiaberta.

Marina sobe sozinha a trilha de cogumelos laranja rumo ao cume enevoado

Aldo estava sentado de costas para ela, com os joelhos dobrados perto do peito, olhando para o horizonte onde o sol começava a tingir o céu de cor de laranja. Visto assim, de perto, ele não parecia nada com as histórias da fila da padaria. Parecia uma colina de suéter remendado. Dava para ouvir a respiração dele, lenta e funda como o vento que passa por baixo de uma porta. E seus ombros estavam levemente curvados, com aquele jeito que Marina reconhecia bem — era o jeito que o corpo fica quando alguém está triste e tentando não mostrar.

Marina deu um passo. Uma pedra rolou sob seu pé e desceu fazendo toc, toc, toc, até parar. O som pareceu enorme naquele silêncio. Aldo se virou devagar — tão devagar que Marina teve tempo de contar até quatro — e Marina viu pela primeira vez os olhos do gigante: castanhos, enormes e, surpreendentemente, vermelhos nas bordas, como de quem havia chorado recentemente. Marina esperou o medo chegar. Esperou direitinho, de olhos bem abertos. O medo não veio.

— Você não deveria estar aqui — disse Aldo, com uma voz que fez as nuvens ao redor tremerem levemente. Mas não era uma voz ameaçadora. Era apenas uma voz muito, muito grande.

Marina pensou em várias respostas. Pensou em pedir desculpa, pensou em explicar que tinha lido sete livros sobre gigantes, pensou em dizer que a placa não era dela. Mas o que saiu foi outra coisa.

— Trouxe biscoitos — disse Marina, erguendo o punhado de biscoitos como se isso fosse a resposta mais lógica do mundo. — Você quer?

A menina ergue um punhado de biscoitos para o gigante sentado, que se inclina para ver

Às vezes, a coragem de um só muda tudo…

Uma Amizade Improvável

Aldo olhou para os biscoitos minúsculos na mão minúscula de Marina com uma expressão que cruzava entre a surpresa e algo muito parecido com gratidão. Com o cuidado de quem sabe que suas mãos são do tamanho de carroças, ele abriu a palma enorme e a desceu até o chão devagarinho, como quem pousa um lençol. Marina depositou os biscoitos — que cabiam todos juntos no espaço de uma das linhas da palma gigante. Aldo os levou à ponta da língua, pensativo, e mastigou com uma delicadeza absurda para alguém daquele tamanho.

— Estão bons — disse ele, com uma voz que desta vez parecia mais gentil. — Faz quanto tempo que ninguém sobe aqui.

Não era bem uma pergunta, então Marina respondeu do jeito que se responde às coisas que não são bem perguntas.

— Desde sempre, aparentemente — disse ela, sentando-se na borda de uma pedra grande. — Por que você fica aqui sozinho?

Aldo ficou em silêncio por um tempo tão longo que uma nuvem inteira passou na frente dos dois antes de ele responder.

— Porque quando desço, as pessoas correm. Os cães latem. As crianças choram. Eu não quero assustar ninguém. Por isso fico aqui. É mais fácil.

— Mais fácil não é a mesma coisa que bom — disse Marina.

O gigante virou o rosto para ela, surpreso, e Marina viu abrir-se ali um sorriso pequeno — pequeno para ele, do tamanho de uma rede de dormir para ela.

Marina tirou o caderninho do bolso do casaco.

— Posso perguntar uma coisa? Depois das tempestades, tem telhado lá na cidade que amanhece consertado. Todo mundo diz que foi o vento.

Aldo olhou para as próprias mãos.

O gigante observa as próprias mãos enormes enquanto a menina espera sentada na pedra

— O vento — repetiu ele, e riu tão baixinho que mesmo assim duas pedrinhas pularam no chão. — Eu desço quando todo mundo já dormiu. Ponho as telhas no lugar e volto antes de o céu clarear. Ninguém precisa saber.

— Mas seria bom se soubessem — disse Marina.

— Seria? — perguntou o gigante. E na voz dele havia uma dúvida de verdade, do tipo que dura anos.

Marina não soube o que responder, então perguntou outra coisa: o que ele fazia ali em cima o tempo todo. Aldo apontou para o horizonte com um dedo do tamanho de um tronco de árvore.

— Observo as nuvens. Sei quando vai chover dois dias antes de qualquer um lá embaixo. Sei de onde vem o vento e sei o cheiro que o ar tem quando a chuva vai ser grande. Às vezes afasto as nuvens de chuva com as mãos quando está previsto uma tempestade forte demais — ele abriu as palmas imensas e Marina imaginou aquelas mãos empurrando nuvens como almofadas. — Mas ninguém sabe disso.

— Eu sei — disse Marina.

Naquela tarde ela desceu a montanha correndo para chegar antes do jantar. No sábado seguinte subiu de novo, com mais biscoitos. E no outro. E no outro.

O Dia em que Vento Sereno Soube a Verdade

A cidade que aprendeu a agradecer…

A grande tempestade chegou em setembro, três semanas depois da primeira visita de Marina ao cume. Era uma tempestade de verdade — o tipo que vem com o céu verde e o ar com cheiro de ferro — e toda Vento Sereno correu para dentro de casa com as janelas bem fechadas. As galinhas se calaram. Os cachorros se enfiaram debaixo das camas. Marina, com o nariz colado no vidro da sala, olhou para o alto da montanha e viu, entre um clarão e outro, a silhueta enorme de Aldo de pé no cume, com as mãos abertas empurrando as nuvens mais pesadas para os lados, desviando-as da cidade como quem afasta cortinas.

A silhueta do gigante no cume afasta com as mãos as nuvens pesadas da tempestade

— Mãe — chamou Marina, sem tirar o nariz do vidro. — Vem ver isso.

A tempestade durou a noite toda. Mas as enchentes que os vizinhos temiam não aconteceram: a chuva caiu longe, do outro lado do rio, e passou de raspão pela cidade. De manhã, Vento Sereno acordou molhada mas intacta, com aquele cheiro limpo que fica no ar depois da água. E Marina, que havia filmado a silhueta de Aldo com seu celularzinho velho, mostrou o vídeo para a mãe. Que mostrou para o pai. Que levou ao prefeito. Que convocou uma reunião.

Na reunião, o vídeo foi passado onze vezes seguidas. Na décima primeira, o padeiro tirou o boné e disse, meio sem jeito, que talvez ninguém ali nunca tivesse falado com o gigante — e que talvez o problema fosse exatamente esse. A placa de PERIGO foi retirada naquela mesma tarde. No lugar, instalaram uma nova: TRILHA DA GRATIDÃO — SUBIDA EM RESPEITO AO GUARDIÃO DA MONTANHA.

E no primeiro domingo depois da troca de placa, Marina subiu a trilha com seus pais, a professora e doze colegas de classe — cada um carregando um pote de biscoitos. Foi a subida mais barulhenta que aquela montanha já tinha escutado, e Marina ia na frente, mostrando onde ficavam os cogumelos laranja e pedindo que ninguém pisasse neles.

Uma menina e alguns colegas entregam potes de biscoitos nas mãos abertas do gigante

Aldo estava no cume, como sempre. Mas desta vez, quando olhou para baixo e viu a fila de pessoas subindo em sua direção com os braços cheios de oferendas, ele não ficou imóvel de surpresa. Ele abriu as imensas mãos cobertas de musgo, deixou as pessoas pousarem os potes nas palmas e disse, com a voz enorme que fazia as nuvens vibrar:

— Obrigado por subir.

E assim, o gigante gentil nunca mais ficou sozinho…

Naquela tarde, enquanto descia a trilha de mãos dadas com a mãe, Marina olhou para trás uma última vez. Aldo havia sentado de novo no cume, mas desta vez estava rindo — uma gargalhada suave que fez as nuvens se moverem como barcos num lago calmo. E pela primeira vez em muitos anos, o som do gigante não assustou ninguém em Vento Sereno. Pelo contrário: as pessoas nas janelas das casas olharam para o céu, sorriram, e voltaram para o que estavam fazendo com o coração um pouco mais leve.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Todo mundo tinha medo do gigante sem nunca ter falado com ele. Por que isso acontece?
  2. Foi preciso alguém corajoso para descobrir a verdade. O que dá coragem para uma pessoa?
  3. Que presente único você acha que tem para oferecer?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para ser lida em voz alta na hora de dormir. Não é uma adaptação de conto tradicional: os personagens e o enredo são nossos.

Perguntas frequentes sobre O Gigante Gentil e a Cidade dos Sonhos

Qual é a moral desta história?

Que reputação não é verdade. O gigante é temido por causa do que dizem dele, e basta uma pessoa disposta a chegar perto para tudo mudar.

Para que idade é indicada?

A partir dos 4 anos. O gigante nunca é ameaçador de fato, então funciona bem até com crianças que se assustam fácil.

Esta história é assustadora?

Não. Aldo tem trinta metros e uma voz que faz as janelas vibrarem, mas o medo da cidade vem de boatos contados na fila da padaria, não de algo que ele tenha feito. O trecho mais tenso é a tempestade de setembro, e mesmo ela passa de raspão: a chuva cai do outro lado do rio e Vento Sereno amanhece molhada, porém intacta. Ninguém se machuca em nenhum momento.

Quanto tempo leva para ler?

Cerca de 14 minutos em voz alta, no ritmo calmo de quem lê para uma criança. Os três capítulos permitem dividir em duas noites: a subida da trilha proibida, a tarde de conversa no cume e o dia em que a cidade descobre a verdade. O final é tranquilo, com a menina descendo de mãos dadas com a mãe.

Que tal a história de amanhã?