
O Farol que Tinha Medo do Escuro
Faustino nasceu para iluminar a noite — mas morre de medo dela. Até que um barquinho perdido na tempestade precisa exatamente da luz dele.
Um farol que não acende é só uma torre. O que acende essa lanterna é a história desta noite
Na pontinha mais pontuda de uma ilha pequenina, morava um farol chamado Faustino.
Faustino era novinho em folha. Tinha uma pintura listrada de vermelho e branco, uma escada caracol na barriga e, lá no alto, uma grande lanterna de vidro — o seu olho brilhante.
Todos os faróis do mundo têm um trabalho só: acender a luz quando a noite chega, para guiar os barcos no mar.
Só tinha um problema. Um problema enorme. Um problema do tamanho de um farol:
Faustino tinha medo do escuro.
— Logo eu! — suspirava ele. — Um farol com medo do escuro é como um peixe com medo de água!
Todas as tardes, quando o sol começava a descer, a barriga de Faustino gelava. As janelinhas dele tremiam. E quando a última luzinha do dia ia embora... Faustino apertava o olho bem fechado e não acendia a lanterna de jeito nenhum.
— Se eu não vejo o escuro, o escuro não me vê! — dizia ele.
As gaivotas que moravam no telhado já tinham tentado de tudo.
— O escuro não morde, Faustino! — dizia a gaivota Guiomar.
— Você é a coisa mais alta da ilha! — dizia o gaivotão Gustavo. — Do que um grandão desses pode ter medo?
Mas medo não escuta explicação. Medo é assim mesmo: aperta por dentro, e pronto.
Uma noite, o vento começou a soprar forte. As ondas cresceram, splash, splash, batendo nas pedras. Uma tempestade estava chegando.
E no meio do mar escuro, bem longe da ilha, uma luzinha fraquinha balançava para lá e para cá.
Era um barquinho de pesca. E dentro dele, uma menina chamada Marina, agarradinha no seu avô.
— Vovô, cadê a ilha? — perguntou Marina. — Está tudo tão escuro!
— O farol vai nos mostrar o caminho — respondeu o avô, segurando firme o leme. — É só procurar a luz.
Mas a luz... não estava acesa.
Lá na ilha, Faustino ouviu um som diferente no meio do vento. Um som pequenininho, que subiu as ondas, escorregou pelas pedras e entrou pela janelinha dele:
— Socorro! Alguém pode acender a luz?
Faustino abriu o olho só uma frestinha. Viu a noite enorme, preta, cheia de tempestade. A barriga gelou. As janelas tremeram.
Mas viu também, lá longe, a luzinha do barquinho — pequena, sozinha, perdida.
E Faustino descobriu uma coisa naquela hora. Uma coisa que os corajosos sabem:
Do outro lado do medo dele, tinha alguém precisando de ajuda.
— Eu estou com medo — disse Faustino bem alto, para a noite ouvir. — Mas vou acender assim mesmo!
E então... CLIC!
A grande lanterna de Faustino acendeu. Um facho de luz dourada, forte, girando, cortou a escuridão de ponta a ponta. A noite preta virou uma noite com caminho no meio.
— A luz, vovô! Olha a luz! — gritou Marina, apontando.
O avô sorriu, virou o leme, e o barquinho seguiu o facho dourado, onda por onda, até chegar em segurança na baía da ilha.
E Faustino? Faustino olhou em volta, espantado.
Com a lanterna acesa, o escuro não era mais um buraco preto. Ele conseguia ver as ondas brilhando como prata. As estrelas piscando entre as nuvens. A lua espiando lá de cima. E a luzinha feliz do barquinho, seguindo em segurança.
— Ora, ora... — riu Faustino. — O escuro fica bem menos assustador quando sou eu que acendo a luz!
Daquela noite em diante, Faustino acendia a lanterna todos os dias, assim que o sol ia dormir. O medo? Às vezes ainda dava uma apertadinha na barriga dele. Mas Faustino tinha aprendido o segredo:
Coragem não é não ter medo. Coragem é acender a luz mesmo com medo.
E se uma noite você olhar para o mar e vir uma luz dourada girando devagarinho... pode saber: é o Faustino, tomando conta de todo mundo que navega por aí.
Agora feche os olhos, marujo. O farol já está aceso, o mar está calmo, e a sua cama é um barquinho navegando manso para a terra dos sonhos.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- O Faustino tinha medo do escuro e descobriu um jeito de vencer. Você tem medo de alguma coisa? O que será que ajudaria?
- Por que você acha que o medo do Faustino diminuiu quando ele acendeu a luz para ajudar a Marina?
- Se você fosse um farol, para quem você gostaria de acender a sua luz?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir. A ironia do ponto de partida — logo um farol com medo do escuro — é o que permite falar do medo sem apontar para a criança: ela ri do problema do Faustino antes de reconhecer o próprio. A tensão da tempestade mora no meio da história, de propósito; o final devolve o mar calmo e todo mundo em segurança, como a hora de dormir pede.
Perguntas frequentes sobre O Farol que Tinha Medo do Escuro
Este conto ajuda criança com medo do escuro?
Sim, e esse é o objetivo. A história valida o medo (até um farol sente!) e mostra a superação pela ação, não pela cobrança. Funciona melhor lida antes de apagar a luz, várias noites seguidas, do que no meio de uma crise de medo.
Para que idade é indicada?
Dos 4 aos 7 anos, a fase em que o medo do escuro é mais comum. Crianças maiores também aproveitam — a frase 'coragem é acender a luz mesmo com medo' costuma ficar.
Quanto tempo leva para ler?
Cerca de 8 minutos em voz alta. Se quiser encurtar, as falas das gaivotas podem ser resumidas sem perda — mas o CLIC de acender a lanterna merece cerimônia.
Como aproveitar melhor a leitura?
Se a criança tem medo do escuro, deixe-a acender um abajur ou lanterna no momento exato do CLIC. Virar o 'acendedor oficial' da casa dá a ela a mesma sensação de controle que o Faustino descobre.


