
A Tartaruga e a Lebre: Quem Chega Primeiro?
A lebre é a mais veloz da floresta, mas a tartaruga aceita a corrida. Uma história sobre calma, constância e chegar lá.
Numa manhã de sol na floresta, a mais veloz de todos aprendeu uma lição do animal mais devagar
Havia na floresta uma lebre que corria como o vento.
Ela sabia disso. E, o que é pior, gostava muito de lembrar todo mundo disso.
De manhã, atravessava a clareira num borrão cinzento e gritava para os que estavam tomando café:
— Viram? Nem deu tempo de piscar!
À tarde, dava três voltas no lago só para os patos aplaudirem. Os patos aplaudiam, porque patos são educados.
À noite, quando os vaga-lumes acendiam e todo mundo queria só ouvir os grilos, a Lebre contava de novo, com detalhes, a corrida da manhã. Contava a curva perto do salgueiro e imitava o barulho do vento nas orelhas.
Os outros bichos já sabiam de cor.
O Desafio
Numa manhã, a Lebre passou pela beira do riacho e encontrou a Tartaruga.
A Tartaruga estava fazendo o que a Tartaruga fazia todos os dias: caminhando devagarinho de um lado para o outro, cumprimentando quem passava, olhando as flores. Estava parada na frente de uma margarida havia um tempinho. Não porque estivesse cansada. Porque a margarida era bonita.
A Lebre parou. Deu uma risadinha.
— Ai, Tartaruga. Como você aguenta?
— Aguento o quê? — perguntou a Tartaruga, sem se ofender.
— Ser assim. Devagar desse jeito. Você não cansa de chegar sempre por último?
A Tartaruga pensou um pouquinho. Depois respondeu com uma calma que ninguém esperava:
— Eu chego.
— Chega quando? No ano que vem? — a Lebre riu tão alto que espantou dois pardais do galho. — Olha, eu vou até apostar. Corrida, você e eu, daqui até o carvalho grande do outro lado da colina. Quer?
Os bichos que estavam por perto pararam para ouvir. Um esquilo cutucou o outro. O sapo que tomava sol na pedra abriu um olho só.
A Tartaruga olhou para a colina lá longe. Era uma subida comprida, de terra batida, com um trecho no meio tão íngreme que até as cabras subiam devagar. Depois olhou para as próprias patas curtinhas. Depois olhou de volta para a Lebre.
— É longe — disse ela.
— É — concordou a Lebre, achando graça.
— Mas é um caminho — disse a Tartaruga. — E caminho a gente anda.
E completou:
— Quero.
A floresta inteira soltou um "oooh".
A Largada
A corrida ficou marcada para o dia seguinte, de manhã cedo.
Naquela noite, a Lebre quase não dormiu, de tanto explicar para os vizinhos o tamanho da vantagem que ia tirar. A Tartaruga dormiu muito bem.
Quando o sol apareceu, já havia bicho por todo lado: passarinhos nos galhos, sapos empoleirados nas pedras, uma família inteira de ouriços sentada na grama. O ar cheirava a mato molhado e a terra fresca. A velha coruja, que era a mais respeitada, ficou encarregada de dar a largada.
— A regra é uma só — anunciou ela. — Do riacho até o carvalho grande. Pode ir devagar. Não pode desistir.
A Lebre alongou uma perna, depois a outra, e piscou para a plateia.
A Tartaruga só ajeitou o casco nas costas.
— Um… dois… três… já!
A Lebre saiu.
Foi tão rápido que levantou poeira e derrubou o chapéu de um caracol que assistia da beirada. Em poucos segundos, já era um pontinho subindo a colina.
A Tartaruga saiu também.
Um passo. Depois o outro. Depois o outro.
Alguns bichos deram risada. A Tartaruga não olhou para os lados, não respondeu, não apressou nada. Só foi.
O Cochilo
Lá em cima, na metade do caminho, a Lebre parou e olhou para trás.
Não conseguiu nem enxergar a Tartaruga. Era um pontinho escuro lá embaixo, quase no lugar da largada.
— Não é possível — riu ela. — Isso não é corrida, isso é passeio.
Comeu três folhas de trevo, contou até vinte e olhou outra vez: o pontinho tinha andado mais ou menos o tamanho de um dedo.
Foi então que a Lebre reparou numa sombra fresquinha debaixo de uma figueira. A grama ali era daquelas macias, que afundam quando a gente pisa. O vento fazia aquele barulhinho bom nas folhas. E cheirava a figo maduro.
E a Lebre pensou o pensamento que estraga tudo:
Eu já ganhei mesmo. Dá tempo de descansar um pouquinho.
Deitou-se na sombra. Esticou as pernas compridas. Combinou consigo mesma que ia contar até cem e levantar.
Chegou no trinta e alguma coisa. Fechou os olhos só um instantinho.
E dormiu.
Um Passo, Depois o Outro

Enquanto isso, lá embaixo, a Tartaruga continuava.
Um passo. Depois o outro.
Passou pela pedra grande, a mesma onde o sapo tomava sol de manhã. Um passo, depois o outro.
Passou pelo capim alto, que fazia cócegas no pescoço dela. Um passo, depois o outro.
Chegou no trecho íngreme, o mais difícil de todos. Ali o sol batia em cheio e o casco esquentava feito telhado ao meio-dia. A terra virava pó e o pó grudava nas patas. As cigarras cantavam tão alto que parecia que o calor tinha voz.
Cada passo precisava ser firmado direitinho antes do seguinte. Uma vez uma pedrinha rolou e a Tartaruga escorregou um tiquinho para trás.
Ela não brigou com a pedrinha. Esperou o coração sossegar, encaixou a pata no mesmo lugar de novo e empurrou.
Um passo. Depois o outro.
No meio da subida, um besouro que vinha descendo pelo outro lado da trilha parou para olhar.
— Você está indo pro carvalho? — perguntou ele.
— Estou.
— É longe, hein.
— É — disse a Tartaruga. — Mas eu não preciso chegar lá agora. Agora eu preciso chegar ali.
E indicou com o queixo uma pedrinha branca logo adiante, a uns cinco passos de distância.
O besouro achou aquilo meio esquisito e seguiu o caminho dele. A Tartaruga chegou na pedrinha branca. Depois escolheu um tufo de mato mais à frente, e chegou nele também. Depois um galho caído. Depois uma poça seca.
Foi assim que ela subiu a colina inteira: em pedacinhos do tamanho dela.

Quando a subida acabou e o chão ficou plano de novo, a Tartaruga parou um tiquinho. Não para descansar: só para ter certeza de que era mesmo o fim da parte difícil. Era.
Ninguém estava aplaudindo. Os bichos da largada já tinham voltado para casa achando que aquilo estava decidido. Os passarinhos foram cuidar dos ninhos, os ouriços foram almoçar, e até o esquilo curioso cansou de esperar.
A trilha ficou só dela.
E aconteceu uma coisa engraçada: sem ninguém olhando, andar não ficou mais difícil. Ficou mais quieto. E num lugar quieto é bem mais fácil contar os passos.
Um passo. Depois o outro.
Foi assim que ela chegou na figueira.
A Lebre estava lá, de barriga para cima, roncando baixinho. Uma orelha comprida balançava sozinha cada vez que ela respirava. A sombra era larga, e fresca, e cheirava a figo maduro.
A Tartaruga sentiu a fresquinha bater na cabeça e, por um instante, pensou que também merecia sentar um pouquinho.
Pensou. Mas não sentou.
Passou pela figueira onde a Lebre roncava e nem parou para olhar de novo. Não foi maldade. É que ela tinha uma coisa para fazer, e essa coisa era o passo seguinte.
Deu dois passos, três, e a sombra ficou para trás. O sol voltou a bater quente no casco. Doeu um tiquinho sair da parte boa do caminho — mas o caminho continuava, e ela também.
Uma borboleta amarela pousou no casco dela e viajou um trecho de carona. A Tartaruga não reclamou. Achou até bom ter companhia.

Um passo, depois o outro.
Chegou na descida. Ali o caminho ajudava um pouquinho, e a Tartaruga aceitou a ajuda sem se afobar, porque quem se afoba na descida acaba rolando. Um passo, depois o outro.
E o carvalho grande, que de manhã parecia impossível de tão longe, começou a ficar maior. E maior. E maior.
Primeiro dava para ver só o tronco. Depois deu para ver os galhos. Depois as folhas mexendo com o vento. Depois a sombra redonda que ele fazia no chão — e a Tartaruga pensou que ia ser muito bom sentar naquela sombra.
Só que ainda faltava um pedaço. E o que falta a gente anda.
O Acordar
A Lebre acordou com um barulho.
Não era o vento. Não era figo caindo no chão. Era barulho de bicho batendo palma. Muitos bichos, longe, lá embaixo, do outro lado da colina.
Ela abriu os olhos, viu o sol já alto no céu e levou um instante para lembrar onde estava e por quê.
Quando lembrou, sentiu o coração despencar.
Levantou num pulo, tropeçou na própria pata, se endireitou e disparou colina abaixo mais rápido do que jamais havia corrido na vida. As orelhas coladas na cabeça. A poeira subindo atrás. O vento fazendo nas orelhas dela aquele barulho que ela tanto gostava de imitar — só que dessa vez ela nem escutou.

Passou pelo capim alto. Passou pela pedra grande. Passou pelo lugar de onde tinha visto o pontinho escuro de manhã, e o pontinho não estava mais lá.
Correu como nunca tinha corrido para plateia nenhuma. E, pela primeira vez na vida, correr não estava adiantando.
Mas quando chegou ao carvalho grande, a Tartaruga já estava lá.
Sentada à sombra, com o casco encostado no tronco, respirando fundo. Cercada de bichos — a coruja, os ouriços, os patos que tinham subido do lago e até o caracol do chapéu, que saiu do riacho de manhã cedo e chegou bem na hora de assistir.
Os bichos abriram espaço para a Lebre passar. Ninguém vaiou. Foi até pior: ninguém disse nada.
A Lebre parou, ofegante, sem conseguir falar. Ficou ali esperando o fôlego voltar. E esperando passar outra coisa também, que era uma vontade danada de chorar.
A Tartaruga olhou para ela. E não riu, nem provocou, nem disse nada do que a Lebre teria dito no lugar dela.
Só falou:
— Você corre muito mesmo. É verdade.
A Lebre olhou para o chão. Empurrou uma folhinha de um lado para o outro com a pata.
— Eu parei — disse, baixinho.
— Pois é — disse a Tartaruga. — Eu não.
A Lebre ficou um tempo calada, mexendo na folhinha.
— Eu achei que já tinha ganhado — falou por fim.
— Eu sei — disse a Tartaruga. — Quase todo mundo acha, quando está na frente.
— E aí para.
— E aí para — disse a Tartaruga.

Ninguém caçoou. Os bichos ficaram quietos um pouquinho, do jeito que a gente fica quando entende uma coisa importante e ainda está arrumando lugar para ela.
Depois a Coruja anunciou que estava na hora do almoço, todo mundo riu, e a corrida acabou ali.
Depois da Corrida
Dizem que a Lebre nunca mais gabou-se na clareira de manhã.
Ela continuou correndo, porque correr era bom e porque as pernas dela pediam. Mas parou de correr só para os outros verem. E, quando alguém puxava o assunto da corrida, era ela mesma quem contava a história inteira, sem tirar nem pôr, inclusive a parte da figueira.
O caracol do chapéu contava também, sempre com um detalhe a mais: jurava que viu a Tartaruga passar pela figueira e que ela ia com uma cara de quem sabia exatamente onde estava indo.
E dizem também que ela e a Tartaruga acabaram ficando amigas — e que, de vez em quando, faziam o mesmo caminho até o carvalho grande, sem corrida nenhuma, só para conversar.
A Lebre ia devagar, do lado da amiga. Devagar assim dava para ver a pedra grande direito, e o capim alto, e a figueira, e a sombra redonda chegando de pouquinho em pouquinho.

Descobriu que, no caminho, havia flores.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Por que você acha que a Lebre resolveu tirar um cochilo no meio da corrida?
- A Tartaruga sabia que era mais lenta e mesmo assim aceitou correr. Isso foi coragem ou teimosia?
- Tem alguma coisa que você está aprendendo devagar, um pouquinho de cada vez?
Sobre esta história
A Tartaruga e a Lebre é uma das fábulas atribuídas a Esopo, contador de histórias que teria vivido na Grécia por volta do século VI a.C. As fábulas de Esopo circularam oralmente por séculos antes de serem reunidas por escrito, e chegaram até nós em incontáveis versões — esta é a nossa, escrita em linguagem atual, mantendo o enredo tradicional da corrida e do cochilo.
Perguntas frequentes sobre A Tartaruga e a Lebre: Quem Chega Primeiro?
Qual é a moral da fábula da Tartaruga e a Lebre?
Devagar e sempre se chega mais longe do que rápido e com pausas. A fábula mostra que constância vence talento desperdiçado — e que subestimar o outro costuma custar caro.
Quem escreveu A Tartaruga e a Lebre?
A fábula é atribuída a Esopo, que teria vivido na Grécia antiga por volta do século VI a.C. Não há texto original preservado dele: as histórias circularam de boca em boca e foram registradas por escrito séculos depois, o que explica a existência de tantas versões diferentes.
O que é uma fábula?
É uma história curta, quase sempre protagonizada por animais que falam e agem como pessoas, terminando com uma lição clara. O formato é antigo e existe em praticamente todas as culturas, justamente porque é fácil de memorizar e de recontar.
Para que idade esta fábula é indicada?
A partir dos 3 anos. É curta, o enredo é simples de acompanhar e a lição aparece de forma bem concreta — a criança consegue perceber sozinha onde a Lebre errou, o que rende boas conversas.


