
A Roupa Nova do Rei
Dois tecelões prometem ao rei um tecido que só os tolos não conseguem enxergar — e a cidade inteira resolve enxergar.
Numa cidade inteira que elogiava o que não conseguia enxergar, faltava só uma voz pequena para desmanchar o encanto
Havia, muito tempo atrás, um rei chamado Anselmo que gostava de roupa mais do que de qualquer outra coisa no mundo.
Outros reis gostavam de caçar. Outros gostavam de música, de banquete, de mapas antigos. O rei Anselmo gostava de casacos.
Tinha casaco para a manhã e casaco para a tarde. Tinha casaco para dia de vento e outro para dia em que não acontecia nada. Quando chegava alguém ao palácio perguntando pelo rei, os criados nunca diziam "está no salão" nem "está no jardim".
Diziam: — Está se trocando.
E era verdade. Estava sempre se trocando.
O palácio ficava no meio de uma cidade grande e movimentada, dessas em que chega gente nova todo dia. Era uma cidade alegre, que cheirava a pão quente de manhã e a lenha no fim da tarde.
Numa manhã de sol, chegaram dois homens que ninguém tinha visto antes. Um era alto e magro, de dedos compridos. O outro era baixo e falava manso, como quem conta segredo. Traziam um baú vazio, embora ninguém tivesse reparado nisso na hora.
Disseram que eram tecelões. Disseram que eram os melhores tecelões do mundo.
E disseram mais uma coisa — a coisa que fez a cidade inteira virar a cabeça.
O Pano que Só Alguns Enxergam
— O nosso tecido tem uma qualidade que nenhum outro tem — disse o tecelão alto.
— Qual? — perguntou o guarda do portão.
— Ele é invisível — respondeu o tecelão baixo, bem baixinho. — Invisível para quem é tolo. E para quem não serve para o cargo que ocupa.
O guarda ficou um tempo quieto.
— Invisível como?
— Invisível. Quem presta enxerga o pano. Quem não presta não enxerga nem um fio.
A notícia atravessou o pátio, subiu a escada, dobrou o corredor e chegou ao rei antes do almoço.
O rei largou no chão o casaco que estava experimentando.
Um tecido daqueles resolveria tudo. Com uma roupa assim ele descobriria, num piscar de olhos, quem no reino era esperto e quem era tolo, quem servia para o cargo e quem não servia. Bastava mandar costurar, vestir e olhar em volta.
Mandou chamar os dois na mesma hora. Deu a eles a melhor sala do palácio, dois teares grandes junto da janela e um saco de moedas de ouro adiantado, por um trabalho que ainda nem tinha começado.

Tec, Tec, Tec
Os dois montaram os teares e começaram a trabalhar.
Ou pareceu que começaram.
Jogavam a lançadeira de um lado para o outro sem nenhum fio dentro dela. Pisavam nos pedais com força. Batiam o pente contra o nada — tec, tec, tec — e o barulho que saía da sala era exatamente o barulho de dois tecelões trabalhando muito.
Pediram seda da melhor. Pediram fio de ouro. Tudo o que pediram chegou, e tudo o que chegou foi parar dentro do baú, que ia ficando pesado.
E os teares continuavam vazios.
Lá fora, a cidade só falava disso. No mercado, na fila do pão, na fonte onde se lavava roupa.
— Dizem que quem é tolo não enxerga.
— Eu ia enxergar, com certeza.
— Eu também.
Ninguém dizia o contrário. Em toda a cidade, ninguém disse nem uma vez: "acho que eu não ia enxergar".
Os Dois Enviados do Rei
Passou uma semana e o rei ficou louco de vontade de saber como o pano estava ficando.
Mas achou melhor mandar alguém antes.
Alguém de confiança. Alguém honesto. O ministro velho, que estava no palácio desde antes de o rei nascer.
O ministro subiu a escada devagar, com a bengala batendo em cada degrau, empurrou a porta e olhou.
Não havia nada.
Nada mesmo. Dois teares vazios junto da janela, e a luz da manhã passando direto pelo meio deles.
O ministro arregalou os olhos. Piscou. Chegou mais perto. Limpou os óculos na manga e olhou de novo.
Nada.
"Então é isso", pensou ele, com o coração afundando. "Eu sou tolo. Ou, pior ainda, eu não sirvo para o meu cargo. E ninguém pode ficar sabendo."
— E então, senhor ministro? — disse o tecelão alto, esfregando as mãos. — Não é uma beleza?
— Repare no desenho — disse o baixo. — Repare nas cores.
O ministro olhou com muita atenção para o lugar onde não havia nada.
— Lindo — disse ele. — Ah, isso é lindo. Que desenho. Que cores.
E desceu correndo a escada para contar ao rei, com a voz um pouco alta demais, do jeito que fica quem está dizendo uma coisa em que não acredita.

Dias depois o rei mandou outro homem de confiança, um moço rápido e esperto que ele tinha nomeado havia pouco tempo.
Aconteceu igualzinho.
O moço entrou, procurou o pano, procurou de novo, chegou a passar a mão no ar entre as duas hastes do tear. Sentiu vento e mais nada.
"Eu não sou tolo", pensou ele. "Então é o cargo. Eu não sirvo para o cargo. É isso."
— O senhor não acha que ficou maravilhoso? — perguntaram os dois.
— Maravilhoso — respondeu ele. — Não tenho palavras.
E não tinha mesmo.
Voltou ao rei e falou do brilho, do peso, da maciez. Falou tanto que o rei ficou sem paciência de esperar.
O Rei Vai Ver com os Próprios Olhos
Foi com a corte inteira atrás.
Subiram a escada em fila, os sapatos batendo no mármore, e entraram na sala grande onde os dois tecelões trabalhavam com uma dedicação de dar dó.
— Majestade — disse o alto, abrindo os braços diante do tear. — Veja.
O rei viu a janela. Viu o chão. Viu o tear e viu a parede do outro lado do tear.
Não viu pano nenhum.
Por um instante o coração dele parou. "Eu não enxergo", pensou. "Eu não enxergo nada. Então eu sou tolo? Eu não sirvo para ser rei?"
Era a coisa mais assustadora que já tinha passado pela cabeça dele.
Então o rei abriu um sorriso, esticou as costas e falou com a voz mais firme que conseguiu:
— Magnífico. Tem a nossa aprovação real.
E balançou a cabeça devagar, olhando com carinho para o tear vazio.
Atrás dele, a corte inteira esticou o pescoço.
— Magnífico! — disseram todos. — Que desenho! Que cores!
Ninguém enxergava nada. E cada um deles achou que era o único.
Naquele mesmo dia o rei mandou pendurar uma medalha no peito de cada um dos dois tecelões, deu aos dois um título comprido e anunciou que estrearia a roupa nova no desfile de domingo.

A Noite Antes do Desfile
Os dois trabalharam a noite inteira.
Acenderam dezesseis velas, para que a cidade visse pela janela que eles não estavam dormindo. Cortaram o ar com tesouras grandes. Costuraram com agulhas sem linha nenhuma.
A cidade foi dormir olhando aquela janela acesa lá no alto. Quem passava na rua tarde da noite ouvia o barulho da tesoura cortando alguma coisa e achava bonito: dois homens virando a noite para que o rei estreasse a roupa no domingo.
Perto do amanhecer, guardaram as ferramentas e anunciaram:
— Está pronta.
De manhã levaram ao quarto do rei uma coisa que carregavam com as duas mãos, com todo o cuidado do mundo, como quem carrega um bolo de casamento.
— A camisa — disse o alto, erguendo o nada.
— A calça — disse o baixo.
— E o manto, com a cauda comprida atrás.
— Leve como teia de aranha. Vossa Majestade vai jurar que está sem nada no corpo. É esse o encanto do tecido.
Tiraram do rei tudo o que ele tinha no corpo, menos a camisa comprida de linho e as meias brancas, e foram vestindo nele o que não existia. Ajeitavam ombro. Puxavam barra. Alisavam prega.
— Agora a manga direita — dizia o alto.
O rei levantava o braço direito.
— Agora a esquerda.
O rei levantava o braço esquerdo. Sentia o ar passar entre os dedos e não dizia nada.
O rei virou de um lado, virou do outro, se olhou no espelho grande e não viu nada além dele mesmo, de camisa e meias, parado no meio do quarto. Deu dois passos para trás. Deu dois passos para a frente. Torceu o pescoço para tentar ver a tal cauda comprida caindo atrás dele, e o que viu foi o tapete.
— Assenta muito bem — disse a corte. — Parece feito no corpo.
— Que caimento.
— Que cores.

O Desfile
Antes de o portão abrir, tocaram duas trombetas. A rua ficou num silêncio tão fundo que dava para ouvir as bandeirinhas de pano batendo no vento, uma atrás da outra, ao longo das casas.
Então o portão abriu e o rei saiu debaixo de um pálio carregado por quatro homens.
Atrás dele vinham dois camareiros de mão estendida, segurando com muito cuidado uma cauda que não estava ali, caminhando com aquele passo devagar de quem carrega uma coisa pesada e cara. O cortejo ia lento, com o pálio balançando um pouquinho a cada passo, e a sombra dos quatro carregadores escorregava pelas paredes das casas.
A cidade inteira estava na rua. Gente nas janelas, gente nos degraus, gente sentada na beira da fonte, crianças penduradas nos ombros dos pais.
E a cidade inteira gritou:
— Que roupa linda!
— Que cauda comprida!
— Que cores!
— Olha o azul! — gritou a mulher da banca de peixe, que não estava vendo azul nenhum.
— Olha o bordado! — gritou o sapateiro, que não estava vendo bordado nenhum.
— Olha como brilha! — gritou um rapaz que tinha subido no muro da fonte para ver melhor. E viu muito bem. E não viu pano nenhum.
Era esquisito, porque cada um deles estava com exatamente a mesma coisa entalada na garganta. Cada um pensava: "sou só eu". E, pensando isso, gritava mais alto que o vizinho, porque gritar alto era o jeito mais rápido de ninguém desconfiar.
Ninguém queria ser o único da cidade a não enxergar. Então todo mundo enxergava, e enxergava alto, e o barulho dos elogios ia e voltava de um lado da rua para o outro como uma onda.
O rei ia no meio, de queixo erguido, e nunca tinha se sentido tão bem vestido na vida.

A Voz Pequena
Foi aí que uma criança falou.
Era um menino pequeno, chamado Nico, sentado nos ombros do pai para ver por cima das cabeças. Estava esperando o rei passar desde cedo.
Nico tinha cinco anos e não sabia nada sobre cargos, sobre ministros, sobre quem serve e quem não serve para o lugar que ocupa. Sabia o que estava vendo.
Quando o rei passou, o menino olhou com muita atenção, do jeito que criança olha, e disse a coisa mais simples do mundo:
— Mas ele não está usando roupa nenhuma.
O pai deu um risinho sem graça.
— É coisa de criança — disse ele para as pessoas ao lado. — Não liguem.
Mas então o pai olhou de novo para o rei. Olhou com atenção, do jeito que fazia muito tempo que ele não olhava para nada.
E parou de rir.
— O que foi que o menino disse? — perguntou alguém atrás.
— Que o rei não está usando roupa nenhuma.
— Ué. É verdade.
A frase foi passando de boca em boca, virou a esquina, subiu pelas janelas. Não foi um grito. Foi um murmúrio grande e comprido, que atravessou a rua devagar, como a água quando encontra por onde escorrer.
Em pouco tempo a cidade inteira estava dizendo em voz alta a mesma coisa que a cidade inteira tinha visto desde o começo.
O rei parou.
O pálio parou junto com ele. Os camareiros pararam atrás, ainda de mão estendida, sem saber o que fazer com o ar que estavam segurando.
Ele ouviu. E, por dentro, soube na hora que era verdade — que tinha sido verdade o tempo todo, desde a sala dos teares, desde a primeira manhã.
O queixo dele desceu um pouquinho.

O Fim do Domingo
O rei ficou parado no meio da rua por um instante muito comprido.
Depois endireitou o corpo e foi andando até o fim do caminho, porque tinha começado o desfile e ia terminar o desfile. Os dois camareiros continuaram atrás, segurando o ar com todo o cuidado. E ninguém mais achou aquilo estranho, porque a essa altura já estava todo mundo rindo. Era um riso bom, desses que a gente dá quando descobre junto uma bobagem grande.
Quando o rei entrou no palácio e mandou fechar o portão, os dois tecelões já tinham ido embora, com baú e tudo, pela estrada do norte. Ninguém nunca mais ouviu falar deles.
Naquela noite o rei jantou sozinho, devagar. Depois desceu ao corredor comprido onde ficavam os casacos e ficou um tempão parado ali, com uma vela na mão, olhando aquelas fileiras todas de mangas e golas penduradas no escuro.
De manhã mandou chamar o alfaiate da cidade e pediu um casaco de linho simples. Sem bordado, sem fio de ouro, sem nada.
E mandou avisar, no pátio, que qualquer pessoa do reino que tivesse alguma coisa para lhe dizer podia subir e dizer — inclusive se fosse uma coisa que ele não fosse gostar de ouvir.
Dizem que o primeiro a bater na porta foi o ministro velho, e que os dois conversaram até tarde, com a janela aberta e o chá esfriando na mesa.
Do outro lado da cidade, naquela mesma noite, o menino Nico voltava para casa nos ombros do pai, meio caído para a frente, com o queixo encostado na cabeça dele.
— Pai — disse ele, quase dormindo. — O rei estava de camisa.
— Estava — disse o pai. — Eu vi.
E foram andando devagar pela rua que ia esvaziando, sem pressa nenhuma, até chegar em casa.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Por que você acha que ninguém na cidade contou que não estava enxergando o tecido?
- O menino falou uma coisa que todo mundo já sabia. Por que só ele falou?
- Você já concordou com alguma coisa só porque todo mundo em volta estava concordando?
Sobre esta história
A Roupa Nova do Rei foi publicada por Hans Christian Andersen em Copenhague, em abril de 1837, no mesmo caderno em que saiu A Pequena Sereia, e está em domínio público. O próprio Andersen partiu de um conto medieval castelhano de Don Juan Manuel, recolhido em El Conde Lucanor (1335). Nosso reconto segue o enredo de Andersen de ponta a ponta: os dois tecelões, os enviados que não veem nada, o desfile e a criança que fala. O que mudamos está tudo aqui. No original o personagem é um imperador, e na nossa versão ele virou rei. Em Andersen ele desfila sem roupa nenhuma; aqui fica de camisa comprida de linho e meias, porque a piada da história funciona igual e a leitura em voz alta fica mais confortável. Demos nome ao rei e ao menino, que no original não têm. E acrescentamos o fim de domingo no palácio — a parte que vem depois do ponto em que Andersen encerra.
Perguntas frequentes sobre A Roupa Nova do Rei
Qual é a moral de A Roupa Nova do Rei?
Que o medo de parecer bobo faz gente adulta concordar com absurdos, e que basta uma pessoa dizer a verdade em voz alta para o encanto se desfazer. A história também mostra como é fácil imitar a opinião de todo mundo sem parar para olhar.
A Roupa Nova do Rei é história de Hans Christian Andersen?
É. Andersen publicou o conto em 1837, na Dinamarca, e o texto está em domínio público há muito tempo. Ele mesmo se inspirou num conto castelhano do século XIV, de Don Juan Manuel, em que o enganado era um rei e o tecido também era invisível. Em Andersen o personagem é um imperador; aqui ele é rei, como na maioria das versões que circulam em português.
O rei fica sem roupa na história? Dá para ler para criança pequena?
Nesta versão o rei desfila de camisa comprida de linho e meias, que é o que sobra depois que tiram dele o casaco e o manto. Não há nada constrangedor nem assustador: a cena é engraçada, e as crianças costumam achar graça justamente porque entendem a bobagem antes dos adultos da história.
Para que idade essa história é indicada?
Dos 5 aos 10 anos. Crianças a partir dos 5 já entendem a piada da roupa invisível, e as mais velhas conseguem conversar sobre a parte mais interessante: por que tanta gente fingiu.


