Contos para Dormir
Ilustração do conto Os Músicos de Bremen

Os Músicos de Bremen

Quatro bichos velhos demais para o trabalho pegam a estrada para virar banda numa cidade grande — e param antes de chegar.

Equipe Contos para Dormir ·

Quatro bichos que ninguém mais queria pegaram a estrada para virar músicos

Bento era um burro velho.

Tinha passado a vida inteira no moinho, dando volta e volta na roda de pedra, carregando saco de trigo do carroção até a porta e da porta até o carroção. Fez isso quando era novo e forte. E continuou fazendo depois, quando as pernas começaram a doer no fim do dia.

Só que um dia as pernas passaram a doer no começo do dia também.

Bento foi ficando lento. O moleiro reclamava, batia com a mão no portão. Bento apressava o passo — mas o passo não apressava.

Numa tarde, encostado na parede quente do moinho, ele ouviu o moleiro conversando lá dentro.

— Esse burro não rende mais — disse o moleiro. — Semana que vem eu levo ele na feira e passo pra frente.

Bento ficou ali, quietinho, com as orelhas viradas para trás.

Depois ergueu a cabeça.

Se é para eu ir embora, ele pensou, eu vou embora sozinho. E vou para onde eu quiser.

Naquela mesma noite, quando a lua subiu por cima do telhado, Bento empurrou o portão com a testa e saiu pela estrada. Não levou nada — só o cobertor de listras vermelhas, que era dele desde filhote, jogado nas costas.

Levava também uma ideia.

Em Bremen tinha banda. Bento sabia disso porque os carroceiros comentavam no pátio do moinho: uma cidade grande, com praça, com coreto, com gente que fica parada ouvindo música até a última nota.

— Eu ainda sei zurrar — disse Bento para a estrada vazia. — E quem ainda sabe zurrar ainda serve para alguma coisa.

E foi andando.

Um burro velho de cobertor listrado caminhando sozinho por uma estrada de terra sob a lua

O cão que já não corria

Andou a noite inteira e boa parte da manhã.

Quando o sol já estava alto, Bento viu um vulto deitado na beira da estrada, encolhido debaixo de um arbusto, respirando pesado, como quem tinha andado demais. Era um cachorro grande e marrom, de orelhas caídas e focinho todo grisalho.

— Bom dia — disse Bento.

O cachorro abriu um olho só.

— É — respondeu.

— Você está aí porque quer ou porque cansou?

— As duas coisas.

Bento sentou nas ancas ao lado dele, do jeito desengonçado que burro senta, e esperou.

O cachorro se chamava Vicente e tinha sido cão de caça. Dos bons, aliás — dos melhores da região, se a gente for acreditar nele. E Bento acreditou, porque não custava nada.

— Aí eu fiquei lento — disse Vicente. — Na última caçada eu voltei por último. O meu dono não falou nada, mas eu vi a cara dele. Quem já viu essa cara uma vez sabe reconhecer. Aí eu vim embora antes de ver de novo.

— E agora?

— Agora eu não sei — disse Vicente. — Correr eu não corro mais.

Bento ficou olhando a estrada, que subia um morrinho e sumia.

— Eu vou para Bremen ser músico — disse ele. — Dizem que lá tem banda.

Vicente levantou a cabeça devagar.

— Você sabe tocar alguma coisa?

— Eu sei zurrar.

— Só isso?

— Só isso. Mas eu zurro muito bem. E você, o que você ainda sabe fazer?

Vicente coçou a orelha com a pata de trás, sem pressa, e respondeu:

— Eu ainda sei latir.

— Então vem — disse Bento, se levantando. — Zurro e latido já são dois.

Um burro velho de cobertor listrado e um cão grande e grisalho lado a lado na beira da estrada

A gata que já não caçava

Seguiram juntos, e juntos a estrada rendia mais.

Lá pelo meio da tarde passaram por um muro baixo de pedra, desses que dividem quintal de estrada. Em cima do muro estava uma gata preta de peito branco, sentada com as quatro patas juntinhas e uma cara de quem tinha brigado com o mundo inteiro naquela manhã.

— Que cara é essa? — perguntou Bento.

— É a minha cara — disse a gata.

— É uma cara de três dias de chuva.

— Pois é mais ou menos isso.

Ela se chamava Marieta. Tinha morado a vida inteira na mesma cozinha, dormindo em cima do fogão morno, e tinha sido a melhor caçadora de rato daquela casa.

— Só que os meus dentes gastaram — disse Marieta. — E o ouvido também. Rato eu escuto quando ele já passou. Hoje de manhã a dona da casa disse que eu não pego mais nada e que ela ia ter que dar um jeito. Eu não fiquei para saber que jeito era.

Vicente balançou o rabo, solidário.

— A gente entende — disse ele.

— Vocês entendem coisa nenhuma. Vocês são cachorro e burro.

— Eu era cão de caça e não caço mais — disse Vicente.

— Eu era burro de moinho e não moo mais — disse Bento.

Marieta ficou quieta um instante. Depois desceu do muro num pulo só, que para uma gata velha ainda foi um pulo bem bonito.

— Ah — disse ela.

— A gente vai para Bremen ser músico — explicou Bento. — Lá tem banda, tem praça, tem coreto.

— Eu não sei tocar nada.

— Ninguém aqui sabe. O que você ainda sabe fazer?

Marieta abriu a boca, fechou, e por fim respondeu, meio de lado, do jeito que gato responde:

— Eu ainda sei miar. Alto, inclusive. De acordar rua inteira.

— Então vem — disse Bento. — Zurro, latido e miado já são três.

Uma gata preta de peito branco descendo de um muro de pedra ao lado de um burro e um cão

O galo que cantou fora de hora

O sol já estava caindo quando os três passaram na frente de um sítio.

Em cima do portão, todo empinado, com a crista vermelha vibrando contra o céu alaranjado, tinha um galo cantando com uma força impressionante. Cantava como se fosse de manhã. E não era de manhã, era quase noite.

— Amigo — disse Vicente —, você está atrasado umas doze horas.

— Eu sei — respondeu o galo, e cantou de novo, mais alto ainda.

Ele se chamava Firmino. Tinha acordado aquele sítio inteiro todos os dias da vida dele, sem falhar um, nem com chuva, nem com frio.

— E hoje eu ouvi a cozinheira dizer que domingo vem visita — contou Firmino. — E que no domingo eu não estaria mais por aqui.

Os três se entreolharam.

— Então por que você está cantando? — perguntou Marieta.

Firmino ajeitou as penas do peito.

— Porque cantar é o que eu sei fazer. Se é para eu parar, eu paro cantando.

Bento achou aquilo a coisa mais sensata que tinha ouvido na estrada inteira.

— A gente vai para Bremen ser músico — disse ele. — Você não quer vir?

— Vocês são músicos?

— A gente vai ser.

— E vocês sabem tocar o quê?

— Eu zurro — disse Bento.

— Eu lato — disse Vicente.

— Eu mio — disse Marieta. — Alto.

Firmino olhou para os três lá de cima do portão: um burro velho de cobertor listrado, um cão grisalho e uma gata de cara amarrada. Depois olhou para o sítio, onde já apagavam as luzes.

Desceu voando desajeitado e pousou no lombo do burro, bem em cima do cobertor vermelho, como quem já tinha decidido fazia tempo.

— Zurro, latido, miado e canto — disse Firmino. — Já são quatro.

Um galo de crista vermelha pousado no lombo de um burro de cobertor listrado, ao lado de um cão e uma gata

A luz no meio da floresta

Bremen ainda era longe. Muito mais longe do que eles imaginavam quando saíram.

A noite chegou antes da cidade, e chegou daquele jeito que ela chega na estrada: de uma vez, apagando as árvores uma por uma. Entraram numa mata fechada e concordaram que dormiriam ali mesmo.

Bento e Vicente se ajeitaram ao pé de uma árvore grande. Marieta subiu para um galho, porque gato não dorme no chão se tiver escolha. Firmino subiu mais alto ainda, até o topo, porque galo gosta de ver o mundo de cima.

Foi de lá que ele viu.

— Gente! — chamou Firmino. — Tem uma luz!

— Tem uma o quê?

— Uma luz. Ali, entre as árvores. Não é estrela, não. É janela.

Bento levantou na hora.

— Janela quer dizer casa. Casa quer dizer comida.

Andaram na direção da luz, pisando devagar no mato escuro. Era mesmo uma casa: pequena, de telhado torto, com a chaminé soltando fumaça e uma janela grande acesa por dentro, amarelinha.

Bento era o mais alto. Chegou de mansinho e espiou.

— O que você está vendo? — sussurrou Marieta.

— Estou vendo uma mesa — disse Bento. — Uma mesa comprida. Cheia. Tem pão, tem queijo, tem uma travessa que eu não sei o que é mas está cheirando bem daqui.

— E mais o quê?

Bento demorou a responder.

— E três sujeitos sentados em volta dela — disse ele. — Com cara de quem não pediu licença para entrar aqui.

Os quatro se encolheram debaixo do parapeito, no escuro.

— A gente vai embora? — perguntou Vicente.

— A gente está com fome — disse Marieta.

— A gente é quatro — disse Firmino. — E a gente sabe fazer barulho.

Bento ficou olhando para a janela iluminada por um tempo. Depois olhou para os três companheiros. E aí sorriu, do jeito comprido que burro sorri.

— Sobe em mim — disse ele.

Quatro animais espiando por baixo do parapeito de uma janela acesa numa casinha na floresta

A torre de bichos

Foi uma engenharia complicada, e ainda por cima feita no escuro.

Bento se firmou nas quatro patas, bem debaixo da janela. Vicente subiu nas costas dele, escorregou uma vez no cobertor, tentou de novo e ficou. Marieta subiu no cachorro com aquela facilidade irritante que só gato tem. E Firmino, por último, bateu as asas e pousou no alto da cabeça da gata.

De baixo para cima: burro, cão, gata e galo. Uma torre de bichos tremendo de leve na frente da janela iluminada.

— Todo mundo pronto? — perguntou Bento, com a voz apertada.

— Pronto — disseram os três.

— Então na minha conta. Um, dois...

— Espera — disse Marieta. — A gente toca junto ou cada um na sua vez?

— Junto! — disseram os outros três.

— Tá bom. Só perguntei.

— Um — recomeçou Bento. — Dois. Três!

E os quatro soltaram tudo o que sabiam ao mesmo tempo.

Bento zurrou. Um zurro de moinho, daqueles que descem pela barriga e sacodem o chão.

Vicente latiu. Latido de cão de caça, curto e rouco, um atrás do outro sem respirar.

Marieta miou. E ela não tinha mentido: era um miado de acordar rua inteira, fino, comprido, subindo até onde não tem mais nota.

E Firmino cantou. Cantou como se fosse a manhã mais importante da vida dele.

Zurro, latido, miado e canto — tudo junto, na mesma janela, no meio de uma floresta escura e silenciosa.

Foi um barulho tão fora do comum que os próprios quatro se assustaram com ele. A torre desequilibrou. Bento deu um passo para o lado, Vicente escorregou de novo no cobertor, Marieta pulou, Firmino bateu as asas — e todos desabaram para dentro da casa numa avalanche de pena e pelo, com a janela chacoalhando inteira.

Lá dentro, os três sujeitos da mesa não esperaram para descobrir o que era aquilo.

Largaram o pão, largaram o queijo, largaram a travessa cheirosa e saíram pela porta dos fundos correndo mata adentro, gritando um por cima do outro, sem olhar para trás uma única vez.

Um burro, um cão, uma gata e um galo empilhados em frente a uma janela iluminada na floresta

O ladrão que voltou

Os quatro ficaram um tempo no meio da sala, ofegando, sem um arranhão e sem entender direito o tamanho do que tinham acabado de fazer.

Depois sentaram à mesa e comeram.

Comeram como quem não comia há dias, porque era exatamente esse o caso. Firmino descobriu que gostava de queijo. Marieta descobriu que a travessa cheirosa era peixe e não dividiu com ninguém. Vicente dormiu de barriga para cima antes de o jantar acabar.

Apagaram a luz e se espalharam pela casa. Cada um achou o canto que combinava com ele: Bento no palheiro do lado de fora, Vicente atrás da porta, Marieta perto do fogão ainda morno, Firmino numa viga alta do teto.

Só que, lá pela madrugada, um dos três sujeitos criou coragem e voltou para espiar.

Entrou na ponta dos pés, na escuridão total. Viu dois pontinhos brilhando perto do fogão e pensou que fosse brasa. Chegou perto para acender uma vela.

Os pontinhos eram os olhos da Marieta.

A gata bufou. O sujeito pulou para trás e tropeçou no Vicente, que acordou latindo daquele jeito rouco de cão de caça.

O sujeito correu para a porta, esbarrou no palheiro e acordou o Bento, que zurrou com toda a força de um burro que levou um susto no meio do sono.

E, com toda aquela confusão, Firmino acordou lá em cima da viga e fez o que sempre fazia quando acordava: cantou.

Zurro, latido, miado e canto. De novo.

O sujeito atravessou a mata mais rápido do que tinha atravessado na primeira vez. Contou para os outros dois que aquela casa estava ocupada por uma coisa que ninguém ali queria conhecer melhor.

E os três nunca mais voltaram.

A casa dos quatro

A casinha da floresta ficou sendo deles.

De manhã, arrumaram o que estava fora do lugar e ajeitaram a janela, que tinha saído do trilho com o tombo. Atrás da casa tinha uma horta meio abandonada, dessas que ainda dão alguma coisa se alguém cuidar — e alguém passou a cuidar.

E Bremen?

Bremen continuou lá, do outro lado da mata, com a praça e o coreto e a banda tocando na tarde de domingo. Os quatro comentaram sobre ir, uma vez ou outra, sem muita convicção. Depois foram deixando.

É que eles tinham arrumado plateia. À noite, quando o vento parava, o burro zurrava, o cão latia, a gata miava e o galo cantava — os quatro na varanda, sem hora marcada, e a floresta inteira ficava quietinha ouvindo.

Firmino continuou acordando todo mundo cedo demais.

Marieta continuou não pegando rato nenhum, e ninguém nunca cobrou.

Vicente continuou não correndo, e passou a dormir no melhor lugar da casa, aquele quadradinho de sol que anda pelo chão de manhã.

E Bento, que tinha saído de um moinho no meio da noite achando que ia embora para sempre, dormia no palheiro com o cobertor de listras vermelhas nas costas, ouvindo a respiração dos outros três pela parede.

Dizem que a banda de Bremen é muito boa.

Mas que a melhor música daquela floresta toda tocava numa varanda torta, de graça, para quem quisesse ouvir.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Cada bicho tinha uma coisa que ainda sabia fazer. Qual você acha que era a mais importante?
  2. Eles nunca chegaram a Bremen. Isso é um final triste ou um final feliz?
  3. Se você fosse fazer parte dessa banda, que barulho você faria?

Sobre esta história

Os Músicos de Bremen foi publicado pelos Irmãos Grimm em 1819, na segunda edição dos Contos da Infância e do Lar, e está em domínio público. Nossa recontagem segue o enredo original de perto: os quatro animais velhos, a viagem que nunca chega a Bremen, a torre de bichos na janela e a casa que acaba virando lar. A única mudança é o desfecho do confronto — aqui os ladrões apenas levam um susto e vão embora por conta própria, sem que ninguém seja machucado.

Perguntas frequentes sobre Os Músicos de Bremen

Qual é a moral de Os Músicos de Bremen?

Que juntos os quatro conseguem o que nenhum deles faria sozinho, e que ser velho ou lento não significa não servir para mais nada. A história também mostra que mudar de plano no meio do caminho pode dar num lugar melhor do que o planejado.

Os Músicos de Bremen chegam a Bremen?

Não, e isso é de propósito já no conto dos Grimm. Eles encontram a casa na floresta antes de chegar à cidade, gostam do lugar e decidem ficar. A banda nunca se apresenta na praça — o que era um plano de viagem vira um lar.

Essa história é assustadora para crianças pequenas?

Nesta versão, não. Os ladrões só levam um susto com o barulho e saem correndo por vontade própria; ninguém é machucado, ninguém é perseguido. A parte da casa escura é curta e termina em confusão engraçada, não em perigo.

Para que idade essa história é indicada?

Dos 4 aos 9 anos. Os menores adoram os quatro sons repetidos — zurro, latido, miado e canto — e os maiores acompanham bem a ideia de quatro personagens se juntando um a um ao longo da estrada.

Que tal a história de amanhã?