Contos para Dormir
Ilustração do conto Davi e o Gigante

Davi e o Gigante

Fazia quarenta dias que o gigante descia até o meio do vale e ninguém respondia. Quem respondeu foi o caçula de oito irmãos, que tinha ido lá só para entregar pão.

Equipe Contos para Dormir ·

Um menino que só sabia tomar conta de ovelhas desceu sozinho até o meio do vale, levando o que já tinha no bolso

Antes de tudo isso acontecer, Davi era só o caçula.

O menor de oito irmãos, numa casa de Belém onde todo mundo falava alto e ninguém esperava a vez. Os sete mais velhos eram rapazes grandes, de braço grosso. Davi era o que sobrava para tomar conta das ovelhas.

E ele tomava conta bem.

Passava o dia inteiro nas encostas, com o rebanho espalhado pelo capim seco. Não havia com quem conversar, então ele conversava com as ovelhas. Cantava. Ficava olhando as nuvens mudarem de formato a tarde toda. Era uma vida devagar.

A única coisa que Davi carregava era uma funda — duas tiras de couro amarradas num pedaço de pano, dessas que a gente roda no ar e solta a pedra.

Ele treinava porque não tinha mais nada para fazer.

Acertava um figo no galho. Acertava um caco de telha em cima da pedra. Acertava a trinta passos, depois a cinquenta, depois a setenta — e um dia simplesmente parou de errar. Não porque fosse mágico. Porque tinha tempo. Quem passa a vida num lugar quieto acaba ficando muito bom em alguma coisa pequena.

Quando aparecia bicho grande rondando o rebanho, Davi girava a funda e soltava uma pedra pertinho dele, só para fazer barulho e espantar. Depois contava as ovelhas. Uma, duas, três… até a última. Todo fim de tarde, sem falta.

Foi assim durante anos. E ninguém no mundo sabia o nome dele.

Menino pastor girando uma funda de couro acima da cabeça numa encosta seca, com ovelhas pastando atrás dele

O Recado do Pai

Numa manhã, Jessé chamou o caçula na porta de casa.

Os três filhos mais velhos tinham ido servir no exército do rei, lá longe, e fazia tempo que não chegava notícia deles.

— Leva estes pães para os seus irmãos — disse Jessé. — Este queijo aqui é para o comandante. Vê como eles estão e volta para me contar.

Davi levantou antes do sol, deixou o rebanho com outro pastor e foi.

Andou a manhã inteira.

O caminho passava por lugares que ele nunca tinha visto: uma oliveira torta e velha no meio de um campo vazio, um poço com a corda quebrada, três casas de pedra em cima de um morro pelado. Davi ia guardando tudo de cabeça para contar depois, porque quem passa a vida sozinho com as ovelhas cria o costume de reparar nas coisas.

Andou depois do meio-dia, quando o sol bate reto e o chão devolve o calor.

Foi ficando com fome, e não comeu, porque o pão era dos irmãos.

No fim da tarde, quando as sombras já estavam compridas, ele subiu o último morro. Chegou na crista.

E parou.

Lá embaixo se abria um vale largo, de fundo pedregoso, com um riacho raso correndo pelo meio.

De um lado da encosta, o acampamento do rei Saul: fileiras e fileiras de tenda, fogueira acesa, cavalo amarrado, cheiro de fumaça subindo.

Do outro lado do vale, exatamente igual, o acampamento dos filisteus.

As duas encostas se olhavam de longe. E nenhuma descia.

Davi ficou ali em pé um tempo, com os pães debaixo do braço, tentando entender.

É que descer era justamente o problema. Quem descesse primeiro chegaria lá embaixo com o outro exército inteiro em cima. Então os dois ficavam onde estavam: acendendo fogueira quando escurecia, apagando quando amanhecia, e esperando o outro fazer alguma coisa primeiro.

Menino pastor no alto de um morro, com pães debaixo do braço, olhando um vale largo com acampamentos nos dois lados

O Gigante do Vale

Davi desceu correndo até o acampamento e chegou bem na hora em que os soldados se arrumavam em fileira, gritando o grito de guerra, batendo o pé no chão — aquele barulho todo que os exércitos fazem antes de não fazer nada.

Ele largou os pães, achou os irmãos e estava no meio de um abraço quando uma voz veio do fundo do vale.

Uma voz enorme.

— Escolham um de vocês! Um só! Mandem descer, e a gente resolve isso entre nós dois!

Davi virou a cabeça devagar.

No meio do vale havia um homem parado. E era um homem grande — grande mesmo, dessas alturas em que a gente não acredita antes de ver. Mesmo lá de cima, mesmo pequeno pela distância, dava para perceber que ele não tinha o tamanho dos outros.

O nome dele era Golias.

Vinha coberto de bronze da cabeça aos pés. Capacete de bronze com viseira. Peitoral feito de milhares de escaminhas de bronze costuradas uma na outra, tão pesado que dois homens juntos mal conseguiam levantá-lo do chão. Caneleiras de bronze. E um escudo tão grande que vinha outro soldado na frente só para carregar.

Golias apoiou a lança na pedra e gritou de novo.

A voz bateu numa encosta, bateu na outra e voltou.

Ninguém desceu.

Ele fazia isso de manhã, com o sol ainda baixo. Fazia de novo de tarde, quando as sombras já tinham virado para o outro lado. Descia até o meio do vale, plantava os pés no chão de pedra, gritava a mesma frase e esperava. Depois pegava a lança e ia embora.

De manhã e de tarde. Quarenta dias seguidos.

E quarenta dias é muito tempo para ter medo da mesma coisa. No começo os soldados corriam para ver. Depois passaram a olhar de longe. No fim já nem levantavam mais — ficavam sentados dentro das tendas esperando aquela voz terminar, com aquele silêncio pesado de quem não quer ser o próximo a falar.

Menino pastor no alto da encosta olhando por cima do ombro para o fundo do vale, onde um guerreiro gigante de armadura de bronze está parado sozinho apoiado numa lança

E Ninguém Desce?

— Ele faz isso todo dia? — perguntou Davi.

— De manhã e de tarde — respondeu um soldado, sem tirar os olhos do chão.

— Desde quando?

— Faz quarenta dias.

— E ninguém desce?

O soldado deu de ombros de um jeito muito cansado.

— Desce você, se quiser.

Eliabe, o irmão mais velho, ouviu aquilo e ficou vermelho.

— Quem foi que ficou com as ovelhas para você vir bisbilhotar guerra? Volta para casa, Davi.

— Eu só perguntei.

— Pois não pergunta.

Mas Davi perguntou de novo, um pouco mais adiante, para outro soldado. E para outro. Fazia sempre a mesma pergunta, com a mesma cara de quem quer entender de verdade: e ninguém desce?

Ninguém sabia responder. Diziam que o homem era grande demais. Diziam que a armadura dele era grossa demais. Diziam que já tinham decidido isso quarenta dias atrás e que não valia mais a pena discutir.

A pergunta foi andando de boca em boca pelo acampamento, do jeito que as perguntas incômodas andam.

Até chegar na tenda do rei.

Eu Vou

Saul mandou chamar o menino.

Era um rei alto, o mais alto do exército inteiro, e mesmo assim não tinha descido. Olhou para Davi de cima a baixo: a poeira do caminho nas pernas, o cajado na mão, o saquinho de couro amarrado na cintura.

— Você não pode enfrentar aquele homem — disse Saul. — Você é um menino. Ele é soldado desde antes de você nascer.

— Eu tomo conta das ovelhas do meu pai — respondeu Davi. — Quando aparece um leão, ou um urso, e agarra uma ovelha do rebanho, eu vou atrás. Eu não deixo levar. Já fui atrás muitas vezes e trouxe a ovelha de volta.

— Isso é diferente.

— É maior — disse Davi. — Mas é a mesma coisa.

Saul ficou olhando para ele um tempo comprido, sem dizer nada.

— E eu não vou sozinho — acrescentou o menino.

O rei suspirou fundo, do jeito de quem já tentou tudo e não tem mais o que tentar.

— Então vai — disse. — Mas não vai desse jeito.

Menino pastor descalço e de túnica simples conversando com um rei alto de manto dentro de uma tenda iluminada por lamparina

A Armadura que Não Era Dele

Saul mandou trazerem a própria armadura.

Puseram em Davi o capacete de bronze, que escorregou até tapar metade dos olhos dele. Vestiram a couraça, que descia até quase o joelho. Amarraram a espada do rei na cintura do menino — uma espada de verdade, pesada, dessas que precisam das duas mãos.

Davi ficou parado no meio da tenda.

Tentou dar um passo.

O pé arrastou. O capacete deslizou. A espada bateu na perna e ele quase sentou no chão ali mesmo.

Tentou de novo. Mesma coisa.

— Não consigo andar com isso — disse ele.

— É a melhor armadura do acampamento — disse Saul.

— Eu sei. Mas não é minha. Eu nunca usei isso na vida.

E foi tirando peça por peça, devagar, devolvendo tudo nas mãos do rei. O capacete. A couraça. A espada.

Ficou como tinha chegado: túnica simples de pastor, cajado na mão, saquinho de couro na cintura, funda enrolada no pulso.

— É só isso? — perguntou Saul.

— É isso que eu sei usar.

As Cinco Pedras do Riacho

Davi desceu a encosta sozinho.

No fundo do vale corria aquele riacho raso, de água clara e leito cheio de pedra rolada. Ele se agachou na beirada e começou a escolher.

Não pegou qualquer uma. Pegou as lisas, as redondas, do tamanho de um ovo — porque pedra lisa corta o ar reto e pedra torta faz curva no meio do caminho. Isso é coisa que só sabe quem passou anos jogando pedra sem ter mais nada para fazer.

Escolheu cinco.

Uma. Duas. Três. Quatro. Cinco.

Guardou as cinco no saquinho de couro, apertou o nó do cinto e se levantou.

Lá de cima, os dois exércitos assistiam em silêncio. Ninguém tinha entendido direito o que estava acontecendo. Havia um menino no meio do vale, com um cajado na mão, molhando as sandálias no riacho.

Do outro lado, o gigante começou a andar na direção dele.

Menino pastor agachado na beira de um riacho raso, escolhendo pedras lisas e redondas com as duas mãos

O Meio do Vale

Golias chegou perto e parou.

Olhou para baixo. Olhou outra vez, como quem confere se está vendo certo.

E riu.

— É um menino — disse ele, e a voz encheu o vale inteiro. — Mandaram um menino. Eu sou cachorro, para você vir me enfrentar com um pau?

Davi continuou andando.

— Você vem com espada, com lança e com escudo — disse ele. A voz do menino não era grande, mas não estava tremendo. — Eu venho com o que é meu. E eu não estou sozinho.

Golias baixou a viseira do capacete.

O soldado do escudo deu um passo para o lado.

E aí aconteceu tudo muito rápido.

Davi não parou para se preparar. Ele correu — correu na direção do gigante, que era a última coisa que qualquer pessoa naquele vale esperava — e, enquanto corria, enfiou a mão no saquinho de couro.

Tirou uma pedra.

Encaixou no pano da funda e começou a rodar acima da cabeça, aquele som que tinha ouvido a vida inteira nas encostas, um zumbido baixo e redondo. Uuum. Uuum. Uuum.

E soltou.

A pedra atravessou o ar e bateu bem no meio do capacete de bronze.

O barulho foi de sino. Bam. Bateu numa encosta, bateu na outra e voltou.

Golias parou.

Cambaleou para trás um passo, dois — e todo aquele bronze que ninguém conseguia levantar do chão veio junto, puxando, puxando, até que o gigante sentou no meio do vale com um estrondo que levantou poeira na altura da cintura.

Ficou ali sentado. Tonto. A lança rolou para um lado. O escudo caiu do outro.

Ele tentou levantar e não conseguiu, porque o peso da armadura não deixava e a cabeça dele ainda estava rodando com o toque do sino.

O vale inteiro ficou quieto.

Davi parou a alguns passos, com a funda mole na mão, olhando.

Menino pastor pequeno de pé no meio de um vale de pedra, olhando o guerreiro gigante de bronze sentado no chão com o escudo caído ao lado

Depois que o Vale Ficou Quieto

O primeiro barulho foi o do escudeiro largando o escudo e subindo a encosta.

Depois veio o dos outros. O exército do outro lado recuou pela ladeira inteira e sumiu atrás do morro, e ninguém correu atrás. Dois soldados voltaram devagar para buscar o gigante, um de cada lado, e o levaram embora amparado — ainda zonzo, ainda pesado, andando com o passo curto de quem levou um susto grande demais.

Do lado de Saul, o silêncio virou um grito só, e o grito virou uma bagunça enorme.

Vieram todos. Levantaram Davi do chão. Perguntaram o nome dele umas cinquenta vezes.

Eliabe chegou por último e não conseguiu falar nada. Só abraçou.

À noite, no acampamento, acenderam as fogueiras e ficaram contando a história uns para os outros, como se ninguém tivesse estado lá. E a cada vez que contavam, o gigante ficava um pouco maior e o menino um pouco menor.

Davi ouviu um tempo, sentado na beirada da roda, com um pão na mão.

Depois foi ficando com sono.

Levantou sem fazer barulho e caminhou até onde as tendas acabavam. Dali dava para ver a encosta escura, o vale lá embaixo já sem ninguém e o céu abrindo cheio de estrela.

Ele mexeu no saquinho de couro da cintura.

Ainda tinha quatro pedras lá dentro. Tirou uma de cada vez e foi guardando de novo, sem pressa nenhuma, contando baixinho — uma, duas, três, quatro — do mesmo jeito que contava as ovelhas quando o sol caía.

Amanhã ele ia voltar para as encostas. O rebanho estava esperando.

Deitou no chão, com o cajado ao lado e o saquinho debaixo da cabeça, e dormiu antes que a última fogueira acabasse de apagar.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Davi devolveu a armadura porque não conseguia andar com ela. Você já teve que usar alguma coisa que não era do seu jeito?
  2. Ninguém desceu ao vale por quarenta dias. Por que você acha que foi mais fácil para o Davi, que tinha acabado de chegar?
  3. Ele escolheu cinco pedras e usou só uma. Por que será que pegou cinco?

Sobre esta história

Recontagem infantil de um episódio do Primeiro Livro de Samuel, capítulo 17 — texto de domínio público com mais de dois mil anos. O enredo foi mantido inteiro: os quarenta dias de desafio no vale de Elá, a recusa da armadura do rei Saul, o riacho e as cinco pedras lisas. O que mudou foi o desfecho. Na narrativa antiga o gigante morre em cena e é decapitado; aqui a pedra acerta o capacete, o peso do bronze o derruba sentado no meio do vale e o exército recua sem que ninguém morra. O texto desta página é nosso, escrito para leitura em voz alta.

Perguntas frequentes sobre Davi e o Gigante

Qual é a moral da história de Davi e Golias?

Que tamanho e força não decidem tudo, e que a gente vai mais longe usando o que realmente sabe fazer do que imitando o jeito dos outros. A armadura do rei era melhor que a funda de Davi em qualquer comparação — só que ele não sabia andar com ela.

Esta história é violenta para crianças?

Nesta versão, não. O conflito continua inteiro — há dois exércitos, um desafio e um enfrentamento de verdade —, mas ninguém morre. A pedra acerta o capacete, o gigante cai sentado por causa do peso do próprio bronze e é levado embora pelos companheiros, tonto e assustado.

Por que Davi recusou a armadura do rei Saul?

Porque ela não servia nele. O capacete tapava os olhos, a couraça ia até o joelho e a espada era pesada demais para levantar. Davi tentou dar um passo, quase caiu, e entendeu que aquilo ia atrapalhar mais do que proteger.

Para que idade esta história é indicada?

Dos 5 aos 10 anos. Os menores acompanham pela repetição — o gigante que aparece de manhã e de tarde, as pedras sendo contadas uma a uma. Os maiores costumam se interessar pela conversa com o rei e pela cena da armadura.

Que tal a história de amanhã?