Contos para Dormir
Ilustração do conto A Cuca que Tinha Medo de Criança

A Cuca que Tinha Medo de Criança

Todo mundo dizia que a Cuca pegava criança. Ninguém sabia que ela atravessava a rua para não passar perto de uma.

Equipe Contos para Dormir ·

Quase toda fama ruim é feita por gente que nunca chegou perto

Na vila do Cedro, todo mundo sabia da Cuca.

As mães falavam dela na hora do jantar:

— Come tudo, senão a Cuca vem.

As avós falavam na hora do banho:

— Sai da água, senão a Cuca leva.

E as crianças repetiam umas para as outras no recreio, com detalhes que iam ficando maiores a cada semana.

Diziam que ela tinha cabeça de jacaré.

Diziam que ela andava no telhado.

Diziam que ela pegava criança que não dormia e levava numa sacola.

O que ninguém sabia é que, do outro lado da vila, na casa velha do fim da estrada, a Cuca tinha muito, muito medo de criança.

Uma figura estranha e simpática de cabeça de jacaré espiando por trás de uma janela velha à noite

O Segredo da Casa Velha

A Cuca morava sozinha desde sempre.

Ela era baixinha, tinha mesmo cabeça de jacaré, e usava um xale de crochê que ela mesma tinha feito, porque não tinha mais nada para fazer à noite.

Ela saía de casa só depois que a vila apagava as luzes.

Ia até o riacho buscar água. Colhia goiaba. Voltava.

E se por acaso ouvisse voz de criança na estrada, ela pulava atrás de um arbusto e ficava lá, encolhida, com o coração disparado, até o barulho passar.

Criança, para a Cuca, era a coisa mais assustadora do mundo.

Elas gritavam do nada.

Elas corriam em direções imprevisíveis.

Elas apontavam.

E, principalmente, elas contavam umas para as outras histórias horríveis sobre ela — que a Cuca escutava escondida, atrás dos arbustos, e que a deixavam sem dormir.

— Cabeça de jacaré — ela murmurava, voltando para casa. — Bom, essa parte é verdade.

Mas sacola? Ela não tinha sacola nenhuma.

Ela tinha um balde, uma panela, três colheres e o xale.

Uma vez, só uma vez, ela pensou em ir até a vila de dia e explicar tudo.

Ensaiou a fala inteira no espelho rachado da cozinha.

"Bom dia. Eu sou a Cuca. Eu não pego criança. Eu como goiaba."

Chegou até o começo da estrada.

Aí escutou um grito de criança brincando lá longe, deu meia-volta e não saiu mais de casa por duas semanas.

A Menina que Não Dormia

Manu tinha sete anos e não conseguia dormir.

Não era medo. Era só aquela coisa de a cabeça continuar funcionando depois que a casa parou.

Numa noite de lua cheia, cansada de olhar o teto, ela se levantou, foi até a janela e viu.

Uma figura pequena, de xale, passando pela estrada com um balde.

Manu não gritou.

Ela ficou olhando.

E reparou numa coisa que ninguém na vila tinha reparado: a figura andava colada no muro, olhando para trás toda hora, do jeito que anda quem está com medo.

Na noite seguinte, Manu esperou de novo.

E na outra.

Na quarta noite, ela desceu e sentou no degrau da frente de casa, quietinha, com as mãos no colo.

Quando a Cuca apareceu na estrada e viu a menina ali, ela largou o balde e correu.

Correu tanto que perdeu um chinelo.

Um chinelo de pano esquecido numa estrada de terra ao luar, com um balde caído ao lado

O Chinelo

No dia seguinte, Manu foi até a casa do fim da estrada.

Ela bateu na porta.

Silêncio.

Bateu de novo.

— Eu trouxe seu chinelo — ela disse, alto. — Está na soleira. Não precisa abrir.

E foi embora.

No outro dia ela voltou com goiaba, das boas, do quintal da vó dela.

— Deixei aqui na janela.

E foi embora.

No terceiro dia, quando Manu chegou, a porta estava aberta um dedinho.

E de dentro, bem baixinho, veio uma voz:

— Você não vai gritar?

— Não.

— Nem apontar?

— Nem.

A porta abriu mais um pouco.

— Nem contar para os outros?

Manu pensou um instante, porque era uma pergunta séria.

— Vou contar — ela disse. — Mas vou contar direito.

E foi assim que, na vila do Cedro, a história começou a mudar de boca em boca — só que ao contrário dessa vez.

Primeiro contaram que a Cuca não pegava criança.

Depois que ela fazia crochê.

Depois que a goiaba do quintal da vó da Manu era a melhor da região, e que tinha uma senhora de cabeça de jacaré que concordava plenamente.

Hoje em dia, na vila do Cedro, ainda tem mãe que fala da Cuca na hora do jantar.

Só que agora é assim:

— Come tudo, que a Cuca vem tomar café amanhã e não quer ver prato sujo.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Como será que começou a história de que a Cuca pega criança?
  2. Você já teve medo de alguém e depois descobriu que era gente boa?
  3. O que a Manu fez de diferente de todo mundo da vila?

Sobre esta história

A Cuca é uma personagem do folclore brasileiro, de domínio público, cuja figura vem da Coca portuguesa — um jacaré-dragão que aparecia em procissões medievais. A versão que a maioria conhece hoje, com nome e feitio próprios, foi criada por Monteiro Lobato e não é usada aqui: nossa Cuca vem da figura folclórica antiga, e a história em si é original do Contos para Dormir.

Perguntas frequentes sobre A Cuca que Tinha Medo de Criança

Esta história é assustadora?

Não, e é meio o contrário: a história pega uma figura que costuma assustar criança e mostra que ela é medrosa e sozinha. Não há susto, perseguição nem perigo em momento nenhum.

Serve para criança com medo de bicho-papão?

Serve bem. Em vez de dizer que a Cuca não existe, a história mostra uma Cuca inofensiva e assustada — o que costuma funcionar melhor com criança pequena do que negar o medo.

De onde vem a Cuca?

Do folclore brasileiro, e antes dele da Coca portuguesa, um jacaré-dragão que desfilava em procissões antigas. É uma figura de domínio público, muito mais velha que qualquer versão de livro ou desenho.

Quanto tempo leva para ler esta história?

Cerca de 6 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do site.

Que tal a história de amanhã?