
O Boneco de Neve que Queria Ver o Verão
Ele nasceu numa manhã branca de julho, no alto da serra, e ouviu falar de uma coisa chamada verão — que acontece justamente quando ele não pode estar lá.
Ele nasceu num julho gelado da serra e passou a vida inteira querendo ver janeiro
Lá em cima da serra tem uma vila pequena onde o inverno é de verdade.
Não é aquele friozinho de cidade grande, que passa assim que o sol aparece. É frio de congelar a água do cocho, de sair fumaça da boca quando a gente fala, de todo mundo dormir de meia. E em algumas manhãs de julho — não todas, e é por isso que a vila inteira fica esperando — as pessoas abrem a janela e veem que o mundo amanheceu branco.
Foi numa dessas manhãs que o Bento e a Nina fizeram o Julião.
Rolaram a primeira bola até ela ficar do tamanho de um tacho. A segunda deu trabalho de levantar e precisou dos dois. A terceira, a da cabeça, a Nina fez sozinha. Ficou meio torta, mas ninguém reclamou. Dois pedaços de carvão da churrasqueira viraram olhos. Uma cenoura entortada, dessas que a avó ia jogar fora, virou nariz. Dois galhos secos viraram braços.
A Nina tirou o próprio cachecol de lã vermelho, comprido demais para ela, e enrolou duas vezes no pescoço dele.
Faltava chapéu.
— Só tem o da vovó — disse o Bento, voltando do alpendre com um chapéu de palha puído, daqueles de trabalhar na horta.
— Chapéu de palha é de verão — disse a Nina.
— É o que tem.
Puseram assim mesmo, um pouco de banda.
Ninguém sabe dizer a hora exata em que um boneco de neve começa a prestar atenção. Deve ser mais ou menos quando encaixam a última peça no lugar.
O Julião abriu os olhos de carvão. A primeira coisa que ele viu foi o quintal branco, o pé de pêssego sem uma folha sequer e duas crianças de touca olhando para ele com cara de quem tinha acabado de fazer uma coisa muito boa.
A segunda coisa que ele viu foi o próprio chapéu, refletido no vidro embaçado da janela da cozinha.
Gostou dele na hora.

A Palavra que Ele Não Conhecia
— Que chapéu é esse? — perguntou o Julião.
O Bento levou um susto e derrubou a luva. Depois se acostumou rápido, porque criança se acostuma rápido com esse tipo de coisa.
— É chapéu de verão.
— O que é verão?
A Nina sentou na neve, do jeito que a gente senta quando sabe que a resposta vai ser comprida.
— Verão é quando o sol fica em cima da gente o dia inteiro — disse ela. — É quando a beirada do rio fica morna. É quando a gente janta e ainda tem claridade lá fora, e ninguém quer entrar em casa. É quando a cigarra canta tão alto que atrapalha a conversa.
— É quando cai chuva grossa em cima do calor e a terra solta aquele cheiro — completou o Bento.
O Julião ficou quieto, tentando imaginar um sol que ficasse em cima da gente. O sol dele era baixo e sem força, um sol de passagem.
— E onde fica esse verão?
— Não fica em lugar nenhum — disse o Bento. — Ele vem.
— Vem quando?
— Em janeiro.
O Julião contou nos galhos, devagar, porque tinha só dois. Agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro.
— Seis meses — disse ele, satisfeito. — Eu espero.
O Bento e a Nina se olharam por cima do chapéu dele e não falaram nada.
O Pé de Pêssego
O quintal tinha uma árvore só, bem no meio, e era a coisa mais feia que o Julião conseguia enxergar dali.
Um tronco escuro. Galhos pretos e finos, virados para cima como se estivessem pedindo alguma coisa. Nem uma folha, nem um bicho, nem um barulho.
— Aquilo ali é pêssego — disse a Nina.
— Aquilo ali está morto.
— Aquilo ali está dormindo — corrigiu ela. — Em janeiro fica assim de fruta. Tanta que os galhos encostam no chão. A gente pega e come na hora, sem lavar, e o suco escorre até o cotovelo.
O Julião virou a cabeça de cenoura para a árvore pelada e depois de volta para a menina.

— Até o cotovelo?
— Até o cotovelo.
Ele olhou aquele monte de galhos pretos por um tempo bem comprido.
— Eu quero ver isso — disse.
Daquele dia em diante, virou o assunto favorito dele. As crianças chegavam da escola e o Julião já começava:
— Me conta de novo a parte do pêssego.
E elas contavam. Contavam do suco, da casca aveludada, do caroço que a gente cospe no mato. Contavam do calor que faz o cachorro cavar um buraco na terra fresca para deitar dentro. Contavam do sorvete que derrete mais depressa do que dá para comer.
Nessa hora a Nina parava.
— Pode falar — disse o Julião, na primeira vez que ela travou. — Derreter não é palavra feia.
— Não é?
— Não. É só uma coisa que acontece com quem é feito de água.
A Nina ficou olhando para ele com o queixo enfiado dentro da gola do casaco, matutando uma coisa que ela ainda não sabia dizer. Não disse. Guardou para a noite.
A Conta que Não Fechava
Naquela noite, na cozinha quente, com a xícara entre as mãos e o vidro da janela todo embaçado, a Nina perguntou:
— Vó, boneco de neve chega em janeiro?
A avó ficou mexendo o café mais tempo do que precisava.
— Não, minha filha. Boneco de neve não atravessa a primavera.
— Nenhum?
— Nenhum. Eles são feitos da parte do ano que vai embora.
O Bento olhou para a janela. Não dava para ver nada além do vapor, mas ele sabia exatamente onde o Julião estava, ali fora, no escuro azul, com o chapéu de palha da avó um pouco de banda.

De manhã, as duas crianças foram até ele antes do café, ainda de pijama por baixo do casaco, ensaiando o jeito de dizer.
Não precisou.
— Eu já sei — disse o Julião, antes de qualquer um abrir a boca. — A gente sabe. Sabe desde o começo, mais ou menos como vocês sabem a hora de dormir sem ninguém falar.
A Nina começou a chorar bem baixinho, daquele jeito que a gente chora quando não quer atrapalhar.
— Ô, Nina.
— Que foi?
— Não é o fim do mundo — disse ele. — É só o fim do inverno.
O Trato do Fim da Tarde
O Bento ficou o dia inteiro emburrado, chutando torrão de gelo pelo caminho da escola, e voltou para casa com uma ideia.
Chegou correndo, sem tirar a mochila.
— Julião. A gente vai ver o verão por você.
— Como assim?
— A gente vai olhar tudo. Tudo mesmo. Duas vezes: uma vez pra gente e uma vez pra você.
— E depois?
— Depois a gente conta — disse a Nina, que já tinha entendido antes do irmão terminar. — Todo fim de tarde. Todo santo dia.
O Julião mexeu os dois galhos ao mesmo tempo, o que era o mais perto de bater palma que ele conseguia fazer.
— Começa hoje.
— Hoje não tem verão nenhum, Julião. Hoje é dez de julho.
— Então conta um verão velho.
E foi assim que começou o costume mais bonito daquele quintal.
Todo fim de tarde, quando a luz começava a ficar cor de laranja em cima da serra, as crianças largavam a mochila na neve e sentavam encostadas na barriga fria dele.
— Hoje eu trouxe um pedaço do verão — dizia a Nina.
— Conta — dizia o Julião.

Os Pedaços de Verão
Vieram muitos pedaços, ao longo daquele inverno.
Veio o pedaço da rede armada na varanda, que faz um barulhinho de corda no gancho quando a gente balança devagar.
Veio o pedaço da noite de calor em que ninguém consegue dormir e a família inteira arrasta colchão para o chão da sala, com a porta aberta, esperando o vento.
Veio o pedaço do rio: morno em cima, gelado embaixo, e aquele susto bom quando o pé encontra a parte funda.
Veio o pedaço do sanduíche de pão com manteiga comido em cima de uma pedra quente, que é a comida mais gostosa que existe, segundo o Bento, sem discussão possível.
Veio o pedaço da tempestade de janeiro, que chega no fim da tarde toda de uma vez, molha tudo em dez minutos e vai embora deixando o mundo lavado e cheirando a terra.
O Julião ouvia com os dois olhos de carvão bem abertos. Fazia pergunta de tudo. Queria saber se o rio tinha fundo, se a cigarra dormia, se a rede aguentava dois.
E, no fim de cada conversa, sem falhar uma vez sequer:
— Agora conta de novo a parte do pêssego.
A Manhã Morna
O inverno foi ficando velho sem avisar ninguém.
Primeiro apareceu uma mancha de capim verde perto do muro. Depois duas. Depois o telhado do galpão amanheceu sem gelo, e um passarinho pousou no pé de pêssego pela primeira vez em meses.
Uma manhã, o Bento saiu no quintal e o ar estava morno.
O Julião estava menor. O cachecol vermelho, que antes dava duas voltas apertadas no pescoço, agora encostava a ponta na grama.
— Bom dia — disse ele, tranquilo.
— Julião…
— Eu sei. Senta aqui.
Os dois sentaram. A Nina segurou o chapéu de palha com as duas mãos, para não deixar cair.
— Eu não vou embora — disse o Julião. — Eu vou pra cima.
— Como assim, pra cima?
— A água sobe. A avó de vocês sabe disso, pergunta pra ela. Sobe fininha, sem ninguém ver, vira nuvem, anda o céu inteiro e cai de novo em outro lugar. É tudo a mesma água, a vida inteira. Nunca some, só muda de forma.

— Então em janeiro… — começou a Nina.
— Em janeiro eu vou estar na chuva que molha o pé de pêssego — disse ele. — E no rio onde vocês vão nadar. Não é a mesma coisa que ter olho pra ver, eu sei. Mas é alguma coisa.
O Bento limpou o rosto na manga do casaco e fingiu que era o vento.
— Guarda o chapéu — pediu o Julião. — Chapéu de palha é de verão, e eu vou querer ele de volta.
Julho de Novo
E o verão veio, do jeito que sempre vem.
O pé de pêssego encheu. Os galhos ficaram pesados e baixos, exatamente como a Nina tinha contado, e o suco escorreu até o cotovelo dos dois, todo santo dia, durante semanas.
As crianças olharam tudo duas vezes. Uma vez para elas e uma vez para ele. Anotaram num caderno de capa dura, guardado embaixo da cama, tudo o que dava para anotar. O que não dava, decoraram de cabeça.
Quando caiu a primeira chuva grossa de janeiro, a Nina ficou parada no meio do quintal, encharcada, olhando para cima com a boca aberta.
— Sai da chuva, menina! — gritou a avó do alpendre.
— Já vou — respondeu ela, sem sair.
Não estava só tomando chuva. Estava contando. Contou o pêssego, contou a rede, contou a pedra quente da beira do rio, falando para cima, do jeito que a gente fala com quem está longe. O Bento entendeu na hora e foi para o meio do quintal também. Depois disso, toda vez que chovia, os dois largavam o que estivessem fazendo e iam contar o dia para a água.
Depois o verão foi ficando comprido, depois cansado, depois curto. As folhas do pêssego amarelaram e caíram. As manhãs começaram a doer no nariz. A avó tirou os cobertores grossos do armário e a casa inteira cheirou a naftalina.
E numa manhã de julho, muito cedo, o Bento abriu a janela e o mundo estava branco de novo.
Eles não tomaram café. Correram pro quintal com a lata de goiabada onde tinham guardado os dois carvões, com o cachecol vermelho lavado e dobrado, e com o chapéu de palha da avó, que tinha passado o ano inteiro pendurado no prego atrás da porta.
Rolaram a primeira bola. Depois a segunda. A terceira ficou torta de novo, e de novo ninguém reclamou.

Encaixaram a última peça.
O Julião abriu os olhos de carvão, olhou os dois, olhou o quintal, olhou o pé de pêssego pelado no meio da neve.
E antes que qualquer um dissesse qualquer coisa, ele falou:
— O suco escorre até o cotovelo.
O Bento e a Nina ficaram sem ar.
— Como é que você sabe disso?
— A neve guarda — disse o Julião, ajeitando o chapéu de banda com um dos galhos. — Vocês contaram pra chuva o ano inteiro. A chuva subiu, virou nuvem, andou o céu e desceu aqui de novo. É tudo a mesma água. Eu já falei.
O fim da tarde chegou devagar, como chega no alto da serra. O céu foi ficando cor de pêssego. O frio voltou de mansinho. Lá atrás, a luz da cozinha se acendeu e o vidro da janela começou a embaçar.
As duas crianças sentaram encostadas na barriga fria dele, uma de cada lado, do jeito de sempre.
— Conta de novo a parte do pêssego — pediu o Julião.
E a Nina contou.
Contou baixinho, porque a essa hora tudo fica baixinho. Contou da casca aveludada, do caroço, do cachorro cavando um buraco na terra fresca. Contou da rede na varanda fazendo barulhinho de corda no gancho.
O Bento foi ficando de olho pesado no meio da história e não ouviu o final.
E lá em cima, sem pressa nenhuma, começou a nevar de novo.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- O Julião queria muito ver uma coisa que ele sabia que não ia dar para ver. Você já quis alguma coisa assim?
- Se você tivesse que contar o verão para alguém que nunca viu nenhum, o que você contaria primeiro?
- A Nina travou na hora de falar a palavra derreter. Por que será que o Julião disse que ela podia falar?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir, escrita a partir do motivo tradicional do boneco de neve que sonha com o calor — o mesmo motivo de O Boneco de Neve, de Hans Christian Andersen, publicado em 1861 e hoje em domínio público. Do motivo antigo ficou só a ideia central; o enredo, os personagens e o cenário são nossos, e não há ligação nenhuma com versões de cinema ou de desenho animado sobre bonecos de neve. A vila fica no alto da serra brasileira, onde neva poucos dias por ano, e o desfecho é acolhedor, sem perda triste: o Julião descobre outro jeito de ver o verão e volta no inverno seguinte.
Perguntas frequentes sobre O Boneco de Neve que Queria Ver o Verão
O boneco de neve derrete no final desta história?
A neve vai embora com a chegada da primavera, sim, mas a história não trata isso como uma perda. O próprio Julião explica que não está indo embora, e sim subindo — vira nuvem, vira chuva, e volta. No fim do conto ele está lá de novo, com o mesmo cachecol e o mesmo chapéu.
Qual é a moral desta história?
Que a gente pode partilhar com alguém até aquilo que essa pessoa não vai conseguir viver. As crianças não conseguem levar o Julião até o verão, mas conseguem olhar o verão inteiro por ele e guardar cada pedaço para contar depois.
Para que idade esta história é indicada?
Dos 4 aos 9 anos. Os menores se prendem à repetição do fim da tarde e ao pedido do pêssego, que volta várias vezes. Os maiores costumam querer conversar sobre a parte em que ele explica para onde vai — é uma boa porta de entrada para falar de mudança sem susto.
Neva mesmo no Brasil, como acontece na história?
Neva, em poucos lugares e poucos dias por ano, nas partes mais altas do Sul do país. É exatamente esse o cenário do conto: uma vila de serra onde a neve é rara, esperada e dura pouco — o que explica a pressa do Julião em conhecer o resto do ano.


