
O Dinossauro que Tinha Medo de Trovão
Ele era o maior dinossauro do vale — e o único que se escondia atrás de uma samambaia quando o céu roncava.
No vale onde os gigantes pastavam, o maior de todos guardava um segredo bem pequenininho
No Vale das Samambaias vivia um dinossauro chamado Tonho.
Tonho era um pescoçudo — desses de pescoço comprido, cauda comprida e passo que fazia o chão vibrar. Era o maior bicho do vale inteiro. Quando ele esticava o pescoço, alcançava as folhas mais altas das araucárias, aquelas que ninguém mais conseguia.
O vale era um bom lugar para morar. Tinha samambaias da altura de uma casa, tinha um rio raso de água morna onde os filhotes chapinhavam a tarde inteira, e tinha aquele cheiro de mato pisado que subia sempre que alguém grande resolvia atravessar o campo.
Quando um filhote ficava com vontade de comer as folhinhas novas lá do alto, era o Tonho que ia lá e balançava o galho de leve, só o suficiente para chover folha verde na cabeça de todo mundo. Quando um tronco caía atravessado na trilha, era o Tonho que empurrava com a testa, sem pressa, como quem afasta um graveto.
Todo mundo respeitava o Tonho.
O que ninguém sabia é que, quando o céu começava a escurecer no fim da tarde, o coração dele apertava.
O Segredo do Tonho
É que Tonho tinha medo de trovão.
Não um medinho. Um medo grande, do tamanho dele.
Ele percebia antes dos outros. O vento trocava de lado, as folhas viravam mostrando a barriga prateada, o ar ficava com aquele cheiro de chuva que ainda não chegou. Os pássaros calavam a boca de uma vez só — e era esse silêncio, mais do que qualquer outra coisa, que deixava as pernas do Tonho moles.
Quando o céu ficava daquela cor, o vale inteiro se mexia. Os bichos largavam o que estavam fazendo e corriam para debaixo das araucárias grandes, os enormes sacudindo a cabeça, os miudinhos escorregando na lama, cada um se ajeitando no seu canto para esperar a chuva passar.
Tonho também largava tudo e saía correndo, igual a todo mundo. Só que ele não corria para as araucárias, onde os outros ficavam.

Quando o primeiro estrondo estourava lá em cima, aquele barulho seco que faz tudo tremer, Tonho encolhia o pescoço comprido, dobrava as pernas e se enfiava atrás da maior samambaia que encontrasse.
O problema é que uma samambaia, por maior que seja, não esconde um pescoçudo.
Ficava sempre um pedaço de fora. Às vezes o rabo. Às vezes o costado inteiro.
Mas ele ficava ali mesmo assim, quietinho, esperando passar — porque atrás da samambaia era o único lugar do mundo em que ele se sentia um pouco menor, e ser menor, naquela hora, parecia ajudar.
Depois, quando o céu limpava, ele saía sacudindo a água do lombo e dizia que tinha ido dar uma volta do outro lado do vale, atrás de folha nova. Ninguém desconfiava. Quem é que ia desconfiar do maior de todos?
A Noite em que a Pipi Viu
Numa tarde de chuva forte, o vale inteiro sumiu atrás de uma cortina de água. Foi daquelas tempestades que chegam de uma vez só.
E foi bem nessa tarde que uma filhote chamada Pipi se perdeu do grupo dela.
Pipi era um bichinho miúdo, de rabo curto e olhos enormes, do tipo que corre rápido e fala mais rápido ainda. Estava procurando a mãe quando o céu rachou com um trovão daqueles.
— Mãããe! — gritou ela.
A própria voz sumiu no barulho da chuva.
Correu para um lado. Correu para o outro. A lama grudava nas patas, a água escorria pelos olhos e ela não enxergava três passos à frente. Chamou de novo. Nada.
Então o céu rachou outra vez, mais perto, e Pipi fez a única coisa que um bicho pequeno sabe fazer numa hora dessas: se jogou atrás da primeira samambaia grande que viu.
E deu de cara com o Tonho.
Os dois ficaram se olhando. Ele, gigante, encolhido, com o pescoço enrolado quase até o joelho. Ela, minúscula, encharcada, pingando.
Outro trovão estourou.
Tonho fechou os olhos com força e soltou um gemido baixinho.
Pipi arregalou os olhos.
— Você tem medo?

O Que o Gigante Disse
Tonho abriu um olho. Depois o outro. Considerou por um instante mentir — dizer que estava só descansando, que aquele era o melhor cantinho do vale —, e desistiu, porque não adiantava mesmo.
— Tenho — disse ele.
— Mas você é o maior de todos.
— Pois é.
— O maior mesmo. De todos.
— Eu sei.
— E tem medo de barulho?
— Tenho medo de barulho — repetiu Tonho, e a voz dele saiu triste. — Ridículo, né?
Pipi ficou pensando um tempo, do jeito que as crianças pensam: rápido e sem rodeio.
— Eu tenho medo do escuro do lago — disse ela. — Aquela parte fundinha, onde não dá para ver o fundo. Eu não entro lá nem se me pagarem.
Tonho piscou.
— Sério?
— Sério. E a minha irmã tem medo de bicho-pau, que é o bicho mais bobo que existe. Ele nem se mexe! Fica lá, parado, fingindo que é graveto, e ela sai correndo que nem doida.
— E a sua mãe?
— A minha mãe tem medo de altura, e ela é altíssima, então isso é bem esquisito.
Tonho ficou quieto, pensando naquilo. Nunca tinha passado pela cabeça dele que existisse tanto medo espalhado pelo vale, guardado dentro de cada um, sem ninguém falar nada.
— Então todo mundo tem alguma coisa? — perguntou ele.
— Sei lá — disse Pipi, dando de ombros. — Ninguém conta.
— E por que você está me contando?
— Porque você contou primeiro.
Outro trovão estourou.
Dessa vez, Pipi encolheu junto.
E os dois riram — um risinho meio nervoso, mas riso.

A Ideia da Pipi
— Sabe o que eu faço quando tenho medo? — disse Pipi, se ajeitando encostada na perna dele, que era quentinha. — Eu conto.
— Conta o quê?
— Do jeito que a minha mãe ensinou. Quando estoura o trovão, eu conto: um, dois, três… até vir o próximo. Aí eu descubro se a chuva está indo embora ou chegando.
— E como você sabe?
— Se os números aumentam, ela está indo embora.
Tonho achou aquilo interessante. Nunca tinha ocorrido a ele que dava para fazer alguma coisa com o medo além de ficar quietinho esperando ele acabar.
— E se os números diminuírem?
— Aí ela está chegando — disse Pipi. — Mas aí a gente já sabe. E saber é bem melhor do que não saber.
Esperaram o próximo estrondo.
— Um, dois, três, quatro, cinco, seis — contaram os dois juntos, e veio o trovão.
A voz do Tonho era tão grave que os números pareciam sair de dentro da terra. Pipi achou graça e contou mais alto ainda, só para ouvir aquele trovãozinho de mentira do lado dela.
Esperaram de novo.
— Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove.
— Nove! — disse Pipi. — Está indo embora!
E foi mesmo. O seguinte demorou catorze. O outro nem veio.
Quando Tonho se deu conta, estava com o pescoço esticado para fora da samambaia, olhando o céu abrir entre as nuvens, esperando um estrondo que não vinha — e, pela primeira vez na vida, meio decepcionado que não viesse.

Depois da Chuva
Quando a chuva passou, o vale ficou com aquele cheiro bom de terra molhada, e o sol baixo entrou por baixo das nuvens deixando tudo alaranjado.
As samambaias pingavam. O rio tinha subido e corria depressa, barulhento, cor de chocolate. Em cima de cada folha havia uma gota tremendo, e quando o Tonho finalmente se levantou, o chão chacoalhou e caiu uma chuvinha só dele em cima da Pipi.
Pipi achou o máximo. Pediu para ele fazer de novo.
A mãe da Pipi apareceu correndo, aflita, e ficou muito surpresa ao encontrar a filha aninhada na perna do maior dinossauro do vale, os dois conversando.
— Pipi! Eu procurei você em cada moita deste vale!
— Eu estava aqui — disse Pipi, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
A mãe olhou para cima. E mais para cima. E mais um pouquinho, até encontrar a cara do Tonho lá no alto do pescoço.
— Ele estava me protegendo? — perguntou ela.
— A gente estava se protegendo — corrigiu Pipi.
Tonho ficou vermelho, o que num pescoçudo é uma coisa difícil de disfarçar, porque o vermelho sobe pelo pescoço inteiro, devagarzinho, que nem água subindo por um canudo.
A mãe agradeceu do jeito que a gente agradece quando não entendeu direito o que aconteceu, deu um empurrãozinho carinhoso na filha e as duas foram embora pela trilha molhada, pisando nas poças de propósito.
Antes de sumir na curva, Pipi virou para trás.
— Amanhã eu volto! — gritou.
E voltou.

O Vale Descobre
Não deu uma semana e o vale inteiro sabia.
Porque Pipi contou, claro. Pipi contava tudo, e contava alto.
Tonho achou que ia ser motivo de piada para o resto da vida. Passou dois dias comendo folha do lado de lá do rio, longe de todo mundo, ensaiando de cabeça o que responderia quando começassem a rir dele.
Mas o que aconteceu foi outra coisa.
Um dinossauro de placas nas costas veio dizer que também não gostava de trovão. Falou baixinho, olhando para os lados antes, como quem conta um segredo enorme — e depois ficou com uma cara bem mais leve, de quem largou um peso na beira do rio.
Uma senhora de bico de pato contou que tinha pavor de vespa. Disse que uma vez atravessou o rio inteiro correndo por causa de uma só, e que o rio, naquele dia, estava fundo.
Um bicho enorme de dentes enormes, que todo mundo achava que não tinha medo de nada, esperou não ter ninguém por perto, chegou de mansinho e confessou que não conseguia dormir sem ouvir a respiração dos outros ali do lado.
E veio mais gente. Teve quem tivesse medo de ficar sozinho. Teve quem não gostasse de vento forte. Teve um filhote que tinha medo de uma pedra grande lá da encosta que, de longe, parecia uma cara olhando.
No fim, descobriram que praticamente todo mundo no Vale das Samambaias tinha medo de alguma coisa.
E que ninguém tinha contado para ninguém.

O Costume Novo
Dizem que desde então, quando o céu escurece no Vale das Samambaias, acontece uma coisa engraçada.
Em vez de cada um se esconder sozinho no seu canto, eles se juntam.
Ficam todos embaixo das araucárias grandes, encostados uns nos outros, os enormes e os miudinhos misturados.
E contam em voz alta.
— Um, dois, três, quatro…
Quando os números começam a aumentar, alguém sempre grita "está indo embora!" — e aí é uma festa, porque não tem nada mais gostoso do que o alívio depois do medo.
Tonho continua sendo o maior de todos.
E continua não gostando de trovão.
Só que agora ele espera a chuva passar com companhia — e isso, ele descobriu, muda tudo.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Um dinossauro enorme com medo de barulho: isso é engraçado ou é normal?
- A Pipi contou o medo dela primeiro. Por que isso ajudou o Tonho a falar do dele?
- Você tem medo de algum barulho? Qual?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir. Os dinossauros aqui são inventados e falam, como nas histórias infantis de sempre — não é um texto de divulgação científica, e sim uma história sobre medo, com dinossauros.
Perguntas frequentes sobre O Dinossauro que Tinha Medo de Trovão
Qual é a moral desta história?
Que medo não tem relação com tamanho nem com força, e que contar o que se sente costuma diminuir o próprio medo — além de dar coragem para os outros contarem os deles.
Esta história é assustadora?
Não. Apesar do tema ser medo de trovão, nada de ruim acontece: a tempestade passa, ninguém se machuca e o final é acolhedor. Pode até ajudar crianças que se assustam com barulho de chuva.
Para que idade é indicada?
Dos 3 aos 7 anos. É curta, os personagens são fáceis de guardar e o tema aparece justamente na idade em que o medo de barulhos altos é mais comum.


