Contos para Dormir
Ilustração do conto A Casa que Dizia Boa Noite

A Casa que Dizia Boa Noite

Antes de todo mundo dormir, a casa faz a ronda dela: fecha, desliga, cobre e agradece — cada cômodo do seu jeito.

Equipe Contos para Dormir ·

Casa não fala. Mas toda noite ela se despede, cada cômodo do seu jeito

Quando a última pessoa se levanta do sofá, a casa começa a se despedir.

Ela não fala com a boca, porque casa não tem boca.

Ela se despede fechando, desligando, cobrindo e esfriando.

Cada cômodo do jeito dele.

E sempre na mesma ordem, todas as noites, sem trocar nunca.

Uma casa vista por dentro à noite, com um corredor comprido e as luzes se apagando uma a uma

A Ronda da Casa

A cozinha é a primeira.

A cozinha diz boa noite quando o último prato é guardado e a torneira para de pingar.

Ela fecha a porta da geladeira direitinho, apaga a luz de cima do fogão e deixa só o pano de prato dobrado na beirada da pia.

A cozinha fica com cheiro de comida do jantar por mais um tempinho, e depois esse cheiro também vai dormir.

A sala é a segunda.

A sala diz boa noite quando a televisão apaga e faz aquele estalinho.

As almofadas voltam para o lugar, ou quase.

O tapete relaxa.

O sofá, que trabalhou o dia inteiro segurando gente, finalmente fica vazio e afunda um pouquinho.

O banheiro é o terceiro.

O banheiro diz boa noite com o espelho ainda embaçado do banho de alguém.

As escovas de dente ficam de pé no copinho, uma encostada na outra.

A toalha fica pendurada, molhada na ponta.

E a luzinha do corredor, aquela bem fraquinha, fica acesa — porque o banheiro sabe que alguém pode acordar no meio da noite precisando dele.

A área de serviço é a quarta.

Ela é o cômodo mais frio da casa e não faz questão nenhuma de esconder isso.

A máquina de lavar termina o último ciclo e para com um solavanco.

A roupa fica no varal, pingando devagar numa bacia, pingo por pingo, cada vez mais espaçado.

O tanque fica vazio e seco.

O corredor é o quinto.

O corredor não tem quase nada: um quadro, um interruptor e um tapete que sempre enrola numa ponta.

Mas é ele que liga todo mundo, e por isso é o último a apagar antes dos quartos.

Ele fica ali no escuro, comprido e quieto, guardando as portas.

O quintal se despede de fora.

Ele não é bem parte da casa, mas a casa gosta dele.

O portão está trancado. A mangueira está enrolada. O varal de fora está vazio.

E o cachorro, que dormiu o dia inteiro na sombra, agora dorme de novo — só que na soleira, encostado na porta, do lado de dentro do frio.

Os Cômodos que Ficam Acordados

Nem tudo na casa dorme junto.

A geladeira não dorme. Ela ronca a noite inteira, baixinho, e de vez em quando dá um tremidinho.

O relógio da parede não dorme. Ele fica contando os segundos sozinho, com aquele tique-taque que ninguém escuta de dia e todo mundo escuta de noite.

A janela não dorme. Ela fica de olho na rua, vendo o poste aceso e o gato do vizinho passando no muro.

Esses três ficam de plantão.

Não é sacrifício, não. Eles gostam.

Alguém precisa tomar conta enquanto os outros descansam.

Uma geladeira, um relógio de parede e uma janela numa casa escura, os únicos pontos ainda acordados

O Último Cômodo

Por último, sempre por último, vem o quarto.

O quarto é o cômodo preferido da casa, e ela guarda ele para o fim de propósito.

O quarto diz boa noite bem devagar.

Primeiro ele deixa o ar ficar mais fresco.

Depois ele deixa o cobertor ficar mais quente — que é uma coisa esquisita de acontecer ao mesmo tempo, mas acontece.

Depois ele arruma a sombra do teto, ajeita o silêncio nos cantos e coloca a luzinha do abajur no ponto mais fraquinho que ela consegue.

E aí o quarto espera.

Espera o beijo.

Espera o cobertor subir até o queixo.

Espera a porta encostar, mas não fechar de todo, do jeito que a criança gosta.

E quando a respiração daquela cama fica compridinha e certinha, a casa inteira solta o ar.

Ela conferiu tudo.

Fechou tudo.

Cobriu todo mundo.

Agora ela pode descansar também — de portas fechadas, luzes apagadas e geladeira roncando baixinho, tomando conta da família até o sol voltar.

Boa noite, casa. 🌙

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Qual cômodo da nossa casa a gente esqueceu de dizer boa noite?
  2. O que faz mais barulho na nossa casa de noite?
  3. Qual é o lugar mais quentinho daqui?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, construída como um ritual. A ordem dos cômodos é sempre a mesma de propósito: a repetição é o que transforma o texto numa rotina de sono, e não apenas numa história bonitinha.

Perguntas frequentes sobre A Casa que Dizia Boa Noite

Quanto tempo leva para ler esta história?

Cerca de 6 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do acervo, feita para as noites em que já passou da hora e não cabe um conto comprido.

Para que idade é indicada?

Dos 2 aos 5 anos. Não tem conflito nem personagem para acompanhar, só a casa se despedindo cômodo a cômodo — o que funciona muito bem com quem ainda é pequeno demais para segurar um enredo.

Esta história é assustadora?

Não. Ao contrário: ela mostra a casa cuidando de todo mundo enquanto as pessoas dormem, o que costuma acalmar crianças que ficam inseguras quando as luzes apagam.

Dá para transformar isso numa rotina de sono?

Dá, e é a melhor forma de usar. Depois de ler algumas vezes, muitas famílias passam a fazer a mesma ronda de verdade antes de deitar, dizendo boa noite para cada cômodo. A repetição avisa o corpo da criança que o dia acabou.

Que tal a história de amanhã?