Contos para Dormir
Ilustração do conto A Sereia que Queria Aprender a Voar

A Sereia que Queria Aprender a Voar

Marina é uma sereia que olha para as gaivotas e sonha em voar. Todos dizem que é impossível. Será mesmo?

Equipe Contos para Dormir ·

No recife mais colorido do mar, uma sereiazinha passava as tardes olhando para cima

Marina morava no recife de Água Clara, onde os corais eram cor-de-rosa e laranja e os peixes passavam em cardumes tão grandes que escureciam a água por um instante.

Era um recife barulhento, para quem sabia escutar. Os camarões estalavam as pinças o dia inteiro. Os peixes-papagaio raspavam o coral com um barulhinho de quem está comendo torrada. E de manhã cedo, quando a luz descia em faixas até o fundo, dava para ouvir a areia se mexendo.

Era uma sereia como as outras em quase tudo: nadava rápido, cantava razoavelmente bem, sabia o nome de todos os peixes do recife — inclusive os chatos, que ninguém se dá ao trabalho de aprender.

Só tinha uma diferença.

Todo fim de tarde, quando as outras voltavam para casa, Marina subia. Ia até a pedra grande que ficava meio de fora d'água, apoiava os cotovelos nela e ficava lá, com o sol secando o sal no ombro, olhando as gaivotas.

A Ideia

As gaivotas de Água Clara não faziam nada de especial. Rodavam em círculo, gritavam umas com as outras, brigavam por restos de peixe. Uma delas roubava comida da outra no ar, o que Marina achava feio e assistia mesmo assim.

Mas elas voavam.

E Marina não conseguia parar de pensar naquilo. Subir. Ficar no ar. Sentir o vento empurrando por baixo, em vez da água empurrando de todos os lados. Ver o recife de cima, inteiro, do jeito que ninguém do mar nunca tinha visto.

À noite ela ficava de olhos abertos tentando imaginar como seria. Não conseguia. Era como imaginar uma cor nova.

Um dia ela contou para a mãe.

— Filha, isso não existe.

— Mas e se...

— Não existe, Marina. Come a tua alga.

Contou para a melhor amiga, que tinha opinião sobre tudo.

— Marina, você tem cauda. Cauda é para nadar. — Ela falava devagar, como quem explica uma coisa simples para alguém muito teimoso. — Gaivota tem asa. Asa é para voar. É assim que funciona.

— Quem decidiu que é assim?

— Ninguém decidiu. É assim.

Contou para o velho polvo que morava na fenda e que era considerado o mais sábio do recife.

O polvo pensou com os oito braços ao mesmo tempo, que era o jeito dele, e disse:

— Sereia não voa.

— Mas por quê?

— Porque nunca voou.

Marina esperou o resto da explicação. Não veio.

Ela achou aquela a pior resposta que já tinha ouvido na vida. E o pior era que vinha do mais sábio do recife.

As Tentativas

Ela tentou de todo jeito.

Tentou pular da água com força, batendo a cauda o mais rápido que conseguia. Subia meio metro, ficava um segundo no ar e caía com um estouro que assustava os peixes. Os peixes-borboleta passaram a se esconder assim que viam Marina chegando.

Tentou com impulso maior, subindo lá do fundo. Conseguiu quase dois metros. Caiu de barriga, o que doeu na hora e doeu de novo à noite, de lembrança.

Tentou amarrar folhas de palmeira nos braços com fio de alga. As folhas se soltaram na primeira braçada e ficaram boiando lá em cima, balançando como se estivessem rindo dela. E os braços coçaram por dois dias.

Tentou de dentro de uma onda grande, achando que a onda ajudaria. A onda ajudou a jogá-la contra o recife.

Tentou de manhã, tentou de tarde, tentou na maré alta e na maré baixa.

Depois de três semanas, Marina estava roxa em vários lugares e mais teimosa do que nunca.

A Gaivota Velha

Foi então que uma gaivota pousou na pedra ao lado dela.

Era uma gaivota velha, com uma pena torta na asa esquerda e cara de quem já viu de tudo. Ficou um tempo ajeitando as penas do peito, como quem chega numa festa e finge que não veio conversar.

A gaivota velha ensina Marina a planar

— Menina — disse a gaivota. — Faz três semanas que eu te vejo espatifando na água. Dá para explicar?

Marina ficou vermelha até a ponta da orelha.

— Você estava me olhando?

— Todo mundo estava te olhando. Você cai fazendo um barulho de pedra grande.

Marina explicou. Falou depressa, com medo de ser interrompida, tudo de uma vez só: as gaivotas, a vontade de subir, a mãe, a amiga, o polvo, as folhas de palmeira. No fim já estava com a voz embargada.

— E todo mundo diz que é impossível.

A gaivota ficou um tempão calada, olhando o mar. Tanto tempo que Marina chegou a achar que ela tinha dormido de olhos abertos.

— É — disse ela por fim.

Marina baixou a cabeça. Debaixo d'água, a cauda dela parou de se mexer.

— Do jeito que você está tentando, é — completou a gaivota. — Você está tentando bater cauda como se fosse asa. Cauda não é asa. Isso não vai dar certo nem em mil anos.

— Então acabou.

— Eu não disse isso.

O Que a Gaivota Sabia

A gaivota levantou voo, deu uma volta larga por cima da pedra e pousou de novo, no mesmo lugar exato de antes.

— Você viu o que eu fiz agora?

— Você voou.

— Olha de novo. Presta atenção no meio.

Ela repetiu. Dessa vez Marina olhou de verdade: a gaivota bateu as asas com força para sair da pedra, ganhou altura, e aí parou de bater. Abriu as asas e ficou. Deslizando, inclinando de leve para um lado e para o outro, sem fazer esforço nenhum, como se estivesse deitada em cima do ar.

Uma gaivota velha de asas totalmente abertas deslizando sem bater as asas, e uma sereia menina olhando de baixo, apoiada na pedra

— Eu não bati asa nenhuma na segunda metade — disse a gaivota, pousando. — Eu só abri e deixei o vento me segurar. Isso chama planar. É o que a gente faz quando quer descansar.

Marina franziu a testa.

— Mas eu não tenho asa para abrir.

— Não tem — concordou a gaivota. — Mas me responde uma coisa: o que acontece com um golfinho quando ele salta?

— Ele sobe e cai.

— Ele sobe e cai. E o que acontece com um peixe-voador?

Marina abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.

Ela já tinha visto peixes-voadores mil vezes, e nunca tinha olhado para eles nem uma. Eles saíam da água em disparada e depois abriam as nadadeiras peitorais, grandonas, e ficavam ali — não subindo, mas sem cair — atravessando distâncias enormes rente ao mar, com a pontinha da cauda encostando na superfície de vez em quando, feito lápis riscando uma linha. Ninguém no recife achava aquilo grande coisa. Peixe-voador plana, e pronto, do mesmo jeito que a água é molhada.

— Eles planam — sussurrou ela.

— Eles planam — disse a gaivota. — Com nadadeira. Não com asa. — Ela virou a cabeça de lado, do jeito que os passarinhos fazem. — Você tem dois braços, uma cauda e uma teimosia do tamanho deste recife. Dá para trabalhar com isso.

Marina olhou para os próprios braços, depois para a cauda, como se estivesse vendo os dois pela primeira vez.

Peixes-voadores saindo do mar com as nadadeiras abertas, planando rente às ondas, e uma sereia menina os observando espantada da superfície

O Treino

Levou o resto do verão.

A gaivota velha aparecia quase todo dia, pousava na pedra e dava instruções que não eram muito gentis mas eram muito boas.

— Mais velocidade antes de sair! Você está saindo devagar demais!

— Abre os braços AGORA, não depois de sair! Depois é tarde!

— Não olha para baixo! Quem olha para baixo cai!

— O ângulo, menina! Você está saindo em pé feito rolha! Tem que sair inclinada!

— Cauda esticada! Cauda torta é a mesma coisa que asa quebrada!

Marina caiu incontáveis vezes. Caiu de lado, caiu de costas, caiu sentada — o que ela nem sabia que era possível. Bateu no recife duas. Engoliu água salgada até enjoar.

Numa tarde de agosto, depois de uma queda especialmente feia, ela ficou boiando de olhos fechados e disse que chega.

— Chega mesmo? — perguntou a gaivota.

— Chega.

— Tudo bem. — A gaivota ajeitou a pena torta. — Amanhã eu venho aqui no mesmo horário. Se você não estiver, eu entendo.

No dia seguinte Marina estava lá meia hora antes.

E foi melhorando.

Primeiro conseguiu um segundo no ar. Depois dois. Depois quatro, com os braços abertos e a cauda esticada bem reta atrás, cortando o vento em vez de brigar com ele. A gaivota nunca disse que estava bom. Disse "menos ruim", que na boca dela era quase um elogio.

No fim do verão, o difícil já não era subir. Era descer sem se espatifar.

Uma sereia menina saltando da água com os braços bem abertos e a cauda esticada, espalhando espuma, enquanto uma gaivota velha voa ao lado gritando instruções

O Dia

Numa manhã de fevereiro, com o mar liso feito vidro e o vento vindo certo do leste, Marina acordou antes do sol e soube.

Não teve aviso, não teve plano, não teve ninguém para avisar. Ela só olhou a água parada e soube que era hoje.

Desceu até o fundo do recife. Passou pelos corais cor-de-rosa, pela fenda escura do velho polvo, pelo banco de areia onde as raias dormiam enterradas com só os olhinhos de fora. Lá em cima, muito longe, a superfície era uma folha de luz.

Respirou.

E subiu com tudo.

Bateu a cauda como nunca tinha batido na vida, ganhando velocidade metro a metro, o recife virando um borrão colorido dos dois lados, os ouvidos zumbindo.

Rompeu a superfície num ângulo aberto, abriu os braços no instante exato, esticou a cauda, e o vento a segurou.

Ela ficou no ar.

Não um segundo. Não quatro.

Ficou tempo suficiente para atravessar o recife inteiro de ponta a ponta — e viu tudo. Viu os corais cor-de-rosa e laranja formando desenhos que ninguém lá de baixo imaginava, uns redondos, uns em espiral, como se alguém tivesse pintado o fundo do mar de propósito para ser visto dali de cima. Viu o cardume de sardinhas virando junto, feito uma única coisa prateada mudando de ideia. Viu a fenda do velho polvo, a pedra da mãe dela, a casa de todo mundo, ao mesmo tempo.

Viu o azul do mar acabar numa linha e virar o azul do céu.

E ouviu uma coisa com que não contava: silêncio. Sem estalo de camarão, sem raspar de peixe-papagaio, sem barulho de água nenhum. Só o vento passando pelas orelhas dela.

Vista do alto: uma sereia menina planando de braços abertos sobre o recife colorido, com um cardume prateado desenhando uma curva na água azul lá embaixo

Depois desceu, e a entrada na água foi limpa, quase sem barulho.

O Que Contaram Depois

Quando Marina voltou ao recife, havia uma multidão esperando.

A mãe chorava e dizia que aquilo tinha sido a coisa mais bonita e mais perigosa que ela já tinha visto, nessa ordem. A melhor amiga gritava tanto que não dava para entender nenhuma palavra do que ela estava gritando. Um peixe-borboleta saiu de trás de um coral para ver e nem se escondeu quando Marina passou perto. O velho polvo estava com os oito braços parados, o que nunca acontecia.

— Você voou — disse o polvo.

— Eu planei — corrigiu Marina, ainda sem fôlego. — É diferente.

— Diferente como?

— Planar é quando a gente não sobe. Só demora muito para cair.

O polvo pensou naquilo com quatro braços e desistiu de pensar com os outros quatro.

— Para mim está bom — disse o polvo.

Lá em cima, na pedra, a gaivota velha ajeitou a pena torta e não falou nada.

Mas ficou olhando um tempinho a mais do que precisava, antes de ir embora.

Hoje

Dizem que em Água Clara existe agora uma escola.

São umas doze sereias jovens, e todo fim de tarde elas descem ao fundo, tomam impulso e saem da água juntas, de braços abertos, atravessando o recife rente ao mar. Caem muito. Voltam a subir. Fazem um barulho terrível. Nenhuma delas planou no primeiro dia, e nenhuma delas parou por causa disso.

Ao entardecer, uma sereia menina plana rente ao mar com três sereias mais jovens logo atrás, todas de braços abertos e cauda esticada

Quem vê de longe acha que é um cardume de peixes-voadores.

Marina, que hoje é a professora, não corrige ninguém.

Mas guarda, presa no cabelo, uma pena de gaivota meio torta.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Todo mundo dizia para a Marina desistir. O que você teria dito para ela?
  2. Ela não conseguiu voar como gaivota, mas conseguiu de outro jeito. Isso conta?
  3. Tem alguma coisa que você quer muito aprender e ainda não sabe?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir. Golfinhos e raias-manta saltam fora d'água de verdade, e alguns peixes-voadores planam por mais de cem metros com as nadadeiras abertas — o mar tem várias formas de voar, e é essa a ideia que a história aproveita.

Perguntas frequentes sobre A Sereia que Queria Aprender a Voar

Qual é a moral desta história?

Que um sonho pode se realizar de um jeito diferente do imaginado sem deixar de ser o sonho. E que 'impossível' costuma significar apenas 'impossível do jeito que você pensou'.

Existem animais marinhos que voam de verdade?

Existem peixes-voadores, que saem da água e planam com as nadadeiras peitorais abertas, chegando a percorrer mais de cem metros. Golfinhos e raias-manta também saltam bem alto — não é voo de verdade, mas é o mais perto que o mar chega disso.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 8 anos. É uma história leve, sem passagens tensas, boa para crianças que estão insistindo em aprender algo difícil.

Que tal a história de amanhã?