Contos para Dormir
Ilustração do conto O Menino dos Cinco Pães

O Menino dos Cinco Pães

Havia milhares de pessoas com fome na encosta, e um menino com uma trouxinha de pão e peixe — que resolveu abrir a trouxinha.

Equipe Contos para Dormir ·

Cinco pães não dão para multidão nenhuma. Ainda assim, é o que tinha

Era madrugada quando a mãe do menino acordou para fazer o pão.

Ela amassou, esperou crescer, assou no forno de barro do quintal e tirou cinco pães pequenos, redondos, ainda quentes.

Embrulhou os cinco num pano.

Pegou dois peixes secos que estavam pendurados perto da janela e embrulhou junto.

Amarrou tudo com um nó.

— Toma — ela disse. — É o dia inteiro. Não come tudo de uma vez.

O menino pegou a trouxinha, colocou debaixo do braço e saiu.

Um menino de túnica simples segurando uma trouxinha de pano ao amanhecer, saindo de casa

A Encosta

Ele ia ver o homem que estava falando na encosta do outro lado do lago.

Todo mundo estava indo.

O menino andou a manhã inteira. Passou por gente que carregava criança no colo, por velhos apoiados em bengala, por famílias inteiras andando devagar.

Quando chegou, não deu para acreditar.

A encosta estava coberta de gente.

Não era um grupo. Não era uma multidão de feira.

Eram milhares de pessoas sentadas no capim, até onde a vista alcançava, subindo o morro inteiro.

O menino achou um lugar bem lá atrás, quase no fim, e sentou com a trouxinha no colo.

O homem falava. O menino escutava o que dava, porque de tão longe chegava pouco.

E o dia foi passando.

Passou o meio-dia.

Passou a tarde.

E aí começou a acontecer uma coisa que o menino sentiu antes de entender.

As pessoas foram ficando quietas de um jeito diferente.

Criança começou a choramingar.

Uma senhora perto dele encostou a mão na barriga.

Ninguém tinha trazido comida. Tinham saído de casa achando que era coisa rápida, e já era fim de tarde.

Ali, no meio de milhares de pessoas com fome, o menino olhou para a trouxinha no colo dele.

Cinco pães. Dois peixes.

A Trouxinha

Ele começou a fazer contas na cabeça, do jeito que criança faz.

Cinco pães dava para cinco pessoas. Talvez dez, se partisse ao meio.

Tinha milhares ali.

Ele olhou em volta, para o morro coberto de gente, e a conta ficou ainda mais óbvia: não adiantava nada.

Era ridículo, até.

Chegar na frente de milhares de pessoas com fome carregando cinco pãezinhos era o tipo de coisa que faz todo mundo rir.

E além disso era o almoço dele. A mãe tinha acordado de madrugada para fazer.

O menino ficou um tempão com a trouxinha no colo.

Ele desamarrou o nó só um pouquinho, para olhar.

Os pães ainda estavam ali, os cinco, meio amassados de tanto ele apertar contra o peito na caminhada. Os dois peixes também.

O cheiro subiu.

Foi aí que ele reparou que a senhora do lado tinha olhado.

Ela não pediu nada. Só olhou rápido e desviou os olhos, com vergonha de ter olhado.

O menino amarrou o nó de novo.

Ficou mais um tempo parado.

Depois se levantou.

Ele desceu a encosta inteira, passando entre as pessoas sentadas, pedindo licença, com a trouxinha apertada contra o peito.

Foi um caminho comprido.

Quando chegou lá na frente, ele puxou a manga de um dos homens que estavam ali e falou baixinho:

— Eu tenho isso aqui.

E abriu o pano.

Um pano aberto com cinco pães pequenos e dois peixes secos, oferecidos por duas mãos de criança

O Que Aconteceu Depois

O homem olhou para os cinco pães.

Olhou para a encosta.

Olhou de volta para o menino.

E depois virou e disse, para todo mundo, que as pessoas se sentassem em grupos no capim.

O que aconteceu depois disso é a parte que todo mundo conhece.

Os pães foram partidos e repartidos, e passaram de mão em mão, de grupo em grupo, subindo o morro.

E comeu todo mundo.

Todo mundo, até o fim da encosta, até os que estavam lá atrás onde o menino tinha sentado.

E ainda sobrou — juntaram doze cestos com o que sobrou, o que ninguém conseguiu explicar direito nem naquele dia nem depois.

O menino não viu de perto. Ele tinha voltado para o lugar dele, lá atrás, e comeu sentado no capim como todo mundo.

De noite, quando chegou em casa, a mãe perguntou:

— Comeu tudo?

Ele pensou em como responder aquilo.

— Comi — ele disse. — E sobrou.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Por que você acha que o menino ofereceu, se era tão pouquinho?
  2. O que é mais difícil: dividir muito ou dividir pouco?
  3. Como você acha que se sentiu a mãe dele, que tinha embrulhado aquele almoço de manhã?

Sobre esta história

Narrativa bíblica em domínio público, recontada para crianças a partir do relato do Evangelho de João, capítulo 6, que é o único dos quatro a mencionar que os pães vieram de um menino. Os detalhes da manhã dele — a trouxinha, a mãe, a caminhada — são invenção nossa, para dar rosto a alguém que no texto original aparece em uma única linha.

Perguntas frequentes sobre O Menino dos Cinco Pães

Qual é a moral desta história?

Que o pouco que a gente tem só serve para alguma coisa depois que sai da mão. O menino tinha bem menos do que o necessário e ofereceu mesmo assim, e é desse gesto que a história trata.

Esta história é assustadora?

Não. Não há perigo, vilão nem conflito: é uma multidão com fome no fim do dia e um menino que decide dividir o almoço. O clima é tranquilo do começo ao fim.

De onde vem esta história?

Do Evangelho de João, capítulo 6. É o único dos quatro evangelhos que conta que os cinco pães e os dois peixes vieram de um menino — nos outros três, os discípulos simplesmente têm a comida.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 9 anos. A história é simples de acompanhar e o gesto central — dividir o próprio lanche — é uma coisa que a criança entende na prática, porque acontece com ela na escola.

Que tal a história de amanhã?