Contos para Dormir
Ilustração do conto O Relojoeiro que Guardava Minutos

O Relojoeiro que Guardava Minutos

Na gaveta trancada da bancada, Seu Aurélio guardava todos os minutos que o bairro deixava cair — até uma menina bater na porta querendo alguns emprestados.

Equipe Contos para Dormir ·

Numa loja cheia de relógios, o que mais importava estava guardado numa gaveta que não fazia barulho nenhum

Na última porta da Rua do Sino ficava a relojoaria do Seu Aurélio.

Era uma loja estreita e comprida, com cheiro de óleo fino e de madeira velha. Nas paredes havia relógio de toda espécie: relógio redondo, relógio quadrado, relógio de corda, relógio com um passarinho de madeira que saía por uma portinha e voltava depressa, só para conferir se ainda estava todo mundo ali.

No canto do fundo ficava o maior de todos, um relógio de pêndulo alto que balançava devagar, sem pressa nenhuma, igual a quem respira dormindo.

Seu Aurélio era magro e tinha um bigode branco farfalhudo. Usava óculos redondos que viviam escorregando até a ponta do nariz e um avental de couro marrom cheio de bolsos. Trabalhava sentado numa banqueta alta, curvado sobre a bancada, com uma lupa encaixada no olho.

O bairro inteiro dizia que ele consertava qualquer coisa que fizesse tique-taque. Isso era verdade.

O que ninguém sabia é que ele guardava outra coisa.

Relojoeiro idoso de bigode branco e lupa no olho, curvado sobre a bancada de uma loja cheia de relógios antigos

De vez em quando, no meio do dia, um sininho tocava.

Não era o sino da porta. O sino da porta era grande e fazia tlim-tlim quando alguém entrava. Esse era outro, pequenininho, pendurado num arame torto acima da bancada, e fazia só tim. Uma vez só. Baixinho.

Quando ele tocava, Seu Aurélio parava o que estava fazendo, tirava a lupa do olho e olhava para a madeira da bancada.

— Caiu mais um — dizia.

E ali, do lado da caixinha de parafusos, havia um grão de luz. Do tamanho de um grão de arroz. Meio dourado, meio quieto.

A Gaveta de Baixo

A bancada do Seu Aurélio tinha três gavetas.

Na de cima ficavam os parafusos, tão pequenos que precisavam de pinça para não sumirem entre os dedos. Na do meio ficavam as molas, os ponteiros e as engrenagens, cada tamanho no seu compartimento, cada compartimento no seu lugar.

A de baixo vivia trancada. A chave ficava numa cordinha, por dentro da camisa, encostada no peito.

Dentro da gaveta de baixo havia potes de vidro. Dezenas deles, enfileirados, com a tampa de rosca bem apertada. E dentro dos potes havia grãos de luz aos montes — só que todos apagados, cor de areia velha, sem brilho nenhum.

Aqueles grãos eram minutos.

Minutos perdidos.

Toda vez que alguém do bairro deixava um minuto cair, o sininho tocava e o minuto aparecia ali na bancada. E gente perde minuto o tempo todo. Perde na fila do mercado, resmungando da demora. Perde no ponto, com raiva do ônibus que não vem. Perde discutindo por causa de nada, daquelas discussões que no dia seguinte ninguém lembra nem como começaram.

Tim.

— Caiu mais um — dizia Seu Aurélio.

Aí ele pegava o grão com a pinça de ponta fina, destrancava a gaveta, escolhia um pote e guardava.

Fazia isso havia quarenta anos.

Nunca devolveu nenhum. Não por falta de vontade: é que minuto perdido não sabe voltar sozinho para o dono, e Seu Aurélio nunca soube como se entrega uma coisa dessas na mão de alguém.

— Um dia aparece quem precise — dizia para o pêndulo, que balançava concordando.

Gaveta aberta cheia de potes de vidro com grãos de luz apagados, e o relojoeiro segurando uma pinça fina

A Menina do Vestido Amarelo

Numa terça-feira de tarde, o sino grande da porta fez tlim-tlim e entrou uma menina.

Chamava-se Manuela, tinha oito anos, cabelo cacheado preso em dois coques e um vestido amarelo. Trazia nas duas mãos, com cuidado de quem carrega passarinho, um relógio de bolso antigo, redondo, de tampinha.

— É do meu avô — disse ela. — Parou.

Seu Aurélio pegou o relógio, encaixou a lupa no olho e abriu a tampa com a unha do polegar.

— Parou faz tempo — disse ele.

— Faz. Ele não trouxe antes porque disse que não valia o conserto.

— E aí você trouxe.

— E aí eu trouxe.

Seu Aurélio girou o relógio contra a luz da janela. Lá dentro, as engrenagenzinhas estavam paradas no meio de um movimento, como bicho que dormiu de pé.

— Mola quebrada — disse ele. — Peça dessas eu tenho que mandar buscar. Uns dez dias.

Manuela já ia agradecer quando o sininho de cima da bancada fez tim.

Ela olhou para cima. Olhou para a bancada. E viu o grão de luz aparecer do nada em cima da madeira.

Ficou tão quieta que Seu Aurélio ouviu o próprio pêndulo.

— O que é isso? — perguntou ela.

Ele pensou em dizer que era poeira, que era reflexo, que era coisa da vista. Mas ela já estava com o queixo apoiado na bancada, a um palmo do grão, sem piscar.

— Isso é um minuto — disse ele. — Alguém acabou de perder.

Menina de cabelo cacheado em dois coques e vestido amarelo com o queixo apoiado na bancada, olhando de pertinho um grão de luz dourada

O Empréstimo

Foi assim que Manuela virou a primeira pessoa em quarenta anos a ver a gaveta de baixo aberta.

Seu Aurélio destrancou devagar, como quem não tem certeza se está fazendo besteira, e puxou. Os potes apareceram enfileirados, cheios até em cima daqueles grãozinhos cor de areia.

— Isso tudo é minuto? — perguntou Manuela.

— Isso tudo.

— Do bairro?

— Do bairro, da rua de trás, da praça. Quarenta anos.

Manuela ficou olhando por um tempo comprido. Depois falou, e falou depressa, do jeito que a gente fala quando espera muito tempo por uma coisa e a coisa aparece de repente.

— O senhor empresta?

Seu Aurélio tirou os óculos e limpou na ponta do avental, que é o que ele fazia sempre que precisava pensar.

— Emprestar por quê?

— Pro meu avô — disse ela. — O Seu Joaquim. Ele mudou para o outro lado da cidade, no ano passado, e agora eu só vejo ele no domingo. A gente pega dois ônibus. Chega meio-dia, almoça, e quando eu vou ver já é hora de voltar.

— Tarde de domingo é curta mesmo.

— Ela acaba no meio — disse Manuela. — Sempre no meio.

O pêndulo foi e voltou umas quatro vezes antes de Seu Aurélio responder.

Então ele abriu a gaveta de novo, pegou um saquinho de veludo azul que estava no fundo, e contou doze grãos lá para dentro com a pinça.

— Doze — disse ele. — Não sei quanto tempo dura um emprestado.

— Como é que usa?

— Você põe um na palma e fecha a mão. Deve esquentar.

— Deve?

— Nunca gastei nenhum — disse Seu Aurélio, e voltou a olhar para dentro do relógio de bolso, o que em relojoeiro quer dizer que o assunto acabou.

Os Minutos que Não Acendiam

Manuela testou naquela mesma noite.

Sentou na cama, tirou um grão do saquinho, botou na palma e fechou a mão com força. Contou até sessenta. Abriu.

O grão continuava do mesmo jeito. Cor de areia, frio que nem contas de brinquedo esquecidas no chão.

Testou de novo no dia seguinte, na fila do mercado, que era o lugar onde ela mais via gente perdendo minuto. Nada.

Testou no recreio, sentada sozinha num canto do pátio, com o saquinho aberto no colo.

Na volta da escola ela passava na frente da relojoaria e sentava no degrau da porta, do lado de fora, para tentar mais uma vez. Seu Aurélio via da bancada, por cima dos óculos. Nenhum dos dois falava nada. Ele voltava para o relógio, ela guardava o grão no veludo, e o sininho de cima da bancada tocava mais uma vez naquele dia.

Menina de vestido amarelo sentada no degrau da porta da relojoaria com um saquinho azul aberto no colo e um grão sem brilho na palma, enquanto o relojoeiro a observa de dentro da loja

Testou de noite, debaixo do lençol, com a lanterninha, apertando o grão com as duas mãos e prendendo a respiração.

Testou dez dias inteiros, um por dia, com uma paciência que ela mesma não sabia que tinha. E os dez continuaram do mesmo jeito, frios, sem um pisco de luz.

No fim do décimo dia ela voltou à loja com o saquinho na mão e a cara de quem quebrou uma coisa emprestada.

O Que Faltava

— Não funciona — disse Manuela, pondo os dez grãos apagados em cima da bancada. — Ou eu estraguei.

Seu Aurélio olhou os grãos com a lupa. Cutucou um com a pinça. Cheirou, o que não fazia o menor sentido, mas relojoeiro é assim.

— Está inteiro — disse ele.

— Então é comigo.

— Ou é comigo.

E aí, pela primeira vez em quarenta anos, Seu Aurélio pegou um minuto da própria gaveta, botou na palma da mão e fechou o punho.

Contou até sessenta. Abriu.

Frio.

Os dois ficaram se olhando por cima da bancada. O passarinho de madeira saiu pela portinha, deu uma olhada na situação e voltou para dentro.

— Deixa eu tentar uma coisa — disse Manuela.

Ela pegou o grão da mão dele. Mas em vez de tirar, deixou os dedos onde estavam, e fechou a mão dela por cima da mão dele, com o grão espremido entre as duas palmas.

— Conta comigo — disse ela.

— Um — disse Seu Aurélio.

— Dois — disse Manuela.

Não chegaram nem em dez.

Entre as duas mãos começou a sair luz. Saía pelas frestas dos dedos, dourada e morna, do jeito que sai a luz de uma casa quando alguém abre a porta na hora do jantar. A mão do Seu Aurélio esquentou até o pulso.

Quando abriram, o grão estava aceso. Aceso e vivo, tremendo devagar como brasa boa.

Testaram de novo, para ter certeza.

Ele sozinho: frio. Ela sozinha: frio. Os dois juntos: aceso na hora.

As mãos do relojoeiro e da menina fechadas juntas sobre o mesmo grão, com luz dourada escapando entre os dedos na penumbra da loja

Seu Aurélio sentou na banqueta bem devagar, como se senta quem levou um susto sem barulho.

— Quarenta anos — disse ele.

— O senhor nunca segurou nenhum com ninguém — disse Manuela.

— Nunca apareceu ninguém para segurar junto.

Manuela olhou para o relógio de bolso, que estava pronto em cima do pano de camurça, com a tampinha polida e o ponteiro andando de novo.

— Domingo o senhor vem comigo levar o relógio do meu avô — disse ela. Não foi bem um convite. Foi mais um aviso.

A Varanda do Seu Joaquim

Domingo eles pegaram os dois ônibus: Manuela, a mãe dela e o relojoeiro.

Seu Aurélio foi de avental mesmo, porque disse que sem os bolsos ele não sabia onde botar as mãos. Levou o relógio embrulhado num paninho e, sem saber direito por quê, tirou o sininho do arame e guardou no bolso de cima.

A casa do Seu Joaquim ficava numa rua sem asfalto, com um pé de acerola no quintal e uma varanda de chão vermelho. Ele esperava na cadeira de balanço, de camisa passada, porque domingo é domingo.

Manuela entregou o embrulho. O avô abriu o paninho devagar, com aquelas mãos que já faziam tudo devagar, e ficou um tempo sem dizer nada.

— Era do meu pai — falou por fim. — Ele marcava a hora do trem por este relógio.

Deu corda. Encostou no ouvido. Fechou os olhos.

Depois quis saber quem era o senhor de avental. Seu Aurélio explicou que era o relojoeiro, e o Seu Joaquim disse que relojoeiro é gente de confiança, e puxou uma cadeira.

A tarde foi passando.

Comeram acerola do pé, azeda de fazer careta. O Seu Joaquim contou do trem e do apito do trem. Seu Aurélio contou do pêndulo do fundo da loja, que ele acertava de ouvido. Manuela contou uma história comprida do recreio que não tinha começo nem fim e que os dois ouviram até o final assim mesmo.

O sol foi baixando e deixando tudo alaranjado, como faz sempre que vai embora sem pressa.

Foi aí que Manuela lembrou do saquinho.

Ia pegar um grão para fazer a tarde durar mais — era esse o plano desde o começo. Abriu o veludo azul.

Lá dentro, os dois grãos que sobravam estavam acesos. Mornos. Brilhando sozinhos, sem ninguém ter fechado a mão em cima deles.

E o sininho, no bolso do avental do Seu Aurélio, não tinha tocado nenhuma vez desde que eles saíram de casa.

Varanda de chão vermelho ao entardecer, com o avô na cadeira de balanço, o relojoeiro e a menina em volta, e um saquinho azul de grãos acesos

Depois que a Tarde Acabou

Voltaram no ônibus das seis, com a cidade acendendo do outro lado do vidro.

Manuela cochilou duas vezes e acordou nas duas, daquele jeito que a gente acorda achando que não dormiu nada.

— O senhor quer os dois de volta? — perguntou ela, com o saquinho no colo.

— Quero — disse Seu Aurélio. — Eu tenho lugar bom para eles.

Na loja, ele acendeu só a luz da bancada. Destrancou a gaveta de baixo, pegou um pote vazio e pôs os dois grãos lá dentro. Não apagaram. Ficaram ali, dourados, iluminando o vidro por dentro.

Ele girou a tampa devagar, colocou o pote na frente de todos os outros e não trancou a gaveta.

Deixou um dedinho de aberta.

Manuela foi embora com a mãe, e da esquina ainda dava para ver a luzinha amarela lá no fundo da loja, do tamanho de um grão de arroz.

Dizem que desde então a relojoaria da Rua do Sino fecha mais cedo aos domingos. Tem um bilhete na porta, escrito à mão, e quem passa já sabe o que está escrito sem precisar ler.

Lá dentro, no escuro, os relógios continuam trabalhando. O de corda, o quadrado, o redondo, o do passarinho de madeira que dorme atrás da portinha.

E o de pêndulo, no canto do fundo, vai e volta bem devagar.

Vai.

E volta.

Como quem respira dormindo.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Por que você acha que os minutos guardados na gaveta ficavam apagados?
  2. O Seu Aurélio esperou quarenta anos para usar o primeiro minuto. O que estava faltando para ele?
  3. Com quem você queria passar uma tarde inteira sem olhar as horas?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para este site. O relojoeiro, a menina, o avô e a rua onde tudo acontece são inventados — não há fonte antiga por trás deste conto. A ideia de um minuto que se pode pegar com a pinça e guardar num vidro é só uma imagem, do jeito que as histórias fazem quando querem falar de uma coisa que não dá para segurar.

Perguntas frequentes sobre O Relojoeiro que Guardava Minutos

Qual é a moral desta história?

Que tempo guardado não vira tempo vivido, e que os minutos que ficam na memória são quase sempre os que a gente passou com alguém. A história não explica isso em nenhum momento: quem percebe é a criança, junto com o relojoeiro.

Esta história serve para uma criança que vê pouco os avós?

Serve muito bem. A Manuela só encontra o avô aos domingos e acha a tarde curta demais, que é exatamente o que sente quem mora longe da família. O final é tranquilo e afetuoso, sem nenhuma despedida triste.

Para que idade é indicada?

Dos 6 aos 10 anos. É um conto mais longo, com uma ideia de fantasia que exige um pouco de imaginação, e funciona melhor com crianças que já acompanham histórias com mais de um capítulo.

É uma história calma para ler na hora de dormir?

É. O ritmo desacelera de propósito nas últimas páginas: a tarde acaba, o ônibus volta devagar e o conto termina com a loja fechada e o pêndulo balançando no escuro.

Que tal a história de amanhã?