
O Corvo e a Jarra
A água estava lá, no fundo da jarra, e o bico não alcançava. Gritar não adiantou. Empurrar não adiantou. Mas uma pedrinha, sim.
Nem toda força serve. Às vezes o que resolve é a décima pedrinha
Fazia três dias que não chovia.
O riacho tinha secado. A poça do caminho tinha secado. Até o barro, que costuma guardar um pouco de água, estava duro e rachado.
E o corvo estava com sede.
Não era aquela sede comum de fim de tarde. Era uma sede que fazia a garganta arder e a asa pesar.
Ele voou por cima do campo procurando alguma coisa, qualquer coisa, e foi então que viu um brilho no quintal de uma casa velha.
Desceu.
Era uma jarra de barro, alta e estreita, esquecida perto da porta.
E dentro dela, no fundo, tinha água.

O Problema
O corvo pousou na borda e enfiou o bico.
Não alcançou.
Enfiou mais.
Não alcançou.
Enfiou a cabeça inteira, torceu o pescoço e esticou tudo o que tinha para esticar.
Faltava. Faltava pouco, mas faltava — e pouco, quando é para beber, é a mesma coisa que muito.
O corvo saiu de dentro da jarra, sacudiu as penas e pensou.
Primeiro ele tentou empurrar.
Encostou o corpo na jarra e empurrou com força para derrubar. A jarra era pesada e não se mexeu nem um dedo.
Empurrou de novo, com as duas patas fincadas no chão.
Nada.
Depois ele tentou bicar.
Bicou o barro na esperança de abrir um furinho. Só conseguiu deixar o bico dolorido.
Depois ele tentou gritar.
Gritou alto, do jeito que corvo grita, para ver se alguém aparecia e ajudava.
Ninguém apareceu. A casa estava vazia fazia tempo.
Depois ele tentou entrar.
Enfiou o corpo inteiro na boca da jarra, batendo as asas, e ficou entalado pela metade — as penas raspando no barro, sem conseguir descer nem voltar.
Levou um susto danado. Só saiu depois de muito se remexer, e saiu com o peito arranhado.
Aquilo assustou. Ele ficou um tempo parado no chão, respirando forte, olhando a jarra de longe.
O corvo sentou na borda, cansado, e olhou para a água lá no fundo — bem ali, tão perto, e impossível.
A Ideia
Foi quando ele reparou numa coisa.
No chão do quintal tinha pedrinhas. Um monte delas, do tamanho de uma azeitona, espalhadas perto do muro.
E o corvo lembrou de uma coisa que já tinha visto: quando um bicho entra no açude, a água sobe na beirada.
Entrou bicho, subiu água.
Ele olhou para as pedrinhas.
Olhou para a jarra.
E pensou: e se em vez de eu descer até a água, a água subir até mim?
Pegou a primeira pedrinha com o bico, voou até a borda e soltou lá dentro.
Plop.
Olhou.
A água não se mexeu. Ou se mexeu tão pouco que não deu para ver.

Uma de Cada Vez
O corvo pegou a segunda pedrinha.
Plop.
Nada.
A terceira.
Plop.
Nada.
A quarta, a quinta, a sexta.
Plop. Plop. Plop.
Continuava parecendo a mesma coisa.
Aqui é onde muito bicho teria desistido. Um passarinho pequeno que assistia de longe já tinha desistido fazia tempo e ido embora procurar sombra.
Mas o corvo continuou.
A décima pedrinha.
A décima quinta.
A vigésima.
E aí, na vigésima alguma coisa, ele olhou para dentro da jarra e viu.
A água tinha subido. Não muito. Mas tinha.
Dava para ver a marca de onde ela estava antes, mais embaixo, seca no barro.
O corvo continuou.
Trinta pedrinhas.
Quarenta.
Ele voava, pegava, soltava, voltava. Voava, pegava, soltava, voltava.
As asas doíam. O bico doía.
E a água subia, um dedinho de nada por vez.
Até que numa das voltas ele pousou na borda, enfiou o bico e sentiu o frio da água encostar.
Bebeu.
Bebeu devagar, sem pressa nenhuma, com os olhos fechados.
Depois subiu no galho mais alto da figueira do quintal, ajeitou as penas e ficou ali, olhando o sol se pôr, com aquela sensação boa de quem resolveu uma coisa difícil sozinho.
E lá embaixo ficou a jarra, cheia de pedrinhas até em cima — a prova de que ele tinha feito quarenta viagens para conseguir um gole.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Você já teve uma ideia que só funcionou depois de repetir muitas vezes?
- O que o corvo fez de diferente das outras aves que desistiram?
- Se não houvesse pedrinhas por perto, o que mais daria certo?
Sobre esta história
Fábula de Esopo, que viveu na Grécia por volta do século VI a.C. e cujas fábulas estão em domínio público. Esta é uma das poucas fábulas antigas que descrevem algo fisicamente correto: pedras jogadas na água realmente fazem o nível subir, e corvos de verdade já foram filmados resolvendo exatamente esse problema em experimentos científicos.
Perguntas frequentes sobre O Corvo e a Jarra
Qual é a moral de O Corvo e a Jarra?
Que insistir com jeito vale mais do que insistir com força. O corvo não conseguiu alcançar a água nem gritando nem empurrando a jarra, mas conseguiu mudando a situação aos poucos, uma pedrinha por vez.
Quanto tempo leva para ler esta história?
Cerca de 6 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do site, boa para as noites em que sobra pouco tempo.
Esta história é assustadora?
Não. O corvo passa sede no começo, mas nada de ruim acontece com ele, não há perigo nem vilão, e a história termina com ele saciado e descansando num galho.
Corvos fazem isso de verdade?
Fazem. Cientistas já testaram esse mesmo desafio com corvos de verdade em laboratório, e vários deles jogaram pedrinhas na água para fazer o nível subir. É uma das fábulas de Esopo que a ciência confirmou muito tempo depois.


