Contos para Dormir
Ilustração do conto A Fada Denteira e o Dente de Leite Perdido

A Fada Denteira e o Dente de Leite Perdido

O primeiro dentinho de leite caiu — e sumiu! Uma aventura noturna com a fada mais delicada do mundo dos sonhos.

Equipe Contos para Dormir ·

Na noite em que o primeiro dente caiu, a Bia descobriu para onde vão as coisas que a gente deixa para trás

O dente da Bia estava mole havia três dias.

Ela ficava mexendo nele com a língua o tempo todo — no café da manhã, na aula, no banho — sentindo aquele balancinho esquisito e maravilhoso. Era o da frente, embaixo, o primeiro de todos.

A mãe já tinha dito que era só esperar, que uma hora ele caía sozinho. A Bia acreditava mais ou menos. De noite, ela ficava pensando: e se ele cair enquanto eu estiver dormindo? E se eu engolir sem perceber?

E foi o que aconteceu, na hora do jantar, no meio de uma mordida de pão.

Não doeu nada. Foi só um estalinho miudinho, feito uma semente de gergelim quebrando, e de repente tinha uma coisa dura e estranha no meio da comida.

— CAIU! — gritou a Bia, com a mão na boca e os olhos arregalados.

Foi uma festa. O pai tirou foto. O irmão mais velho quis ver o buraquinho e falou "deixa eu ver" umas dez vezes. O gato Cebola acordou com a gritaria e saiu de baixo da cadeira ofendido, com o rabo em pé.

A Bia correu para o espelho do corredor e ficou olhando para o próprio sorriso, que agora tinha uma janelinha no meio. Passou a língua no lugar vazio. Era macio, quentinho e completamente novo.

— Você vai deixar debaixo do travesseiro? — perguntou o irmão, encostado na porta.

— Vou.

— Sabe que ela leva, né? Leva mesmo. Some.

— Eu sei.

— E o que será que ela faz com tanto dente? — disse o irmão, e deu de ombros, e foi buscar sobremesa, como quem não tinha acabado de fazer a maior pergunta do mundo.

A Bia ficou parada ali no corredor, pensando naquilo. Milhares de dentes. Milhões, quem sabe. Onde é que cabe uma coisa dessas? Ela imaginou prateleiras. Imaginou potinhos. Imaginou uma sala enorme com uma luz meio azulada dentro, e desistiu de imaginar no meio, porque não conseguia chegar até o fim.

O salão onde a Fada Denteira guarda os dentinhos

E aí, quando a festa acabou e ela foi guardar o dente numa caixinha para colocar debaixo do travesseiro, veio o problema.

O dente não estava mais na mão dela.

A Procura

Procuraram em tudo.

Debaixo da mesa. Dentro do guardanapo. No prato, garfada por garfada. Atrás da geladeira, que o pai puxou fazendo cara de esforço. No sofá, com a lanterna do celular. Na frestinha entre as tábuas do chão da cozinha, com um garfo, o que não deu certo e quase entortou o garfo.

— Você estava com ele na mão quando levantou da mesa? — perguntou a mãe.

— Estava.

— E foi até onde?

— Até o espelho. E depois na cozinha. E depois eu não sei mais.

O irmão refez o caminho inteiro, olhando para o chão como um detetive de televisão. O Cebola acompanhou tudo de longe, sentado na porta, com aquela cara de gato que sabe de alguma coisa e não vai contar.

Nada.

A Bia sentou no chão da cozinha e ficou muito quieta.

O relógio da parede fazia tique. A torneira pingava de vez em quando, sem pressa nenhuma.

— A gente conta pra ela — disse a mãe, ajoelhando ao lado. — Deixa um bilhete explicando.

— Mas ela não vai acreditar — disse a Bia, com a voz tremendo um pouquinho. — Vai achar que eu perdi de bobeira.

— Bia, foi sem querer.

— É que era o primeiro — disse a Bia.

E aí ela chorou um tiquinho, do jeito que a gente chora quando não é bem tristeza, é outra coisa que ainda não tem nome. Era um choro pequeno, sem barulho nenhum, que molhava só o comecinho dos cílios.

A menina sentada no chão da cozinha, consolada pela mãe depois da procura sem sucesso

A mãe não falou "não chora". Não falou "é só um dente". Ficou ali com ela, sentada no chão frio da cozinha, com a mão nas costas da Bia, até passar.

Depois subiram. A Bia escreveu o bilhete com a letra mais caprichada que conseguiu, apagando duas vezes o "desculpa" porque saía torto:

Querida Fada Denteira. Meu dente caiu hoje mas ele sumiu. Eu procurei muito. Desculpa. Bia.

Pensou mais um pouco e desenhou embaixo um dentinho com dois risquinhos de luz saindo dele, para ficar mais fácil de acreditar.

Colocou o papel debaixo do travesseiro, ajeitou bem no meio, deitou e apagou a luz.

A Visita

A Bia acordou porque o quarto estava com uma luz diferente.

Não era a luz do corredor, que é amarela e fica parada. Era uma luz azulzinha, tremeluzente, que subia e descia devagar perto da janela — como se alguém tivesse soltado um vaga-lume grande ali dentro.

Ela ficou paradinha embaixo do cobertor, com o coração batendo forte.

A luz foi se aproximando. Pousou no criado-mudo, bem do lado da cabeça dela.

E era uma fada.

Uma fada pequenininha, do tamanho de uma colher de sobremesa, com asas que faziam um zumbidinho baixo de beija-flor, cabelo preso num coque bagunçado e uma bolsa a tiracolo que parecia pesada demais para alguém daquele tamanho. Estava lendo o bilhete da Bia com uma lupa.

— Ah — disse a fada, sem levantar os olhos. — Então foi aqui.

A Bia não conseguiu falar nada.

A fada dobrou o bilhete com cuidado, guardou na bolsa e olhou para a cama.

— Pode sair de baixo do cobertor. Eu sei que você está acordada. Todo mundo finge que está dormindo, é sempre igual. Vocês respiram diferente quando estão fingindo.

A Bia colocou a cabeça para fora, devagarinho.

— Eu perdi o meu dente — sussurrou ela.

— Eu li — disse a fada. Sentou na beirada do criado-mudo, com as pernas balançando no ar, e ajeitou a bolsa no colo. — Deixa eu te contar uma coisa: em quatrocentos anos de trabalho, sabe quantos dentes sumiram assim, na hora errada?

A fadinha sentada na beirada do criado-mudo conversando com a menina na cama

A Bia balançou a cabeça.

— Muitos. Muitos mesmo. Caem no ralo, viram lanche de cachorro, ficam presos no forro do sofá. Uma vez um menino engoliu o dele junto com um pedaço de bolo.

A Bia deu uma risadinha, mas parou logo, porque ainda estava preocupada.

— Então tudo bem?

— Tudo bem — disse a fada. — Mas eu preciso da sua ajuda para achar. É a regra: o dente tem que ser encontrado por quem perdeu.

— Por quê?

— Porque ele é seu — respondeu a fada, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Eu só levo o que já foi encontrado.

O Truque da Fada

A fada tirou da bolsa um saquinho de veludo, desamarrou o cordãozinho com os dentes e derramou na palma da mão um punhado de poeirinha que brilhava como areia de praia no sol.

— Sopra — disse ela, estendendo a mão em direção à Bia. — Devagar. É sopro de vela de aniversário.

A Bia soprou.

A menina soprando a poeirinha brilhante da mão da fadinha dentro do quarto escuro

A poeirinha subiu no ar e ficou boiando, e aí, em vez de cair, começou a andar — devagarzinho, atravessando o quarto, saindo pela porta, descendo a escada degrau por degrau, como um fiozinho de luz sem pressa nenhuma.

A Bia foi atrás, descalça, de pijama, com a fada zumbindo ao lado da orelha dela. O corrimão estava frio. O terceiro degrau rangeu, como sempre range, e as duas pararam no meio da escada, esperando — mas a casa continuou dormindo.

A trilha de brilho desceu até a cozinha.

Passou pela mesa. Contornou a cadeira. E parou bem em cima da tigela de ração do gato.

A Bia levou a mão à boca.

— Não! — sussurrou. — O Cebola comeu meu dente?

O Cebola, que dormia enroscado em cima da máquina de lavar, abriu um olho só. Depois fechou. Não parecia nem um pouquinho culpado, mas gato nunca parece.

A fada foi até lá, espiou dentro da tigela e voltou balançando a cabeça.

— Olhe embaixo.

A Bia se abaixou, encostou a bochecha no chão frio e olhou debaixo da tigela.

E lá estava ele: pequenininho, branquinho, encostado no rodapé, exatamente onde ninguém tinha pensado em procurar porque estava óbvio demais.

— Achei — disse a Bia, e a voz dela saiu esquisita, meio rindo e meio outra coisa.

— Claro que achou — disse a fada.

A menina com a bochecha no chão encontrando o dentinho embaixo da tigela do gato

O Lugar Onde Ficam Guardados

A Bia pegou o dente e ficou olhando para ele na palma da mão.

Era tão pequeno. Menor do que ela imaginava. Quase do tamanho de um grão de arroz, com uma raiz curtinha que já não servia mais para nada.

— Posso perguntar uma coisa? — disse ela. — O que você faz com eles?

A fada ajeitou a alça da bolsa no ombro e ficou quieta um tempo.

— Quer ver?

— Quero.

Ela soprou mais um pouquinho de pó na direção da parede, e a parede da cozinha ficou como fica a água de uma poça quando alguém joga uma pedra: toda ondulada. E dentro daquelas ondas apareceu um lugar.

Era uma sala enorme, sem fim que se pudesse ver, com prateleiras subindo até onde a vista alcançava. E em cada prateleira, milhares e milhares de potinhos de vidro, cada um com um dentinho dentro, cada um com uma etiqueta.

E cada potinho brilhava um pouquinho — uns mais fortes, uns mais fraquinhos, como estrelas de tamanhos diferentes.

Aquele lugar não fazia barulho nenhum.

— O que é essa luz? — perguntou a Bia.

— É o que a criança era quando o dente caiu — disse a fada, e a voz dela ficou mais baixinha. — A gente não guarda o dente, Bia. A gente guarda o dia.

A Bia olhou aquilo tudo por um tempo bem longo.

— Então eu não vou mais ser a Bia de agora?

— Vai ser outra Bia. Melhor, provavelmente. Mais alta, com certeza. — A fada sorriu de lado. — Mas essa daqui — e apontou para o dente na mão dela — essa fica guardada. Ninguém perde nada de verdade.

A parede voltou a ser parede. Era só uma parede de cozinha outra vez, com o calendário torto.

De Volta para a Cama

A Bia subiu a escada com o dente fechado na mão, pisando no cantinho do terceiro degrau para ele não ranger, deitou e colocou ele debaixo do travesseiro, no lugar certo dessa vez.

A menina guardando o dentinho debaixo do travesseiro enquanto a fadinha voa para a janela

— Fada?

— Oi.

— Dói perder os outros também?

— Um pouquinho — disse a fada, já indo em direção à janela. — Mas cada vez menos. E, olha, você ainda tem dezenove.

— Dezenove — repetiu a Bia, tentando contar no escuro e se perdendo na conta.

— Boa noite, Bia.

— Boa noite.

A luz azulzinha deu uma última voltinha no teto e sumiu pela fresta da janela.

A Bia riu sozinha, com a janelinha nova no meio do sorriso, e dormiu antes de acabar de rir.

De manhã, quando acordou, o dente não estava mais lá.

No lugar dele havia uma moeda — e, junto, um pedacinho de papel do tamanho de uma unha, escrito com uma letra minúscula e caprichada:

Achado por quem perdeu, como manda a regra. Prateleira 4.812. Guardado com cuidado.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. A Bia ficou feliz e um pouquinho triste ao mesmo tempo. Dá para sentir as duas coisas juntas?
  2. Se você pudesse guardar uma lembrança de quando era menor, qual seria?
  3. O que você acha que a Fada Denteira faz com todos aqueles dentinhos?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir. A tradição de deixar o dente de leite debaixo do travesseiro existe em muitos países, com personagens diferentes — em alguns lugares quem busca é um ratinho, e não uma fada. Nossa história parte desse costume e inventa o resto.

Perguntas frequentes sobre A Fada Denteira e o Dente de Leite Perdido

Esta história é boa para quando a criança está perdendo o primeiro dente?

É exatamente para isso. Ela trata da mistura de orgulho e susto que a fase costuma trazer, e transforma a queda do dente em sinal de crescimento — sem esconder que dá um friozinho na barriga.

Qual é a moral da história?

Que crescer envolve deixar coisas para trás, e que isso pode ser bonito. O dente que cai não desaparece: vira lugar para o que está chegando.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 8 anos, faixa em que os dentes de leite costumam começar a cair. Funciona bem lida na própria noite em que o dente caiu.

Que tal a história de amanhã?