
A História da Estrelinha que Tinha Medo do Escuro
Uma estrelinha que tem medo do escuro? Pois é! Com a ajuda da Lua, ela vai descobrir a própria luz.
No alto do céu, uma estrelinha recém-nascida descobriu que o escuro guardava um segredo só dela
Numa noite bem no comecinho do mundo, quando o céu ainda estava aprendendo a ser céu, nasceu uma estrelinha.
Era uma época em que quase nada tinha nome ainda. As nuvens não sabiam direito para que lado ir. E lá em cima, onde tudo é silêncio, o céu estava só começando a se encher de luzinhas.
No meio daquele silêncio todo, uma faísca pequenininha se acendeu.
Era ela.
Ela era pequena. Menor que todas as outras. Se as estrelas grandes eram lampiões pendurados, ela era um fósforo aceso.
E aconteceu com ela uma coisa que nunca havia acontecido com estrela nenhuma: assim que abriu os olhos e viu o tamanho do escuro à sua volta, ela se encolheu.
Estrela não se encolhe. Estrela nasce e já sai brilhando, do mesmo jeito que a gente acorda e já sente fome. Mas aquela ali fechou as pontinhas como quem fecha a mão.
— Que lugar é este? — sussurrou. — Não tem parede, não tem fundo, não tem fim.
Ela procurou uma parede para encostar as costas. Não achou. Procurou um chão para apoiar os pés. Também não. Procurou pelo menos um teto, um teto bem alto que fosse, só para saber onde o mundo terminava.
Não tinha.
As outras estrelas estavam ocupadas brilhando e não repararam. Cada uma cuidava do próprio brilho, muito concentrada, como gente apressada que atravessa a rua e não vê quem ficou parado na calçada.
A Estrelinha ficou ali, bem quietinha, com as pontas dobradas para dentro, torcendo para que o escuro não a notasse.
De onde ela estava dava para ver a Terra, lá embaixo, muito longe. Nas noites mais limpas, as janelinhas das casas iam se acendendo, uma aqui, outra ali, feito vaga-lumes guardados em caixinhas. Numa dessas janelas havia uma criança de pijama que gostava de olhar para cima antes de dormir e apontar o dedo para as estrelas grandes, inventando um nome para cada uma.

A Estrelinha achava aquilo bonito. Mas nunca passou pela cabeça dela que aquilo pudesse ter alguma coisa a ver com ela.
A Noite Parecia Grande Demais
Passou uma noite. Passaram duas. Passaram tantas que ela perdeu a conta — e olha que estrela costuma ser boa de contar.
Toda vez que o sol ia embora e o céu escurecia, a Estrelinha sentia aquele apertinho no meio do peito. É um apertinho que não dói, mas atrapalha, parecido com o de quando a gente ouve um barulhinho dentro de casa e não sabe o que foi. Aí ela fechava os olhos com força, tanta força que as pontinhas tremiam, e ficava esperando a manhã chegar.
O problema é que estrela não aparece de dia. De dia o céu fica claro e as estrelas somem. Elas continuam lá, todas, no mesmo lugar de sempre — só que ninguém enxerga.
Então a Estrelinha vivia esperando uma hora que nunca era boa para ela: de noite tinha medo, de dia não existia.
Ela até tentou uns jeitos de melhorar. Tentou pensar em outra coisa. Tentou contar as estrelas grandes, uma, duas, três, até o sono chegar. Tentou fingir que o escuro não estava ali, que é o mais difícil de todos os jeitos, porque o escuro estava ali mesmo, do lado, do tamanho do mundo inteiro.
Nada funcionava muito bem.
— Não sirvo para isso — disse ela, uma noite, bem baixinho. — Estrela tem que gostar do escuro. Eu não gosto.
Foi aí que uma voz grande e macia respondeu bem perto:
— Quem foi que disse?
A Lua Chega Devagar
A Estrelinha abriu um olho.
A Lua havia chegado sem fazer barulho, do jeito que a Lua faz tudo, e agora estava ali ao lado dela, redonda e calma, ocupando metade do céu. A luz dela não era quente nem forte: era uma luz cor de leite, dessas que deixam a gente enxergar sem precisar apertar os olhos.

— Eu tenho medo do escuro — confessou a Estrelinha, e sentiu vergonha de dizer em voz alta.
Era a primeira vez que ela falava aquilo para alguém. As palavras saíram meio tortas, com um tremidinho no fim.
Ela esperava que a Lua risse. Ou que dissesse "não tem nada aí", que é o que costumam dizer. Ou "você já nasceu faz tempo, já podia ter passado".
Mas a Lua não fez nada disso. A Lua ficou um tempinho em silêncio, como quem está pensando com cuidado, e depois falou:
— Eu sei. O escuro é grande mesmo.
A Estrelinha ergueu a cabeça. Era a primeira vez que alguém concordava com ela.
— Você também tem medo?
— Já tive — disse a Lua. — Quando eu era nova, achava que o escuro ia me engolir. Passei um bocado de noites escondida atrás de uma nuvem, só com um pedacinho de mim para fora.
— Você? — a Estrelinha arregalou os olhos. — Escondida?
— Eu mesma. Ainda tem noite em que apareço só um risquinho — disse a Lua, e riu bem devagar. — Mas aí não é medo. Aí é sono.
A Estrelinha quase riu junto. Fazia tempo que ela não quase ria.
— E o que você fez?
— Eu olhei.
O Que a Estrelinha Viu
— Olhou? — repetiu a Estrelinha. — Só isso?
— Só isso — disse a Lua. — Você já olhou para o escuro, de verdade? Ou só fecha os olhos e espera passar?
A Estrelinha ficou envergonhada, porque a resposta era a segunda.
— E se eu olhar e for horrível?
— Aí você para de olhar — disse a Lua, sem pressa. — E a gente conversa sobre outra coisa. Ninguém é obrigado a olhar sozinho.
— Então olhe agora — disse a Lua. — Devagar. Eu fico aqui.
A Estrelinha respirou fundo. Uma vez. Duas. Sentiu o peito subir e descer e reparou que o apertinho continuava lá — mas do tamanho de uma bolinha de gude, e não mais do tamanho do céu.
Abriu um olho. Depois o outro.
E olhou.

No começo viu só o escuro, do jeito que imaginava: enorme, sem fim, sem nada.
Ela quase desistiu ali mesmo.
Mas a Lua estava do lado, quietinha, e a Estrelinha continuou olhando. E, quando os olhos foram se acostumando — que é uma coisa que os olhos fazem sozinhos, sem ninguém mandar, igualzinho a quando apagam a luz do quarto e no comecinho não dá para enxergar nem a porta, e um tiquinho depois dá —, ela começou a enxergar outras coisas.
Viu que o escuro não era vazio. Estava cheio.
Cheio de estrelas — milhares delas, umas pertinho, outras tão longe que pareciam pó de brilho espalhado. Viu fitas de luz que atravessavam o céu inteiro, curvadas feito rio. Viu poeirinhas douradas boiando tão devagar que dava sono só de acompanhar. Viu manchas de cor que ela nem sabia que existiam: roxas, azuis, cor de pêssego.
E ouviu, também. Porque o escuro tinha um som — um zumbidinho baixo e macio, parecido com o de um ventilador ligado em quarto de dormir.
Cheirou o ar, com cuidado, para ver se o escuro tinha cheiro. Tinha: cheiro de chuva que ainda não caiu, misturado com um cheirinho de roupa guardada.
E viu, lá embaixo, as luzinhas das casas se acendendo uma a uma na Terra, e a fumacinha das chaminés subindo torta.
A Estrelinha ficou tanto tempo olhando que esqueceu de ter medo. Não foi de propósito. Simplesmente não coube nela as duas coisas ao mesmo tempo.
— Tem tanta coisa — sussurrou ela.
— Tem — disse a Lua. — Sempre teve. O escuro não é o lugar onde as coisas somem. É o lugar onde elas conseguem aparecer.

A Descoberta
E foi então que a Estrelinha reparou numa coisa esquisita.
Bem embaixo dela, na Terra, havia uma janelinha acesa. Era aquela mesma janela de sempre, a da criança de pijama. Só que naquela noite a criança não estava apontando para as estrelas grandes.
A criança apontou o dedo bem na direção dela e disse alguma coisa para alguém que estava atrás.
A Estrelinha olhou para os lados, para ver qual estrela grande a criança estaria apontando.
Olhou para a direita. Olhou para a esquerda. Olhou para cima e para baixo, e mais uma vez para os lados, bem devagarinho, do jeito de quem procura o par de uma meia.
Não tinha nenhuma perto.
— Ela está apontando para mim? — perguntou, sem acreditar.
— Está — disse a Lua.
— Deve ser engano. Ela deve estar apontando para você.
— Para mim ela aponta desde sempre — disse a Lua. — Hoje ela apontou para o lado. Bem para o seu lado.
— Mas eu não brilho. Eu sou pequena. Eu tenho medo.
A Lua deu aquele sorriso devagar que só a Lua sabe dar.
— Você brilha desde a primeira noite, Estrelinha. É que você estava de olhos fechados, e ninguém enxerga a própria luz de olhos fechados.
A Estrelinha olhou para si mesma.
E era verdade.
Suas pontinhas, que ela mantinha dobradas para dentro havia tanto tempo, estavam soltas agora — e de cada uma saía um fiozinho de luz clara, tremeluzente, do tipo que faz criança apontar da janela.

Ela ficou um tempão só olhando para as próprias pontas, como quem descobre que sabia fazer uma coisa e não sabia que sabia.
Ela não precisou ficar maior. Não precisou virar outra coisa. Só precisou abrir os olhos.
O Escuro Vira Cama
Naquela noite, a Estrelinha não esperou o dia chegar.
Ficou acordada até tarde, brilhando junto com as outras, sentindo o escuro à sua volta como quem sente um cobertor — porque era isso que o escuro era, ela entendeu. Não um buraco. Um cobertor.
Um cobertor bem grande, é verdade. Mas cobertor de gente pequena costuma ser grande mesmo, e é justamente por isso que dá para enrolar o corpo inteiro dentro dele.
Lá embaixo, a janelinha da criança de pijama foi se apagando devagarinho, do jeito que as janelas se apagam quando alguém já dormiu.
A Estrelinha piscou para ela. Três vezes, sem pressa, só para o caso de a criança ainda estar de olho aberto.
— E o medo? — perguntou ela, mais tarde, quando o céu já estava no ponto mais quieto da noite. — Ele vai embora de vez?
— Às vezes ele volta — disse a Lua. — Em noite de vento, em noite estranha, em noite de coisa nova. Mas agora você sabe uma coisa que não sabia.
— O quê?
— Que dá para olhar. E que eu fico aqui, todas as noites, mesmo nas noites em que apareço só um risquinho.
A Estrelinha achou que essa era a melhor coisa que alguém já tinha dito para ela.
E quando finalmente ficou com sono, se aconchegou num cantinho macio do céu, ao lado da Lua, e adormeceu com as pontinhas acesas.

Dizem que ela ainda está lá.
Dizem também que, nas noites em que alguma criança na Terra fica com medo do escuro e olha pela janela, é ela quem pisca primeiro — três vezes, devagarinho — como quem diz:
Eu também tinha. Olha só o que tem aqui em cima.
E aí a criança olha. E vê que o céu está cheio.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- A Estrelinha achava que só os outros brilhavam. Você já se sentiu assim?
- A Lua não disse que o medo era bobagem. Por que você acha que isso ajudou?
- O que te faz sentir seguro na hora de dormir?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir, escrita para as noites em que a criança não quer que a luz apague. O ritmo é lento de propósito e não há nenhum susto: a tensão se resolve na primeira metade, e a segunda serve para desacelerar até o fim.
Perguntas frequentes sobre A História da Estrelinha que Tinha Medo do Escuro
Esta história ajuda com medo do escuro de verdade?
Ela oferece à criança outra imagem para associar ao quarto apagado — o escuro como o lugar onde as estrelas conseguem aparecer, e não como um vazio ameaçador. Funciona melhor lida antes da luz apagar, e repetida por várias noites: é a repetição que faz a imagem nova grudar.
Para que idade esta história é indicada?
Dos 3 aos 7 anos, que é justamente a faixa em que o medo do escuro costuma aparecer e ir embora. Crianças de 2 anos também acompanham, porque a história é curta e tem repetição.
Qual é a moral da história da estrelinha?
Que ter medo do escuro é comum e passa, e que a luz que procuramos fora muitas vezes já está em nós. A Estrelinha não deixa de ter medo porque alguém disse que não havia motivo — ela descobre o que tem de próprio.


