A Bela e a Fera
Bela descobre que dentro do castelo assustador mora alguém de coração gentil. Uma história sobre enxergar além das aparências.

Era uma vez um mercador viúvo que tinha três filhas. As duas mais velhas eram vaidosas e mimadas: só pensavam em festas, vestidos bonitos e no próprio reflexo. Mas a caçula, chamada Bela, era diferente: tinha um coração generoso, adorava ler livros e ajudava o pai em tudo o que podia.
Um dia, o mercador perdeu toda a sua fortuna num naufrágio: os navios afundaram numa tempestade e da casa grande sobrou só o que cabia numa carroça. A família mudou-se para uma casinha simples no campo, de telhado baixo e porta que rangia. As mais velhas reclamavam sem parar. — Aqui não há ninguém para nos visitar! — dizia uma. — E o vento entra por todos os lados! — respondia a outra, enrolada em três xales.
Mas Bela adaptou-se com alegria. Levantava cedo, acendia o fogo e amassava o pão cantarolando. Plantou um jardim nos fundos e cuidou de uma roseira quase seca que achou atrás do galinheiro, regando-a todos os dias mesmo quando não parecia haver esperança nos galhos secos, e o lar foi ficando mais bonito a cada dia. O pai a admirava imensamente. — Você faz a pobreza parecer leve, minha filha — dizia ele, e prometia que um dia, assim que voltasse a ter dinheiro, compraria presentes para as três.
O Castelo Encantado
Certa vez, o mercador partiu numa viagem de negócios e perguntou às filhas o que queriam de presente. As duas mais velhas não pensaram duas vezes: pediram colares de ouro e vestidos de seda. Bela sorriu timidamente e disse: — Para mim, pai, pode trazer uma rosa. Só isso já me fará muito feliz.
Na volta, o mercador não conseguiu nenhum dos presentes, pois os negócios não tinham dado certo. Voltava cabisbaixo quando a neve começou a cair e o cavalo perdeu o caminho na floresta. Foi então que ele avistou, entre as árvores, um jardim magnífico que cercava um grande castelo misterioso. Ali dentro não havia neve: as roseiras estavam floridas e o ar cheirava a mel. Ele entrou para colher uma única flor, mas mal tocou a roseira quando uma criatura enorme e assustadora apareceu rugindo: — Como você ousa roubar minhas rosas?!
Era a Fera — um ser com corpo de urso, cara de leão e chifres de boi, com olhos azuis que brilhavam na escuridão. O mercador caiu de joelhos tremendo, pedindo perdão e explicando que a rosa era para a filha mais nova, a única coisa que ela pedira. A Fera o ouviu com atenção. Ficou calada um instante e então declarou com voz rouca: — Deixarei você partir com a rosa. Mas em troca, você deve me mandar sua filha. Ela virá por vontade própria ou vocês dois pagarão por esse roubo.
O mercador voltou para casa de coração partido e contou tudo para as filhas. Bela, pálida mas determinada, pegou a flor e disse: — Pai, você foi buscar a rosa por minha causa. Sou eu quem deve ir. Ele tentou proibir e tentou prometer que iria no lugar dela. Não adiantou. Na manhã seguinte, Bela beijou a testa do pai, guardou na sacola o livro de que mais gostava e partiu pela estrada da floresta.
Bela no Castelo da Fera
Bela chegou ao castelo com medo. Os portões se abriram sozinhos e o caminho de pedra atravessava um jardim de rosas tão vermelhas que pareciam pintadas. A Fera a esperava no fim da alameda, sem saber o que fazer com o próprio tamanho. — Você veio — disse ele, muito mais baixo do que ela imaginava. — Esta casa é sua agora. Aceita um chá no jardim?

Foi assim que passaram a primeira tarde. Havia uma mesinha entre as roseiras, com bule, duas xícaras e biscoitos quentes. Bela não conseguia falar de tão nervosa, então fez o que sempre fazia quando tinha medo: abriu o livro que trouxera de casa e começou a ler em voz alta. A Fera ficou tão quieta que ela espiou por cima da página para ver se ele continuava ali. Continuava — com as orelhas viradas para a frente, prendendo a respiração. Quando o sol se pôs, ele pediu, meio sem jeito: — Mais um capítulo?
Naquela primeira noite, Bela foi percebendo que havia algo especial naquele lugar. Os corredores eram lindos, decorados com tapeçarias e flores frescas. Os criados invisíveis levavam bandejas de comida e acendiam velas, e às vezes ela ouvia risadinhas atrás dos armários. E a Fera, apesar da aparência assustadora, não era cruel. Tratava Bela com educação, deu-lhe um quarto confortável e conversava com ela durante o jantar.
No segundo dia, a Fera a levou por um corredor comprido e abriu uma porta de carvalho entalhado. Dentro havia uma biblioteca enorme — estantes do chão ao teto, repletas de livros de todas as cores e tamanhos e um cheiro morno de papel e madeira. — Tudo isso é seu, enquanto estiver aqui, — disse a Fera baixinho. Bela ficou sem palavras, com os olhos marejados. Era o maior presente que alguém já havia lhe dado.

A Fera presenteou Bela com uma biblioteca enorme — o maior tesouro que ela poderia imaginar
Daquele dia em diante, a biblioteca virou o coração da casa. Bela lia em voz alta perto da lareira, sentada no tapete, e a Fera escutava afundado numa poltrona grande demais até para ele, com as patas cruzadas sobre a barriga. Quando a história ficava emocionante, ele esquecia de disfarçar e soltava um rugidinho de susto — e os dois riam juntos até perder o fôlego. Depois discutiam os personagens, adivinhavam os finais e quase sempre erravam. Quando não conseguia dormir, Bela descia de camisola com uma vela na mão para escolher mais um livro, e sempre encontrava um cobertor dobrado na poltrona, como se alguém soubesse que ela viria.
Os dias foram passando, e Bela começou a conhecer a Fera de verdade. Descobriu que ele adorava música e tocava um cravo antigo do salão com uma delicadeza que ninguém esperaria daquelas patas enormes. Descobriu que sabia contar histórias engraçadas, principalmente sobre as vezes em que tentou fazer bolo sozinho e cobriu a cozinha inteira de farinha. E descobriu, numa noite de lua cheia, que existia um jardim secreto atrás do castelo, cheio de rosas azuis que só abriam depois de escurecer, com vaga-lumes acendendo e apagando entre os galhos. — Plantei todas, — disse a Fera, orgulhoso e envergonhado ao mesmo tempo. — Nunca tinha mostrado esse lugar para ninguém.

Toda noite, ao fim do jantar, a Fera fazia a mesma pergunta com voz tímida: — Bela, você poderia um dia me amar? E Bela sempre respondia com gentileza: — Você é um amigo muito bom, mas ainda não sei. Ele então baixava a cabeça, desejava boa noite e ia embora sem reclamar e sem insistir. Na manhã seguinte, lá estava ele outra vez, com uma flor nova na mesa do café ou um livro que tinha encontrado numa prateleira alta demais. Mesmo ouvindo o mesmo ainda não sei todas as noites, a Fera nunca deixava de ser atencioso. Uma vez, Bela quis saber por que ele repetia sempre aquela pergunta. — Porque um dia a resposta pode mudar, — respondeu ele. — E eu não quero estar dormindo quando isso acontecer.
Bela era feliz naquele castelo, mas um cantinho do coração dela continuava do lado de fora dos muros, na casinha de campo, junto do pai. Certo dia, encontrou na sala um espelho mágico de moldura dourada e desejou ver a família. A imagem apareceu na mesma hora: seu pai estava doente, deitado na cama, mais magro do que ela lembrava, chamando por ela num fio de voz. O coração dela apertou. Ela apertou o espelho contra o peito e saiu correndo pelos corredores até encontrar a Fera no salão. — Preciso ir vê-lo, — disse, com os olhos cheios de lágrimas.

A Fera ficou em silêncio por um longo momento. Bela viu o peito dele subir e descer devagar e teve medo de que a resposta fosse não. Mas ele apenas tirou de uma caixinha um anel de prata e o colocou na palma da mão dela. — Você pode ir, — disse. — Gire o anel duas vezes e estará onde quiser estar. Mas, por favor… volte antes de oito dias. Bela prometeu. — E leve um livro da biblioteca, — acrescentou ele, tentando sorrir. — Assim você lembra de voltar. Ela quis responder alguma coisa, mas não achou palavra nenhuma que coubesse. No portão, olhou para trás e viu a Fera parada entre as roseiras, sem acenar, só olhando.
O Amor que Transforma
Bela voltou para casa e cuidou do pai até ele melhorar. O velho mercador chorou de alegria ao vê-la na porta e segurou as mãos dela por um tempo enorme, como se precisasse ter certeza de que era mesmo ela. Ela fez caldo quente, trocou os lençóis, abriu as janelas para arejar o quarto e leu para ele nas tardes de chuva, do mesmo jeito que lia para a Fera. Aos poucos a cor voltou ao rosto dele, e logo já conseguia sentar-se na cama para ouvir o fim dos capítulos. — Foi você que me curou, — dizia ele, rindo. — Ou foi o caldo, — respondia Bela, ajeitando o travesseiro.

Mas as irmãs, com inveja de sua felicidade, a convenceram a ficar mais tempo. Todo dia inventavam um motivo novo: um bolo para provar, uma festa na vila, um vestido pela metade. — Fique só mais um dia, — pediam, segurando as mãos dela. E Bela ficou. Dez dias, depois doze. Toda noite ela olhava para o anel de prata na mesinha e sentia um aperto esquisito no peito.
Na noite do décimo segundo dia, Bela sonhou com o castelo. No sonho, a Fera estava sentada sozinha no jardim, sem comer e sem ler, olhando para o portão, e as roseiras em volta tinham parado de florir. Ela acordou com saudade e com um pouco de culpa, procurou o anel na mesinha e o girou duas vezes. — Por favor, me leva de volta! — pediu. Em um piscar de olhos, estava no castelo. As velas dos corredores estavam apagadas, como se a casa inteira estivesse triste. Ela correu pelo jardim chamando o nome da Fera e a encontrou deitada entre as rosas, tão cansada de esperar que mal conseguiu levantar a cabeça.
— Fera, desculpa a demora! — Bela se ajoelhou ao lado dele e tomou sua pata entre as mãos. — Eu me importo com você. Mais do que imaginava. Eu voltei, e não vou mais embora. — Ela estava chorando sem perceber. As lágrimas caíram no rosto da Fera e, de repente, uma luz dourada envolveu todo o jardim.

Bela fechou os olhos com o brilho. Quando os abriu, a Fera havia desaparecido. No lugar dele, havia um jovem príncipe de cabelos castanhos e olhos azuis, exatamente os mesmos olhos azuis que ela reconhecia. — Fui enfeitiçado por uma feiticeira, — ele explicou, levantando-se e segurando as mãos dela. — Só o amor verdadeiro poderia me libertar. Você me salvou, Bela. Ela olhou para ele por um longo momento e sorriu. Ela o reconhecia, sim — pela gentileza, pela paciência, pelos olhos que sabiam escutar. O príncipe e Bela se casaram, e o pai dela veio morar no castelo. As irmãs vieram para a festa, um pouco envergonhadas, e Bela as recebeu com um abraço, porque tinha um coração grande demais para guardar rancor.
E à noite, quando o castelo ficava quieto, os dois ainda desciam até a biblioteca. Ela lia em voz alta, sentada no tapete, perto da lareira. Ele escutava na poltrona grande, já sem o tamanho de Fera, mas com o mesmo jeito de prender a respiração nas partes boas. O fogo ia baixando, as páginas iam ficando mais lentas, e quase sempre um dos dois adormecia antes do fim do capítulo — tranquilo, quentinho, sabendo que a história continuava no dia seguinte.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- A Bela mudou de opinião sobre a Fera com o tempo. O que fez ela mudar?
- Já aconteceu de você achar que ia detestar alguém e depois virar amigo?
- O que é mais importante numa pessoa: como ela parece ou como ela trata os outros?
Sobre esta história
A Bela e a Fera foi escrita por Gabrielle-Suzanne de Villeneuve e publicada na França em 1740, num texto longo e cheio de subtramas. Em 1756, Jeanne-Marie Leprince de Beaumont publicou uma versão bem mais curta e voltada para crianças — e é dela que descendem quase todas as recontagens modernas, inclusive esta. Nesta versão, pensada para a hora de dormir, duas coisas foram suavizadas: em Beaumont a Fera quase morre de tristeza e as irmãs invejosas são transformadas em estátuas como castigo; aqui a Fera só se cansa de esperar, e as irmãs são recebidas com um abraço.
Perguntas frequentes sobre A Bela e a Fera
Qual é a moral de A Bela e a Fera?
Que a aparência engana e que o caráter de uma pessoa se revela no convívio, não no primeiro olhar. A história trabalha a diferença entre o que parece assustador e o que é de fato perigoso.
Quem escreveu A Bela e a Fera?
A francesa Gabrielle-Suzanne de Villeneuve escreveu a versão original, publicada em 1740. A versão curta e mais conhecida é de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, de 1756.
A Bela e a Fera é indicada para que idade?
A partir dos 5 anos, e funciona especialmente bem dos 7 aos 10, quando a criança já consegue discutir a ideia de julgar alguém pela aparência.


