
O Mapa dos Lugares que Ainda Não Existem
No sótão do avô, Alice encontra um mapa quase todo em branco — e descobre que os lugares só aparecem nele quando alguém os sonha por inteiro.
Todo mapa mostra os lugares que existem. O do sótão da Alice mostrava exatamente o contrário
O sótão da casa do avô Aurelio cheirava a madeira, papel antigo e segredo guardado.
Alice subiu lá numa tarde de domingo, com a missão de escolher uma lembrança. A casa ia ser vendida — o avô tinha ido embora no inverno, do jeito que os avós vão, deixando a casa cheia dele e vazia ao mesmo tempo — e cada neto podia guardar uma coisa.
Havia caixas de ferramentas, chapéus, um binóculo, uma coleção de parafusos que só o avô entendia. Mas o que fez Alice parar foi um tubo comprido de couro, em pé no canto, com uma etiqueta escrita na letra dele:
MAPA DOS LUGARES QUE AINDA NÃO EXISTEM. Cuidado: funciona.
Dentro do tubo havia um mapa enorme, de papel grosso e amarelado. Alice o abriu no chão do sótão, esperando encontrar tesouros, dragões, rotas de navio.
O mapa estava quase todo em branco.
Quase. Num canto, havia meia dúzia de desenhos miúdos, feitos a nanquim, com data e tudo: uma biblioteca com telhado pontudo — 1987. Um coreto de praça — 1994. Uma ponte de madeira sobre um rio fininho — 2003. Um parquinho com um escorregador em caracol — 2011.
Alice franziu a testa. Ela conhecia aqueles lugares. Todos. A biblioteca era a da cidade, onde ela pegava livros toda quinta. O coreto era o da praça central. A ponte era a do caminho da escola. O escorregador em caracol era o seu preferido desde sempre.
— Mapa esquisito — murmurou ela. — Só tem lugar que existe.
E foi então que ela viu, escrito na borda do mapa, na letra caprichada do avô:
Este mapa não mostra os lugares que existem. Mostra os lugares que alguém sonhou por inteiro. Um lugar sonhado por inteiro é um lugar a caminho. — A. A.
Alice sentou no chão do sótão, com o coração batendo esquisito.
Ela pegou o telefone e ligou para a mãe, que sabia todas as histórias da família.
— Mãe... quem construiu a biblioteca da cidade?
— Ah, foi uma campanha antiga, nos anos oitenta... seu avô estava metido nisso até o pescoço, por sinal. Ele dizia que cidade sem biblioteca é casa sem janela. Por quê?
— E o coreto? E a ponte do caminho da escola? E o parquinho do escorregador?
A mãe riu do outro lado.
— Engraçado você perguntar. Acho que o vovô estava metido em todas essas. Ele era assim: cismava que a cidade precisava de uma coisa, desenhava a tal coisa num papel, mostrava para todo mundo, enchia a paciência da prefeitura, juntava vizinho, juntava mutirão... A ponte ele mesmo ajudou a martelar. Por que a pergunta, filha?
— Nada não — disse Alice, olhando o mapa. — Acho que eu já escolhi a minha lembrança.
Naquela noite, no quarto, Alice abriu o mapa no chão e o estudou como quem estuda para a prova mais importante do ano. Os desenhos do avô eram detalhados: a biblioteca tinha até as janelas redondas do segundo andar, que existiam de verdade. O parquinho tinha o escorregador em caracol exatamente com as três voltas que ele tinha de verdade.
Sonhado por inteiro, dizia o mapa. Não era sonhar "mais ou menos". Era sonhar com detalhe, com janela redonda, com três voltas de escorregador.
Alice pegou um lápis. A mão tremeu um pouquinho.
Havia tanto espaço em branco.
Ela pensou na rua dela, onde as crianças jogavam bola desviando de carro. Pensou no terreno baldio da esquina, cheio de mato e de nada. Pensou no que ela sempre pensava quando passava por ali: "cabia uma pracinha aqui".
E começou a desenhar. Devagar, com cuidado, no canto em branco perto dos desenhos do avô: um terreno com grama. Um balanço duplo. Uma mesa de piquenique embaixo de uma árvore — uma árvore grande, um ipê, porque ipê fica amarelo em agosto e agosto precisa de ajuda para ficar bonito. Uma fonte pequena para os passarinhos. E uma placa na entrada, onde ela escreveu com a letra mais caprichada que conseguiu:
PRAÇA AURELIO
Quando terminou, já era tarde. Alice olhou o desenho: não estava perfeito, mas estava inteiro. Dava para sentir o cheiro da grama, se fechasse os olhos. Dava para ouvir o balanço rangendo.
Ela escreveu a data embaixo, como o avô fazia. Enrolou o mapa. E dormiu com o tubo de couro encostado na cama, do jeito que se dorme perto de uma coisa importante.
E aqui a história podia acabar — mas não acaba, porque mapa que funciona não fica quieto.
No sábado, Alice mostrou o desenho para a mãe. A mãe ficou um tempão em silêncio, do jeito que os adultos ficam quando estão com saudade e orgulho ao mesmo tempo, e depois disse:
— Sabe que o terreno da esquina é da prefeitura? Seu avô vivia dizendo que ia fazer alguma coisa com ele... nunca deu tempo. — Ela olhou para Alice. — A gente podia levar esse desenho na reunião de moradores, quinta que vem. Você apresentaria?
O resto — a reunião, o abaixo-assinado, o mutirão dos vizinhos, o dia em que o caminhão trouxe o ipê ainda pequenininho, amarrado com barbante — o resto foi acontecendo aos poucos, do jeito que os lugares acontecem: devagar, com muita gente, começando por um desenho.
Não vou contar quanto tempo levou, porque construir demora, e essa é justamente a parte que os sonhadores por inteiro sabem e os apressados esquecem.
Vou contar só o final: numa tarde de agosto, Alice sentou num balanço duplo, numa pracinha nova, debaixo de um ipê amarelo de flor. Na entrada, uma placa. Na placa, um nome.
E naquela noite, no quarto, ela abriu o mapa mais uma vez. O desenho da pracinha estava lá, no canto, pertinho dos desenhos do avô — seis lugares sonhados por inteiro, e agora sete.
E ao redor deles, o mapa inteiro, enorme, em branco.
Esperando.
Agora feche os olhos, sonhador. O quarto está quieto, a noite está mansa — e em algum canto do seu sono, quem sabe, tem um lugar que ainda não existe, esperando você desenhar a primeira janela.
Sonhe por inteiro. Boa noite.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Se você tivesse o mapa da Alice, que lugar desenharia no espaço em branco?
- Que lugar da nossa cidade você acha que já foi 'um lugar que não existia'? Quem será que sonhou ele?
- Qual é a diferença entre sonhar um lugar 'mais ou menos' e sonhar 'por inteiro', como dizia o avô Aurelio?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir, escrita para os leitores mais velhos do acervo. A regra de magia do mapa — só registra o que foi sonhado por inteiro, com detalhes, cheiro e nome — é um manifesto disfarçado: é assim que projetos reais saem do papel. O avô Aurelio é uma homenagem a todos os construtores anônimos das cidades pequenas.
Perguntas frequentes sobre O Mapa dos Lugares que Ainda Não Existem
Para que idade é indicada?
Dos 8 aos 10 anos. A história tem duas camadas — a aventura do mapa e a descoberta sobre o avô — e a segunda rende conversas que essa idade já alcança: legado, propósito e o que cada um quer construir.
Quanto tempo leva para ler?
Cerca de 13 minutos em voz alta. É uma das histórias longas do acervo; a pausa natural para dividir em duas noites é quando o primeiro lugar aparece no mapa.
É uma história triste? O avô de Alice morreu?
O avô Aurelio já não está mais aqui, mas a história não mora na perda: mora no que ele deixou — os lugares que sonhou e o mapa que agora é de Alice. O tom é de descoberta e carinho, não de luto.
Serve para ler de dia, fora da hora de dormir?
Serve muito bem — em sala de aula, inclusive: rende atividades ótimas de imaginar e desenhar 'o lugar que ainda não existe' da turma.


