
O Dinossauro que Tinha Medo de Trovão
Ele era o maior dinossauro do vale — e o único que se escondia atrás de uma samambaia quando o céu roncava.
No vale onde os gigantes pastavam, o maior de todos guardava um segredo bem pequenininho
No Vale das Samambaias vivia um dinossauro chamado Tonho.
Tonho era um pescoçudo — desses de pescoço comprido, cauda comprida e passo que fazia o chão vibrar. Era o maior bicho do vale inteiro. Quando ele esticava o pescoço, alcançava as folhas mais altas das araucárias, aquelas que ninguém mais conseguia.
Todo mundo respeitava o Tonho.
O que ninguém sabia é que, quando o céu começava a escurecer no fim da tarde, o coração dele apertava.
O Segredo do Tonho
É que Tonho tinha medo de trovão.
Não um medinho. Um medo grande, do tamanho dele.
Quando o primeiro estrondo estourava lá em cima, aquele barulho seco que faz tudo tremer, Tonho encolhia o pescoço comprido, dobrava as pernas e se enfiava atrás da maior samambaia que encontrasse.
O problema é que uma samambaia, por maior que seja, não esconde um pescoçudo.
Ficava sempre um pedaço de fora.
Mas ele ficava ali mesmo assim, quietinho, esperando passar — porque atrás da samambaia era o único lugar do mundo em que ele se sentia um pouco menor, e ser menor, naquela hora, parecia ajudar.
A Noite em que a Pipi Viu
Numa tarde de chuva forte, uma filhote chamada Pipi se perdeu do grupo dela.
Pipi era um bichinho miúdo, de rabo curto e olhos enormes, do tipo que corre rápido e fala mais rápido ainda. Estava procurando a mãe quando o céu rachou com um trovão daqueles.
Ela se jogou atrás da primeira samambaia grande que viu.
E deu de cara com o Tonho.
Os dois ficaram se olhando. Ele, gigante, encolhido. Ela, minúscula, encharcada.
Outro trovão estourou.
Tonho fechou os olhos com força e soltou um gemido baixinho.
Pipi arregalou os olhos.
— Você tem medo?
O Que o Gigante Disse
Tonho abriu um olho. Depois o outro. Considerou por um instante mentir, e desistiu, porque não adiantava mesmo.
— Tenho — disse ele.
— Mas você é o maior de todos.
— Pois é.
— E tem medo de barulho?
— Tenho medo de barulho — repetiu Tonho, e a voz dele saiu triste. — Ridículo, né?
Pipi ficou pensando um tempo, do jeito que as crianças pensam: rápido e sem rodeio.
— Eu tenho medo do escuro do lago — disse ela. — Aquela parte fundinha, onde não dá para ver o fundo. Eu não entro lá nem se me pagarem.
Tonho piscou.
— Sério?
— Sério. E a minha irmã tem medo de bicho-pau, que é o bicho mais bobo que existe. E a minha mãe tem medo de altura, e ela é altíssima, então isso é bem esquisito.
Outro trovão estourou.
Dessa vez, Pipi encolheu junto.
E os dois riram — um risinho meio nervoso, mas riso.
A Ideia da Pipi

— Sabe o que eu faço quando tenho medo? — disse Pipi, se ajeitando encostada na perna dele, que era quentinha. — Eu conto.
— Conta o quê?
— Do jeito que a minha mãe ensinou. Quando estoura o trovão, eu conto: um, dois, três… até vir o próximo. Aí eu descubro se a chuva está indo embora ou chegando.
— E como você sabe?
— Se os números aumentam, ela está indo embora.
Tonho achou aquilo interessante.
Esperaram o próximo estrondo.
— Um, dois, três, quatro, cinco, seis — contaram os dois juntos, e veio o trovão.
Esperaram de novo.
— Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove.
— Nove! — disse Pipi. — Está indo embora!
E foi mesmo. O seguinte demorou catorze. O outro nem veio.
Depois da Chuva
Quando a chuva passou, o vale ficou com aquele cheiro bom de terra molhada, e o sol baixo entrou por baixo das nuvens deixando tudo alaranjado.
A mãe da Pipi apareceu correndo, aflita, e ficou muito surpresa ao encontrar a filha aninhada na perna do maior dinossauro do vale, os dois conversando.
— Ele estava me protegendo? — perguntou ela.
— A gente estava se protegendo — corrigiu Pipi.
Tonho ficou vermelho, o que num pescoçudo é uma coisa difícil de disfarçar.
O Vale Descobre
Não deu uma semana e o vale inteiro sabia.
Tonho achou que ia ser motivo de piada para o resto da vida.
Mas o que aconteceu foi outra coisa.
Um dinossauro de placas nas costas veio dizer que também não gostava de trovão. Uma senhora de bico de pato contou que tinha pavor de vespa. Um bicho enorme de dentes enormes, que todo mundo achava que não tinha medo de nada, confessou baixinho que não conseguia dormir sem ouvir os outros por perto.
No fim, descobriram que praticamente todo mundo no Vale das Samambaias tinha medo de alguma coisa.
E que ninguém tinha contado para ninguém.
O Costume Novo
Dizem que desde então, quando o céu escurece no Vale das Samambaias, acontece uma coisa engraçada.
Em vez de cada um se esconder sozinho no seu canto, eles se juntam.
Ficam todos embaixo das araucárias grandes, encostados uns nos outros, os enormes e os miudinhos misturados.
E contam em voz alta.
— Um, dois, três, quatro…
Quando os números começam a aumentar, alguém sempre grita "está indo embora!" — e aí é uma festa, porque não tem nada mais gostoso do que o alívio depois do medo.
Tonho continua sendo o maior de todos.
E continua não gostando de trovão.
Só que agora ele espera a chuva passar com companhia — e isso, ele descobriu, muda tudo.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Um dinossauro enorme com medo de barulho: isso é engraçado ou é normal?
- A Pipi contou o medo dela primeiro. Por que isso ajudou o Tonho a falar do dele?
- Você tem medo de algum barulho? Qual?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir. Os dinossauros aqui são inventados e falam, como nas histórias infantis de sempre — não é um texto de divulgação científica, e sim uma história sobre medo, com dinossauros.
Perguntas frequentes sobre O Dinossauro que Tinha Medo de Trovão
Qual é a moral desta história?
Que medo não tem relação com tamanho nem com força, e que contar o que se sente costuma diminuir o próprio medo — além de dar coragem para os outros contarem os deles.
Esta história é assustadora?
Não. Apesar do tema ser medo de trovão, nada de ruim acontece: a tempestade passa, ninguém se machuca e o final é acolhedor. Pode até ajudar crianças que se assustam com barulho de chuva.
Para que idade é indicada?
Dos 3 aos 7 anos. É curta, os personagens são fáceis de guardar e o tema aparece justamente na idade em que o medo de barulhos altos é mais comum.


