O Gato de Botas
Com um par de botas e muita esperteza, um gato promete transformar seu dono humilde no grande Marquês de Carabás.

Era uma vez um moleiro velho que tinha três filhos. Quando morreu, não havia muita coisa para dividir: deixou para o filho mais velho o moinho, para o do meio o burro e para o caçula… apenas um gato.
Os dois irmãos foram embora ainda de manhã, um para tocar o moinho, outro puxando o burro pela estrada. O filho mais novo ficou sentado no degrau da porta, com a casa vazia atrás de si, olhando para o bichano desanimado.
— Para que serve um gato? — murmurou ele. — Meus irmãos vão trabalhar e ganhar a vida, e eu fico aqui com um gato.
Mas o gato, que era diferente de todos os outros gatos do mundo, sentou-se muito direito e abriu a boca:
— Não se desespere, meu jovem senhor. Se me der um par de botas e uma sacola, você verá que sou muito mais útil do que parece.
O rapaz ficou boquiaberto — nunca havia ouvido um gato falar.
— Um gato de botas? — repetiu ele, sem acreditar.
— Exatamente. Ninguém dá atenção a um gato descalço.
Como não tinha muito a perder, o rapaz foi buscar as botas e a sacola.
O Plano do Gato Esperto
O Gato calçou as botas uma de cada vez, deu alguns passos pela cozinha para se acostumar com o barulho que faziam no chão de pedra, ajeitou o chapéu e saiu porta afora com um jeito elegante e determinado.
A manhã cheirava a capim molhado. Ele desceu a estrada de terra e chegou ao campo onde o mato batia na altura do seu chapéu. Escolheu o lugar com cuidado, onde o vento levasse o cheiro para o lado certo. Colocou cenouras e folhas tenras de alface dentro da sacola, deixou a boca dela bem aberta e ficou escondido entre os arbustos, imóvel. Só a ponta da cauda listrada se mexia devagar. Então, farejando o ar, apareceu um coelho gordo e curioso, que deu três pulinhos, parou, deu mais três e finalmente entrou na sacola atrás da comida. Zap! O Gato fechou a sacola de um golpe.
Em seguida, em vez de voltar para casa, foi direto ao palácio do rei. Passou pelo portão dourado, onde a grande carruagem real esperava lustrada ao sol, e pediu com toda a educação para falar com Sua Majestade. Os guardas se entreolharam: nunca tinham visto um gato de botas pedindo audiência. Sem saber o que fazer, deixaram que ele entrasse.
— Trago um presente do meu nobre senhor, o Marquês de Carabás, — anunciou ele, entregando o coelho ao rei com uma reverência elegante, o chapéu varrendo o chão.

O rei ficou surpreso e agradecido.
— Diga ao seu senhor que aceito com prazer e que é muito gentil da sua parte. — E, quando o Gato já se afastava, perguntou baixinho a um criado: — Carabás? Nunca ouvi falar desse nome.
Nos dias seguintes, o Gato voltou ao palácio várias vezes com perdizes, faisões e lebres, sempre dizendo que eram presentes do Marquês de Carabás. Numa semana levou dois faisões de penas brilhantes; na outra, uma cesta de perdizes gordas. Os guardas já o cumprimentavam pelo nome, os cozinheiros já reconheciam de longe o barulho das suas botas no corredor, e o rei foi ficando cada vez mais curioso com esse nobre tão generoso que nunca aparecia pessoalmente.
Enquanto isso, o rapaz ficava em casa sem entender nada. Varria o chão, remendava a camisa velha e olhava pela janela esperando o amigo voltar.
— Onde você anda o dia inteiro? — perguntou ele numa noite, quando o Gato chegou com as botas cheias de barro. — E por que todo mundo na feira está falando de um tal de Marquês de Carabás?
— Confie em mim, — dizia o Gato toda vez, tirando as botas com um suspiro satisfeito. — Em breve você terá mais do que imagina.
— Mas eu não sou marquês nenhum.
— Ainda não, — respondeu o Gato, e foi dormir enrolado perto do fogo.
O rapaz, que havia aprendido a confiar no amigo inteligente, esperava.

O Gato sabia exatamente quando o rei passaria pelo rio com sua carruagem
O Marquês de Carabás
Um dia o Gato soube, ouvindo a conversa dos criados no pátio do palácio, que o rei passearia de carruagem pela estrada à beira do rio, levando a princesa. Guardou a notícia como quem guarda uma moeda de ouro no bolso, correu para casa e acordou o jovem antes de o sol nascer.
— Agora é a hora! — disse ele. — Vá nadar no rio e, quando o rei passar, eu cuido do resto.
— Nadar? Assim, sem mais nem menos?
— Sem mais nem menos. E, aconteça o que acontecer, não diga uma palavra. Deixe que eu falo.
O rapaz obedeceu, ainda meio sonolento, e entrou na água perto do salgueiro grande. O rio corria devagar naquele trecho, cheio de reflexos dourados, e os pássaros cantavam alto na margem. Foi então que se ouviu, ao longe, o trote dos cavalos e o rangido das rodas na estrada. Quando a carruagem real se aproximou, o Gato subiu na pedra mais alta da margem e começou a gritar desesperado:
— Socorro! O Marquês de Carabás está se afogando! Ladrões roubaram suas roupas e o jogaram no rio!
O rei mandou parar a carruagem imediatamente. Os soldados pularam no rio, estenderam as mãos ao jovem e o puxaram para a margem, pingando e tremendo de frio.

O Gato, muito preocupado por fora e muito satisfeito por dentro, explicava tudo ao mesmo tempo: que o Marquês havia saído para um banho, que os ladrões tinham fugido pelo mato, que era uma sorte enorme Sua Majestade estar passando justamente ali.
O rei, que já simpatizava com o misterioso Marquês, mandou abrir o baú da carruagem e buscar roupas finas do guarda-roupa real: um casaco azul com botões dourados, uma camisa de gola rendada e sapatos de fivela lustrosos. O tecido era tão macio que o rapaz teve medo de amassá-lo só de respirar. Vestido com aquelas roupas, ficou muito bem apresentado — tão bem apresentado que ele mesmo não se reconheceu quando viu o próprio reflexo no vidro da carruagem.
— Suba, meu caro Marquês, — disse o rei, abrindo a portinhola. — Faremos o resto do caminho juntos.
O rapaz olhou para o Gato. O Gato piscou um olho. Então ele subiu, sentou-se na almofada de veludo e não disse nada, exatamente como havia sido combinado. Dentro da carruagem cheirava a couro novo e a flor de laranjeira. O rei falou o caminho inteiro sobre caçadas, sobre o tempo e sobre como admirava um homem generoso, e o rapaz apenas concordava com a cabeça, tomando muito cuidado para não deixar escapar que, até aquela manhã, toda a sua fortuna cabia dentro de um par de botas.
A princesa, que o observava pela janela, corou levemente, desviou os olhos para o rio e depois olhou de novo.

O Gato, enquanto isso, correu à frente da carruagem pelos campos e pela estrada, saltando cercas e atravessando trigais, encontrando fazendeiros, pastores e aldeões. A todos dizia a mesma coisa em voz firme, sem tirar o chapéu:
— Quando o rei passar e perguntar de quem é essa terra, vocês dirão: é do Marquês de Carabás. Façam isso e não se arrependerão.
As pessoas paravam o trabalho, apoiavam a foice no ombro e ficavam olhando. Nunca tinham visto nada parecido com aquele gato tão sério, de botas lustradas e capa esvoaçante, falando como um mensageiro do palácio. Assustadas e um pouco encantadas, concordavam com a cabeça. Um pastor velho ainda perguntou:
— E esse tal Marquês, é bom patrão?
— O melhor que já existiu, — garantiu o Gato, e seguiu correndo antes que viessem outras perguntas.
Numa curva da estrada, uma mulher com um cesto de maçãs quase deixou o cesto cair. Mais adiante, um menino que consertava a cerca com o pai largou o martelo no chão e ficou de boca aberta vendo aquele borrão de capa e botas atravessar o trigal. As crianças correram atrás dele até onde as pernas alcançaram.
Então, quando o rei passou e perguntou de quem eram aquelas terras férteis, aqueles pomares carregados e aqueles rebanhos gordos, todos responderam em coro, uns mais alto que os outros:
— Do Marquês de Carabás!
O rei ficou cada vez mais impressionado com o jovem rico que caminhava a seu lado — que, por sinal, quase não dizia nada, exatamente como o Gato havia recomendado.

O castelo do ogro logo se tornaria o lar do Marquês de Carabás
O Ogro e o Grande Castelo
O Gato correu à frente e, depois da última curva da estrada, chegou a um enorme castelo de torres pontudas que na verdade pertencia a um ogro poderoso, dono de todas aquelas terras. O ogro era rico, temido e tinha um poder terrível: conseguia se transformar em qualquer animal que quisesse. Ninguém batia naquela porta por vontade própria. Mas o Gato ajeitou a capa, limpou a poeira das botas e entrou no castelo com toda a confiança do mundo.
Lá dentro, o salão cheirava a pão quente. Havia uma mesa comprida posta para um banquete e janelas altas por onde entrava o sol da tarde. O ogro estava sentado na cabeceira, ocupando três cadeiras ao mesmo tempo. O Gato fez uma reverência tão caprichada que a pluma do chapéu chegou a tocar o tapete.
— Bom dia, senhor. Ouvi dizer que você tem o incrível poder de se transformar em qualquer animal. Mas devo confessar que acho difícil de acreditar.
O ogro ficou ofendido e largou a colher na mesa.
— Difícil? Veja só! — esbravejou ele, e em dois segundos se transformou num leão enorme que rugiu fazendo as paredes tremer e os copos dançarem.
O Gato saltou assustado para cima de um armário, com o pelo todo arrepiado. Mas logo se recompôs, desceu com calma, ajeitou o chapéu e disse em tom de desafio:
— Impressionante! Mas transformar-se num animal grande é fácil para um ser do seu tamanho. Aposto que não consegue virar um animal pequeno… como um ratinho, por exemplo.
— Um ratinho? — riu o ogro. — Isso é brincadeira de criança.
— É o que dizem todos os que não conseguem, — respondeu o Gato, examinando as unhas.
O ogro, com o ego ferido, aceitou o desafio imediatamente e se transformou num ratinho tão pequeno que cabia na palma da mão. Foi o suficiente. O Gato saltou sobre ele num piscar de olhos, e quando o salão voltou a ficar em silêncio o ogro havia desaparecido. Da porta aberta entrava só o vento morno da tarde.

Quando a carruagem real chegou ao castelo, o Gato já estava na porta, penteado e impecável, com uma reverência perfeita à espera:
— Bem-vindos ao castelo do Marquês de Carabás, Vossa Majestade.
O rei ficou deslumbrado. O castelo era magnífico, com salões dourados, jardins floridos e mesas cobertas de comida — afinal, o ogro havia preparado um banquete antes da chegada inesperada do Gato. Havia frutas empilhadas, tortas ainda quentes e jarras de suco de amora, e a princesa bateu palmas ao ver os jardins.
O rei olhou para o jovem Marquês, olhou para a princesa, que não tirava os olhos do rapaz, e sorriu.
— Se você quiser, pode se tornar meu genro.
O jovem aceitou com o coração cheio de alegria e, antes de responder, procurou com os olhos, no meio do salão, o amigo que havia começado tudo aquilo com um par de botas emprestadas. E o Gato de Botas? Tornou-se o mais famoso e respeitado dos conselheiros reais, e nunca mais precisou correr atrás de ratos — a não ser para se divertir.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- O gato usou muita esperteza — e algumas mentiras. Isso foi certo?
- O que o dono do gato tinha de bom, além da sorte de ter um gato assim?
- Se você tivesse um animal que falasse, o que perguntaria para ele primeiro?
Sobre esta história
O Gato de Botas foi publicado por Charles Perrault na França, em 1697, no mesmo volume de Chapeuzinho Vermelho e Cinderela. Versões parecidas circulavam antes na Itália, com Giovanni Francesco Straparola no século XVI. É um dos poucos contos clássicos em que o herói vence pela astúcia, e não pela bondade ou pela força.
Perguntas frequentes sobre O Gato de Botas
Qual é a moral de O Gato de Botas?
Que inteligência e iniciativa podem valer mais do que herança ou riqueza. É também uma boa história para conversar com a criança sobre os limites da esperteza: o gato mente algumas vezes, e vale perguntar o que ela acha disso.
Quem escreveu O Gato de Botas?
Charles Perrault, em 1697, na França — embora versões parecidas já circulassem na Itália no século XVI.
O Gato de Botas é indicado para que idade?
A partir dos 5 anos. É uma história leve, divertida e sem passagens assustadoras, boa para crianças que gostam de personagens espertos.


