
Dona Lentina, o Correio do Mar
A tartaruga mais devagar do oceano é também a única que entrega todas as cartas. Hoje, porém, chegou uma carta urgente — e todo mundo acha que ela não vai dar conta.
No fundo do mar também tem correio — e o carteiro mais confiável do oceano usa casco e não tem pressa nenhuma
No recife das cem cores, todo mundo conhecia a Dona Lentina.
Ela era uma tartaruga-do-mar antiga, com o casco cheio de adesivos de viagens e uma bolsa de couro de alga pendurada no pescoço. Dentro da bolsa: cartas. Cartas de todos os tamanhos, para todos os cantos do oceano.
Dona Lentina era o correio do mar.
Ela nadava devagar. Bem devagar. Devagar de dar vontade de empurrar. Mas tinha uma coisa que ninguém podia negar: carta com a Dona Lentina chegava sempre.
Naquela manhã, o polvo do correio içou uma bandeirinha vermelha:
— Carta urgente! Urgentíssima! Para a Baleia Bartolomeu, do outro lado do mar! É o convite do aniversário dela, que é amanhã de manhã — e sem o convite, a Bartolomeu não vai saber da própria festa!
— Deixa comigo! — gritou o peixe-agulha, que era o nadador mais rápido do recife. — Chego lá antes do almoço!
E zuuuum! — saiu feito flecha, levantando areia.
Dona Lentina não disse nada. Só ajeitou a bolsa no pescoço, conferiu o endereço e começou a nadar. Uma braçada... outra braçada... outra braçada.
No caminho, ela parou na toca do caranguejo Ernesto.
— Bom dia, seu Ernesto! Sua encomenda de botões chegou!
— Dona Lentina, a senhora é um anjo de casco! — disse o caranguejo. — Cuidado lá na frente: a correnteza mudou de lugar essa semana.
— Obrigada pelo aviso — sorriu ela. E seguiu. Uma braçada... outra braçada.
Mais adiante, o peixe-agulha passou por ela em disparada, voltando!
— A correnteza está um rodamoinho! — bufou ele, todo despenteado. — Me rodou três vezes e me cuspiu de volta! E eu nem sei mais para que lado fica o outro lado do mar! Desisto! Entrego amanhã... quer dizer... entrego qualquer dia!
E foi embora, resmungando bolhas.
Dona Lentina continuou. Chegando na correnteza, ela fez o que o caranguejo ensinou: desceu rente à areia, onde a água briga menos, e atravessou devagarinho, segurando firme. Do outro lado, parou para respirar na pedra da arraia Rosa.
— Dona Lentina! A senhora por aqui! — disse a arraia. — Vai longe?
— Até a Baleia Bartolomeu, com carta urgente.
— Então pega carona no meu voo até o campo de algas, que eu ia para lá mesmo!
E lá se foi a tartaruga, de carona na arraia, planando sobre o jardim de corais — ela, que tinha entregado tantas cartas de aniversário da Rosa, tantas receitas da avó polvo, tantos "melhoras" para o baiacu gripado.
No campo de algas, o cavalo-marinho Fino apontou o atalho entre as pedras verdes. Na floresta de kelp, os peixinhos-lanterna acenderam as luzinhas para ela não errar a curva. Todo mundo tinha um pedacinho de caminho para oferecer — porque a Dona Lentina, em todos esses anos, nunca tinha passado por ninguém sem um bom dia.
Quando o mar ficou fundo e azul-escuro, e a lua acendeu lá em cima do teto d'água, Dona Lentina chegou.
A Baleia Bartolomeu dormia como uma montanha que respira.
— Correio! — disse Dona Lentina, baixinho, do jeito que se fala com quem está quase dormindo.
A baleia abriu um olho do tamanho de uma janela.
— Dona Lentina...? A essa hora?
— Carta urgente — disse a tartaruga, entregando o envelope com selo de estrela-do-mar. — Feliz aniversário adiantado, dona Bartolomeu.
A baleia leu o convite. E sorriu um sorriso de quarenta metros.
— Minha festa... amanhã de manhã... e eu ia dormir direto até quinta! — Ela olhou para a tartaruga pequenininha na frente dela. — Como foi que a senhora chegou tão longe, tão certinho?
Dona Lentina pensou um pouco. Ajeitou a bolsa vazia.
— Uma braçada de cada vez — disse ela. — E muitos amigos pelo caminho.
Naquela noite, Dona Lentina dormiu num ninho de algas macias que a baleia arrumou para ela, embalada pelo mar fundo, que é o lugar mais silencioso do mundo.
E no dia seguinte, na festa, adivinha quem chegou por último, e foi recebida com a maior salva de bolhas do oceano?
Devagarinho... devagarinho... como você está ficando agora, aí nessa cama quentinha.
Uma braçada... outra braçada... e bons sonhos.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- O peixe-agulha era muito mais rápido. Por que foi a Dona Lentina quem conseguiu entregar a carta?
- Quem ajudou a Dona Lentina no caminho? Por que será que todo mundo queria ajudar logo ela?
- Tem alguma coisa que você está aprendendo devagarzinho? Como a gente pode continuar tentando amanhã?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir, no espírito das fábulas clássicas — a lebre e a tartaruga são parentes distantes desta história. Aqui, porém, a constância ganha uma sócia: a gentileza. As paradas de Dona Lentina para cumprimentar cada vizinho parecem atraso, e são exatamente o que faz a entrega dar certo.
Perguntas frequentes sobre Dona Lentina, o Correio do Mar
Para que idade é indicada?
Dos 3 aos 6 anos. A jornada é simples de acompanhar, os personagens do caminho se repetem na volta — o que os pequenos adoram prever — e o final é manso, no ritmo da hora de dormir.
Quanto tempo leva para ler?
Cerca de 7 minutos em voz alta. Dá para esticar fazendo as vozes: o peixe-agulha fala rápido, a baleia fala fundo e devagar, e Dona Lentina fala com toda a calma do mundo.
Qual é a diferença desta história para a fábula da lebre e da tartaruga?
A raiz é a mesma — devagar e sempre —, mas aqui não há corrida nem perdedor: o peixe-agulha desiste porque não conhece o caminho nem os vizinhos. A história acrescenta a segunda lição: quem trata bem o caminho é ajudado por ele.
Este conto acalma na hora de dormir?
Sim. O ritmo da narrativa é o ritmo da própria Lentina: começa em festa de recife e termina em mar fundo, quieto e azul-escuro, com todo mundo bocejando.


