Contos para Dormir
Ilustração do conto O Leão e o Ratinho

O Leão e o Ratinho

O maior bicho da savana pegou o menor de todos entre as patas — e o menor fez uma promessa que arrancou do leão a maior gargalhada da vida dele.

Equipe Contos para Dormir ·

Na tarde mais quente da savana, o maior de todos os bichos abriu um olho só — e o que ele viu cabia na palma da pata

Era uma tarde daquelas em que até o vento tira folga.

O capim estava alto e amarelo, as cigarras cantavam sem descanso e, debaixo da figueira mais velha do lugar, esticado na sombra como um tapete grande demais, dormia Baru, o leão.

Baru era grande do jeito que só leão é grande. A juba dele parecia um sol que tinha caído ali e resolvido ficar. Quando respirava, o peito subia devagar, descia devagar, e o capim em volta balançava junto — como se a savana inteira estivesse respirando com ele.

Naquela hora ninguém passava perto da figueira. Era uma regra que nenhum bicho tinha combinado e que todos cumpriam.

Foi então que Nico apareceu.

Nico era um ratinho cinza de orelhas redondas e rabo comprido, do tamanho de meio pão de queijo. Morava com a família inteira debaixo de um jatobá do outro lado do campo e tinha um defeito só, que a avó dele fazia questão de lembrar toda semana: quando Nico decidia uma coisa, ele parava de enxergar tudo o que não fosse aquela coisa.

Naquela tarde, a coisa era uma semente.

Uma semente redonda, lisa, cor de mel, que tinha escapado das patinhas dele e saído rolando morro abaixo. Nico foi atrás. Correu pelo capim alto olhando só para a semente — que é o jeito mais fácil do mundo de não ver o resto.

A semente parou.

Nico não.

Ele subiu num morrinho quente, macio, forrado de pelo dourado, escorregou do outro lado e aterrissou bem no meio de um bocejo.

Um leão enorme de juba dourada dorme esticado à sombra de uma figueira, e um ratinho cinza corre distraído por cima do lombo dele atrás de uma sementinha

O susto no meio da tarde

O morrinho não era morrinho.

O chão em que Nico tinha pisado se levantou. As cigarras calaram todas de uma vez, como quem fecha uma janela. E dois olhos amarelos, do tamanho de duas laranjas, se abriram devagar bem em cima dele.

— Ai — disse Nico.

Foi só o que deu tempo de dizer.

A pata desceu. Não desceu com força, nem com raiva: desceu do jeito que a gente põe a mão em cima de um papel para o vento não levar. Mas era uma pata de leão, e por baixo dela Nico ficou preso como um grão de arroz debaixo de um prato.

— Você — rosnou Baru, e a voz dele fez chacoalhar as folhas lá em cima — correu por cima do meu nariz.

— Eu sei.

— No meio da minha soneca.

— Eu sei — repetiu Nico, com a voz fininha e o coração batendo tão rápido que dava para ouvir. — Foi sem querer. Eu estava atrás de uma semente. Ela é redonda e ela rola, e quando ela rola eu vou atrás, e quando eu vou atrás eu não olho nada, e é sempre assim, e a minha avó vive dizendo que um dia isso ia acabar mal.

Baru piscou.

Fazia muito tempo que ninguém falava tanto tão perto dele.

— A sua avó tinha razão — disse o leão.

— Ela quase sempre tem — concordou Nico.

O leão inclinou a cabeça enorme. O ratinho debaixo da pata dele era tão pequeno que, se soprasse, ele sumia no capim. Não havia nada ali para comer, nada para brigar, nada que valesse a pena o incômodo de levantar. Havia só um bichinho cinzento tremendo e falando muito.

A promessa que fez a savana rir

— Me solta — pediu Nico. — Por favor.

— E por que eu faria isso?

O ratinho pensou. Pensou rápido, do jeito que se pensa quando o tempo é pouco, e o que saiu foi a única coisa que ele tinha para oferecer.

— Porque um dia eu te ajudo.

Houve um silêncio.

Depois Baru começou a rir.

Não foi um risinho. Foi uma gargalhada de leão, funda, que fez os pássaros levantarem voo da figueira todos ao mesmo tempo, que ecoou no morro do outro lado do rio e voltou. As zebras ergueram a cabeça lá longe para ver o que estava acontecendo. Nunca ninguém tinha ouvido Baru rir daquele jeito.

O leão joga a cabeça para trás numa gargalhada de olhos apertados, enquanto o ratinho cinza, ainda preso debaixo da pata dele, fala com toda a seriedade

— Você — disse ele, entre uma risada e outra — vai me ajudar.

— Vou.

— Você, que cabe na minha unha.

— Caibo mesmo — admitiu Nico. — Mas eu falei sério.

Baru riu mais um pouco. E, ainda rindo, levantou a pata.

— Vai — disse. — Some daqui antes que eu mude de ideia. Você me fez rir, e faz tempo que ninguém fazia isso.

Nico não esperou o convite ser repetido. Deu três passos, parou, virou-se e falou de novo, com toda a seriedade que cabe num bicho daquele tamanho:

— Um dia eu te ajudo. Você vai ver.

— Vou nada — respondeu o leão, deitando a cabeça de volta no chão. — Mas obrigado.

E dormiu.

O ratinho que ninguém levou a sério

Nico voltou para casa com a semente na boca e a história inteira presa na garganta. Foi um caminho comprido, e ele fez o caminho todo repassando a cena de trás para a frente, para não esquecer nenhum pedaço.

A casa dele era um buraco entre as raízes de um jatobá, escuro e quentinho, cheio de irmãos, primos e tios que falavam todos ao mesmo tempo. Naquela noite ele contou tudo. Contou o morrinho, o bocejo, a pata, os olhos de laranja.

E contou a promessa.

Foi a promessa que fez o buraco inteiro cair na risada.

— Você? — disse o irmão mais velho.

— Eu.

— Ajudar um leão?

— Um dia.

— Nico, meu amor — disse a avó, ajeitando os óculos que ela não tinha —, você é do tamanho de uma tampinha.

— Eu sei o tamanho que eu tenho — respondeu ele. — Mas eu falei, e falei sério, e quem fala sério cumpre.

— E como é que você vai ajudar um leão? — quis saber o primo mais novo, que era o único ali levando a conversa a sério.

Nico pensou um tempo.

— Não sei — disse. — Ainda não aconteceu.

Aquilo fez o buraco inteiro rir de novo, e dessa vez Nico riu junto, porque a resposta era mesmo engraçada.

Riram mais um pouco e depois foram dormir, porque rato dorme cedo.

Dentro de uma toca aconchegante entre raízes, um ratinho cinza conta uma história para vários outros ratos que riem

As chuvas vieram e foram embora. O capim ficou verde, depois amarelo de novo. Nico cresceu um tantinho, o suficiente para ninguém notar. E a promessa continuou lá, guardada, do jeito que a gente guarda uma palavra dada: sem saber onde vai usar, mas sem soltar.

Baru, esse, esqueceu no mesmo dia.

A noite em que o rugido mudou

Aconteceu no fim de uma tarde de vento.

Uns homens tinham passado pela savana de manhã e armado uma rede entre duas árvores, dessas de corda grossa, trançada, feita para prender bicho grande. Depois foram embora, para voltar quando o sol subisse de novo.

Baru não viu a rede. Estava andando pelo caminho de sempre, o caminho que ele fazia desde filhote, e o caminho de sempre é justamente onde a gente menos repara nas coisas.

A rede fechou em volta dele.

Baru puxou. A rede apertou. Ele puxou com mais força, com as quatro patas, com o peso todo do corpo — e a rede, que é feita para isso, apertou mais ainda.

Baru ficou muito quieto.

Ficar quieto era a única coisa que ainda funcionava. Ele encostou a lateral do corpo no chão, fechou os olhos e esperou passar — do jeito que a gente espera passar aquilo que não passa sozinho.

Não passou.

O sol foi descendo atrás do morro. A savana ficou roxa, depois azul, e as primeiras estrelas apareceram por cima da rede.

Aí Baru fez a única coisa que sobrava.

Ele rugiu.

Foi um rugido diferente de todos os outros que a savana já tinha ouvido dele. Não era o rugido de mandar embora, nem o de avisar que aquele pedaço de sombra era dele. Era um rugido comprido, meio rachado no fim, que os bichos entenderam na hora, mesmo sem saber explicar como.

Era um pedido.

Em cima de uma pedra, o ratinho cinza escuta de longe o rugido do leão preso numa rede de cordas grossas entre duas árvores, sob a luz azul da lua

Vieram todos.

Veio a zebra, que puxou a corda com os dentes e escorregou. Veio a girafa, que era alta mas tinha boca mole de comer folha, e não conseguiu segurar o nó. Veio o javali, que empurrou com a cabeça até ficar tonto. Veio um bando de macacos que desatou dez nós e descobriu que embaixo de cada nó havia outro.

A rede era boa. Era esse o problema.

Quando a lua já estava alta, os bichos estavam todos sentados em volta, sem ideia nenhuma, e Baru tinha parado de puxar porque puxar só piorava.

— A gente volta de manhã com mais gente — disse alguém.

— De manhã eles chegam — respondeu o leão, baixinho.

E aí ninguém falou mais nada.

Os dentinhos na corda

Foi quando um barulho pequeno apareceu no meio do capim.

Um barulhinho de nada, de patinhas correndo depressa.

— Sai da frente — dizia a voz fininha. — Licença. Licença. Sai da frente.

E Nico atravessou a roda de bichos grandes, passou por baixo da barriga da zebra, contornou o casco do javali e parou bem em frente ao focinho do leão preso.

Baru olhou para ele.

Levou um instante para lembrar. Depois lembrou.

— Você — disse.

— Eu — disse Nico.

— Você é do tamanho de uma tampinha.

— Eu sei o tamanho que eu tenho — respondeu o ratinho, subindo na corda. — Mas o meu dente é do tamanho certo.

E começou.

Rói, rói, rói.

A corda era grossa como o braço de um homem e dura como raiz seca. Nico escolheu um fio só — não a corda inteira, um fio só — e foi nele.

Rói, rói, rói.

Os outros bichos ficaram olhando. No começo acharam bonitinho, do jeito que a gente acha bonitinho o esforço que não vai dar em nada. Mas o fio arrebentou. E quando o primeiro fio arrebentou, ninguém achou mais graça nenhuma.

Na madrugada, o ratinho cinza rói um fio de corda grossa que uma zebra segura esticada com os dentes, ao lado do leão preso na rede

A noite era comprida.

A zebra segurou a corda esticada com os dentes, porque corda esticada rói mais fácil. A girafa ficou de sentinela, olhando o caminho por onde os homens iam voltar. Os macacos revezavam soprando os fiapos para fora do caminho. E a avó de Nico, que tinha vindo atrás dele sem dizer nada, ficou ali embaixo dizendo de vez em quando: "vai, meu amor, vai".

Rói, rói, rói.

Quando o queixo doía, Nico parava, contava até dez e voltava.

Quando o sono chegava, Baru falava com ele — contava do rio, das cigarras, do dia em que uma tartaruga o assustou. Contava qualquer coisa, só para o ratinho ter uma voz para acompanhar.

Rói, rói, rói.

A lua atravessou o céu inteirinha.

Quando o céu começou a clarear

O último fio arrebentou com um estalo seco, desses que a gente ouve com o corpo todo.

A rede afrouxou. Afrouxou devagar, depois de uma vez, e escorregou pelo lombo do leão até o chão, como uma roupa velha caindo do varal.

Baru ficou parado um segundo, sem acreditar nas próprias pernas. Depois deu um passo. Depois outro. E aí sacudiu a juba inteira, do jeito que leão sacode, e um monte de fiapo de corda voou para todo lado.

Os bichos comemoraram baixinho, porque já estava quase de manhã e ninguém ali tinha fôlego para mais do que isso.

Nico escorregou da corda e sentou no chão. Estava com o queixo dolorido, as patinhas trêmulas e os olhos quase fechando.

— Você voltou — disse o leão.

— Eu disse que ia — respondeu o ratinho, e bocejou no meio da frase.

Baru abaixou a cabeça enorme até o chão, encostou o focinho no capim bem ao lado dele e ficou assim, quietinho, olhando aquele bichinho cinzento do tamanho de meio pão de queijo.

— Como é mesmo o seu nome?

— Nico.

— Nico — repetiu o leão, devagar, como quem guarda uma coisa num lugar seguro. — Está bem.

O leão deitado no capim ao amanhecer com o focinho encostado no chão, e o ratinho cinza cochilando junto à juba dourada

O sol subiu manso por trás do morro e pintou a savana inteira de laranja.

Um a um, os bichos foram indo embora para dormir o que ainda dava para dormir. A zebra bocejou. A girafa foi andando devagar, alta e desengonçada, atrás das folhas do café da manhã.

A rede ficou onde caiu, enrolada no pé das duas árvores, e ninguém nunca mais mexeu naquilo.

E lá longe, debaixo do jatobá do outro lado do campo, a avó de Nico contava a história para quem ainda estivesse acordado — a mesma história de sempre, o morrinho, o bocejo, a pata, os olhos de laranja.

Dessa vez ninguém riu.

Baru caminhou até a figueira velha com Nico acomodado no meio da juba, que é o lugar mais quente e mais macio que existe na savana.

Deitou na sombra.

As cigarras recomeçaram devagar, uma de cada vez, como quem afina instrumento antes de tocar.

O peito de Baru subiu devagar e desceu devagar, e o capim em volta balançou junto — do mesmo jeito de sempre, como se a savana inteira estivesse respirando com ele.

E no meio daquela juba enorme, enroscado feito uma vírgula cinza, o ratinho que ninguém tinha levado a sério dormiu primeiro.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. O leão riu quando o Nico disse que um dia ia ajudá-lo. Por que será que ele achou tanta graça?
  2. Os outros bichos tentaram soltar o leão e não conseguiram. O que o ratinho tinha que eles não tinham?
  3. Você já ajudou alguém numa coisa que parecia pequena demais para importar?

Sobre esta história

O Leão e o Ratinho é uma das fábulas atribuídas a Esopo, contador de histórias que teria vivido na Grécia por volta do século VI a.C. As fábulas dele circularam de boca em boca durante séculos antes de serem reunidas por escrito, e por isso existem em incontáveis versões — esta é a nossa, contada com palavras próprias e em linguagem de hoje. O enredo tradicional está inteiro: o ratinho que acorda o leão, o perdão, a promessa risível e a rede roída de madrugada. Demos nomes aos dois personagens, que na fábula original não têm nome, e mantivemos os caçadores inteiramente fora de cena: eles armam a rede antes de a história chegar ali e nunca voltam a aparecer.

Perguntas frequentes sobre O Leão e o Ratinho

Qual é a moral da fábula O Leão e o Ratinho?

Que ninguém é pequeno demais para ajudar, e que uma gentileza feita sem esperar nada em troca costuma encontrar caminho de voltar. A fábula também mostra que força e tamanho não resolvem tudo: os dentes de um rato conseguiram o que a garra do leão não conseguia.

Quem escreveu O Leão e o Ratinho?

A fábula é atribuída a Esopo, da Grécia antiga, por volta do século VI a.C. Não existe texto original preservado dele — as histórias foram registradas por escrito séculos depois, o que explica tantas versões diferentes correndo por aí.

Esta história é assustadora para crianças pequenas?

Não. O leão nunca chega a ameaçar de verdade o ratinho, os caçadores não aparecem em cena e ninguém se machuca. A parte da rede tem tensão, mas é resolvida antes do amanhecer e o final é calmo, feito para acabar a leitura já com sono.

Para que idade esta fábula é indicada?

Dos 3 aos 7 anos. Os dois personagens são fáceis de guardar, o enredo tem só duas viradas e há bastante repetição para a criança acompanhar e até completar as frases em voz alta.

Que tal a história de amanhã?