Contos para Dormir
Ilustração do conto Pinóquio e o Teste da Verdade

Pinóquio e o Teste da Verdade

O nariz de Pinóquio cresce a cada mentirinha. Hoje ele enfrenta seu maior desafio: um dia inteiro falando só a verdade!

Equipe Contos para Dormir ·

Numa manhã comum na oficina do velho carpinteiro, um boneco de madeira teve uma ideia complicada

Já fazia um tempo que Pinóquio era um menino de verdade.

Quer dizer — de verdade em quase tudo. Corria, comia, ia à escola, tinha joelho ralado e acordava com o cabelo em pé de um jeito que nenhum pente resolvia. Mas restava um detalhe da época de boneco que a Fada não tinha desfeito, e ela havia sido bem clara sobre isso:

— O nariz fica.

— Mas por quê?

— Porque você ainda vai precisar dele.

— Precisar? — Pinóquio tinha cruzado os braços, indignado. — Ninguém precisa de um nariz que cresce.

A Fada só sorriu, daquele jeito de quem sabe uma coisa que não cabe numa explicação, e foi embora antes que ele pudesse reclamar direito.

Pinóquio achou aquilo profundamente injusto na época. Depois foi entendendo.

O nariz tinha suas regras, e ele foi aprendendo cada uma do jeito difícil. Não crescia quando ele errava sem saber que estava errando. Não crescia quando ele inventava histórias enormes e todo mundo sabia que eram inventadas. Crescia — devagar, com um cocegar quente na ponta — só quando ele dizia uma coisa que não era e queria que os outros acreditassem.

Era um relógio, no fundo. Só que em vez de marcar as horas, marcava as vezes.

A Ideia da Segunda-Feira

Numa segunda-feira de manhã, tomando café na oficina com o Gepeto, Pinóquio anunciou:

— Hoje eu não vou contar nenhuma mentira.

Gepeto ergueu os olhos do serrote que estava afiando. A oficina cheirava a serragem fresca e a café requentado, e a luz da janela entrava em barras compridas onde a poeira ficava girando sem pressa.

— Nenhuma?

— Nenhuma. Nem as pequenininhas.

— Isso inclui as pequenininhas de educação?

— Que pequenininhas de educação?

— "Estou ótimo, obrigado." "Que chapéu bonito." "Não, não incomoda nada, pode ficar." — Gepeto foi contando nos dedos, devagar, como quem lê uma lista antiga. — Essas.

— Inclui tudo — disse Pinóquio, muito confiante. — Vai ser fácil.

Gepeto voltou a afiar o serrote e não disse nada, mas sorriu de um jeito que Pinóquio não gostou.

— Por que o senhor está sorrindo assim?

— Por nada. Come o pão.

Pinóquio conta ao Gepeto o que aprendeu

Antes das Nove da Manhã

A primeira prova veio na padaria, e veio antes das nove.

A padaria era o lugar mais cheiroso da rua inteira. Tinha farinha no ar, um sino na porta que tocava toda vez que alguém entrava e uma fileira de pães dourados ainda estalando de quentes.

— Bom dia, Pinóquio! Tudo bem?

Pinóquio abriu a boca para dizer "tudo bem", que é o que todo mundo diz, e parou.

Porque não estava tudo bem. Ele tinha dormido mal, com o vento batendo a janela a noite inteira. Estava com dor de cabeça. E tinha brigado com o Gepeto na véspera por causa da bagunça no quarto — uma daquelas brigas pequenas e chatas que ninguém ganha e que ficam cutucando por dentro no dia seguinte.

"Tudo bem" seriam duas palavras. Duas palavras, e a fila andava.

O padeiro esperava, com o pão já embrulhado no papel.

— Mais ou menos — disse Pinóquio.

O padeiro piscou, surpreso. Depois deu uma risada tão grande que a farinha do avental levantou voo.

— Também estou, filho. Também estou. — Ele apoiou os cotovelos no balcão. — Segunda-feira é assim mesmo. Leva um biscoito.

— Por quê?

— Porque você foi o primeiro cliente honesto do dia. E ainda nem são nove horas.

Pinóquio saiu com o pão debaixo do braço, o biscoito na mão e o nariz do tamanho de sempre, achando que aquilo tinha sido bem mais fácil do que ele imaginava.

Achou até que tinha sido divertido.

Pinóquio recebe um pão embrulhado das mãos do padeiro sorridente atrás do balcão

Na Escola

Na escola foi pior.

A sala cheirava a giz e a lápis apontado. A professora bateu duas palmas, esperou o barulho das cadeiras terminar e fez a pergunta que Pinóquio estava torcendo para ela esquecer.

— Quem fez a lição de casa?

Pinóquio não tinha feito. Tinha até começado: abriu o caderno, escreveu a data caprichada e, dois minutos depois, estava no quintal atrás de um gato que não queria ser pego.

Todo mundo levantou a mão. Pinóquio sentiu o braço querer subir sozinho, do jeito que braço faz quando todo mundo está fazendo a mesma coisa.

Não levantou.

Ficou olhando as mãos erguidas em volta e pensando quantas delas seriam verdadeiras.

— Pinóquio?

— Não fiz, professora.

— Por quê?

Aqui existiam pelo menos seis respostas prontas e muito boas. Fiquei doente. Perdi o caderno. Meu pai precisou de ajuda na oficina. Todas plausíveis. Todas com pelo menos um pedacinho de verdade dentro — e é justamente esse pedacinho que faz uma desculpa funcionar, porque ele vai na frente segurando a porta para o resto entrar.

A ponta do nariz esquentou só de ele pensar nisso.

— Porque eu fui brincar e esqueci — disse Pinóquio.

A classe inteira olhou para ele. Alguém riu lá no fundo e parou no meio do riso, sem saber direito se era engraçado.

A professora ficou um tempo em silêncio, girando o giz entre os dedos.

— Obrigada por não inventar desculpa — disse ela. — Faça hoje e me traga amanhã.

Foi só isso. Nem castigo, nem sermão, nem aquele olhar comprido que os adultos dão quando querem que a gente se sinta pequeno.

Pinóquio sentou-se sentindo uma coisa esquisita no peito, meio parecida com alívio. Era como tirar uma pedrinha do sapato e só então perceber que estava mancando desde manhã.

No recreio, um colega veio perguntar por que ele não tinha inventado nada.

— Estou fazendo um teste — disse Pinóquio.

— Teste de quê?

— De verdade. Um dia inteiro.

O menino achou aquilo a coisa mais esquisita do mundo e saiu correndo atrás da bola. Pinóquio ficou parado no pátio, orgulhoso de si mesmo, certo de que a parte difícil já tinha passado.

Faltavam três horas para o almoço.

Pinóquio de pé na sala de aula com a mão abaixada enquanto os colegas levantam as suas

O Almoço na Casa da Dona Rosina

Ao meio-dia, a vizinha convidou os dois para almoçar.

A Dona Rosina era uma senhora adorável que cuidava do Gepeto desde que ele havia ficado viúvo, e que cozinhava, honestamente, muito mal.

A casa dela era pequena e arrumadíssima. Tinha toalha bordada na mesa, um relógio de parede que fazia tique-taque alto demais e três pratos já postos antes mesmo de eles baterem à porta, porque ela sabia que eles viriam.

Naquele dia a sopa tinha um gosto de água de flor com sal.

Pinóquio tomou a primeira colherada bem devagar, torcendo para melhorar no meio. Não melhorou. A sopa era de um verde muito claro, com uma folha solitária boiando no centro.

— E então, meninos? — perguntou ela, sentando-se com as mãos no colo, os olhos brilhando de expectativa. — Está boa?

Gepeto disse que estava ótima. Disse rápido, sem levantar os olhos do prato, do jeito de quem já respondeu aquela mesma pergunta umas duzentas vezes.

Todos os olhos foram para Pinóquio.

O relógio da parede continuava fazendo tique-taque, e cada tique parecia mais alto que o anterior.

E foi ali, naquela mesa, que Pinóquio descobriu qual era o verdadeiro tamanho do problema em que ele havia se metido.

Pinóquio olha para o prato de sopa fumegante enquanto a vizinha espera a resposta

O Silêncio Mais Longo do Mundo

Porque não era uma mentira para escapar de encrenca. Não era preguiça, nem medo de castigo. Não tinha nada a ver com lição de casa nem com bagunça no quarto.

Era uma senhora sozinha que tinha passado a manhã inteira cozinhando para eles.

Pinóquio pensou no avental pendurado atrás da porta, na panela que ela tinha carregado até a mesa com as duas mãos, nos três pratos postos desde cedo.

Pinóquio olhou para a sopa. Olhou para a Dona Rosina. Sentiu o nariz coçar de um jeito que ele conhecia muito bem, aquele aviso que vinha antes.

Se dissesse "está ótima", o nariz cresceria na frente dela — e ela entenderia na mesma hora, porque a cidade inteira sabia para que aquele nariz servia.

Se dissesse "está ruim", ela ficaria magoada.

Duas portas. As duas erradas.

Pinóquio ficou tanto tempo calado que o Gepeto pigarreou. Por baixo da mesa, o pé do pai encostou no dele, aquele toque que quer dizer "fala alguma coisa, filho, qualquer coisa".

E então Pinóquio fez uma coisa que nunca tinha feito na vida: em vez de escolher entre as duas portas, ficou parado ali procurando uma terceira.

Levou dois segundos. Pareceu uma hora.

E aí ele falou:

— Dona Rosina, a sopa não está muito boa não.

O rosto dela desabou. A colher parou no meio do caminho.

— Mas — continuou Pinóquio, rápido — a senhora é a única pessoa que convida a gente para almoçar. Todo domingo. Desde sempre. E o meu pai fica alegre a semana inteira depois que vem aqui. Ele assobia na oficina. Ele só assobia depois daqui.

Silêncio. Gepeto ficou muito vermelho e muito quieto, com os olhos no bordado da toalha.

— Eu não venho por causa da sopa — disse ele.

Dona Rosina ficou olhando para ele com os olhos molhados. Depois deu uma risada meio esganiçada, meio chorosa, e levou a mão à boca.

— Eu sei que eu cozinho mal, meu bem. Eu sei há quarenta anos.

— A senhora sabe?

— Todo mundo sabe. Vocês é que ficam fingindo, e eu deixo, porque é bonitinho ver vocês dois fazendo aquela cara de coragem. — Ela enxugou o olho com a ponta do guardanapo. — Sabe o que eu faço bem? Bolo. Você quer bolo?

— Quero.

— Bolo de verdade ou bolo de educação?

— De verdade — disse Pinóquio. — Dois pedaços.

Comeram bolo. O bolo era realmente excelente: morno, fofo, com um cheiro de laranja que tomou conta da casa toda e fez o Gepeto fechar os olhos na primeira garfada.

E o nariz de Pinóquio não cresceu um milímetro.

Os três rindo à mesa enquanto comem fatias generosas de bolo

Na volta para casa, Gepeto andou um bom pedaço em silêncio, com o embrulho de bolo debaixo do braço.

— Você me deixou numa saia justa lá dentro — disse ele por fim.

— Desculpa.

— Não pedi desculpa. — O velho ajeitou o embrulho. — Só falei que era uma saia justa.

A Conversa da Noite

Naquela noite, na oficina, com o cheiro bom de serragem no ar, Gepeto perguntou:

— Como foi o dia?

— Difícil — disse Pinóquio. — Mas não do jeito que eu pensei.

— Como assim?

— Eu achei que o difícil ia ser não mentir para me livrar das coisas. Isso foi fácil. Difícil foi na casa da Dona Rosina.

Gepeto largou a lixa.

— E o que você aprendeu?

Pinóquio pensou bastante antes de responder. Lá fora, um cachorro latiu duas vezes e desistiu.

— Que existem duas mentiras diferentes. Uma é para me proteger. Essa é feia e eu consigo parar. A outra é para não machucar o outro — e essa a gente conta achando que está sendo bonzinho.

— E o que fazer com a segunda?

— Procurar — disse Pinóquio. — Tem sempre um jeito de falar a verdade que não machuca. Só que ele demora mais para achar, e a gente tem pressa de responder.

Gepeto ficou olhando para o filho por um tempo.

Depois pegou a lixa de novo, e a voz dele saiu meio rouca:

— Sabe que eu levei sessenta anos para aprender isso?

Depois

Dizem que Pinóquio não repetiu o teste no dia seguinte, porque disse que estava cansado. E era verdade: estava mesmo.

Pinóquio parado na ruazinha da vila ao amanhecer, pensando antes de responder

Mas dizem também que ele nunca mais foi o mesmo depois daquela segunda-feira — e que passou a fazer, antes de responder qualquer coisa difícil, uma pausinha de dois segundos.

Só dois segundos.

É o tempo que leva para procurar o jeito certo de dizer.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Pinóquio quase mentiu para não magoar o Gepeto. Você teria contado a verdade?
  2. Qual é a diferença entre uma mentira e uma delicadeza?
  3. Tem alguma coisa verdadeira que é difícil de dizer? Como dá para falar sem magoar?

Sobre esta história

As Aventuras de Pinóquio foi escrita pelo italiano Carlo Collodi e publicada em livro em 1883. O boneco, o carpinteiro Gepeto e o nariz que cresce são dessa obra, que é de domínio público. Esta história é uma continuação original nossa: imagina um dia comum na vida dos dois, depois do fim do livro.

Perguntas frequentes sobre Pinóquio e o Teste da Verdade

Esta história faz parte do livro original de Pinóquio?

Não. É uma continuação original escrita por nós, que usa os personagens de domínio público criados por Carlo Collodi em 1883 e imagina um episódio novo, depois do fim do livro.

Qual é a moral desta história?

Que ser honesto é mais difícil do que parece, porque nem toda mentira nasce de má intenção. A saída não é escolher entre mentir e magoar: é procurar o jeito verdadeiro e gentil de dizer a mesma coisa.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 8 anos. A ideia do nariz que cresce é concreta o bastante para os menores entenderem, e a discussão sobre mentiras ditas por gentileza rende muito com crianças de 7 a 9.

Que tal a história de amanhã?