Contos para Dormir
Ilustração do conto O Monstro que Morava Debaixo da Cama

O Monstro que Morava Debaixo da Cama

Toda noite, Ravi ouve um barulho debaixo da cama e tem certeza: é um monstro. Até a noite em que ele toma coragem, pega a lanterna e resolve espiar.

Equipe Contos para Dormir ·

Todo mundo acha que sabe o que é um monstro. Poucos já pararam para escutar um de verdade

Todas as noites, quando a luz do quarto se apagava, Ravi ouvia o mesmo barulho.

Cri... cri... cri...

Vinha de debaixo da cama.

Ravi tinha certeza — uma certeza do tamanho de um elefante — de que ali embaixo morava um monstro.

— Mãe! Tem uma coisa debaixo da minha cama! — gritava ele, toda noite, puxando o cobertor até o nariz.

A mãe vinha, acendia a luz, olhava embaixo da cama com toda a paciência do mundo.

— Só tem a caixa de brinquedos e um pouco de poeira, meu amor.

Mas assim que a luz apagava de novo, lá vinha o barulhinho. Cri... cri... cri... E o coração de Ravi disparava de novo, batendo igual tambor de desfile.

Isso ia acontecendo havia semanas. Ravi já tinha até um plano de emergência: dormir enrolado no cobertor feito múmia, sem nenhum pedacinho de pé para fora, porque todo mundo sabe que monstro pega primeiro os pés desprotegidos.

Uma noite, porém, Ravi ficou cansado de ter medo.

— Chega — disse ele bem baixinho, só para si mesmo. — Hoje eu vou descobrir o que é.

Ele pegou a lanterna que ganhara de aniversário — aquela amarela, com um facho bem forte — e ficou sentado na cama, esperando a casa toda dormir. O relógio fez tique... tique... tique... até a última luz da casa apagar.

Cri... cri... cri...

Lá estava o barulho de novo.

Ravi respirou fundo três vezes, do jeito que a mãe ensinava para quando o medo ficava grande demais. Ligou a lanterna. Deitou de bruços na beirada da cama. E, com o coração na mão, se debruçou para olhar embaixo.

O facho de luz iluminou a caixa de brinquedos. Iluminou uma bola perdida. Iluminou uma meia solitária.

E iluminou também dois olhinhos redondos, brilhando no escuro, que sumiram atrás da caixa num piscar de olhos.

Ravi quase deixou a lanterna cair.

— Eu... eu vi você! — disse ele, com a voz tremendo só um pouquinho. — Pode sair. Eu não vou machucar.

Silêncio.

Depois, bem devagar, de trás da caixa de brinquedos, apareceu uma criatura pequena, coberta de um pelo macio cor de nuvem de chuva, com dois olhos enormes e um narizinho que tremia feito o de um coelho assustado.

Não era nada parecido com o monstro que Ravi tinha imaginado. Era... fofo. E parecia ter tanto medo dele quanto ele tinha tido do barulho.

— Você... você não vai gritar? — perguntou a criatura, com uma vozinha fina como fio de linha.

— Você fala? — Ravi arregalou os olhos.

— Todo monstro fala. A gente só evita, porque quando a gente aparece, vocês gritam, e quando vocês gritam, a gente foge, e aí ninguém nunca se conhece direito. — A criatura suspirou. — Meu nome é Fiapo.

— Eu sou o Ravi. — Ele se ajeitou na cama, ainda com a lanterna apontada, mas agora com curiosidade em vez de medo. — Fiapo, por que você mora debaixo da minha cama?

Fiapo se aproximou um pouquinho mais, ainda cauteloso.

— Eu não moro só debaixo da sua cama. Eu trabalho aqui. — Ele apontou para uma pequena rachadura no rodapé, de onde saía um brilhozinho esverdeado. — Os sonhos ruins tentam entrar pelas frestas do quarto, bem de mansinho, na calada da noite. É meu trabalho ficar de guarda e pegar eles antes que cheguem perto de você.

— Então aquele barulho... — Ravi engoliu em seco. — Cri... cri... cri...

— Isso é só eu trabalhando — riu Fiapo, baixinho. — É o som que faz quando eu amasso um pesadelo pequeno antes que ele cresça. Os grandes fazem mais barulho, mas esses eu raramente deixo chegar tão perto.

Ravi olhou para a rachadurinha esverdeada, depois para Fiapo, e sentiu uma coisa estranha acontecer no peito: o medo estava indo embora, devagarinho, e no lugar dele sobrava só um montão de perguntas.

— Por que você nunca me contou isso antes?

— Porque monstro também tem medo, sabia? — Fiapo baixou a cabeça, encabulado. — A gente tem medo de assustar sem querer. De ser expulso. De nunca mais ter um quarto tão bom quanto esse para cuidar. Então a gente prefere ficar escondido, mesmo que isso deixe vocês, humanos, morrendo de medo da gente. É tudo muito mal explicado, esse negócio de monstro e criança.

Ravi pensou um pouco. Depois esticou a mão, bem devagar, para perto de Fiapo — não para pegar, só para mostrar que não ia machucar.

— Obrigado por cuidar de mim — disse ele. — Acho que você é o monstro mais gentil que existe.

Fiapo sorriu, um sorriso comprido que quase deu a volta no rosto peludo dele.

— E eu acho que você é a primeira criança corajosa o bastante para descobrir. A maioria só grita e puxa o cobertor.

— Eu também ia fazer isso — admitiu Ravi. — Mas resolvi que já tinha medo demais de uma coisa que eu nem conhecia.

— Sábio da sua parte — disse Fiapo. — Agora, se você não se importa... eu tenho uma frestinha para vigiar. Ainda tem trabalho essa noite.

— Pode ir — disse Ravi, desligando a lanterna. — E, Fiapo... obrigado por não ser assustador de verdade.

— De nada — sussurrou a vozinha lá de baixo, já quase escondida atrás da caixa de brinquedos de novo. — Boa noite, Ravi.

Ravi se deitou, puxou o cobertor — dessa vez só até o queixo, sem virar múmia nenhuma — e ficou escutando o barulhinho debaixo da cama.

Cri... cri... cri...

Não parecia mais um monstro se aproximando.

Parecia, agora, um amigo trabalhando.

E foi ouvindo aquele som, que já não doía mais no peito, que Ravi fechou os olhos e escorregou, bem devagarinho, para dentro de um sono tranquilo — o primeiro, em muitas noites, sem nenhum monstro de verdade para temer.

Se você também ouvir um barulhinho esquisito hoje à noite, antes de ter medo, escute com atenção. Pode ser só alguém cuidando de você, do jeito mais estranho e mais gentil que existe.

Feche os olhos agora. A guarda está feita. Está tudo bem.

Boa noite.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Você já ouviu algum barulho estranho no seu quarto de noite? O que você imaginou que podia ser?
  2. Por que você acha que o Fiapo se escondia tanto do Ravi, se ele não era perigoso?
  3. Se você descobrisse um monstro fofo debaixo da sua cama, que nome você daria para ele?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir sobre um dos medos mais clássicos da infância: o monstro debaixo da cama. Em vez de provar que "não existe nada lá embaixo" — o que raramente convence uma criança de verdade —, a história vira o medo do avesso: dá um rosto, um nome e um motivo bondoso para o barulho, transformando a ameaça imaginada em companhia querida.

Perguntas frequentes sobre O Monstro que Morava Debaixo da Cama

O que fazer quando a criança tem medo de monstro debaixo da cama?

Primeiro, leve o medo a sério em vez de só dizer 'não existe nada aí' — para a criança, o medo é real, mesmo que o monstro não seja. Funciona melhor investigar o barulho junto com ela, com uma luz baixa, e depois usar uma história como esta para dar um final gentil e seguro para o que ela imagina debaixo da cama.

Por que as crianças têm tanto medo de monstro debaixo da cama?

Porque nessa fase (em geral dos 3 aos 7 anos) a imaginação já é forte o suficiente para criar imagens assustadoras, mas o raciocínio ainda não consegue descartá-las sozinho. O espaço escuro e fora de vista embaixo da cama vira tela em branco perfeita para o medo desenhar alguma coisa nela.

Como tirar o medo do monstro debaixo da cama sem mentir para a criança?

Em vez de negar o monstro, dê um destino bondoso a ele — é o que esta história faz. Contar um monstro com motivo gentil (proteger, cuidar, ter vergonha) costuma funcionar melhor do que insistir que 'monstro não existe', frase que a criança raramente compra.

Esta história ajuda criança com medo de dormir sozinha?

Ajuda bastante, porque ataca a causa mais comum desse medo nessa idade — a sensação de que há algo desconhecido e ameaçador no quarto escuro. Ao dar nome, rosto e boa intenção a esse desconhecido, a história devolve à criança a sensação de que o quarto, mesmo escuro, é um lugar seguro.

Para que idade é indicada essa história sobre monstro debaixo da cama?

Dos 3 aos 7 anos, a faixa em que esse medo específico é mais comum. Funciona tanto para crianças que já verbalizam o medo do monstro quanto para as que só demonstram resistência em dormir sem saber explicar por quê.

Que tal a história de amanhã?